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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Desinteligência artificial













Talvez devesse antes juntar-me ao Miguelito…

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Da «música» que me andam a dar

O canal chamado «Música Portuguesa a Gostar dela Própria»  [publica] um vídeo de música indiana no Instagram

 A malta de esquerda e não só é dada a projectos. Dantes as coisas faziam-se; agora qualquer coisa que se faça ou não faça é um projecto. 
 Parece científico?

 A «Música Portuguesa a Gostar Dela Própria» é, por conseguinte um projecto, artístico, pessoal, particular (ou privado como só se agora diz) dum tal Tiago Pereira. Mas de interesse público, parece.
 Será?

 As gravações no terreno, do projecto artístico com o mesmo nome fundado em 2011, e que visa criar uma consciencialização para o conhecimento e importância de um património vivo e muitas vezes esquecido de tradição oral, cantigas, romances, contos, práticas sacro-profanas, músicas, danças e também gastronomia. Uma incursão profunda sobre as nossas raízes, a tradição oral e a memória colectiva.»

 Aí está: consciencialização para &c. &c. &c. — Consciencialização!… — Não é dar simplesmente a conhecer as coisas que enumera e que, diz bem, são as nossas raízes, tradição e memória colectiva. Coisas concretas. 
 Não. É antes de mais e primeiro que tudo criar uma ideia nos bestuntos da gente: consciencialização. 
 Doutrinar, bem entendido.
 E bem o é…
 O propósito é, pois,  prolixo na linguagem, e doutrinário na substância; cai no âmbito das Artes e Cultura, no caso etnográfica, o que é bonito, mas da incursão profunda sobre as nossas raízes já se está a ver o que se escava.
 Como quási todos os projectos de Artes e Cultura, também este é fraco para produzir proventos só por si. É pouco sustentável, como se diz agora. De maneira que… — Quem subsidia tão meritório quanto falido capricho ao Tiago?
 A pregunta é mera retórica. A resposta subentende-se do excerto e da exegese levada agora a cabo nas linhas acima. Aflorará fácil a qualquer mente inquiridora que destraìdamente se ainda disponha a preguntar.
 A «Música Portuguesa a Gostar Dela Própria» tem (ou tinha; não sei se se mantém em 2026) rubrica de segunda a sexta no canal do antigo Programa 2 da Emissora Nacional. O excerto que descreve o projecto, tirei-o de . Portanto, é como venho dizendo…
 A rubrica na Antena 2 (pego agora aqui pelas antenas a esta emissora nacional) funciona, porém, como uma prestação de serviços ou colaboração de autor. A R.T.P. paga (ou pagava) pelo conteúdo radiofónico do programa diário, mas não financia directamente viagens, filmagens de campo ou o trabalho de arquivo de vídeo. O mesmo sucedeu com o Canal 180, que apenas transmitia o material já produzido. O Canal 180, diga-se, também sorve no erário (SCRI.PT ou apoios do ICA), embora seja entidade privada. Subsídios, subvenções ou incentivos, há que chegue para todos; preciso é saber minerar…
 Isto foi, pelo menos, o que espremi da inteligência coisa. Não no garanto mais que isto. Se estiver errado, por favor corrijam-mo.
 O projecto da «Música Portuguesa a Gostar Dela Própria, além disto, diz que vive de protocolos com autarquias que são o seu principal sustento. Muitas câmaras municipais e juntas de freguesia pagam e têm pago ao Tiago Pereira para que registe e recolha no seu território as tradições e o património etnográfico local.
 A somar há o apoio da Direcção-Geral das Artes. A Associação da «Música Portuguesa a Gostar Dela Própria» candidata-se e recebe subsídios da Direcção-Geral das Artes para projectos específicos de recolha ou para a manutenção do arquivo.
 Diz também que nos primeiros anos o projecto dependeu fortemente de financiamento colectivo (empresas?) e doações de particulares que acreditavam na missão de registar o património oral. Do que se viu ao depois e vem já mais ou menos dito acima, escavou bem na mina; percebe-se  o alcance da incursão profunda sobre as nossas raízes?!…
 Neste ano de 26 o projecto fez uma parceria com o jornal digital «Mensagem de Lisboa». Por ela obteve apoio para séries específicas (como a que deu origem ao recorte), focando-se na «identidade sonora» dos bairros da cidade, o que inclui a música dos estrangeiros das comunidades imigrantes radicadas nesses bairros
 Ora bem! Ainda ontem estes imigrantes chegaram à cidade com a sua algaraviada de vozes e falares e parece que firmaram já uma «identidade sonora» dos bairros que tomaram em Lisboa, a ponto de jorrarem num projecto de incursão profunda sobre as nossas raízes, tradição oral e memória colectiva.
 Estranho fenómeno!
 Para o Tiago Pereira a tese da «Música Portuguesa…» passa agora por ser: se alguém vive em Portugal e canta para aí a sua música, ela faz parte da païsagem sonora do país. 
 Por mais que desafine.
 E desafina. Oh, se desafina!…
 É música «portuguesa» por jus solis. Como parida do chão. Duma profundeza com raiz nos antípodas, como certas paridelas que se agora vão vendo acontecer…
 Pois, mas de ser isto música portuguesa é… darem-me «música»!…
 E se andamos numa de dar «música», português também será qualquer cão que nasça no canil municipal ou vadie pela rua sem coleira (ele agora é mais chip; havemos de lá chegar…). E antes que venham cá com o excesso da comparação, não andam já os cãezinhos de família em vias de quási obter estatuto de cidadão?!… É ver o que se diz; como se fala… Até se adoptam, como as crianças!… Baseia-se tudo isto numa seriíssima manifestação de vontade, pois, não brinquemos!…

