Hoje é dia de S. Jorge. Mas o que apregoam na Cristandade é que é o dia mundial do livro. Do livro. Não confundais com o Livro.
Todavia, nem tudo está perdido. Na Catalunha — e com destaque no programa 2 da antiga Emissora Nacional — celebram com grande festa o Sant Jordi.
Exactamente! Foi assim que disseram nesta nossa emissora nacional que há dias deram em crismar R.T.P. Antena 2: Sant Jordi.
Como não denota nada de nacional esta emissora com este novo nome, disseram sempre Sant Jordi e, tornaram a dizer. Sant Jordi, sempre e sempre Sant Jordi. Nem uma vez São Jorge (e muito menos São Jorze, como muito bom povo o ainda diz). De certo para que lhe não ocorra, ao ouvinte português mais desatento (ou mediano, vá lá) que hoje é dia de São Jorge.
Hoje é dia de São Jorge.
Portanto, nada de confusões! O São Jorge da devoção do Condestável D. Nun' Álvares Pereira, do grito de guerra português em Aljubarrota, do padroeiro do reino de Portugal até à Restauração de 1640 e patrono ainda hoje do Exército Português — ah, e orago do castelo de Lisboa — nada!
Nadinha.
Nicles.
João Nery. Néria!
Só do paganismo bibliográfico (que não será mau de todo, se os tolos e os que os espertos querem fazer de tolos passarem a ler mais livros e a aprender as coisas…) — Só do paganismo bibliográfico se admite referência ao santo do dia de hoje nos meios de comunicação oficiais em Portugal. Mas, atenção! Muita atenção! É com nome estrangeiro, para passar desapercebido. Nome e farda — ou encadernação —, e apresentado sòmente como padroeiro da Catalunha, em cujo dia era tradição (lá) oferecer rosas vermelhas, como destacam. E livros.
Pois é!…
Livros, que foram ao depois, em 1930, segundo li. Enxertaram-lhe (lá, na Catalunha) nesse ano, neste dia, a celebração dos livros, por conta da morte do Cervantes (outro espanhol…) — Cervantes que por acaso morreu em 22 de Abril, mas que, como foi a sepultar só em 23, tanto bastou para a enxertia bibliográfica no São Jorge da Catalunha.
De como se vai do dia da Catalunha com livros ao dia mundial dos livros parece paganismo acelerado. Fomenta-se muito, por artes de Mercúrio e manhas de anticlericalismo. Por aqui, os livros, não o Livro.
E assim, pois, se da Catalunha pode cá falar-se no santo do dia (mas só em estrangeiro), com o nome e fatiota de cá é que não, que isto aqui é laico. Por isso se não ouve aí no post Portugal me®diático de nenhum São Jorge no dia de hoje. Cá, só se fala de livros, onde, nalguns, virão os factos, as lendas e a história do Santo que, chiu! Não quere se saiba como é português.

Estandarte de D. Nuno Álvares Pereira, in Manuel Beninger, livro das fuças, 12 de Abril de 2025.
(Revisto e augmentado uma hora depois.)
Bic Laranja
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Por São Jorge
segunda-feira, 20 de abril de 2026
Fado Português
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Amália — Fado Português
O Fado nasceu um dia,
Na boca dum marinheiro
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Ora eis que embora outro dia, |
domingo, 19 de abril de 2026
sábado, 18 de abril de 2026
Esso Extra
Diz que a gasolina vai baixar para a semana.
Denny Hulme [?] na bicha da bomba para abastecer o seu Brabham BT20 Repco, Brands Hatch, 1966.
P. Berridge, algures no livro das fuças.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Eléctrico do Bolhão com Reglex
Vendedeira ambulante a par de eléctrico com Reglex, Porto, 1965.
Hilda Bijur, in Arquivos do Banco Mundial, CC BY-NC-SA 4.0, apud «Não me mexam nos JPEGs», 12/VII/25.
domingo, 12 de abril de 2026
A bordo do Setubalense
A bordo do cacilheiro «Setubalense»…, Rio Tejo, 196…
A. n/ id. in Col. da Portimagem.
sábado, 11 de abril de 2026
Diário de à manhã
Vai fazer quatro anos escrevia aqui (reli agora porque repus o filmezinho do «Fado Malhoa» no que então escrevi) ideias soltas ao cheiro a torradas escada acima.
