Dittos Portuguezes Dignos de memoria. Nam tem este Livro nome de Author, mas, pello q[ue] delle se colhe existia no tempo de El Rey Dom João o 3.º, e de El Rey Dom Sebastião seu netto, [1601-1650]. B.N.L., Man. Res., Cod-666, p. 254.
Nos «Ditos Portugueses Dignos de Memória», em que transcrevi umas trovas de Camões improvisadas a um certo Lourenço Vaz Pegado, remete-nos nas notas o prof. Hermano Saraiva para a «Vida Ignorada de Camões», para entender o sentido do improviso e o possível trocadilho que o dito contém.
Releio o passo na «Vida Ignorada de Camões» (2.ª ed., Europa-América, Mem Martins, 1979, p. 276). Traslado-o outra vez aqui, agora com a ortografia com que ali vem que, presumo seja a autêntica do manuscrito do séc. XVII:
« Conuidando hum fidalgo chamado Eitor da Sylu.ra hum dia a jantar certos amigos e, entre elles a Luiz de Camoens, depois q comeram, lançarão se quatro delles sobre dous catres que som.te havia na caza. E hum dos conuidados, a quem chamavão Lourenço Vas pegado, sentouse no canto de hũa janella; e Eitor da Sylu.ra, tomando a taboa da meza e atravessando a sobre duas cadeiras de espaldas, e lançando lhe hum pano de graam por cima, rogou lhe q se encostasse ali. E elle recuzando o fezlhe Luiz de Camoens de repente esta troua:
Para homem tam honrado
fazem uos mui pouca festa,
mas se eres auizado,
nunca em taboa como esta
tu Lourenço Vaz pegado.»
O prof. H. Saraiva comenta-a em seguida simplesmente assim:
« Que lhe recordaria [a Camões] a tábua atravessada sobre as cadeiras de espaldar?» (op. cit., p. 277).
É um corolário. Entende-se lendo atrás:
« A tortura normalmente usada na instrução judiciária era o trato da polé. O preso era estendido numa tábua e amarrado a cordas que eram esticadas por uma polé; a cada movimento desta chamava-se trato e o tormento podia ser de trato, trato e meio e dois tratos […]
Em geral a polé não matava, sobretudo se o preso era jovem. Mas deixava vestígios para a vida inteira. Os ossos desengonçavam-se, os ligamentos musculares rompiam-se e, com os anos surgiam artroses, deformidades ósseas, insensibilidade de tecidos. Eram os movimentos dos membros inferiores que ficavam mais afectados, porque eram eles os que a tracção da polé mais desconjuntava. A marcha tornava-se penosa e, com a meia-idade, podia ter de ser auxiliada com muletas.
Ora há mais de um passo da lírica que indica que Camões foi sujeito ao tormento.[…] antes que a dor prive
de todo meus sentidos
ao grande tormento
acode o entendimento.[…]
Faria e Sousa faz-se eco do que se dizia nos últimos anos da vida do Poeta: movia-se com dificuldade e precisava de se ajudar com uma muleta. Essa diminuição pode explicar muitos dos factos que têm causado estranheza aos biógrafos. Porque não aparece o nome de Camões referido nas Décadas de Couto a propósito de nenhum feito militar, ou mesmo de qualquer serviço? A inclusão do nome na crónica era apetecida, dava jus a recompensa, e não há dúvida de que Couto foi amigo de Camões; se o não menciona, foi porque não encontrou o nome do amigo ligado a qualquer episódio que valesse ser narrado. Porque não embarcou Camões, em 1578, para a expedição de Alcácer Quibir, que mobilizou toda a gente que rodeava o rei e que seria o ensejo de serviços poéticos que D. Sebastião havia de recompensar lautamente? A ideia de que foi outro o poeta escolhido (Andrade Caminha ou Diogo Bernardes) não tem qualquer fundamento. Embarcou quem quis e quem pôde e faria versos quem fosse capaz de os fazer. Porque não foi tomar posse da feitoria de Chaul, o único lugar bem pago para que foi nomeado e cujo exercício definitivamente o libertaria da tristeza avorrecida? Como teve tempo, na revolta e agitada Goa em que viveu, para escrever Os Lusíadas, obra de investigação muito minuciosa nos campos da história, geografia, mitologia, astronomia, e de uma redacção apuradíssima, que revela um texto muitas vezes recopiado e aperfeiçoado? São muitos anos de trabalho sedentário, em local que estaria rodeado de crónicas, de mapas, da esfera, de dicionários, dos autores.
Podia manejar melhor a pena que a espada e era aquele o serviço que a relativa invalidez não impedia.» (pp. 273-275, passim.)
Por conseguinte: a tábua atravessada sobre as cadeiras sugeria a polé, lembrança lúgubre de tormentos sofridos por Camões e que, parece, lhe tolhiam a locomoção (mas não o espírito) numa fase tardia da vida. Com isto e com o nome do amigo, o trocadilho: nunca em tábua como esta tu, Lourenço, Vaz (vás) pegado.
(Revisto às 6 da tarde.)
![Dittos Portuguezes Dignos de memoria. Nam tem este Livro nome de Author, mas, pello q[ue] delle se colhe existia no tempo de El Rey Dom João o 3.º, e de El Rey Dom Sebastião seu netto [Manuscrito], [1601-1650]. B.N.L., Man. Res., Cod-666, p. 251.](https://live.staticflickr.com/65535/53386374133_8d7998d0fc_h.jpg)
Sobre o não ter sido em batalhas que Camões perdeu um olho, conta-se uma estória anedótica.
ResponderEliminarEstava Camões e a mãe a aquecer ao lume um panelão de sopa, quando bateram à porta.
Ó Camões deita aí um olho na sopa que vou ver quem é, disse a mãe.
Cumpts.
O Cristóvão Colombo é mais antigo. Em mocinho foi trabalhar no talho. O patrão mandava-o levar a carne às freguesas do bairro e os gaiatos lá da rua quando o viam passar com as encomendas diziam: lá vai o Cristóvão co lombo.
ResponderEliminarCumpts.