
« Hoje tive a primeira reunião de turma da minha filha mais nova, e disse à professora... aquilo que ela já sabia: o que ela ensinar à Adriana pela «via acordista» eu, depois, corrijo. O que, aliás, já aconteceu hoje, primeiro dia de aulas: ela disse às crianças que agora os meses e as estações do ano se escrevem (primeira letra) em minúsculas... e eu instruí a minha garota quanto à forma correcta. Praticamente todos os outros pais e encarregados de educação concordam comigo. Ficou a ideia de marcar uma outra reunião, com outras professoras, incluindo a responsável principal, do agrupamento em que a escola se insere. Mas esta é uma guerra que se afigura muito difícil...»
In Portugal dos Pequeninos, 16/9/2011.
É guerra mais trabalhosa do que difícil. Um trabalho de Hércules. Todavia possível. Até lá é de ir fazendo a necessária guerrilha...
Tenho ouvido relatos doutros pais contrariados com o absurdo cacográfico em que o governo prossegue, e que o manifestam, deseperados, aos professores. E ouço também que estes se reduzem ao rebanho assalariado e amorfo em que os tornaram, escusando-se a repudiar a ignorância das letras como bons mestres haveriam de fazer. Para agravar, há aí novos livros que, sem ser proscritos... são mal escritos.
Comigo, livro escolar em mau português não haveria filho meu de ter que lhe não pusesse eu o devido quinau; a grosso e a vermelho para ficar bem visível. Cada emenda nos livros seria uma lição para professores que se apascentam mais pela cartilha administrativa do que se regem pela dedicação ao saber e à cultura. Em suma, aos imprestáveis.
Isto podem todos os pais fazer já que os livros são seus.
Não cuidem também, nem se deixem refrear por mentiras que correm de que a simplificação da escrita segundo o Acordo Ortográfico faz os meninos aprenderem melhor. Se assim fosse, os meninos brasileiros aprenderiam melhor as letras do que os portugueses, já que no Brasil não andam «atrapalhados» pelo «p» de «óptimo». Não deixe, benévolo leitor, pai ou encarregado de educação que lhe comam as papas na cabeça; procure o índice de analfabetismo em Portugal e no Brasil no programa da O.N.U. para o desenvolvimento de 2007/2008 e veja. O índice de analfabetismo do Brasil é o dobro do de Portugal. — E no Brasil até já se ensina que «nós pega os peixe» como sendo correcto! — Ora a prova, se precisa ela fosse, de que a ortografia dum idioma, qualquer idioma, nada tem que ver com o analfabetismo dum povo mede-se muito bem pelo francês e pelo inglês; em ambas as línguas a ortografia de farmácia segue o étimo grego pharmakeía (pharmacie – fr.; pharmacy – ing.), porém o índice de analfabetismo em França, na Inglaterra, no Canadá ou nos Estados Unidos é de menos de 1%. Quem há aí em Portugal que ache que um filho seu se haveria de baralhar para aprender a escrever pharmácia?
O que vai dito vale o que vale e o Acordo Ortográfico está aí, é que que todos dizem. Mas não baixemos os braços. Se não há tino no governo nem nos professores contra o ensinar burrice às nossas crianças, o que sobra aos pais empenhados e encarrregados de educação honestos em Portugal é fomentar o talho da alarvidade (orto)gráfica através da divulgação e assinatura duma proposta de lei, concreta, redigida à margem de partidos, para revogação imediata do Acordo Ortográfico. A Iniciativa Legislativa de Cidadãos para esse fim segue em curso e cada vez recolhe mais assinaturas. Faz falta que todos assinem. São precisas 35.000 assinaturas para levar a proposta de lei à Assembleia. É muita assinatura para um país tão pequeno, um dos trabalhos de Hércules. Mas cada um de nós, por si, preencher e assinar um impresso não é tarefa tão hercúlea, afinal.
(Imagem do Livro de Leitura da Segunda Classe, in Santa Nostalgia.)
Adenda:
« Também sou contra o novo acordo e como docente não está a ser fácil! Ando sempre munida com um prontuário, porque não me entendo com a nova grafia! Mas de facto como professora sou mesmo "obrigada" a usar o novo acordo ortográfico. Como sou professora de Matemática, à partida não teria muitos problemas... mas tenho de ter atenção aos sumários! Peço é por favor que entenda o papel da professora da sua filha! Ela não tem culpa de que como professora, seja "obrigada" a usar a nova grafia! Nós não temos a quem nos queixar ou suplicar para [não] usar o novo acordo ortográfico. Por favor não trave uma luta com a professora da sua filha. Um professor estar colocado já é um milagre e por muito que se pense o contrário, trabalha-se muito na nossa profissão! Não crie um problema [...] à "minha" colega [...] »
Comentário duma professora em 21/9/2011, que diz do que se passa com os professores.
(Sublinhados meus.)
Põe aspas em ser «obrigada», e bem: 1) até 2016 não é obrigada a nada nem mal lhe pode advir, especialmente na redacção dos sumários; 2) como professora de Matemática pode escudar-se justamente nisso, na Matemática, e escusar-se ao resto; 3) pode assinar a I.L.C. contra o acordo ortográfico; diz que é contra, já assinou?
Por fim, a reclamação dos pais não é centrada na pessoa do professor, mas na Escola como instituição. Se são os pais contra um ensino errado, como agentes activos da educação dos filhos, natural é que reclamem, que se façam ouvir em toda a medida, e que a Escola através dos seus responsáveis faça chegar essas vozes ao ministério. Porque das duas uma: ou somos contra a burrice e queremos acabar com ela; ou somos complacentemente contra e então nada feito.
2.ª Adenda:
« Só lhe tenho a dizer que a minha escola é T.E.I.P. e como tal tem autonomia para decidir se quer ou não adoptar o novo acordo. A resposta é positiva [adoptou-o]! E a autonomia da escola também se estica à contratação de docentes! Não posso levantar "poeira" estando numa situação precária. E nós docentes cumprimos ordens, assim como os empregados duma empresa! E sim já assinei a I.L.C.! »
Tréplica da mesma professora em 23/9/2011.