quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Da treta oficial à teta do costume: a zoopolítica em acção

 Pagar assinatura da Sport TV — o canal da bola, leia-se — é essencial ou supérfluo? 
 Para mim, é supérfluo. Cá em casa não pago nada disso. Mas se pagasse seria porque fosse essencial?
 Talvez, mas o dinheiro cá em casa não é só meu. É da família. E ver a bola é só do meu gosto particular (quando é).
 Assim posto, um canal de televisão só de bola, em casa, numa casa particular, só para ver a bola, não é essencial. É com cada família. Paga quem quere ou pode.
 E, na sede do governo nacional?!…
 É essencial ao governo da nação ou ao interesse particular do primeiro ministro?
 Estou a falar de ver os jogos da bola do Sportem, Benfica ou Porto, não da selecção nacional (ou do Cristiano) que dão sempre em canal aberto na Radiotelevisão ou seu sucedâneo.
 É isso essencial ao governo da nação? — Ver os jogos da bola do Sportem, Benfica ou Porto?!…
 (As restantes agremiações futeboleiras são tão evidentemente irrelevantes no conceito do que pode ser entendido por nacional que nem nas trago ao caso, isto sem ofensa, mas é a realidade.)
 E dentro do conceito de nacional — o superior interesse da nação, como dizem; aquele que é  necessário strictu sensu ao governo da nação… — Entrar em despesa para ver os jogos de Sportem, Benfica ou Porto (dos restantes é como já disse), é ele coisa essencial nas televisões do palácio da sede do governo?…
 Pois parece que sim. Mas…
 Bem, dir-me-ão alguns, um ministro (primeiro ou abaixo) não tem horário; está sempre de serviço; não lhe assiste largar o expediente. Não há naturalmente de ter tempo para si?
 Claro! Há naturalmente de ter tempo para si, para a família, para os seus devaneios particulares e até para ir de férias, imagine-se… Ou para ir à bola… Mas quando vai nisso — a título particular, bem entendido — está «fora de serviço» (ponho isto entre aspas porque nunca o está). E se for é lá consigo. Tem o direito como qualquer outro dos comuns. Se quiser ir à bola, pois que vá! Por sua conta. Se quiser ir á bola no estádio, pague seu bilhete e não me peça dinheiro a mim. Ou vá por convite, como do Benfica ontem, ou doutro qualquer amanhã. 
 Porém…
 Porém, então, porque há o seu interesse particular em ver a bola sem convite em canais de assinatura paga no palácio da sede do governo, porque há isso de ser despesa para o erário?
 Porquê?!…
 Porque, o interesse particular do primeiro ministro em ver a bola quando no palácio da sede do governo não se confunde com interesse nacional e não é essencial ao bom governo da nação.
 E não é o que parece! E em assim não sendo, o bom governo não é bem, na prática, já, duma democracia. Mais se assemelha a uma ditadura.
 Em qualquer caso — democracia, ditadura ou gosto particular do sr. primeiro ministro — ainda assim a Sport TV (ou a NOS) não se chega à frente e oferece uma assinatura a essa espécie de cavalheiro? Nem ele a obriga por decreto? Pois se o faz a mim e a outros particulares a cada dia!…
 Seria até mais de acordo, ou não?!…
 Mas não. Porque em democracia não se prestam favores particulares desses a governantes e, fatal como o destino, porque o dinheiro público é sempre, na prática e à mesma, de quem manda. Nem é precisa uma ditadura.
 E assim, democarcia, ditadura, são só tretas. A teta é que é.

Rafael Bordalo Pinheiro, «I – A Política: a Grande Porca», in A Paródia, n.º 1, 17/I/1900.
Rafael Bordalo Pinheiro, «I – A Política: a Grande Porca», in A Paródia, n.º 1, 17/I/1900.
In Hemerotheca digital da C.M.L.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Adenda às pontas soltas de 68 nos Restauradores

 Os Restauradores bem movimentados num fim de tarde já noite, talvez no mesmo dia de 1968 daqueloutra em que «Longe da Multidão» ia no cinema Condes. A fotografia vem à mesma atribuída sem data precisa (1927-1988) ao Estúdio de Horácio Novais, pela bibliotheca d' Arte da Fundação Gulbenkian no Flickr.


Vista dos Restauradores à noite, Lisboa, 1968. Horácio Novais, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.
Restauradores à noite, Lisboa, 1968.
Horácio Novais, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.


 A película «Longe da Multidão» estreou-se no Condes em 29 de Março de 1968 e esteve em cartaz até 2 de Maio.


«Longe da Multidão» (estreia no Condes), in Diario de Lisbôa, 1.ª ed., 29-3-968. (Adaptado duma fotocópia mal en<i></i>jorcada da Fundação do irmão do dr. tertuliano.)



«Cartaz dos cinemas», Diario de Lisbôa,1.ª ed., 2-V-968, adaptado dumas fotocópias mal enjorcadas da Fundação do irmão do dr. Tertuliano.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Pontas soltas nos Restauradores…

Restauradores, Lisboa, 1968. Horácio Novais, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.

