OS SANTOS DE DEZEMBRO (cont.)
« Dezembro, que entre nós principia por uma festa, acaba por outra, a noite das janeiras, já hoje sem janeireiros, que tanto alegraram as ruas da poetica Lisboa de outro tempo, mas ainda assim noite excepcional em que se curam as feridas, que o anno velho pode ter deixado, com a esperança agradavel de melhores dias e melhor anno.
Se não fomos felizes, fazemos figas ao anno que morre, como quem se vê livre de um inimigo que não acabou quando quizemos, mas quando elle quiz.
Se a felicidade nos sorriu durante o anno, rendilhamos na phantasia a esperança, ás vezes a illusão, de que o anno que chega ainda ha de ser melhor, porque não vem anno ao mundo que na hora de começar não seja bom.»Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 127.
domingo, 31 de dezembro de 2023
Anno bom!
domingo, 24 de dezembro de 2023
Depois vem essa encantadora vespera de Natal, a noite alegre das consoadas
OS SANTOS DE DEZEMBRO (cont.)
« Depois vem essa encantadora vespera de Natal, a noite alegre das consoadas, com repiques de sino e missa do gallo, e ceia lauta, e montanhas de sonhos sobre a mesa, porque n' essa noite bemdita todos os sonhos são doces…
Horas depois chega o grande dia do Christianismo, dia solemne, grave e festivo, em que os paes perdoam aos filhos todos os seus grandes erros, e até uma simples gaita-de-folles que passa na rua, recordando as alegrias pastoris do Presepio, sorri com graça aos ouvidos e á alma de quem a escuta, e parece musica de boa lei.
Dezembro, que entre nós principia por uma festa, acaba por outra, a noite das janeiras […] »Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 126.
sábado, 23 de dezembro de 2023
O Natal
O NATAL
« Só uma vez por anno, em Lisboa, me parece alegre e linda a voz dos sinos.
E´ na noite de Natal.
Alexandre Herculano achava que os sinos nas torres das cidades eram uma cousa estupida e mesquinha. Creio que disse a verdade. Nos grandes centros de população a voz do sino é um pregão como qualquer outro. Não commove e chega até a incommodar. Não se dá mais importancia a um repique do que a uma cantiga de cegos, nem mais attenção a um dobre do que ao estrondo das carretas de artilharia que passam na rua.
Mas, na noite de Natal, quando o sino annuncia festivamente a missa do gallo, toda a gente o ouve e a todos a sua voz alegra. Chega a comprehender-se então a doce poesia religiosa que Chateubriand descobriu nos sinos, e todo o profundo drama humano que se observa na famosa canção de Schiller: Das lied von der glocke.
Que revolto enxame de recordações, suaves e pungentes, de fugitivas saudades de uma «patria perdida» não parecem descer n' essa noite do alto dos campanarios e cair sobre a nossa alma envolvendo-a e banhando-a!
O sino, que no resto do anno não nos diz nada que nos impressione, e que só nos repete o que já os jornaes disseram, tem n' essa noite uma singular eloquencia e uma estranha expressão, conta-nos a historia da nossa vida passada, a biographia de Jesus e a nossa propria biographia, fala-nos da nossa aldeia, da nossa familia, reconstitue-nos o tempo longinquo que fugiu e não mais voltará.
Ah! n' essa noite a voz dos sinos é alegre e linda como em nenhuma outra noite do anno.
Eu quero decencia e respeito nos templos; por isso desejo que sejam bem policiados.
Até já o tinha dito n' este mesmo livro.
Mas se a missa do gallo fôr supprimida em Lisboa, ficará desfalcada a poesia do christianismo; — o que restará do Natal, se tirarem o pretexto que os sinos téem para repicar à meia noite? O que ficará do Natal! apenas a comezaina e as boas-festas. E´ tão pouco! sobre tudo quando as boas-festas tendem a desaparecer a troco de cinco tostões por cabeça! O que ficará do Natal! talvez apenas o perú. E´ tão pouco!
Nas provincias, onde o sino, segundo a expressão de Herculano, é uma coisa poetica e santa, não faria grande falta o deixar de ouvil-o na noite de Natal, porque tudo canta e repica n' essa noite, cantam os corações e as vozes de toda a gente, repicam os ferrinhos, as flautas e tambores.
Não são só os rapazes da rua que andam por portas dando boas-festas em cantigas e lôas; mas tambem as familias gradas, que umas ás outras se cumprimentam com instrumentaes bem ensaiados, e que principiam cantando na escada e acabam dançando na sala.
Quem não sabe como isso se passa? Uma criada vir dizer dias antes de motu proprio ou por ordem dos patrões:
— Os senhores sejam prevenidos, porque certas pessoas da sua amizade tencionam vir cantar-lhe as janeiras.
— Sim? Quem são?
— Eu digo tudo, mas não me compromettam:
— Ora essa!
