O benévolo leitor Paulo Nunes deixou-me há dias nota dum artigo no «Observador» sobre o valioso achado de registos paróquias da freguesia do Soccorro (Rita Ferreira, «O tesouro do Socorro que revela segredos do terramoto», in Observador, 2/XI/15). Aconselho o artigo, tem interesse, apesar do título meio sensacionalista e desgarrado (o único segredo que presumo do terramoto é o mito de que nada lhe sobreviveu, e o artigo, concretamente, fala doutras coisas).
Numas limpezas na igreja do Colèginho o padre Edgar Clara achou numa sala de arrumos esquecida os róis de confessados da freguesia de Nossa Senhora do Soccorro, do período de 1612 a 1856. O achado prometia; despertou a curiosidade de estudiosos e interesse do Município e da Torre do Tombo na sua salvaguarda, mas como nada se faz sem tempo, ficou com o Padre Edgar.
Uma nota já sobre aquela data de 1612: em 1620, segundo o cômputo da população de Lisboa de Frei Nicolau de Oliveira, a freguesia que deveio de Nossa Senhora do Soccorro era de S. Sebastião da Mouraria (cf. A. Vieira da Silva, «A população de Lisboa», in Dispersos, vol. II, 2.ª ed., C.M.L., 1985, p. 38). Não sei quando mudou o orago...
Isto mostra-me como a nossa memória da cidade é fraca — quem lê os olisipógrafos?... Houvera quem nos publicasse... — e sobretudo débil.
No relato da demanda da estudiosa Cristina Torres pela confirmação de D. Jayme de La Té y Sagáu ser freguês daquela paróquia diz-se que vivia na Rua dos Livreiros — que já não existe — do lado esquerdo.
Coisa ingrata, a incursão jornalística pela olisipografia ao fundo da notícia sem saber de mestres que a guiem: a Rua dos Livreiros existe, pois; foi há muito indicada por Gomes de Brito (Ruas de Lisboa, vol. I, p. 40) como sendo a nossa Rua do Arco da Graça.
Luiz Pastor de Macedo na Lisboa de Lés-a-Lés conta mais: a Rua do Arco da Graça deve o nome a uma imagem de Nossa Senhora posta em 1657 no postigo da muralha fernandina que a atravessava; o arco da Graça foi demolido, mas esta serventia que nos leva ainda agora directamente ao portal nobre do Hospital de São José foi conhecida do povo de Lisboa como rua dos Livreiros por se nela acharem estabelecidos muitos deles; e a razão deles ali era o colégio de Santo Antão-o-Novo, ou dos jesuítas, como lhe o povo chamava. E por ele, o colégio, o nome oficial que teve foi Rua Direita do Colégio ou simplesmente Rua do Colégio. O convento dos jesuítas deveio hospital depois da derrocada final do Hospital Real de Todos os Santos em 1755; da invocação de S. José, como o nome de el-rei...
Vingou por fim o nome do Arco da Graça. porém, esteve vai-não-vai para receber dístico toponímico de Rua do Contemporâneo, nome estranho que admirou Júlio de Castilho e lhe mereceu 4 pontos de exclamação (Lisboa Antiga. Bairros Orientais, vol. IV., 2.ª ed., p. 252).
Que era isso de Contemporâneo? — Nada mais nada menos que uma revista que foi dirigida pelo pai da actriz Ângela Pinto e que ali tinha a sua redacção.
« A redacção e as oficinas do Contemporâneo estavam instaladas numa velha casa da Rua do Arco da Graça. Tudo ali respirava demazelo misturado com miséria. O Pinto era o tipo de boémio incorrigível, levando a vida a cantar, com a cabeça povoada de sonhos e quimeras, sem que os desenganos e as desilusões conseguissem esfriar-lhe a alegria, ou desvanecer-lhe a certeza de que acabaria por triunfar no futuro. Era ao mesmo tempo um céptico e um crente, com a alma pródiga simultâneamente de cinismos e ingenuïdades. O seu lema de vida era «o não te rales», trabalhando de manhã para comer à tarde e confiando serenamente em que para o dia seguinte Deus daria.»
(Lourenço Caiola, Revivendo o passado, p. 124, apud Lisboa de Lés-a-Lés, vol. I, 3.ª ed., C.M.L., 1981, p. 140).

Rua do Arco da Graça (antiga Direita do Colégio e dos Livreiros), Lisboa, c. 1940.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.
Mais ingrata é a pouca memória da Rua da Palma. Delminda Rijo do G.E.O., estudiosa de Demografia Histórica por quem no artigo se mostra o valor dos róis de confessados para se recensear històricamente a população e se conhecer o itinerário das ruas de outrora mai-la qualidade da gente que lá morava, baralha-se todavia na Rua da Palma. Ou confunde-se, em vez, a jornalista?...
Outra rua fácil de identificar é a Rua Nova da Palma, que agora se chama apenas Rua da Palma e que desemboca na praça do Martim Moniz, que não existia. «Era Rua Nova da Palma porque tinha sido aberta recentemente, para fazer a ligação dos Anjos até aqui à Mouraria. Era uma das entradas da cidade de Lisboa».
É verdade. Foi Rua Nova até ser velha, já na 2.ª metade do séc. XIX, mas da voragem dos tempos convém não nos deixarmos levar para não incorrermos em anacronismos.
A Rua da Palma tem històricamente três troços:
- o primeiro do séc. XVI, desde trás de S. Domingos (onde acaba a Rua Barros Queirós) ao muro fernandino onde se abriu o postigo de S. Vicente à Guia (ao centro do Martim Moniz; hoje puseram lá uma espécie de monumento que jorra água);
- o segundo, de 1856, que continua o primeiro sòmente até à paroquial do Soccorro (embocadura da Rua de S. Lázaro, ou melhor, Carreirinha do Soccorro), mas que começou por ser considerado uma rua distinta chamada Rua da Imprensa — esta durou oficialmente só 11 meses e tomou-se logo por acrescento da Rua da Palma em Setembro de 1857;
- e o terceiro que prolonga o anterior ao Desterro e ao Intendente (não aos Anjos), que é o único que resta hoje (o desastre que nos legou o Martim Moniz acabou com ela).
Para a época dos róis de confessados em apreço, o único troço possível é o mais antigo, vem no mapa. E a ligação aos Anjos fez-se até 1889 pelas ruas da Mouraria e do Benformoso.

Filipe Folque, Atlas da carta topográfica de Lisboa: n.º 36, 1858.