sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Da Praça D. Pedro IV no Rossio

 Ouvi ontem tarde na noite que os campistas na Praça D. Pedro IV no Rossio — como dizem os jornalistas… — não iriam, pois, montar tenda. Salvo erro foi ontem; posso enganar-me, com o sono, e com o tempo que leva esta lengalenga de a habitação está cara, pela Palestina…
 Ouvi na telefonia, cuido que quem no contava era aquela, a Laranjo: um dos meninos rabinos (salvo seja) campistas tinha dito que iam ficar por ali — na Praça D. Pedro IV no Rossio — até à meia-noute e meia. Que já não iam montar tenda e que ao despois haviam de ir todos para casa e só se tornavam a manifestar no sábado num subúrbio qualquer onde foi despejada uma família com crianças.
 E que precisava o menino rabino de descansar.
 Enternecedor!…
 Vamos a ver se é desta que desamparam a loja.

 Isto de encavalgarem tanto agora a Praça D. Pedro IV no Rossio pode soar estúpido, mas lembra-me duma vasta esperteza de encavalitanços de gabinete que baptiza tudo menos esquinas e becos para celebrar veneráveis «heróis» no meio de praças ou campos de toponímia popular mais ou menos espontânea: jardins de António Nobre a S. Pedro de Alcântara, de Henrique Lopes de Mendonça à Praça José Fontana (antiga Cruz do Tabuado) ou, ainda agora, do excelso Mário Soares no Campo Grande.
 Este jardinar de gabinete com ideologias ou cromos da caderneta do Estado é, bem vejo, como o Constantino — o brande, não o jardim. — É fama que vem de longe.


Rossio, Lisboa, [1947]. Estúdio de Mário Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.

Rossio, Lisboa, [1947].
Estúdio de Mário Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Anjos, Lisboa, no tempo dos portugueses

Eléctrico 19, Anjos, [ante 1986]. (A. n/ id., in Portimagem, Saudades V, 1730 — © 205)

Eléctrico 19, Anjos, [ante 1986].
A. n/ id., in Col. da Portimagem.

domingo, 18 de outubro de 2026

Variedades à queima-roupa

A paz, o pão, habitação
Saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de acampar no Rossio
Quando pertencer ao povo a casa do senhorio.




Sérgio Godinho, Liberdade
(À Queima Roupa, 1974)

sábado, 17 de outubro de 2026

Variedades


Jackie DeShannon, What The World Needs Now Is Love
(Estúdios Bell, 1965)

O carro de Carnide

Eléctrico 13, Carnide, [s.d.] (A. n/ id., in Livro das fuças)

Eléctrico 13, Lisboa, [s.d.]
A. n/ id., in Livro das fuças.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Cristalino como a água

«Visita simbólica em plena crise migratória; Reis [de Espanha] recebidos em festa em Ceuta», »Correio…, 14/X/26

 Uma horda de 80 mil bárbaros irrompendo à bruta por uma cidade dentro não é uma invasão. É só uma migração que atinge um volumezinho crítico. Uma invasão seria se um dos 80 mil migrantes (bastava um) fosse do partido Chega.
 Cristalino como a água é havermos jornalistas a inquinarem desta esperteza o próprio noticiário.

«Invasão de estúdio da rádio; Rita Matias identificada pela P.S.P.», »Correio…, 14/X/26

Transportes Aéreos Portugueses

«A321LR CS-TXA», Portela — © 2019
«A321LR CS-TXA da T.A.P.», Portela — © 2019

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Som e luz

Bairro Alto, Lisboa, 1974. E. Gageiro, in «Lisboa no Cais da Memória:  1954-1974», Lisboa, Punkte Art, 2004, p. 206.

Bairro Alto, Lisboa, 1960.
Eduardo Gageiro, in Lisboa no Cais da Memória: 1954-1974, Lisboa, Punkte Art, 2004, p. 206.


sábado, 3 de outubro de 2026

Escadinhas do tédio

Baixa (sic), Lisboa, 1974. E. Gageiro, in «Lisboa no Cais da Memória:  1954-1974», Lisboa, Punkte Art, 2004, p. 188.