— São as meninas lá de casa, são as filhas do juiz, é a mulher do delegado, a sobrinha do recebedor, os pequenos do escrivão da fazenda. E´ muita gente. Mas os senhores façam-se desentendidos para me não comprometterem…
— Esteja certa; descanse.
Trata-se logo de preparar ceia opipara — para isso foi talvez que veio o aviso — de tirar do guarda-loiça os crystaes e as pratas, e de limpar o pó ás cadeira da sala de visitas.
Está tudo a postos, mas ha o cuidado de ter as janellas fechadas para fingir que se não espera ninguem.
Na noite marcada, rompe, de repente, á porta da rua a cantata promettida; vozes afinadas, de senhoras e homens, entoam primeiro as janeiras e depois as cantigas allusivas aos donos da casa:Viva a D. Mariquinhas,
Raminho de perfeição.
Se ha de pôr os pés na rua,
Ponha-os no meu coração.Viva o sr. Agapito
E os seus meninos tambem.
Recebam as boas-festas
De quem lhes quer muito bem.A este tempo já estão na escada, com luzes na mão, todas as pessoas da casa. Acabada a cantoria, os janeireiros entram e sobem.
Começa-se logo a dançar e, pela meia-noite, dão todos fundo na mesa da ceia, que resplandece de lumes, iguarias e loiças finas.
Em Lisboa tambem houve em outro tempo o costume de cantar as janeiras. Nos autos de Gil Vicente, Chiado e Antonio Prestes encontram-se frequentes allusões aos janeireiros. Se não estou em erro — porque escrevo de memoria — este costume foi abolido no tempo de D. João I:
Lá está o bom Fernam Lopes para tira-teimas.
A provincia, especialmente o norte do paiz, conserva intacto o thesouro das suas tradições do Natal. O perú do sul não destronou ainda o bacalhau do norte, que é portuguez e gallego, como revella uma das trovas do anno novo na Gallisa.Déanol'o aguinaldo,
anque sea pouco,
un bon bacalao
e mais meta d' outro.O silencio das ruas de Lisboa no Natal — silencio que seria completo sem os repiques da meia-noite — não invadiu ainda as ruas das cidades do norte do paiz.
Tenho á mão o Jornal de Noticias, do Porto, com a seguinte informação de 1896:
« Pela cidade andaram hontem durante o dia diversos fungagás celebrando a despedida do anno, ás portas dos abonados da fortuna, e á noite innumeras tocatas populares fizeram por ahi farta colheita de donativos em generos e em dinheiro — o imposto das janeiras.
[…]
Outra resistente tradição de Natal da provincia é o Presepe armado em cada casa. Este costume não só é hoje ainda conservado no continente, mas tambem no Funchal. O Commercio da Madeira, de 25 de Dezembro de 1896, publica, sobre o assumpto, as seguntes linhas, que não resisto a transcrever:
« Os presepes ou lapinhas como se diz entre nós mais vulgarmente, tendo constituido esta semana a preoccupação das almas abertas a todas as expansões das doces alegrias domesticas, obrigaram todo o Funchal a vir hoje para a rua comprar as suas a ornamentações.
« E o caso é que se comprou um mundo de cousas para enfeitar o presepe do menino Jesus.
« Que animação e que alegria tanto em quem vendia com usura como em quem pagava sem olhar a preços!
« Olhar a preços! era o que faltava agora! O que se quer é possuir um presepe fresco e lindo como os amores para mostrar aos visinhos. — Que em tudo ha de a vaidade metter o nariz.»
Lisboa adoptou, nos ultimos annos, a arvore do Natal, que não é portugueza, nem tem a poesia religiosa do Presepe.
Jesus deitado nas palhinhas, com S. José e Nossa Senhora de joelhos a velal-o, os pastores simplices, que lhe trazem as suas offerendas rusticas, a cavalgada dos trez Reis Magos que véem apresentar-lhe o ouro, o incenso e a myrrha symbolicos, constituem por si sós um espectaculo educativo, uma lição e um exemplo.
A arvore do Natal, ao contrario, não ensina senão uma coisa que não é preciso ensinar ás creanças: o amor pelos bonecos.
Não ha que ver! O Natal de Lisboa seria incolor e incaracteristico, um brodio de perú assado e uma troca de bilhetes de visita, se os sinos, á meia noite, se não encarregassem de cantar festivamente no alto dos campanarios lançando sobre a cidade repiques estridulos, ondas sonoras que vão rolando ao longo das ruas e penetrando no interior das casas.
Por isso eu, em todo o anno, não acho nunca tão alegre e linda a voz dos sinos como na noite de Natal. »Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 128-134.
Panorama: Revista Portuguesa de Arte e Turismo, Ano 3, N.º 18 (número de Natal e Ano Novo), 1943. Capa: Tríptico de Paulo Ferreira.
Illustração Portugueza, 2.ª Série, N.º 96, 23 de Dezembro de 1907. Capa: Adoração dos Pastores, Guilherme Bouguereau, 1881-1884.
