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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O alavanqueiro

 Ouvi um na televisão a falar em desalavancar. O que é desalavancar? É quebrar uma alavanca dalgum mecanismo?
 Espera! O freguês também diz «alavancar». Cheira-me que mandou vir aquilo da América. Significa mover uma alavanca? Deve ser. Mas para dar impulso?... — Pois foi enganado. — Que homem mais ultrapassado, que se ainda serve de alavancas para dar impulso. Só a força que é precisa fazer!... Não sabe que ele agora a inovação não pára? Com a electrónica, o fly by wire, é tudo joysticks, touchpadsécrans tácteis, pelo que no mínimo produz-se implementaçãojamé se impulsiona. Ele devia era inovar e dizer buttonizar e desbuttonizar para tudo; para a economia, para a indústria, para as exportações, porque é tudo virtual também — pode actuar-se electronicamente. Agora alavancas!...

Estação de Campolide, Lisboa (M.Novais, s.d.)
Estação de Campolide
, Lisboa,[s.d.].
Fotografia: Estúdio de Mário de Novaes (1933-1983), in
Biblioteca de Arte da F.C.G..

8 comentários:

  1. Attenti al Gatti13/9/11 22:21

    Bom, na minha infância usavamos o termo "alancar" significativo de carregar. Já "desalancar" nunca se usou. Se calhar porque eramos pouco cultos. Quanto aos outros termos (buttonizar, etc.)estranho que os responsáveis da Bluestation, aquela catedral do Português culto, não os tenham usado. Deve ter sido lapso, concerteza.
    A.v.o.

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  2. O termo existe e dizia-se muito. Depois esqueceu. Os peralvilhos das playstations, bluestations &c. nunca o devem ter ouvido.
    Cumpts.

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  3. Alves Pereira17/9/11 09:13

    Caro Bic :
    Se há pessoa que eu admire por mordaz é o meu caro amigo. Gostaria assim de lhe submeter a seguinte pergunta do alto da minha ignorância:
    "depois esqueceu" isso não tem uns odores de além-atlântico? não se deveria dizer "depois caiu no esquecimento"? não estaremos nós a cair no mesmo caso do governo que reuniu e o barco que afundou, etc , etc , verdadeiros monumentos ao telenovelismo ? Com os melhores cumprimentos , agradeço desde já a ajuda.
    A. Pereira

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  4. Bic Laranja17/9/11 15:34

    Pode ser. Os exemplos de conjugação pronominal que dá exalam dos trópicos, sim, e cuido que resultem da inépcia geral em lidar por lá com os pronomes. As conjugações pronominais funcionam muito como declinações, casos, e a tendência do falar enxertado de moleques e mainatos é ir limando a linguagem; veja o latim. A falta de instrução na gramática adensa o processo.
    O «depois esqueceu» ouvia-o à minha mãe, que aprendeu português no Ribatejo quando não havia televisão. Daí não me repugnar usá-lo. Mais que isto não lhe sei dizer.
    Cumpts.

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  5. Alves Pereira18/9/11 16:49

    Caro Bic:

    agradeço a sua paciência para comigo, mas insisto: Esquecer é um verbo transitivo, pelo que acho, humildemente, que tenho razão.
    Um abraço.

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  6. «Esquecer» também é intransitivo, com sentido de perder a memória.
    Pode ter razão. A locução, do que pude ver, ocorre algo frequentemente em autores brasileiros. Mas na Revista «Ocidente» (V. 36, 1949, p. 344) cujo autor não sei identificar temos isto:

    «Sabe-se que não foi com o 'Tronco Reverdecido' — como muita gente supõe — que António Sardinha se estreou nas letras. Antes desse admirável volume de versos, algumas plaquettes o grande Escritor lançou a público e depois esqueceu, nunca as incluindo na lista das suas obras.»

    Usei o verbo na voz activa. O sentido que lhe pus, porém, seria bem mais claro na voz passiva: O termo existe e dizia-se muito. Depois foi esquecido. Em alternativa, a partícula apassivante «-se» daria sentido parecido: O termo existe e dizia-se muito. Depois esqueceu-se. Ambas soam bem melhor em português, concordo. Mas que quere? Ouvi ali o falar da minha mãe.
    Cumpts. :)

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