Baixa (sic), Lisboa, 1974.
Eduardo Gageiro, in Lisboa no Cais da Memória: 1954-1974, Lisboa, Punkte Art, 2004, p. 188.


quinta-feira, 1 de outubro de 2026

E enquanto as TV davam o avião do Ronaldo

 

« Hoje tinha duas intervenções previstas na C.N.N. Portugal a propósito do incidente ocorrido com o Boeing 737 da Fly Dubai mas foram ambas canceladas devido aos desenvolvimentos do caso [do] Cristiano Ronaldo.
   Sem problema, compreendo perfeitamente o critério de prioridades.
   Sendo assim, aqui deixo o que escrevi durante o dia na rede X / Twitter:
  Preocupante. Os dois pilotos de um Boeing 737 da Fly Dubai ter-se-ão envolvido numa sessão de pancadaria quando voavam do Dubai para Tel Aviv sobre a Arábia Saudita. Segundo a C.N.N. o avião terá perdido 18 000 pés (6 mil metros) em apenas 2 minutos, o que dá uma razão de descida brutal. Numa primeira fase um dos pilotos terá accionado o código de sequestro no transponder, o que activou uma reacção imediata das forças de segurança, mas depois o código passou para emergência geral. O avião aterrou de emergência em Tabuk, na Arábia Saudita, e a situação está agora a ser avaliada. Alguns dos passageiros são cidadãos de Israel, país que não tem relações diplomáticas com a Arábia Saudita. Informações não confimadas falam em tentativa de suicídio de um dos pilotos que terá sido abortada por intervenção directa de alguns passageiros.
   Estive a ver a granular data do incidente do Fly Dubai fornecida pelo Flightradar24.com e encontrei alguns valores de razão de descida que poderiam colocar em causa a integridade estrutural do avião. Há registos de razões de descida superiores a 32 000 pés (cerca de 11 mil metros) por minuto! Isto só se consegue com um mergulho em direcção ao solo e motores acelerados ao máximo. Estes registos são de curta duração mas dizem bem da brutalidade deste incidente. A estrutura deste avião passou por grandes excessos e terá naturalmente que ser reavaliada.
   A história da quase tragédia com o avião da Fly Dubai segundo o @flightradar24.
 

  • A) Linha azul:
    1. Avião em cruzeiro a FL340 (34 mil pés);
    2. Início da luta e mergulho em direcção ao solo. É nesta fase que o avião atinge uma razão de descida média de 9 000 pés por minuto, valor que nem numa descida de emergência por despressurização se consegue;
    3. Avião recuperado e voo estabilizado a FL 150;
  •  
  • B) Linha cinzenta:
    1. Valor máximo da razão de descida: 32 640 pés por minuto!!! Parabéns aos engenheiros da Boeing por terem produzido uma estrutura que aguentou esta brutalidade;
    2. Oscilações subida / descida provavelmente resultantes da luta inicial;

  • C) Linha amarela:

    Variações na velocidade em relação ao solo.

  Detalhe importantíssimo. A serem verdadeiras estas fotos (hoje temos sempre que fazer esta reserva) o Boeing 737 da Fly Dubai perdeu a maior parte do leme de direção (rudder) durante o incidente. Isto poderá ter resultado de uma aplicação demasiado agressiva por parte de um dos pilotos, o que fortaleceria a teoria de suicídio, ou então foi consequência da brutalidade da descida. A única certeza que tenho é que os investigadores vão olhar para isto com muita atenção. Um grande abraço de admiração e respeito para o piloto que conseguiu aterrar o avião nestas condições.
    — Well done, my friend!

Cte. Guedes, in O Aviador, Livro das Fuças, 30/IX/26.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O Estado não sou eu

 O Estado são estes gajos.


Correio…, 29/IX/26.

sábado, 26 de setembro de 2026

Tempos!