In Hemerotheca Municipal de Lisboa.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
Cartão de Natal
Adoração dos Reis Magos Rubens, 1626-29 — Óleo s/ tela, 286 x 219 cm
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Ao benévolo leitor
FELIZ NATAL
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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023
Cinco mil setecentos e vinte e três! — Cem contos!
« Os lisboetas dilatavam as narinas farejando avidos para dentro da porta da Santa Casa. Cheirava-lhes a cem contos de réis distribuidos em cautelas de trez vintens, que são as escudelas do tempo de agora…»
Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. I, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901, p. 74.
A multidão, no Largo de S. Roque, espera o número da taluda do Natal, Lisboa, 1938.
A. n/ id., A.N.T.T., Empresa Pública Jornal «O Século», Álbuns Gerais, n.º 61, 4700M.
De repente, como estala um trovão sêcco, de Maio, parte da Santa Casa a abalada dos cauteleiros, que descem de escantilhão pelas escadas do Duque, empurrando, atropellando, derrubando.
Vão levar aos cambistas a noticia do numero feliz. Querem ganhar alviçaras da boa nova, e por isso correm á porfia a ver qual ha de chegar primeiro.
Ouvem-se varias vozes dizer: 5:723! 5:723! Foi esse o numero, o do premio grande, cem contos, nada menos — um seculo de oiro! E´ a riqueza que passa, que foge, que vôa, como tudo passa n' este mundo…
Id., ib., p. 76.
Aspecto da corrida dos alvissareiros da lotaria do Natal, Lisboa, 1927.
A. n/id., A.N.T.T., Empresa Pública Jornal «O Século», Álbuns Gerais, n.º 7, 1808B.
No Rossio, aguardando os alvissareiros
sábado, 16 de dezembro de 2023
A Rua da Palma ensolarada noutra imagem de arquivo
sexta-feira, 15 de dezembro de 2023
A Rua da Palma ensolarada numa imagem de arquivo

A imagem é de guarda do archivo da Câmara de Lisboa. Guardei-a eu de lá faz tempo, para ilustrar qualquer coisa que me viesse a ocorrer dizer. Calha-me agora dizer algo que me ocorreu logo a seguir ao domingo após o último S. Martinho, há ele pouco mais de um mês. Dei-me conta naquele domingo de que o archivo photographico em linha não dava nada. Não funcionava. Estava fora de serviço. — Manuntenção? Às vezes sucede. — No dia seguinte já funcionava, mas dava, como dá desde então, as imagens com uma aborrecida marca-de-água, por sinal bastante carregada.
Em tempos teve já o archivo photographico uma marca-de-água nas imagens que facultava em linha ao público. Ao depois acabou com isso e pareceu-me ele muito bem; dei conta até disso em algo que publiquei em 5 de Abril de 14. E pareceu-me aquilo muitíssimo bem e justo até, porque a bibliotheca d' Arte da Gulbenkian faculta a todos as suas imagens de archivo com muito melhor qualidade do que o archivo da C.M.L., sem qualquer marca-de-água. Acresce que a Gulbenkian não é nenhum archivo público pago com dinheiro de impostos…
Duas coisas há que reparei antes desta reintrodução de marcas-de-água nas fotografias do seu acervo em linha pelo archivo photographico da C.M.L.
Uma foi que na Lisboa de Antigamente (a remissão está aí ao lado) o seu A. passara a indicar as fotografias que vinha publicando como sendo originais do seu próprio acervo: menciona-lhes o autor (vá lá!), seguido de in Lisboa de Antigamente; a fonte, dá assim a entender que é ele mesmo, nem mais! — Não sei se compra ele as fotografias ao archivo photographico. Duvido de tal, porém, a julgar até do plágio descarado que fez daqui uma ou mais vezes, casos em que bastaria dignar-se mencionar as fontes primária ou secundária sem nada mais a ser-lhe cobrado. Do que não duvido é que as imagens que aparecem como in Lisboa de Antigamente sejam muitas delas do archivo photographico da C.M.L.
A outra coisa que reparei, foi que esse blogo da Lisboa de Antigamente foi destaque no Delito de Opinião um dia antes da reintrodução da marca-de-água pelo archivo photographico. Há só de ter sido coincidência. O caso é que o Delito de Opinião tem muita projecção; há muitíssima gente que o lê…
Coincidência ou não, estivesse eu encarregado do archivo photographico, talvez ficasse desagradado se reparasse que as fotografias à sua guarda andavam para ali publicadas omitindo o archivo que as preserva, somando-se-lhe que tal omissão dava ainda por cima lugar a uma abusada menção do usufrutuário a si mesmo como fonte das fotografias, como se dá o caso na Lisboa de Antigamente.