« Cheira a torradas na escada. A D.ª Tânia do 2.º tem hoje o «Papa Don’t Preach» da Madonna. Ressoam muito de lá os anos 80. [Ressoavam. Agora não se ouve nada]. No outro dia era o «True» dos Spandau Ballet. Mediante isto não devia havê-la por D.ª, antes só Tânia. Mas os anos 80 foram há já trinta anos… Oitenta por oitenta — em tempos de há oitenta anos, entendei —, se soasse seria o Fado Malhoa ou assim; numa telefonia sintonizada na Emissora ou no Rádio Clube. E por Tânia do 2.º haveria de ser Amélia; D.ª Amélia. Descontando a naftalina disto tudo, o cheiro a torradas havia de ser igual.»
Antes de subir a casa e me cheirar a torradas nessa menhãa já me inspirara numa cena da minha rua:
« Na esplanada do café […] um, com uma cerveja de ante; outro, com uma tacinha de tinto. Ambos mais a dormir do que acordados, que o «petróleo» às tantas já deixa de alumiar… — Por castiço, salva-se o do tinto; se fôr do carrascão.»
E rematava então, antes do «Fado Malhoa», que estava um daquêles dias incertos de Abril. Ora chovia; ora havia uma olheirada.
Faz isto à manhã quatro anos.
Hoje está só uma manhã baça. Os dois que emborcavam tinto e cerveja numa das duas esplanadas portuguesas que sobram ali na rua (há mais três que são já… exóticas, digamos — Portugal vai em perda acelerada, mas há quem goste; quem se empenhe nisso mesmo…), aqueles dois que compunham a païsagem ou até mesmo as Tânias por Amélias, eram fauna nacional e, apetece dizê-lo, embora no caso não seja de gabar o gôsto, o que é (era) nacional é (era, ainda) bom. Se não bom, melhor que a merda que se pôs entretanto.
A merda dêsses que asseveram que a nossa cultura é uma grande merda. É mesmo! Está-lhe no esgar.

Maria Escaja, deputada municipal do Bloco de Esquerda, in «A cultura portuguesa &c.», Dia de Reflexão, T.S.F., 6/II/2025.
Caixote à moda do Porto
Eléctrico 370, Praça da Liberdade (Porto), 1967.
A. n/ id, in Col. da Portimagem.
sexta-feira, 10 de abril de 2026
quinta-feira, 9 de abril de 2026
Fado da saüdade
Precisava lavar a alma. Esta alma que não sobra em nada, nadinha do que vejo ao meu redor. E espalhá-la por aí ao vento a ver se pegava…
Vai a gente na rua e só ouve algaraviada ou língua de trapos. Abre-se a janela do saguão e até dali, lá de fora, saltam pelo ar guinchos de odaliscas como em meneios de ventre a encher este vácuo em que se Portugal esfumou.
Não me faltava mais nada! Cercado na rua, sitiado em casa.
Portugal acabou mesmo. Mesmo! Até a sua saüdade se nos apaga sem chama num definhar sem sentido. Sobra aí suspiro dalgum fado velhinho que me valha nem que seja um fio de saüdade da alma portuguesa? Ao menos aqui no saguão, por entre uma sardinheira, que o país, irremediadamente, está perdido. Um fado velhinho. Só para me lavar um pouco esta minh' alma de português que se me não despega.
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Amália — Fado da Saüdade (Frederico de Freitas, José Galhardo) |
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Eu canto o fado p'ra mim Ai, minha dôr Eu canto o fado p'ra mim O mais feliz é o teu, tenho a certeza |
Caixote n.º de frota 907 (espécie de almanjarra)
Na gíria dos alfacinhas, almanjarra designava popularmente os carros eléctricos grandes, de dois trucks (*). Parece que é termo oriundo do árabe e quere dizer pau, trave ou barrote. Por deriva semântica deu em usar-se para designar pessoa ou coisa grande, desmedida e mal ajeitada. Deram-no, pois, os alfacinhas por alcunha no início do séc. XX aos gandes carros eléctricos que apareceram a ranger nas calhas da capital.
O 907 aqui na imagem tinha uma dessas plataformas grandes das almanjarras, mas não deve ter sido alguma vez chamado tal. É um carro moderno, de 1947, do tipo rectilíneo dos que ficaram antes conhecidos por caixotes, justamente por causa dessa forma quadrangular que tinham. São ele tudo alcunhas que se vão sucedendo na voz da gente Coisa típica não só de alfacinhas.
Eléctrico «caixote» 907, Rua Bernardino Costa, c. 1970.
A. n/ id, in Col. da Portimagem.
(*) Dizia-se truque na gíria da Carris; bogie na do Metropolitano — em português é zorra.

