Bic Laranja
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
A revolta dos pastéis de nata e o eclipse da galinha dos ovos de ouro
« A notícia de uma turista sueca ter sido alvejada por uma bala perdida enquanto comprava pastéis de nata na Baixa de Lisboa é terrível para a imagem da capital e do País.»
Comprar pastéis de nata começa a tornar-se perigoso. Isto podem ser só,
como sói dizer-se agora, percepções. Mas o perigo de uma internacionalização destas do pastel de nata é uma terrível imagem para o
nosso turismo. Quem no diz é o Director-geral editorial adjunto do Correio. Um
jornalista com um título destes num jornal como o Correio da Manhã é
bem alguém de autoridade.
De aviário, no caso.
Ou não
fosse de um patinho feio que o sr. Director-geral editorial adjunto fala e
logo enobrece em galinha dos ovos de ouro. Duas imagens de aviário muito
manchadas. E logo de sangue. Não de merd mera
titica de galinha que, é sabido, também há cá muita dessa, a manchar a
imagem de numerosas capoeiras avulsas e, por extensão, naturalmente, a imagem toda do
aviário inteirinho em que se esta pateira de patinhos feios tornou.
Porém, não vem essa
merd mancha agora aqui ao caso.
O caso aqui é
outro, cuja imagem manchada também tanta vez de sangue, o sr. Director-geral editorial adjunto não quere mostrar. Mas vê-se-a na mesma página muito bem…
Já lá vou.
Noutro pasquim li ontem que a senhora
atingida pelo balázio errante na confeitaria dos pastéis de nata foi uma
turista suíça, não sueca.
Pois, suíça ou sueca (calhando,
suíca ou, por desventura sueça) tanto faz. A geografia e os
gentílicos são coisa danada para o jornalismo.
Salvo se forem
portugueses, porque Portugal é acima de tudo um Estado de Direito democrático. E com isso todo o luso noticiário fica claro, limpinho, e até transparente em
quanto à raça dos portugueses no papel de maus nas notícias de bandidagem — de bandidagem a
sério ou de simplesmente bater na avó. Suspeitos, arguidos, reclusos ou
condenados são todos uma raça pegada de portugueses que nada nem ninguém os
distingue quanto à origem, credo ou raça. Assim sendo, muitas vezes até vêm com
nome e morada escarrapachados no jornal, como por acaso é o dito caso hoje aqui.
E
neste caso tem graça; o nome e a morada dizem tudo aquilo que importa sempre
não dizer quando já basta não deixar dúvidas de que o bandido é português e nunca por nunca estrangeiro.
Nenhuma confusão, portanto.
Dito isto, que é bom de entender, a turista sueca
— diz também a notícia do Correio com uma bonita imagem ilustrativa — a turista sueca,
pois, foi levada de maca para o hospital.
Parece-me bem.
Com
uma mulher sueca, ambulâncias são desperdício. Nem pejada estava. Estava era
só a encher-se de bolos.
J. Rodrigues, M. Curado, «Bala perdida atinge turista a comprar pastéis de
nata», Correio da Manhã, 12-8-26, p. 6.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Aritmética da treta, aniversários da treta, tudo da treta
Bruno Lopes, «60 anos da Ponte [Salazar]», Sábado, 5/VIII/26.
Recorte rasgado a custo da rede pelo Chato Gepetê (foi o cabo dos trabalhos convencê-lo a rasurar a asneira e emendá-la com Salazar).
Alguém percebe como são hoje os 60 anos da dita
Ponte 25 de Abril (está na notícia), se o 25 dito só tem 52?
Será
52 + 25 = 60?
É, não é?!…
Ah! E leio destes
matemáticos à jorna (por isso escrevem no jornal), bufadores de velinhas
nestes aniversários sempre redondos da treta, que Salazar não na queria, à ponte, mas
que isso era a fingir. Vai daí votou contra a ponte no conselho de ministros
que a deliberou levar a cabo.
Mas que ditador!
Decisões
a votos no próprio conselho de ministros de que ele era ditador e no fim,
votava pela oposição.
É obra!
Em todos os sentidos
e mais um: deixar-se vencer pelo voto no conselho de ministros (mas só a fingir)
e conseguir com o seu voto contra levar a efeito em 1966 esta grande
conquista de Abril em 1975, tão afortunadamente registada para a eternidade na imortal fotografia do
Gageiro.
Ponte
25 de Abril Salazar,
mudança de nome
usurpação da obra, Lisboa, 1975.
Eduardo Gageiro, in Arquivo Fotográfico da
C.M.L.