Talvez me o desagrado crescesse em certa raiva vendo que o abusador se saía ele até com crítica áspera por alguma imagem ser de baixa qualidade/resolução, graças ao paupérrimo trabalho de digitalização efectuado pelo Arquivo Municipal de Lisboa (A.M.L.) hoje completamente ao abandono. Crítica espúria porquanto em passo anterior da legenda sempre, sempre o A. da Lisboa de Antigamente toma para si mesmo a posse da imagem. Pois se a imagem é sua, como se aceita vir o fulano queixar-se do paupérrimo trabalho do Arquivo Municipal de Lisboa?!… Ou de trabalho nenhum, pois que proclama na mesma frase o dito arquivo completamente ao abandono!
É tudo isto duma esperteza!…
Não sou do archivo photographico nem nada tenho com ele, salvo como munícipe com os impostos em dia. Daí a minha primeira crítica lá em cima, por comparação à Gulbenkian.
No fim, a ironia tem coisas: o esperto que se sobrepõe ao archivo photographico da C.M.L. como depositário de tantas imagens que publica na Lisboa de Antigamente tem à margem, com destaque, o rol dos copiões-mores que lhas levam à revelia para o livro das fuças.
A fotografia da Rua da Palma em dia ensolarado pelos anos 50 é de Judah Benoliel e acha-se no archivo photographico da C.M.L.; calha a propósito porque é na Rua da Palma que fica o dito archivo, bem que não naquele troço.
O recorte da Lisboa de Antigamente é da «Avenida da República 71-73», com textículo publicado em 10/XI/23, sexta-feira anterior ao reaparecimento da marca-de-água nas imagens do archivo photografico da C.M.L., que foi na segunda-feira a seguir.
quinta-feira, 14 de dezembro de 2023
Santa Luzia
OS SANTOS DE DEZEMBRO (cont.)
« Fui procurar ao Primeiro de Janeiro alguma noticia que fallasse da festa de Santa Luzia, e encontrei esta, que é pequenina, mas expressiva da devoção, que longe de de ter esmorecido, recresce:
« Santa Luzia — Estiveram muito concorridas as festas de Santa Luzia que se realizaram hontem nos diversos templos. Na Sé houve missa e sermão e as esmolas foram : 188$660 [*], uma libra, 173 olhos de prata, 3 de ouro, 1 ave e 10 kilos de cêra. »
E nas entrelinhas d' esta noticia li eu todo um poema de recordações de infancia a engrinaldar a memoria de minha mãe, tão devota de Santa Luzia.
Não ha peior idade para um homem do que aquella em que a gente principia a ler mais em si mesmo do que nos outros….
Toda a alma é um livro, que se vae enchendo de letras á medida que os annos passam.
Mas não são só os habitantes d' esta ou d' aquella cidade, senão os de todo o reino, que téem motivo para se confessar reconhecidos a Santa Luzia.
Na Chronica de El Rei D. Sebastião, attribuida a D. Manuel de Menezes, falla-se, a proposito de uma das muitas refrégas travadas em Mazagão contra os mouros, da protecção com que Santa Luzia acudiu aos portuguezes milagrosamente:
« Assistindo pois o general n' esta Fortaleza, que era sua por mercê d' El-Rei, e fazendo guerra aos mouros de Azamor, e da terra da Duquella, succedeu, que um dia da Bemaventurada Santa Luzia pela manhã, fez muito grande nevoa, por cujo respeito a gente da Fortaleza não sahiu ao campo, e ao meio dia aclarando o tempo, mandou o Adail a um cavalleiro chamado Francisco Affonso das Neves, fosse abrir um posto a que chamam Pedralvinho; e indo o cavalleiro descobrindo, lhe sahiram de uma cilada duzentos mouros de cavallo, que estavam com o arraial a favorecer o seu cavalleiro, d' onde se travou uma grande escaramuça…»
Postos em grande perigo, os portuguezes venceram e attribuiram a sua victoria á intercessão de Santa Luzia, a quem deram graças e mercês.
Quando chega o dia 13 de dezembro não tardam nada as novenas do Menino Deus, cantadas a orgão, nas egrejas e capellas de todo o paiz, posto o Menino sobre uma almofada no altar, até que venha o dia de Reis em que aparecerá de pé, maior e mais poderoso, apesar de infante, que todos os reis do orbe terráqueo.
Depois vem essa encantadora vespera de Natal, a noite alegre das consoadas […] »Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 124-126.