 Os Restauradores num dia baço e movimentado de, talvez, Abril de 1968. A fotografia vem atribuída sem data precisa (1927-1988) ao Estúdio de Horácio Novais, pela bibliotheca d' Arte da Fundação Gulbenkian.

«Longe da Multidão» (estreia no Condes), in Diario de Lisbôa, 1.ª ed., 29-3-968. (Adaptado duma fotocópia mal en<i></i>jorcada da Fundação do irmão do dr. tertuliano.)

 A película «Longe da Multidão», de John Schlesinger, com Julie Christie, Terence Stamp, Peter Finch e Alan Bates, na maior história de amor jamais filmada, cujo cartaz se vê dependurado no cinema Condes, estreou-se em 29 de Março de 1968 e esteve em exibição até 2 de Maio.

«Cartaz dos cinemas» (recorte do Condes), <i>Diario de Lisbôa</i>, 1.ª ed.,  2 de Maio de 1968, p. 31. (Adaptado duma fotocópia mal enjorcada da Fundação do irmão do dr. tertuliano.)



Fotografia: Restauradores, Lisboa, 1968.Horácio Novais, in bibliotheca d' Arte da F.C.G.
Diarios de Lisbôa (página e recorte/cartaz), respectivamente da 1.ª tiragem de 29 de Março e 2 de Maio de 68, adaptados dumas fotocópias mal enjorcadas da Fundação do irmão do dr. Tertuliano.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Oldsmobile de 28 no tempo do 2 até aos Restauradores por cinco tostões

Oldsmobile do Sr. Alfredo, Ribeira das Naus, [no tempo do 2 do Cais do Sodré aos Restauradores por $50]. A. n/ id., in Livro das Fuças (?).
Oldsmobile do Sr. Macedo, Ribeira das Naus, [no tempo do 2 do Cais do Sodré aos Restauradores por $50].
A. n/ id., catrapiscado no Livro das Fuças, salvo erro.

 

Alguém que se aí lembre? Do Oldsmobile do sr. Macedo? Do 2 a cinco tostões?…

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Do característico e do novo característico rezado

 Um 18 fatias caminho de Alcântara a par do muro dos jardins românticos de José Vasco Maria Eugénio de Almeida.


Autoccarro 18 — A.E.C. Regal III da Carris, n.º de frota 108 (ex-48, ex-60),  Sebastião, 197… A. n/ id, Col. da Portimagem, in Flickr.

Autoccarro 18 — A.E.C. Regal III da Carris, n.º de frota 108 (ex-48, ex-60),  Sebastião, 197…
A. n/ id, in Col. da Portimagem.


 Aquela muralha ameada foi demolida há coisa de dois anos. Uns entendidos do sacerdócio vigente feitos regedores da urbs acharam que era melhoramento de vulto, necessário para a — palavras suas — circulação e a acessibilidade para peões e ciclistas.
 — E salvar o planeta!… — esqueceram-se eles desse ámen da missa que rezam.
 Dizia o Dr. Salazar de certas coisas que não podiam deixar de ser: — Está muito bem assim e não podia ser doutra maneira!
 
É o caso, não?!…

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Comboio de Chaves

Chegada do comboio de Chaves, Régua, [s.d.] Gricer, in Flickr.

Comboio de Chaves, Régua, [s.d.].
Gricer, in Flickr.

Incursões a pé…

«Sinalização [legenda original]», Auto-estrada do Estádio, c. 1944. A. n/ id., in archivo do A.C.P.

Sinalização [de interdição a peões e veículos de tracção animal], auto-estrada do Estádio [E.N. 7] ao km 0,02 aprox., c. 1944.
A. n/ id., in archivo do A.C.P.

Agora não está a chover

Belém, Lisboa, 197… A. n/ id, Col. da Portimagem, in Flickr.

Autocarro 49 — A.E.C. Regal III da Carris, n.º de frota 224 [?] (HB-18-88 ?)Belém, 197…
A. n/ id, in Col. da Portimagem.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Portugal a vapor

Partida com destino a Chaves, Régua, [s.d.] Gricer, in Flickr.

Comboio com destino a Chaves, Régua, [s.d.].
Gricer, in Flickr.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Um dia chuvoso na Régua

C.P. E282 a beira de partir com destino a Barca de Alva, Régua, [s.d.] Gricer, in Flickr.

C.P. E282 prestes a partir com destino a Barca de Alva, Régua, [s.d.].
Gricer, in Flickr.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Passadeiras de peões

 Ou a augusta tentatação de enfiar… galinhas na betesga?…


«Passagem de peões», Rua Augusta, [s.d.]. A. n/ id., in archivo do A.C.P. 

Passagem de peões, Rua Augusta, [s.d.].
A. n/ id., in archivo do A.C.P.


 «Passagem de peões», Rua da Betesga, c. 1937. A. n/ id., in archivo do A.C.P.


Passagem de peões, Rua da Betesga [*], c. 1937.
A. n/ id., in archivo do A.C.P.