A Faborama
A Faborama foi uma palavra que inventei do nada. A mãe repreendeu-me
sempre de dizer asneiras. Ela mesma as não dizia, claro. Nenhuma mãe. A mãe do
Zèzinho, a D.ª Joana, era excepção. Era genuína. Alentejana. Tal como a sua
mãe, a D.ª Mariana, a avó do Zèzinho. Eu e os outros mocinhos que brincávamos
com o Zèzinho achávamos-lhes graça quando lhe lá vinha a impaciência, a arrelia
— «ai o caraças!» Uma temeridade, ouvir a mãe de um de nós, pequenos, dizer
tamanha coisa. Mas não passava disto: «ai o caraças!» ou «ai a merda!», lá
muito, muito de vez em quando, cantada na pronúncia como só os alentejanos a
falar.
Minha mãe não nas dizia, asneiras, mas circulava-as. Um
desses circunlóquios era «ai os tomates!» Saía-lhe bastas vezes. Esse até mo
tolerava, mas não me saía muito. Os tomates já então, eu, pequenote, entendia
ser palavrão frouxo. A virilidade dessa brejeirice ou outra de semelhante
calibre estava mesmo era no vernáculo, e isso eu o entendia porquanto é coisa
que por melhor educação, não escapa às crianças.
Pois bem, numa
dessas interjeições de «ai os tomates» de minha mãe (salvo seja), zangada
comigo a repreender-me alguma travessura, saiu-me de recurso antes que de lá
viesse uma lambada. — Os tomates da Faborama. — Disse-o tão de repente e de
improviso que o inesperado qualificativo desconcertou a minha mãe do sério em
que repreendia cá o «bijou». E até o meu irmão que se já ria por dentro de,
mais do que certo, eu estar mesmo, mesmo para apanhar da minha mãe, até esse
malandrim se escangalhou logo a rir.
— Tomates da Faborama?!… Que é
isso?
— Não sei — foi o que soube responder.
Livrei-me
do correctivo, mas inda hoje não sei o que seja. Porém a Faborama ficou-me. Há
uns anos procurei no Google e ainda não havia resposta. A busca não deu
nada.
Hoje, que já está tudo inventado, deve aparecer qualquer
coisa.
quarta-feira, 5 de agosto de 2026
De emissores-receptores
Ia a sair do barbeiro, passa-me de ante um desses pardos indianos que deambulam por todo o lado de «tablete» na mão. Normalmente conversam com o objecto meios a berrar e numa língua de trapos que se não atura. Há dias na caixa do super chegou um atrás de mim nestes termos que nem conseguia eu ouvir a menina da caixa. Virei-me para ele com pouca cerimónia.
— Importa-se de falar mais baixo?
— Porquê? — respondeu-me com insolência.
— Ai tu até falas português?! Então entendes-me bem. Baixa-me lá a voz se fazes favor!
Não só baixou o volume como calou a matraca. Acabou-se a conversa.
Sarnosos do caraças!
Pois ia eu hoje a sair do barbeiro e passa-me de ante um desses, com a «tablete» na mão. Mas este não falava; trazia era o objecto a retransmitir rua fora uma guinchadeira tipo Avé Críxena ióim, ióim, com acordes de faquir encantador de serpentes. Coisa lá de além-A.I.M.A., donde estes espécimes estralejam agora cá como pipocas, não sei se estais a ver o filme…
Ora em saindo do barbeiro saiu-me logo este bago de milho meio tostado a dar-me música (música?!…) e dou comigo a pensar. — Mas eu tenho agora de aturar este caramelo no meio da rua, assim, logo à minha frente?… E logo no mesmo caminho que eu!… E com isto, nós, cá, todos os que passamos ou nos cruzamos com esta ave (pouquíssimo) rara (infelizmente), vamos a ter de lhe gramar a «riqueza» cultural que o pariu lá na terra donde nos também já calhou aqueloutro que promoveram a marajá de Broxelas!
Raisparta! [Com F maiúsculo, leia-se.]
Pois bem! Pus-me a um passo do gajo. Só um passinho atrás, a segui-lo. Enquanto isto puxo com jeitinho da minha «gaita» (refiro-me ao telemóvel, nada de confusões), discorro nela pelo blogo da Bic Laranja que tem uns fadunchos jeitosos e, nem três passos andados, já estava aquele freguês a ser enriquecido culturalmente pelaquelas orelhas pardas a dentro com uma sardinheira que eu e a Amália lhe atirámos.