[*] Por extenso: cento e oitenta e oito mil, seiscentos e sessenta e seis réis. Uma duzia de anos passada, com a introdução do escudo pela I.ª República, a cifra escrever-se-ia 188$66 (cento e oitenta e oito escudos e sessenta e seis centavos); a ultima casa, que era a do real, havia de fazer muita comichão às cacholas dos republicanos de 1910; daí que a suprimissem. O bom povo não fez caso e continuou como até aí contando o dinheiro da mesma maneira, se bem que com o tempo e com a depreciação monetária passasse a não distinguir bem o mil dos réis e dele a corruptela dos mél reis ou até marreis, que não soava bonito mas, era o hábito. Pelos anos 30 e 40, entrados mais de vinte do escudo oficial, o povo contava o dinheiro em tostões (1 tostão = 100 réis ou 10 centavos da República; antes dela houve muitas moedas de conto — vinténs, cruzados, pintos — nenhuma, que eu saiba, se chamou centavo). Por mais umas décadas ainda, tivesse muita gente de enunciar a cifra lá em cima pela casa do escudo e abreviaria os escudos pelo velho hábito dos mil, a saber, cento e oitenta e oito mil e seiscentos ou setecentos conforme arredondasse os $66 para $60 ou $70 (seis ou sete tostões, respectivamente), vindo por fim a omitr os réis. O real levou bem assim bem duas ou três gerações a esquecer. Parece muito, parece pouco? Vinha ele entroncado dos longínquos ceitis desde os tempos dos reis D. Duarte e D. Afonso V…
terça-feira, 12 de dezembro de 2023
Cinco dias depois chega a festa de Santa Luzia
OS SANTOS DE DEZEMBRO (cont.)
« Cinco dias depois chega a festa de Santa Luzia, que tem muitos devotos em todas as classes sociaes.
Este dia já foi uma vez triste em Portugal, pela morte de el-rei D. Manuel, que falleceu a 13 de dezembro de 1521.
Lá diz Gil Vicente n' um «romance»:Pranto fazem em Lisboa,
Dia de Santa Luzia,
Por El-rei D. Manoel,
Que se finou n' esse dia.Ainda hoje o sino de S. Roque dobra choroso para commemorar a morte de D. Manuel, annunciando exequias solemnes por alma do venturoso monarcha em cujo reinado a rainha D. Leonor, viuva de D. João II, instituiu a Misericordia.
Fóra das circumvisinhanças de S. Roque, longe do alcance do sino, ninguem se lembra da morte de D. Manoel, e todos ou muitos se lembram sempre de Santa Luzia, que é advogada milagrosa contra as molestias dos olhos.
Conta-se de um preto que só ia á egreja em dia de S. Braz, importando-se pouco com todos os outros santos ou santas da côrte celeste.
E a logica do preto era esta:
Santo Ovidio protege os enfermos dos ouvidos, mas se um ouvido se tapar, ainda fica o outro; Santa Luzia protege os doentes dos olhos, mas se um olho cega, fica o outro ainda; Santa Apolonia livra de dôres de dentes, mas se um dente se cariar, ainda ficam muitos; S. Braz livra de molestias de garganta, mas se a garganta se tapar, não ha mais por onde engulir os bons bocados e a boa cachaça.
Os brancos seguem outra lógica menos preta, e téem razão, sobretudo os devotos de Santa Luiza [sic], porque a cegueira é uma horrivel enfermidade que entenebrece a alma de quem a soffre.
Lembro-me muito bem da festa de Santa Luzia n'aquella religiosa cidade onde fui educado.
Minha mãe levava-me sempre á Sé no dia 13 de dezembro, porque ahi era venerada a imagem de Santa Luzia que inspirava a maior devoção aos bons portuenses.
Pelo caminho encontravamos muitas creanças, pois rara é aquella que não tem soffrido de ophtalmia.
Tambem encontravamos velhinhos, quasi cegos, arrimados ao braço de um neto ou de um filho, caminhando para a Sé a passos tardos, na esperança de que Santa Luzia se dignasse conservar-lhes o ultimo raio de luz que lhes alegrava ainda os olhos tristes…
E com que fé, com que uncção religiosa rezavam, em joelhos, os pobres céguinhos, de mãos postas, cabeça erguida, cara no ar, como procurando na abobada do templo a esperança divina que desce do alto a acudir ás miserias terrenas!
Uma legião de mendigos rodeava o edificio da Sé clamando aos transeuntes:
— Santa Luzia milagrosa, lhe dê vistinha e claridade.
Eu, n' esse tempo, não gostava muito d' este clamor dos mendigos, porque me fazia lembrar uma phrase ironica do meu professor de instrucção primaria.
O bom do velho chamava á férula ou palmatoria — Santa Luzia milagrosa. E todos os outros professores, em todas as outras escolas lhe chamavam assim.
Era a linguagem do tempo, e não sei se ainda é hoje.
A férula tem realmente cinco olhos e não admira que quem tanto vê possa dar vista e claridade aos cerebros escuros…
Por causa de uma syllabada ou de um erro de syntaxe, a Santa Luzia milagrosa descia da parede onde estava pendurada, e cahia em cheio sobre a palma da mão direita de cada alumno, quando não era tambem sobre a esquerda, e alternadamente sobre a esquerda e a direita.
Os mais agradecidos devotos de Santa Luzia — a authentica Santa Luzia dos templos, muito mais compassiva que a das escolas — levavam-lhe offerendas de olhos de prata e de ouro, que depunham sobre o altar por memoria de algum milagre obtido, de alguma cura realizada.
Vejo que a devoção dos portuenses por Santa Luzia não tem soffrido quebra, e ainda bem, porque um povo sem fé é um povo morto, e, na minha opinião, peior que morto — despresivel.
