OS SANTOS DE DEZEMBRO (cont.)
« Fui procurar ao Primeiro de Janeiro alguma noticia que fallasse da festa de Santa Luzia, e encontrei esta, que é pequenina, mas expressiva da devoção, que longe de de ter esmorecido, recresce:
« Santa Luzia — Estiveram muito concorridas as festas de Santa Luzia que se realizaram hontem nos diversos templos. Na Sé houve missa e sermão e as esmolas foram : 188$660 [*], uma libra, 173 olhos de prata, 3 de ouro, 1 ave e 10 kilos de cêra. »
E nas entrelinhas d' esta noticia li eu todo um poema de recordações de infancia a engrinaldar a memoria de minha mãe, tão devota de Santa Luzia.
Não ha peior idade para um homem do que aquella em que a gente principia a ler mais em si mesmo do que nos outros….
Toda a alma é um livro, que se vae enchendo de letras á medida que os annos passam.
Mas não são só os habitantes d' esta ou d' aquella cidade, senão os de todo o reino, que téem motivo para se confessar reconhecidos a Santa Luzia.
Na Chronica de El Rei D. Sebastião, attribuida a D. Manuel de Menezes, falla-se, a proposito de uma das muitas refrégas travadas em Mazagão contra os mouros, da protecção com que Santa Luzia acudiu aos portuguezes milagrosamente:
« Assistindo pois o general n' esta Fortaleza, que era sua por mercê d' El-Rei, e fazendo guerra aos mouros de Azamor, e da terra da Duquella, succedeu, que um dia da Bemaventurada Santa Luzia pela manhã, fez muito grande nevoa, por cujo respeito a gente da Fortaleza não sahiu ao campo, e ao meio dia aclarando o tempo, mandou o Adail a um cavalleiro chamado Francisco Affonso das Neves, fosse abrir um posto a que chamam Pedralvinho; e indo o cavalleiro descobrindo, lhe sahiram de uma cilada duzentos mouros de cavallo, que estavam com o arraial a favorecer o seu cavalleiro, d' onde se travou uma grande escaramuça…»
Postos em grande perigo, os portuguezes venceram e attribuiram a sua victoria á intercessão de Santa Luzia, a quem deram graças e mercês.
Quando chega o dia 13 de dezembro não tardam nada as novenas do Menino Deus, cantadas a orgão, nas egrejas e capellas de todo o paiz, posto o Menino sobre uma almofada no altar, até que venha o dia de Reis em que aparecerá de pé, maior e mais poderoso, apesar de infante, que todos os reis do orbe terráqueo.
Depois vem essa encantadora vespera de Natal, a noite alegre das consoadas […] »Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 124-126.
[*] Por extenso: cento e oitenta e oito mil, seiscentos e sessenta e seis réis. Uma duzia de anos passada, com a introdução do escudo pela I.ª República, a cifra escrever-se-ia 188$66 (cento e oitenta e oito escudos e sessenta e seis centavos); a ultima casa, que era a do real, havia de fazer muita comichão às cacholas dos republicanos de 1910; daí que a suprimissem. O bom povo não fez caso e continuou como até aí contando o dinheiro da mesma maneira, se bem que com o tempo e com a depreciação monetária passasse a não distinguir bem o mil dos réis e dele a corruptela dos mél reis ou até marreis, que não soava bonito mas, era o hábito. Pelos anos 30 e 40, entrados mais de vinte do escudo oficial, o povo contava o dinheiro em tostões (1 tostão = 100 réis ou 10 centavos da República; antes dela houve muitas moedas de conto — vinténs, cruzados, pintos — nenhuma, que eu saiba, se chamou centavo). Por mais umas décadas ainda, tivesse muita gente de enunciar a cifra lá em cima pela casa do escudo e abreviaria os escudos pelo velho hábito dos mil, a saber, cento e oitenta e oito mil e seiscentos ou setecentos conforme arredondasse os $66 para $60 ou $70 (seis ou sete tostões, respectivamente), vindo por fim a omitr os réis. O real levou bem assim bem duas ou três gerações a esquecer. Parece muito, parece pouco? Vinha ele entroncado dos longínquos ceitis desde os tempos dos reis D. Duarte e D. Afonso V…

Não me recordo se aqui no Sul, mas no Minho em 1956 chamavam um cruzado a $40.
ResponderEliminarCumpts.
Minha mãe contava assim algumas vezes; aprendi com ela que 1 cz. eram 4 tostões; salvo por minha mãe, ouvir fazer contas em cruzados foi coisa que muito, muito raramente dei por ela. Mas também sou dum tempo em que 4 tostões para pouco chegavam; os rebuçados eram a 1 tostão; uma pastilha Pirata eram $50; uma carcaça eram $60…
ResponderEliminarO cruzado remonta ao ouro de Arguim e da Mina, segundo diz…
A pesar de todas as vicissitudes da depreciação monetária, é curioso como o Brasil ainda voga nesta nomenclatura antiga portuguesa enquanto Portugal (o que resta de si) fez tábua rasa dela. Dá bem a qualidade dos feirantes que o têm ùltimamente governado, não?!…
Cumpts.