[*] Vendo bem, parece bem mais ser a embocadura da Rua do Ouro.

De bípedes…

Com e sem penas. 
Descubra as semelhanças!…

 

«Bípedes emplumados e sem plumas; descubra as semelhanças», Zurique, [s.d.]. A. n/ id., in archivo do A.C.P.
«Bípedes emplumados e sem plumas; descubra as semelhanças», Zurique, [s.d.].
A. n/ id., in archivo do A.C.P.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Porta de loja

 A cor havia de ser o verde. O verde oficial. Também castanho. O grenat também, como no caso, mostrando mais sofisticação e menos seriedade com o cânone. Ajusta-se ao ocre berrante da parede, fortemente contrastante.
 Porta de loja antiga, portuguesa, em madeira. Decadente, como tudo…
 Em numerosos casos os vidros — só os vidros — eram cobertos, ao fechar, por taipais de chapa ondulada, como da guerra do Solnado; ou por grades de malha fina de ferro. Haviam os taipais de ser na cor das portas. O tal verde oficial ou também, em muito caso, castanho. Ou o grenat. 
 
[Não] É o caso.


Portugal em pormenor, [s.l], [s.d.].
A. n/ id., in Colecção da Fundação Portimagem © MMXXVI.

 

P.S.: isto foi antes das portas de alumínio amarelo (cadmiado?) aí pelos anos 70, e de alumínio branco (anodizado?) dos anos 80.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Alterações climáticas de Novembro de 37


Inundações nas Fontainhas, às Portas de Benfica, Venda Nova, 1937.
A.N.T.T., Empresa Pública do Jornal «O Século», Álbuns Gerais, n.º 48, doc. 2503L.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Da velha invernia aos novos fenómenos extremos

 Há coisas que não são só de agora, mas outras dantes também não eram tanto…


«Cheia do Tejo vista das Portas do Sol no dia 29 de Dezembro», Ribatejo, in «Illustração Portugueza», n.º 203, 10/01/1910, p. [49]
Cheia do Tejo vista das Portas do Sol no dia 29 de Dezembro
, Ribatejo, 1909.
Illustração Portugueza. n.º 203, 10/I/1910, p. [49], in A.N.T.T., Empresa Pública do Jornal «O Século», Joshua Benoliel, cx. 86, neg.13.

 

 «El-rei [D. Manuel II], no Vale de Santarém, saindo da casa de Maria Serafina, a quem morreu o marido na cheia do Tejo», Portugal, in «Illustração Portugueza», n.º 203, 10/01/1910, p. 50
El-rei [D. Manuel II], no Vale de Santarém, saindo da casa de Maria Serafina, a quem morreu o marido na cheia do Tejo
, Ribatejo, 1909.
Illustração Portugueza, n.º 203, 10/I/1910, p. 50, in A.N.T.T., Empresa Pública do Jornal «O Século», Joshua Benoliel, cx. 42, neg.8.

 

 Disse eu no tempo da Ingrid (foi há dias) que os alertas de catástrofe dos velhos boletins meteorológicos eram agora dum exagero desgraçado. E que tal era sintoma da falta de noção actual de trivialidades ancestrais, como chuva no Inverno e calor no Verão, ou até do entendimento falho da natural proporção das coisas.


«Outro aspecto da cheia nas ruas da ribeira de Santarém», Ribatejo, in «O Ocidente: revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro», n.º 1193, 20/II/1912, p. 36)
Outro aspecto da cheia nas ruas da ribeira de Santarém, Ribatejo, 1912.
O Ocidente: revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, n.º 1193, 20/II/1912, p. 36, in A.N.T.T., Empresa Pública do Jornal «O Século», Joshua Benoliel, cx. 82, neg. 7.


 Pois entre tanto veio aí borrasca da grossa e, aquele habitual empenho aberrante em alertas coloridos a lançar o pânico por tudo e por nada mais ou menos normal para a estação do ano deu no desempenho gritante de inépcia que se viu, já pelo menosprezo no aviso de real e séria intempérie, já  — o que é pior — pelo desconcertado socorro aos povos.

 

«O abandono do lar: episódio da cheia na ribeira de Santarém», Ribatejo, in
=Illustração Portugueza+, n.º 313, 19/II/1912, p. 234

O abandono do lar: episódio da cheia na ribeira de Santarém
», Ribatejo, 1912.
Illustração Portugueza, n.º 313 (19/II/1912), p. 234, in A.N.T.T., Empresa Pública do Jornal «O Século», Joshua Benoliel, cx. 246, neg. 16.


  O que mais parece agora — para ser bondoso — é que a re publica (a coisa pública) anda por último entregue a casquilhos e janotas de secretaria sem noção do mundo, como parecem provar a curta-metragem de acção do sr. ministro coisinho e a tirada chibante do sr. primeiro ministro coiso «àqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida».

 Ou então, a realidade nua e crua é que andamos a ser gozados, não já por gente parvinha, mas por canastrões desprezívies, de má, muito má índole.

 Calhando, é tudo junto.