Fui procurar ao Primeiro de Janeiro alguma noticia que fallasse da festa de Santa Luzia, e encontrei […] »Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 121-124.
domingo, 10 de dezembro de 2023
A Estrela iluminada
Uma fotografia trivial de Lisboa sem muito que se lhe diga. Iluminações de Natal na Calçada da Estrela, no cruzamento da Rua de São Bernardo. Data incerta. Conjecturo-a pelo Natal de 71…
Não tem muito que lhe diga… Dois vultos fardados à esquina: um magala e um cauteleiro, talvez. Gaioleiros, alguns com fachadas de azulejo. Gaioleiros de traça, novecentistas; pisos de acrescento; platibanda de estilo; sacadas com ferro forjado; cantaria a emoldurar portas e janelas e cunhais. Montras, vitrinas: comércio com letreiros de época: Decorativa Lar — Loiças e vidros; Sapataria Costa (havia dantes aquele cheiro nas sapatarias); Sapataria Estrela — uma senhora a ver a montra; Farmácia Gama, com uma guarda de ferro na beira do passeio de ante; Palácio Estrela, cabeleireiro; Aníbal Barrento, cabeleireiro de senhoras; Ilford Filmes…
O vulto do eléctrico da Estrela, no largo da dita; trilhos, calçada de basalto. O eléctrico ainda é do tempo em que se usavam as caixas com o número da carreira sob o vidro da frente. Quando foi que isso acabou? Foi antes de 71, tenho impressão…
Cartazes publicitários (atenção, pois, que não são políticos!) chapados na parede; um do seu tempo — do meu tempo — onde consigo ler: «Invejável Saúde. Farinha Láctea Nestlé».
Invejável saúde, lá seria… O que é, é que nos ainda não damos conta. Damos?…
Fotografia: Iluminações de Natal, Lisboa, [s.d.]. Estúdio de Horácio Novais, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.
sábado, 9 de dezembro de 2023
Da polé…
Dittos Portuguezes Dignos de memoria. Nam tem este Livro nome de Author, mas, pello q[ue] delle se colhe existia no tempo de El Rey Dom João o 3.º, e de El Rey Dom Sebastião seu netto, [1601-1650]. B.N.L., Man. Res., Cod-666, p. 254.
Nos «Ditos Portugueses Dignos de Memória», em que transcrevi umas trovas de Camões improvisadas a um certo Lourenço Vaz Pegado, remete-nos nas notas o prof. Hermano Saraiva para a «Vida Ignorada de Camões», para entender o sentido do improviso e o possível trocadilho que o dito contém.
Releio o passo na «Vida Ignorada de Camões» (2.ª ed., Europa-América, Mem Martins, 1979, p. 276). Traslado-o outra vez aqui, agora com a ortografia com que ali vem que, presumo seja a autêntica do manuscrito do séc. XVII:
« Conuidando hum fidalgo chamado Eitor da Sylu.ra hum dia a jantar certos amigos e, entre elles a Luiz de Camoens, depois q comeram, lançarão se quatro delles sobre dous catres que som.te havia na caza. E hum dos conuidados, a quem chamavão Lourenço Vas pegado, sentouse no canto de hũa janella; e Eitor da Sylu.ra, tomando a taboa da meza e atravessando a sobre duas cadeiras de espaldas, e lançando lhe hum pano de graam por cima, rogou lhe q se encostasse ali. E elle recuzando o fezlhe Luiz de Camoens de repente esta troua:
Para homem tam honrado
fazem uos mui pouca festa,
mas se eres auizado,
nunca em taboa como esta
tu Lourenço Vaz pegado.»
O prof. H. Saraiva comenta-a em seguida simplesmente assim:
« Que lhe recordaria [a Camões] a tábua atravessada sobre as cadeiras de espaldar?» (op. cit., p. 277).
É um corolário. Entende-se lendo atrás:
« A tortura normalmente usada na instrução judiciária era o trato da polé. O preso era estendido numa tábua e amarrado a cordas que eram esticadas por uma polé; a cada movimento desta chamava-se trato e o tormento podia ser de trato, trato e meio e dois tratos […]
Em geral a polé não matava, sobretudo se o preso era jovem. Mas deixava vestígios para a vida inteira. Os ossos desengonçavam-se, os ligamentos musculares rompiam-se e, com os anos surgiam artroses, deformidades ósseas, insensibilidade de tecidos. Eram os movimentos dos membros inferiores que ficavam mais afectados, porque eram eles os que a tracção da polé mais desconjuntava. A marcha tornava-se penosa e, com a meia-idade, podia ter de ser auxiliada com muletas.
