Há uma sardinheira ali atrás que volta não volta «canta» o fado. É só quando do saguão mais ao lado ressoam trinados dalgum faquir ou qualquer guinchadeira de espécie exótica do género, mais própria de meneios de ventre para lá de Goa do que coisa que inspire Lisboa. Realmente, não podia ser. E calha bem assim: guitarras de fado e a voz da Amália a ressoar duma sardinheira a alma do lugar. É bonito. É Lisboa. Alguém concebe um autêntico saguão alfacinha donde brotem acordes mais próprios de dança do ventre? Claro que não. Vade retro!
Amália — Sardinheiras
(Linhares Barbosa, Fernando de Freitas)
Um dia ele seguiu-me
Da água onde eu morava
Cumprimentou-me, fugiu-me
E a outro dia lá estava
Atirei-lhe da trapeira
Da minha água furtada
Uma rubra sardinheira
Que se tornou mais corada
Depois, nunca mais o vi
Nem do seu olhar a chama
Passou tempo e descobri
Que ele morava na Alfama
Uma noite, sem pensar
Pus o meu xaile e o meu lenço
E fui atrás desse olhar
Que deixara o meu suspenso
Hoje moro onde ele mora
Hoje durmo onde ele dorme
E há Sol por dentro e por fora
Da minha alegria enorme