Isto é verdade! Não foi da trapeira nem de nenhuma água furtada. Foi mesmo ali ao pé dele, só um passinho ao lado. Volume no máximo. E sorri cá comigo sem olhar para ele.
Epá, isto é sincero! Nem meia dúzia de passos andados e logo aquele freguês salvador da Segurança Social ou lá o que é, acabou com a emissão sonora de ondas curtas trazida lá da Índia ou do raio que o parta, e vai daí enfiou o retransmissor na algibeira como quem enfia o rabinho entre as pernas.
Sardinheiras. Foi remédio santo.
Ora já vistes! Pensava-me aquele c@x#!ho que isto do enriquecimento cultural era só de lá para cá e assim à lagardère pela' ruas de Lisboa ou quê?!
Amália — Sardinheiras
(Linhares Barbosa, Fernando de Freitas)
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Crónica da tomada de Ceuta para totós
O «Correio» titula «crise migratória» a invasão de Ceuta por 50 ou 60
mil mancebos em idade de assentar praça ou, vá lá, em boa idade de ter de dar
o nome para a tropa. É o jornalismo impressionista. Umas lambuzadelas de
eufemismos e está pintado o quadro. O habitual: aldrabice à descarada. Do
impressionismo aldrabão a fingir notícias até à realidade vai que as hordas
dirigidas de Rabat para Ceuta e que se recusam agora a tornar a Marrocos, são
de gente que se parece muito mais com os cafres da Guiné do que com mouros de
Fez ou de Marraquexe. Um fenómeno inexplicado pelo catequista Rui Gomes do
«Correio da Manhã» cuja prègação importa é matraquear sobre «migrantes»,
«jovens» a «passar fome», «sem condições de vida», vindos do Sudão, «um país
em guerra».
Sabeis vós onde é o Sudão? É por baixo do Egipto, no outro lado
da África. Como é que esses chegaram a Marrocos antes de irem com a maré cheia
dar a Ceuta, isso, o jeitoso do Rui Gomes não explica.
Pois bem, dê por onde
der, tudo uns desgraçados, coitadinhos, a serem recambiados sem compaixão por
«militares do Exército [espanhol] fortemente armados», de volta a Marrocos,
«onde não conhecem ninguém», mas onde naturalmente estavam quando alguém os
arregimentou e despejou para Ceuta para se irem pôr à mama dos europeus. Este
jornalismo de pinceladas impressionistas dá-me impressão que impressiona, de
facto. Porque deve cuidar estùpidamente que todo o leitor seja realmente
muito, muito estúpido.
Astúrias…
Um clássico castiço direitinho daqui para animar as hostes dos castelãos: — ¡Venga, ánimo!
Isaac Albéniz — Astúrias (lenda), Suíte Espanhola N.º 1, Op. 47, N.º
5.
Saib Polanco (giuitarra e arranjos); Elisa Pérez (castanholas)
Embrulho Mestiço, 2020.
domingo, 2 de agosto de 2026
sábado, 1 de agosto de 2026
Leitura do dia
Ceuta, é sabido, foi conquistada pelos portugueses em 1415. Saiu em
sorte aos castelhanos em 1640 quando o governador da praça covardemente acatou
a soberania de Filipe IV de Espanha em lugar de aclamar el-rei D. João IV de
Portugal. Teve medo de ficar à míngua de abastecimentos de Portugal por
bloqueio da Castela. Nunca Castela defendeu nem teve de defender Ceuta com o
sacrifício com que os portugueses a defenderam dos cercos constantes dos
alarves de Fez e da moirama de Marraquexe enquanto foi terra portuguesa. Nunca
em séculos passados nem agora, como se tem estado a ver.
« E por ventura havia hi tal [alguém] que nunca com tamanha femença [ansiedade] esguardara [contemplara] onde viam os seus muros cheios de gentes estranhas. E com estes pensamentos a tais e outros semelhantes lhe sobrevinham grandes chôros. E ora culpavam seus santos, ora Çala-ben-Çala [Sanchez-ben-Sanchez, leia-se hoje] que fôra preguiçoso e covarde em sua defensa. Outra vez culpavam seus oficiais [de Bruxelas] e aqueles que primeiramente abriram as suas portas [da Europa]. Ora culpavam sua má ventura até que não achavam já outrem a que pusessem mais culpa.»
(Cap. XCIII).
Melhor nem dizer mais.

Gomes Eannes de Zurara,
Crónica da Tomada de Ceuta por El Rei D. João I, Academia das
Ciências de Lisboa, Lisboa, 1915.
(Imagem de
Leilões Bestnet.)
(Citação acrescentada às 10 da noute.)