Ora há mais de um passo da lírica que indica que Camões foi sujeito ao tormento.[…] antes que a dor prive
de todo meus sentidos
ao grande tormento
acode o entendimento.[…]
Faria e Sousa faz-se eco do que se dizia nos últimos anos da vida do Poeta: movia-se com dificuldade e precisava de se ajudar com uma muleta. Essa diminuição pode explicar muitos dos factos que têm causado estranheza aos biógrafos. Porque não aparece o nome de Camões referido nas Décadas de Couto a propósito de nenhum feito militar, ou mesmo de qualquer serviço? A inclusão do nome na crónica era apetecida, dava jus a recompensa, e não há dúvida de que Couto foi amigo de Camões; se o não menciona, foi porque não encontrou o nome do amigo ligado a qualquer episódio que valesse ser narrado. Porque não embarcou Camões, em 1578, para a expedição de Alcácer Quibir, que mobilizou toda a gente que rodeava o rei e que seria o ensejo de serviços poéticos que D. Sebastião havia de recompensar lautamente? A ideia de que foi outro o poeta escolhido (Andrade Caminha ou Diogo Bernardes) não tem qualquer fundamento. Embarcou quem quis e quem pôde e faria versos quem fosse capaz de os fazer. Porque não foi tomar posse da feitoria de Chaul, o único lugar bem pago para que foi nomeado e cujo exercício definitivamente o libertaria da tristeza avorrecida? Como teve tempo, na revolta e agitada Goa em que viveu, para escrever Os Lusíadas, obra de investigação muito minuciosa nos campos da história, geografia, mitologia, astronomia, e de uma redacção apuradíssima, que revela um texto muitas vezes recopiado e aperfeiçoado? São muitos anos de trabalho sedentário, em local que estaria rodeado de crónicas, de mapas, da esfera, de dicionários, dos autores.
Podia manejar melhor a pena que a espada e era aquele o serviço que a relativa invalidez não impedia.» (pp. 273-275, passim.)
Por conseguinte: a tábua atravessada sobre as cadeiras sugeria a polé, lembrança lúgubre de tormentos sofridos por Camões e que, parece, lhe tolhiam a locomoção (mas não o espírito) numa fase tardia da vida. Com isto e com o nome do amigo, o trocadilho: nunca em tábua como esta tu, Lourenço, Vaz (vás) pegado.
(Revisto às 6 da tarde.)
sexta-feira, 8 de dezembro de 2023
Vem logo depois a festa da Conceição
OS SANTOS DE DEZEMBRO (cont.)
« Vem logo depois a festa da Conceição que, na hypothese da chuva prejudicar a concorrencia ás egrejas, é ainda, e sempre, uma bella festa de familia.
Arma-se o altarsinho de Nossa Senhora, põe-se-lhe luzes sobre a banqueta improvisada com toalha de renda, accendem-se velas de cêra, todas quantas flôres a estação póde permittir, atavia-se com fitas e jóias este templosinho modesto em que Nossa Senhora se não sentirá peior do que na maior bazilica do mundo.
O jantar é de gala, em edição correcta e augmentada, com alguma guloseima festiva, o creme, o prato de arroz doce, tão portuguez e tão doce, a aletria, a tapioca, conforme o estilo de cada casa e a tradição de cada familia.
A´ noite, ou vem a carruagem, para ir ao theatro — ou ha serão intimo, em que os primos dansam o pas-de-quatre com as primas, e os tios jogam whist com as tias.
Cinco dias depois chega a festa de Santa Luzia […]»Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. p. 121.
terça-feira, 5 de dezembro de 2023
Protesto climático
Notícia em Babylon Bee, ainda a tempo:
Jactos particulares de activistas climáticos congelam-se na pista em poderoso protesto
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MUNIQUE, 2 — Num bonito acto de protesto, os jactos particulares de numerosos activistas do clima colaram-se à pista de aterragem com grandes camadas de gelo. Seguindo o método de protesto favorito dos activistas climáticos, os aviões aparentemente aderiram ao gelo da pista congelando-se assim nela para evitar que os activistas viajassem para a conferência do clima no Dubai. «Estes aviões fisgaram realmente a quinta-essência dos protestos contra as alteraçõies climáticas; grudaram-se a um objecto firme e ao mesmo tempo impediram o transporte», disse um habitante local, o sr. Hans Meyer. «Os seus donos activistas climáticos ensinaram-nos bem — talvez bem demais.» Segundo a fonte, centenas de activistas climáticos extraordinàriamente ricos tinham agendado reunir-se no Dubai para discutir o que os pobrezinhos andam a fazer ao clima. |
Quatrocentos jactos particulares eram esperados no Aeroporto Internacional do Dubai onde colunas de veículos S.U.V. transportariam individualmente cada activista para os mais requintados hotéis do planeta. Inquiridos da razão por que se não reuniram virtualmente via Zoom, os activistas declaradamente responderam: «Você deve ser um dos pobrezinhos, não é?» À hora do fecho da noticia, os activistas climáticos juraram de futuro manter sempre ligado o aquecimento dos seus aviões para evitar protestos como este.
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domingo, 3 de dezembro de 2023
Duns «Contos» de Machado de Assis

Machado de Assis, Contos, Porto Alegre, L. & P.M.,1998.
