OS SANTOS DE DEZEMBRO (cont.)
« Cinco dias depois chega a festa de Santa Luzia, que tem muitos devotos em todas as classes sociaes.
Este dia já foi uma vez triste em Portugal, pela morte de el-rei D. Manuel, que falleceu a 13 de dezembro de 1521.
Lá diz Gil Vicente n' um «romance»:Pranto fazem em Lisboa,
Dia de Santa Luzia,
Por El-rei D. Manoel,
Que se finou n' esse dia.Ainda hoje o sino de S. Roque dobra choroso para commemorar a morte de D. Manuel, annunciando exequias solemnes por alma do venturoso monarcha em cujo reinado a rainha D. Leonor, viuva de D. João II, instituiu a Misericordia.
Fóra das circumvisinhanças de S. Roque, longe do alcance do sino, ninguem se lembra da morte de D. Manoel, e todos ou muitos se lembram sempre de Santa Luzia, que é advogada milagrosa contra as molestias dos olhos.
Conta-se de um preto que só ia á egreja em dia de S. Braz, importando-se pouco com todos os outros santos ou santas da côrte celeste.
E a logica do preto era esta:
Santo Ovidio protege os enfermos dos ouvidos, mas se um ouvido se tapar, ainda fica o outro; Santa Luzia protege os doentes dos olhos, mas se um olho cega, fica o outro ainda; Santa Apolonia livra de dôres de dentes, mas se um dente se cariar, ainda ficam muitos; S. Braz livra de molestias de garganta, mas se a garganta se tapar, não ha mais por onde engulir os bons bocados e a boa cachaça.
Os brancos seguem outra lógica menos preta, e téem razão, sobretudo os devotos de Santa Luiza [sic], porque a cegueira é uma horrivel enfermidade que entenebrece a alma de quem a soffre.
Lembro-me muito bem da festa de Santa Luzia n'aquella religiosa cidade onde fui educado.
Minha mãe levava-me sempre á Sé no dia 13 de dezembro, porque ahi era venerada a imagem de Santa Luzia que inspirava a maior devoção aos bons portuenses.
Pelo caminho encontravamos muitas creanças, pois rara é aquella que não tem soffrido de ophtalmia.
Tambem encontravamos velhinhos, quasi cegos, arrimados ao braço de um neto ou de um filho, caminhando para a Sé a passos tardos, na esperança de que Santa Luzia se dignasse conservar-lhes o ultimo raio de luz que lhes alegrava ainda os olhos tristes…
E com que fé, com que uncção religiosa rezavam, em joelhos, os pobres céguinhos, de mãos postas, cabeça erguida, cara no ar, como procurando na abobada do templo a esperança divina que desce do alto a acudir ás miserias terrenas!
Uma legião de mendigos rodeava o edificio da Sé clamando aos transeuntes:
— Santa Luzia milagrosa, lhe dê vistinha e claridade.
Eu, n' esse tempo, não gostava muito d' este clamor dos mendigos, porque me fazia lembrar uma phrase ironica do meu professor de instrucção primaria.
O bom do velho chamava á férula ou palmatoria — Santa Luzia milagrosa. E todos os outros professores, em todas as outras escolas lhe chamavam assim.
Era a linguagem do tempo, e não sei se ainda é hoje.
A férula tem realmente cinco olhos e não admira que quem tanto vê possa dar vista e claridade aos cerebros escuros…
Por causa de uma syllabada ou de um erro de syntaxe, a Santa Luzia milagrosa descia da parede onde estava pendurada, e cahia em cheio sobre a palma da mão direita de cada alumno, quando não era tambem sobre a esquerda, e alternadamente sobre a esquerda e a direita.
Os mais agradecidos devotos de Santa Luzia — a authentica Santa Luzia dos templos, muito mais compassiva que a das escolas — levavam-lhe offerendas de olhos de prata e de ouro, que depunham sobre o altar por memoria de algum milagre obtido, de alguma cura realizada.
Vejo que a devoção dos portuenses por Santa Luzia não tem soffrido quebra, e ainda bem, porque um povo sem fé é um povo morto, e, na minha opinião, peior que morto — despresivel.
Fui procurar ao Primeiro de Janeiro alguma noticia que fallasse da festa de Santa Luzia, e encontrei […] »Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 121-124.
terça-feira, 12 de dezembro de 2023
Cinco dias depois chega a festa de Santa Luzia
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