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quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Conde, o Abade e a uretra: o Processo Civilizacional e o declínio da carcaça

« A primeira vez que o infante D. Luís foi a Castela visitar o imperador Carlos V, seu cunhado, e a imperatriz D. Isabel, sua irmã, entre os senhores e fidalgos que o acompanharam foi o conde [de Redondo] um deles, e rogou-lhe [ao infante] que não dissesse logo ao imperador quem ele era. Chegando o infante a Barcelona, onde a corte estava, foi recebido do imperador com mostras de muita alegria e contentamento. Estando ambos [o imperador e o infante] dentro em uma câmara [sala da audiência], chegou-se o conde a um canto da sala onde ficara para mijar e um tudesco da guarda repreendeu-lho áspero; e o conde, tomando a porta da câmara, depois que chegou aonde o imperador estava, disse-lhe:
«  — Senhor, mande-me Vossa Majestade dar em seus reinos um lugar seguro onde mije [...] »

Ditos Portugueses Dignos de Memória: História íntima do século XVI anotada e comentada por José H. Saraiva, 3ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997, 284 (p. 89).

 Norbert Elias explica-nos na sua obra «O Processo Civilizacional» como as funções naturais do corpo eram tratadas com uma naturalidade singela na Idade Média e no início do Renascimento e como foram sendo progressivamente empurradas para os bastidores da vida social, cobertas por camadas de pudor, vergonha e ocultadas pelas normas da etiqueta.

 O conde de Redondo nesta história, em plena Barcelona e numa antecâmara do imperador Carlos V, afasta-se simplesmente para um canto da sala para aliviar a bexiga. Para este nosso fidalgo português de cepa antiga, nada mais natural.

 O guarda tudesco do palácio, provàvelmente já imbuído duma nova sensibilidade palaciana ou instruído numa disciplina de côrte mais rígida, repreende-o com aspereza. A resposta do conde compõe-se de altivez fidalga: achando-se ante o imperdador, exige-lhe «um lugar seguro onde mije» nos seus reinos (o trocadilho aqui é meu e, propositado).

 O aperto dum fidalgo português no séc. XVI estava acima de qualquer nova etiqueta cortesã sobre onde ou quando se podia mijar. Se não fosse fidalgo e só português era igual, sendo a coisa atávica ou recrudescente em velhos portugueses. Ou nos novos… 

 No caso, o conde de Redondo resolveu-o fazendo dele um assunto de Estado de ante o homem mais poderoso do mundo: o imperador Carlos V. 

 Há uma certa beleza nisto (salvo seja). À falta de casas de banho ou até dum canto disponível na antecâmara dos paços do imperador Carlos V, temos aqui um certo gozo em ler sobre estes gloriosos tempos em que ser impedido de mijar num canto do palácio real de Espanha resultava num acto de afirmação fidalga por um português.

 No tempo do Conde D. João Coutinho, mijar era, desde havia tempos imemoriais, um acto inevitável. Se o corpo pedia, um canto do palácio servia, como qualquer moita ou muro. Era até natural. A civilização ainda não tinha banido da vista a micção ou outras excrescências corporais. Visto daqui, à distância dos séculos, o aviso do tudesco era o início dum caminho que nos trouxe até ao degredo na latrina moderna, onde o homem luta secretamente com seus apertos…

 Não deixa a coisa no nosso tempo de ser à mesma um acto inevitável, mas civilizou-se o gesto, fechando-o entre quatro paredes de azulejo e, ao referi-lo, humanizou-se o modo, como ainda há uns 100 anos o Abade de Baçal no-lo contava com cândida sinceridade:

« Pelos anos de 1920, ou seja, aos 55 anos, principiei a sofrer da bexiga, necessidade de urinar constantemente e pouco de cada vez; atribuí à aguardente, que já bebia não só de manhã mas pelo dia acima, embora pouca, e depois de comer. Deixei-a completamente e hoje nem vê-la. 
  […] 
« Aos 71 ½ anos deixei de ter força para expelir a urina e agora cai só pela força da gravidade, de maneira que, se não me escanchar, mijo nas calças e nos sapatos.»

(Francisco Manuel Alves (Abade de Baçal), Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, Tomo I, C.M. Bragança / I.P.M. — Museu do Abade de Baçal, Bragança, 2000, pp. XIV, XVI)

 Um testemunho comovente.

 O Abade de Baçal, uma das mentes mais brilhantes da nossa etnografia e história regional, deixou registada a sua própria «miséria» com a mesma concisão e honestidade com que catalogava os castros, as lendas e as tradições do Nordeste Transmontano.

 Aos 55 anos, perante a urgência e a frequência urinária — os clássicos sintomas de irritação provocados pelo início do crescimento da próstata —, o Abade faz o diagnóstico típico do seu tempo: a culpa era do «mata-bicho», a aguardente que bebia pela manhã e após as refeições.

 Cortou por isso o álcool. Lá haveria de saber o nosso sábio Transmontano, creio, que embora a aguardente irrite a bexiga, a causa era a marcha do tempo a fazer definhar a carcaça do homem. A p.d.i., dizemos hoje. A abstémia não travou o curso natural da anatomia.

 Aos 71 anos e meio o Abade descreve-nos esta fase de falência da carcaça humana. A solução de «escanchar-se» para não mijar para os pés nem para os sapatos é o reverso da altivez do Conde de Redondo. Se o Conde fez do urinar um acto de orgulho político ante o rei de Castela, imperador da Alemanha, o Abade de Baçal reduziu o problema à mera hidráulica dos fluidos e à geometria das posturas domésticas, sem pejo de apoucar a dignidade da batina.

 O Abade de Baçal mostra-nos que o ir vivendo se faz disto: adaptar a postura, aproveitar a gravidade e continuar a repetir uma velha história, mesmo quando o corpo teima em falhar. Se um dos maiores sábios de Trás-os-Montes teve de escanchar-se para vencer a próstata, estamos todos em excelente companhia nesta comédia humana.

 Eis, por fim, o paradoxo deste excurso: enquanto o rumo ascendente da civilização cantado por Elias caminha na direcção oposta ao inevitável definhamento biológico do indivíduo, a modernidade tardia (o hoje, em que os amanhãs cantam) engendra o seu mais irónico corolário. Cumprido o ciclo, o pretenso progresso revela-se um regresso; a civilização, senil e cansada, atinge pelas esquinas mijadas da nossa cidade e pelos vestígios de fezes humanas entre os automóveis estacionados, ela própria, o seu «estado da próstata». Nas nossas metrópoles contemporâneas, o espaço público degrada-se num estádio primevo onde a populaça volta a cagar na rua e a mijar pelos cantos, mas sem a altiva soberania do Conde, já; e por mais que a próstata atrofie o homem moderno, o que hoje flui entre os muros das cidades não é o brio da fidalguia, mas o mero esvaziamento duma sociedade que, ao perder o pudor, perdeu também a dignidade de saber escanchar-se. Vai de cócoras, até se prostrar de cu para o ar…


Nota: neste texto recorri à muleta do modelo de linguagem Gemini nalgumas passagens que, necessàriamente, revi e adaptei; isto dito, o borrão inicial, a composição das ideias e os exemplos do Conde de Redondo e do Abade de Baçal são fruto da minha cabeça. Como o recurso a ferramentas de modelação de linguagem me parece estar a tornar-se um hábito generalizado em numerosos textos que leio, achei que era pertinente dar esta nota ao leitor.

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