 Por conseguinte, quanto à música desses imigrantes ser já portuguesa, a vontade é a mesma. Mas, na verdade, sê-lo-á só na qualidade da música portuguesa a fazer pouco dela própria. E dos portugueses.
 E é isto o que anda a fazer o Tiago Pereira. Não é  projecto, é dejecto. E à conta.
 O Tiago faz uso desses imigrantes. Vale-se do argumento descabido e falaz da continuidade da tradição oral (a música que viaja com as pessoas), pouco lhe importando já que seja cante alentejano ou estalidos de bosquímanos.
 Que continuidade há do vira e do malhão nisto que ele propõe, senão a substituição do povo que canta (lema original do projecto) pelo povo transumante de ontem à tarde a cantar já hoje os amanhãs do Tiago?
 Só se for a continuidade do soma e segue, pois, se qualquer povo serve, que se vá o projecto; venha é o subsídio!…
 Renegue-se lá a pátria, espezinhe-se a tradição do povo que canta e a quem se só cìnicamente estima. O caso é que para a subvenção qualquer povo serve. E imigrantes é o que está a dar. A pátria é chão que deu uvas e a rua ao virar da esquina nem precisa de ser calçada à portuguesa. E enterre-se finalmente a essência do próprio projecto sob a carranca dessas supremas virtudes do paganismo (de sermos nós, os portugueses a pagar a nossa extinção) em vigor: a «integração» e a «inclusão».
 Inclusão e integração era entrarem os imigrantes na roda do corridinho, dançarem o fandango daqui para fora por não saberem nem quererem saber cantar a chula e o malhão.
 O Tiago Pereira que se vá pondo a jeito mas é de cu para o ar aí pelos bairros da «identidade sonora». E não se preocupe ele muito em orientar-se para Meca. Para se lhe assentar um biqueiro nos glúteos, qualquer sítio para onde esteja virado serve.

domingo, 10 de maio de 2026

Fotografia estragada pela inteligência artificial

 Há muitas, agora, mas os crentes crêem que ficam melhores.

Monumento a Rosa Araújo
Monumento a Rosa Araújo, esquina das ruas Rosa Araújo e Mouzinho da Silveira, Lisboa, [1936-1940].
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.

sábado, 9 de maio de 2026

Do clima amalucado

 Chuva em Maio. Em Maio, dizem — disseram-me há pouco ao telefone —, era para estar mais calor. Esta chuva fora de época, são as alterações climáticas.
 Dizem. Vão dizendo. E a gente convence-se. 
 É verdade!
 Também já esta manhã me diziam deste tempo, que anda mudado. — Pois! Uma chuvada daquelas esta madrugada…
 No lugar do Roja Pé, vi notícia com uma fotografia a mostrá-lo, da estrada das Açoteias alagada.
 Pois é! É o clima meio marado (ou marafado, no caso); com as alterações climáticas… E que são os homens que as fazem…
 Dantes era diferente. Os homens não conseguiam acabar com o mundo. Agora só não conseguem acabar de andar à guerra…
 E realmente, em 2020, exactamente neste dia, 9 de Maio, já se bem viam as alterações climáticas; e já elas de inspiração humana, claro. Como a pandemia daquele ano, outro apocalipse da inspiração dos homens (inspiração era bem o caso, em mais dum sentido)…
 E não é que assim foi? Choveu. Era Maio e choveu. Exactamente neste dia, 9 de Maio. Aqui está a prova [amachucada].


