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sábado, 23 de dezembro de 2023

O Natal

Panorama: Revista Portuguesa de Arte e Turismo, n.º 18 (número de Natal e Ano Novo), 1943


 



O NATAL


« Só uma vez por anno, em Lisboa, me parece alegre e linda a voz dos sinos.
  E´ na noite de Natal.
 Alexandre Herculano achava que os sinos nas torres das cidades eram uma cousa estupida e mesquinha. Creio que disse a verdade. Nos grandes centros de população a voz do sino é um pregão como qualquer outro. Não commove e chega até a incommodar. Não se dá mais importancia a um repique do que a uma cantiga de cegos, nem mais attenção a um dobre do que ao estrondo das carretas de artilharia que passam na rua.
  Mas, na noite de Natal, quando o sino annuncia  festivamente a missa do gallo, toda a gente o ouve e a todos a sua voz alegra. Chega a comprehender-se então a doce poesia religiosa que Chateubriand descobriu nos sinos, e todo o profundo drama humano que se observa na famosa canção de Schiller: Das lied von der glocke.
  Que revolto enxame de recordações, suaves e pungentes, de fugitivas saudades de uma «patria perdida» não parecem descer n' essa noite do alto dos campanarios e cair sobre a nossa alma envolvendo-a e banhando-a!
  O sino, que no resto do anno não nos diz nada que nos impressione, e que só nos repete o que já os jornaes disseram, tem n' essa noite uma singular eloquencia e uma estranha expressão, conta-nos a historia da nossa vida passada, a biographia de Jesus e a nossa propria biographia, fala-nos da nossa aldeia, da nossa familia, reconstitue-nos o tempo longinquo que fugiu e não mais voltará.
  Ah! n' essa noite a voz dos sinos é alegre e linda como em nenhuma outra noite do anno.
  Eu quero decencia e respeito nos templos; por isso desejo que sejam bem policiados.
  Até já o tinha dito n' este mesmo livro.
  Mas se a missa do gallo fôr supprimida em Lisboa, ficará desfalcada a poesia do christianismo; — o que restará do Natal, se tirarem o pretexto que os sinos téem para repicar à meia noite? O que ficará do Natal! apenas a comezaina e as boas-festas. E´ tão pouco! sobre tudo quando as boas-festas tendem a desaparecer a troco de cinco tostões por cabeça! O que ficará do Natal! talvez apenas o perú. E´ tão pouco!
  Nas provincias, onde o sino, segundo a expressão de Herculano, é uma coisa poetica e santa, não faria grande falta o deixar de ouvil-o na noite de Natal, porque tudo canta e repica n' essa noite, cantam os corações e as vozes de toda a gente, repicam os ferrinhos, as flautas e tambores.
  Não são só os rapazes da rua que andam por portas dando boas-festas em cantigas e lôas; mas tambem as familias gradas, que umas ás outras se cumprimentam com instrumentaes bem ensaiados, e que principiam cantando na escada e acabam dançando na sala.
  Quem não sabe como isso se passa? Uma criada vir dizer dias antes de motu proprio ou por ordem dos patrões:
  — Os senhores sejam prevenidos, porque certas pessoas da sua amizade tencionam vir cantar-lhe as janeiras.
  — Sim? Quem são?
  — Eu digo tudo, mas não me compromettam:
  — Ora essa!
  — São as meninas lá de casa, são as filhas do juiz, é a mulher do delegado, a sobrinha do recebedor, os pequenos do escrivão da fazenda. E´ muita gente. Mas os senhores façam-se desentendidos para me não comprometterem…
  — Esteja certa; descanse.
  Trata-se logo de preparar ceia opipara — para isso foi talvez que veio o aviso — de tirar do guarda-loiça os crystaes e as pratas,  e de limpar o pó ás cadeira da sala de visitas.
  Está tudo a postos, mas ha o cuidado de ter as janellas fechadas para fingir que se não espera ninguem.
  Na noite marcada, rompe, de repente, á porta da rua a cantata promettida; vozes afinadas, de senhoras e homens, entoam primeiro as janeiras e depois as cantigas allusivas aos donos da casa:


Viva a D. Mariquinhas,
Raminho de perfeição.
Se ha de pôr os pés na rua,
Ponha-os no meu coração.


Viva o sr. Agapito
E os seus meninos tambem.
Recebam as boas-festas
De quem lhes quer muito bem.