 Ontem, o Porto, 3 – Benfica, 1. Ainda.
 Um folhetim sem fim num rosário de futebol penado de televisão, rezado horas a fio, dúzias de vezes ao dia, sete dias por semana. 
 Descobriram ontem, pois, outro ângulo do safanão, ou repelão, do Samu ao Bah do Benfica. — Estranhos nomes (de jogadores) para clubes portugueses… Ou talvez não!…. — E estranhos nomes (safanão, repelão) para os jornalistas da TV conseguirem dizer do gesto…
 No meio de tanto palavreado, fala um, diz outro, três jornalistas e mai-lo pivot que também tem foros e alvará da profissão, nem um consegue, numa palavra, dizer o que fez o Samu ao Bah; hesitam em murro, toque; não se afoitam em dizer palmada porque não parece nada e, safanão é aquela palavrinha trivialíssima que lhe nem ocorre. Nem poderia ocorrer, tal a curteza lexical (do português) com que carradas de jornalistas bafejam a profissão.
 Prolixos, contudo, que até enriquecem profusamente o fraco português com o amaricano…
 E rebuscados.
 Rebuscam e confrontam, por conseguinte, o caso com um outro da expulsão dum Freixenet ou lá como se chama o Jean Genet francês do Benfica que passou os dedinhos na pescoceira logo abaixo da orelhinha dum qualquer do Porto. Suburbanos requintados e meios grisalhos, já, duma rica geração de ensino básico nas escolas secundárias, mas perdida da infância de rua doutras vidas, chamaram-lhe, ao gesto no segundo caso, calduço.
 De escola secundária é bem o termo. 
 Já de um… calduço?!… ser dado de dedinhos abertos como uma festinha não era precisa nem a 4.ª classe.
 Aquilo do francês do Sport Lisboa ao do clube do Porto foram os velhinhos três decilitros. Os três 'celitros da miudage de rua nos bairros de antigamente, que eram a provocação dum a outro, o qual nunca por nunca se ficava na covardia de sofrer a afronta odiosa de sentir na cara três dedinhos lambidos do cuspo do provocador. A resposta certa era chapada de volta e bulha pegada. 
 Ora o rapaz do clube do Porto deve ser menino copo-de-leite, ultrapasteurizado, ao contrário dos portuenses naturais. Levou os três 'celitros e deitou-se para o chão com as mãos na cara a clamar ao senhor arbitro, qual choramingão, que lhe aquele menino bateu.
 Tempos… De futé boys!

 
Alfredo  pisa a [alguém que mo identifique] numa disputa de bola. Porto, 0 – Benfica, 2
, Estádio do Lima, 31/III/946.
A. e fonte n/ id., adaptada de F.C. Porto — Memória.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Eu não digo? Andam a ser colonizados e gostam

 Fui pesquisar do que se tratava essa Festa na Praça do Continente Feed, anunciada como a celebração mais portuguesa, centrada com portugalidade. Com uma área de street food, com smashburgers, loaded fries, melties e fruta fest e kebabs. Uma área destinada aos kids e outra pet friendly, com snacks dedicados. E uma zona para play. A musicata começou às 16H00 com um DJ set de um tal Kiko Is Hot.
 Nem praguejo. Pois esta imundície é o meu país, a minha cidade. Promovida pelos autarcas nos quais [nunca] voto. Enfim, bem que me poderia esfoliar mas isso não esconderá o fundamental: isto sou eu.

(J.P.T., «O estado de Lisboa», in Delito de Opinião, 13/IX/26.)




 À parte alguns topónimos cujo significado se perdeu, intriga-me a falta de substrato autóctone pré-romano no nosso (ex-) falar português. Quinhentos anos de romanização, 500, foram tão eficazes em delir o que se falava antes nesta terra que, mais parecem ter assentado sobre uma tábua rasa.
 Ora mesmo salvaguardando as diferenças, nem os canibais do Brasil foram em tal período tão completamente aculturados; a sua linguagem, a marca mais enraizada da cultura dos povos, persiste. 
 Pois a romanização nas Hespanhas, salvos os Vascões, foi temporã e pràticamente total.
 Cuido que tal fenómeno se não pudesse ter dado sem um voluntarismo acéfalo dos autóctones. Os primitivos ibéricos hão-de ter-se empenhado, e bem, em romanizar-se. Não porque fossem vazios culturalmente — não há povos assim — mas porque desprezaram os seus modos de ser e falar em favor dos dos novos senhores — principalmente no falar —, esquecendo tudo o que identitàriamente os fazia ser quem eram.
 Bom, esta maneira de se uma gente despir (ou esfoliar) do que é para se tornar estrangeira — ou brilhante e reluzentemente moderna, segundo cuidam — configura algo pior do que vazio cultural: é o vaziozinho inane da fraqueza mental dos indivíduos duma certa raça de gente que, antes, colectivamente e por mor de seus melhores, se afirmou até como um povo valoroso, mas que, mal guiados, ou guiados à perdição, prestes se deixam tomar e assimilar por estrangeiros.
 A romanização fez-se, pois, assim: com autóctones esvaziados culturalmente, mas também sequiosos a absorver o que se lhes apresentou como poder, modernidade e futuro. 
 Hoje neste Portugal irremediávelmente perdido ainda é pior.

«Rua da Escola de Medicina Veterinária», Lisboa — © 2026
«Rua da Escola de Medicina Veterinária», Lisboa — © 2026