Algarve, Portugal — 2020

Pinhal do concelho, Albufeira, 9/V/2020.

Portugal e o futuro

 Diz que o maçon do Attenburgo fez 100 anos. Pois cá vai uma locuçãozinha sobre a nova fauna do sítio meia ao estilo dele:

 Os pastores do gado humano como um todo procedem afanosamente à transumância para estas terras duma raça velha de chibos de barbicha rala como bodes. Os machos desta espécie vestem saiotes quando vão solenemente de chinelos à missa. Às fêmeas da espécie, arreiam-nas eles como trouxas à moda de sacas de batatas.

 Dizem os pastores desta transumância aos naturais da terra, com a gravidade dum juiz do Tribunal Constitucional, que, em esta espécie de bodes com trouxas atrás se tornando portuguesa por despacho administrativo, não poderá nunca, por nada, deixar de o ser.

 Eis Portugal e o futuro.


S. Jorge de Arroios, Lisboa — A.D. MMXXVI.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Já se não fazem escolas assim…

Edifício associado «há» cultura de Coimbra, «Arquite[c]tura Tradicional e Urbanismo [em] Portugal, Livro das Fuças 5/V/26; 

Grande e histórico edifício [de 1907] associado [sic] cultura de… [2026], Portugal, MMXXVI. 
Arquitectura Tradicional e Urbanismo [em] Portugal, in Livro das Fuças.

sábado, 2 de maio de 2026

Do que está e do que se mantém (Rua Pinheiro Chagas, 27)

Rua Pinheiro Chagas 27-35; Filipe Folque, 51, Lisboa. A, n/ id. A.N.T.T., E.P. do jornal «O Século», Álbuns Gerais, n.º 9, doc. 658C.
Casa da Rua Pinheiro Chagas onde foi preso o comité revolucionário, Lisboa, 1928.
A. n/ id., A.N.T.T., Emp. Pública do Jornal «O Século», Álbuns Gerais, n.º 9, doc. 658C.



 A casa da Rua Pinheiro Chagas onde foi preso o «comité» revolucionário em 2 de Maio de 1928. Ainda lá está, acrescentada de dois andares. Perdeu os frontões e aquele lanternim envidraçado. Mas ainda lá está, com sua fachada primitiva ao nível da rua e o seu logradouro gradeado em ferro.

 Às vezes interrogo-me se esta permanência de gaioleiros, assim, tão a jeito de demolição pelo progresso, não terá que ver com acontecimentos do género libertador de oprimidos, por libertadores autoproclamados e muito, muito bentos da água baptismal da liberdade. Pobres dos povos a quem toca esta benfazeja desopressão… Nem eram nada sem esta gente libertadora autoproclamada e proclamante da liberdade. O caso é que só calha a povos que já antes eram povos por si, com património identitário, cultural e material próprio. Como terão surgido, formado a sua cultura e ganho identidade antes de haverem a liberdade que os desopressores trazem para lhe dar é um mistério.

 Ou bem isto ou, porque nesta história de as casas — no caso um prédio, como exemplo —, o património, enfim, se manter e se até ampliar anda ligado ao ter em geral; à posse. O caso mesmo é que, de ter bens e de haver de lhe manter livremente a posse há uma imperiosa necessidade de, cá está, liberdade. Liberdade de os ter, antes que alguém que queira, possa e mande mais se arrogue a liberdade de os tomar. Daqui esta coisa da bonita liberdade andar sempre ligada ao quero, posso e mando sem se dar por ela. Não vá vir aí um que tolha de todo a posse. Posse, do verbo poder…

 Divagações à parte, a dúvida que me surge de se este prédio com esta história revolucionária manter até hoje sem ter ido a baixo é se tem alguma coisa de trás, como o poder que ainda hoje irmana conjurados de loja ou de «comité» como os de 1928.


«Prisão do «comité» revolucionario que se encontrava reunido numa casa particular», (Diario de Lisboa, 2-5-928, p. 8)