Mastiguei a ortografia da edição brasileira a contragosto, mas li os contos, apesar dessa aversão.
Li e gostei. Não estranhei o português de Machado de Assis. É português escorreito, e por tanto, não causa estranheza a nenhum «reinol» como eu; nada de ênclises ou endorreia; só raros lhe achei salpicos de trejeitos tropicais, como p. ex. o v. «cansar» sem conjugação reflexa, no conto da «Missa do Galo». Mais um caso ou outro do género e parece-me que é tudo.
Como se dão os brasileiros hoje em dia com tal escrita, nem imagino. Talvez achem arcaizante. Talvez não leiam e se envaideçam só dum escritor seu de nomeada… Acho bem!…
Os contos são bons, prendem fàcilmente o leitor: os primeiros, mais consistentes; uns outros, um tanto menos, mas ainda assim…
A edição de bolso da L. & P.M. (Porto Alegre, 1998) traz cada conto seguido duma notinha explicativa por uma autoridade «do universitário». O genuíno português do A. contrasta com os textículos explicativos de «cheiro» claramente brasileiro exalado pelas tais autoridades, a quem o idioma sai eivado das marcas do actual vergão que o português leva pelas bandas de Santa Cruz. Cheira-se aqui bem o «português» tropical… Não é já bem o português do A. nem o dos portugueses, que são um só e o mesmo; é já outra coisa a que se teima não dar nome e que até na onomástica se percebe, pois que as personagens de Machado de Assis têm nomes característicos da língua em que escreveu, como Conceição, Rita, Nogueira, Vilela, Damião, João Carneiro, Camilo, Pestana &c.; e as autoridades modernas «do universitário» que o comentam chamam-se Roger, Everson, Enilda…
Bonito óleo na capa, de A. Q. de Monvoisin, com uma vista da Igreja da Glória e da Baía de Guanabara tomada de St.ª Teresa em 1850.
sábado, 2 de dezembro de 2023
o 1.º de Dezembro por 1900
OS SANTOS DE DEZEMBRO
« Dezembro não precisava tanto sol, como este anno, para ser mez alegre.
Imaginem os srs. que chovia a potes, que não podia haver étalage no Campo Grande e na Avenida, que não se podia passear sob um ceu azul e ouro, como este que estamos vendo.
Ainda assim, ficava de pé o calendario com as suas festa de dezembro, sobretudo as religiosas, que são as mais notaveis do anno.
Porque n'este mez dá-se a circumstancia agradavel de não ser preciso esperar alguns dias para ver chegar a primeira festa.
Vem logo ao dia 1, como o prologo costuma vir no principio dos livros.
Refiro-me á commemoração patriotica da restauração de Portugal, dia alegre, em que pode chover muito, sem que por isso se deixe de ouvir, ao longe ou ao perto, foguetes e musicatas.
Se chove, o patriotismo fica em casa, mas vem á janella dar vivas aos restauradores mortos.
Se não chove, o patriotismo sai para a rua, e agora o verás! é cada viva que parece um foguete, e cada foguete que parece um viva.
Estoira tudo.
Vem logo depois a festa da Conceição […] »Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 120-121.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2023
De enquanto houve Portugal
Andando neste reino um frade fidalgo castelhano, disse a um fidalgo português que se não podia negar a nobreza que tinha este reino; mas que lhe parecia que recebera alguma perda ou dano grande, pelo qual a gente trazia sempre dó. E o português respondeu-lhe:
— Vossa Reverência diz verdade, que foi tão grande o nojo que os Portugueses tomaram quando el-rei D. João, de gloriosa memória, venceu el-rei de Castela porque não seguiu a vitória até lhe tomar todo o reino, que, enquanto houver Portugal, sempre trarão dó os Portugueses naturais dele!José Hermano Saraiva (anot. e com.), Ditos Portugueses Dignos de Memória; História íntima do século XVI, 3.ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997, [1266].
A gente trazia sempre dó: parecia que as pessoas andavam sempre de luto. São possíveis dois sentidos para esta expressão: o feitio triste dos Portugueses, que contrasta com a exuberância castelhana, e a pobreza das roupas, porque o luto podia consistir no uso de roupas velhas. Nojo: desgosto. Não seguiu a vitória: não continuou a guerra vitoriosa, depois da batalha de Aljubarrota. Naturais dele: nascidos nele. [N do E.]
(Azulejo da «Redempsão de Portugal», Palácio dos Condes de Almada ( da Independência), in S.H.I.P.)










![Dittos Portuguezes Dignos de memoria. Nam tem este Livro nome de Author, mas, pello q[ue] delle se colhe existia no tempo de El Rey Dom João o 3.º, e de El Rey Dom Sebastião seu netto [Manuscrito], [1601-1650]. B.N.L., Man. Res., Cod-666, p. 251.](https://live.staticflickr.com/65535/53386374133_8d7998d0fc_h.jpg)

