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domingo, 3 de dezembro de 2023

Duns «Contos» de Machado de Assis

Machado de Assis, «Contos», , Porto Alegre, L. & P.M.,1998.
Machado de Assis, Contos, Porto Alegre, L. & P.M.,1998.




 
 Mastiguei a ortografia da edição brasileira a contragosto, mas li os contos, apesar dessa aversão.
 Li e gostei. Não estranhei o português de Machado de Assis. É português escorreito, e por tanto, não causa estranheza a nenhum «reinol» como eu; nada de ênclises ou endorreia; só raros lhe achei salpicos de trejeitos tropicais, como p. ex. o v. «cansar» sem conjugação reflexa, no conto da «Missa do Galo». Mais um caso ou outro do género e parece-me que é tudo.
 Como se dão os brasileiros hoje em dia com tal escrita, nem imagino. Talvez achem arcaizante. Talvez não leiam e se envaideçam só dum escritor seu de nomeada… Acho bem!…
 Os contos são bons, prendem fàcilmente o leitor: os primeiros, mais consistentes; uns outros, um tanto menos, mas ainda assim…
 A edição de bolso da L. & P.M. (Porto Alegre, 1998) traz cada conto seguido duma notinha explicativa por uma autoridade «do universitário». O genuíno português do A. contrasta com os textículos explicativos de «cheiro» claramente brasileiro exalado pelas tais autoridades, a quem o idioma sai eivado das marcas do actual vergão que o português leva pelas bandas de Santa Cruz. Cheira-se aqui bem o «português» tropical… Não é já bem o português do A. nem o dos portugueses, que são um só e o mesmo; é já outra coisa a que se teima não dar nome e que até na onomástica se percebe, pois que as personagens de Machado de Assis têm nomes característicos da língua em que escreveu, como Conceição, Rita, Nogueira, Vilela, Damião, João Carneiro, Camilo, Pestana &c.; e as autoridades modernas «do universitário» que o comentam chamam-se Roger, Everson, Enilda…


 Bonito óleo na capa, de A. Q. de Monvoisin, com uma vista da Igreja da Glória e da Baía de Guanabara tomada de St.ª Teresa em 1850.

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