  A este tempo já estão na escada, com luzes na mão, todas as pessoas da casa. Acabada a cantoria, os janeireiros entram e sobem.
  Começa-se logo a dançar e, pela meia-noite, dão todos fundo na mesa da ceia, que resplandece de lumes, iguarias e loiças finas.
  Em Lisboa tambem houve em outro tempo o costume de cantar as janeiras. Nos autos de Gil Vicente, Chiado e Antonio Prestes encontram-se frequentes allusões aos janeireiros. Se não estou em erro — porque escrevo de memoria — este costume foi abolido no tempo de D. João I:
  Lá está o bom Fernam Lopes para tira-teimas.
  A provincia, especialmente o norte do paiz, conserva intacto o thesouro das suas tradições do Natal. O perú do sul não destronou ainda o bacalhau do norte, que é portuguez e gallego, como revella uma das trovas do anno novo na Gallisa.


Déanol'o aguinaldo,
anque sea pouco,
un bon bacalao
e mais meta d' outro.


  O silencio das ruas de Lisboa no Natal — silencio que seria completo sem os repiques da meia-noite — não invadiu ainda as ruas das cidades do norte do paiz.
  Tenho á mão o Jornal de Noticias, do Porto, com a seguinte informação de 1896:
  « Pela cidade andaram hontem durante o dia diversos fungagás celebrando a despedida do anno, ás portas dos abonados da fortuna, e á noite innumeras tocatas populares fizeram por ahi farta colheita de donativos em generos e em dinheiro — o imposto das janeiras.
  […]
  Outra resistente tradição de Natal da provincia é o Presepe armado em cada casa. Este costume não só é hoje ainda conservado no continente, mas tambem no Funchal. O Commercio da Madeira, de 25 de Dezembro de 1896, publica, sobre o assumpto, as seguntes linhas, que não resisto a transcrever:
  « Os presepes ou lapinhas como se diz entre nós mais vulgarmente, tendo constituido esta semana a preoccupação das almas abertas a todas as expansões das doces alegrias domesticas, obrigaram todo o Funchal a vir hoje para a rua comprar as suas a ornamentações.
  « E o caso é que se comprou um mundo de cousas para enfeitar o presepe do menino Jesus.
  « Que animação e que alegria tanto em quem vendia com usura como em quem pagava sem olhar a preços!
  « Olhar a preços! era o que faltava agora! O que se quer é possuir um presepe fresco e lindo como os amores para mostrar aos visinhos. — Que em tudo ha de a vaidade metter o nariz

  Lisboa adoptou, nos ultimos annos, a arvore do Natal, que não é portugueza, nem tem a poesia religiosa do Presepe.
  Jesus deitado nas palhinhas, com S. José e Nossa Senhora de joelhos a velal-o, os pastores simplices, que lhe trazem as suas offerendas rusticas, a cavalgada dos trez Reis Magos que véem apresentar-lhe o ouro, o incenso e a myrrha symbolicos, constituem por si sós um espectaculo educativo, uma lição e um exemplo.
  A arvore do Natal, ao contrario, não ensina senão uma coisa que não é preciso ensinar ás creanças: o amor pelos bonecos.
  Não ha que ver! O Natal de Lisboa seria incolor e incaracteristico, um brodio de perú assado e uma troca de bilhetes de visita, se os sinos, á meia noite, se não encarregassem de cantar festivamente no alto dos campanarios lançando sobre a cidade repiques estridulos, ondas sonoras que vão rolando ao longo das ruas e penetrando no interior das casas.
  Por isso eu, em todo o anno, não acho nunca tão alegre e linda a voz dos sinos como na noite de Natal.
»


Alberto Pimentel, Espelho de Portuguezes, v. II, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1901. pp. 128-134.


 



Illustração Portugueza, 2.ª série, nº 96, 23/XII/1907, in Hemerotheca Municipal.




Panorama: Revista Portuguesa de Arte e Turismo, Ano 3, N.º 18 (número de Natal e Ano Novo), 1943. Capa: Tríptico de Paulo Ferreira.
Illustração Portugueza, 2.ª Série, N.º 96, 23 de Dezembro de 1907. Capa: Adoração dos Pastores, Guilherme Bouguereau, 1881-1884.
I
n Hemerotheca Municipal de Lisboa.

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