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Última hora! Já está a dar o autocarro do Benfica
Transportes Aéreos Portugueses — A linha portuguesa ao serviço de Portugal
quarta-feira, 29 de julho de 2026
sábado, 18 de julho de 2026
Guerra dos recém anos
Admirável mundo! Estou a ver no Tubo da Internete o jogo de consolação do
Mundial da bola entre essas duas nações da velha guerra dos cem anos: a
Martinica contra a Jamaica. Agora estão no intervalinho de beber um sumo. A
Jamaica está a ganhar por dois a zero. Talvez à Martinica ainda valha alguma
Joana Dark…
Clément de Fauquembergue, «Representação de
Joana d'Arc na margem do registo do Parlamento de Paris» [negativo em microfilme],
Registre du Parlement de Paris, 1429,
Paris, in Arquivos Nacionais da França, AE II 447, X1a 1481, fol. 12r.
domingo, 5 de julho de 2026
sexta-feira, 3 de julho de 2026
Está um calor de derreter os untos
![M.A.I., «Temos um barril de pólvora»; Luís Paixão Martins, especialista em «marketing político»</i>, NAU [é como se diz], <i>[Tele]Jornal à noite [i.é à tardinha]</i>, 2/VII/2026.](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjvEUocRYnwFqTLEvVIiJhbHf_XQtAA1tBc-xAuuCMrbWKXGEjkX8siQD07Yy9_eyulKHLD0l_0JNYF23admoy1yt9Dklgh82rYhZW0eGoQGcaIAh9SN8ZscgDZzZV612M346JQD4w_aREHLw9Svj7DLjR1h2sOmDjEUe-KsYynzzqnWQ5yOeveT5MWWS73/s1600/IMG_20260702_215535384.jpg)
M.A.I., «Temos um barril de pólvora»; Luís Paixão Martins, especialista em «Marketing Político», NAU [é como se diz — ortografia fonética, portanto…], [Tele]Jornal à noite [i.é à tardinha; estamos no pino do Verão], 2/VII/2026.
Quem não tem que dizer, fala do tempo.
Hum!…
Talvez não.
Ou melhor, talvez sim!
É o meu caso.
Está um calor de derreter os untos. Ontem estiveram 40º em Lisboa. Quási como em Junho de 81. Lisboa chegou aos 43º. Dias antes andou pelos 40º-41º. Um dia ou dois depois «refrescou»; caiu para os 39º.
Naquele tempo, sim, era um calor de derreter os untos.
Hoje não.
Não que os não derreta, mas um calor destes (ou unzinho só de 30º) é calor de dar pânico.
Começa no I.P.M.A., um instituto que mandou a Meteorologia e a Geofísica ao mar. Ao mar e ao ar — à atmosfera. Dali desce às redacções da imprensa do secretariado da propaganda. E daqui sobe ao Ministério. No caso, ao do Interior. Ou da Administração Interna, talvez para ser inclusivo… com o litoral.
E eis assim, pois, que temos o sr. ministro das Neves, do Interior, não a derreter com o calor (salvo seja, ou antes que nos valesse a Nossa Senhora das Neves!…), mas a decretar «um barril de pólvora» — a lançar o pânico, entenda-se — ministerialmente estribado no factor cagaço (e ao fresco, no ar condicionado do gabinete) por, com mais certeza de que por hipótese, virem a arder para aí uns bastos hectares de mato e floresta nos ermos do (cá está!) interior. (O litoral, se arder, será por (des)ventura, mas a bem da inclusão.)
O factor cagaço, porém, não é o pânico atirado no tal «barril de pólvora» pela tubas da propaganda dos «fenómenos extremos» à plebe.
Não.
O bom povo entende bem o calor e o frio e Deus sabe que bem tem de lidar com ele.
O factor cagaço é o sr. ministro das Neves, não a refrescar-nos, mas a sacudir-se dalguma chispa do conhecido efeito «Pedrógão», não vá arder ele com isso, o pobre de Deus.
E assim, estamos em estado de alerta nacional desde a meia-noite passada porque… É Verão e está um daqueles calores de derreter os untos.
Quási (mas não bem) como naquele Junho em 81.
Não me lembro em 81 de nenhum barril de pólvora. Só de cerveja.
P.S.: E assim, também, está explicada a notável profissão do especialista em «marketing político» que, se não disse nada disto que digo eu agora, era o que havia de ter dito. Não sei se disse porque o nem ouvi. Só vi o rótulo no ecrã da TV e pensei: há com cada coisa, que até é preciso desencantar especialistas a preceito para o explicar à gente!…




