The Shadows, Apache
(Playback de 1969)
domingo, 31 de janeiro de 2016
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Onde fica a 1.ª Circular?
(Publicado originalmente em 16/I/16 ao meio-dia e vinte seis, revisto às quatro menos vinte da tarde e tornado a publicar em 28/I/16 porque a gente não lê.)
A lógica da 2.ª circular é análoga à da 3.ª idade -- conhece-se-a sem caso donde haja a(s) anterior(es).
N' O Diabo desta semana (12/I/16) Pedro A. Santos põe, a propósito das obras farónicas dos socialistas e da que está na calha para a 2.ª Circular em Lisboa, a questão de «Onde fica a 'primeira circular'». Uma curiosidade a que responde com a conjectura que me também ocorreu há muito, fruto dalgum conhecimento da história da nossa cidade, mas que não é verdade. Associa ele a 1.ª circular à esquecida estrada de circunvalação de 1852 que de Alcântara, pela Rua Maria Pia, Marquês de Fronteira, S. Sebastião, Duque de Ávila, A. Cego, Visconde de Santarém, L. Leão, Morais Soares (Poço dos Mouros), Alto de S. João e Calçada das Lages (Afonso III), chegava à Cruz da Pedra, entre S.ª Apolónia e a Madre de Deus.
Bom, a verdade é que a circunvalação de 1852 nada tem para a contagem da 2.ª Circular que hoje havemos e onde ùltimamente a vereação cismou em plantar árvores dê lá por onde der. A 2.ª Circular é fruto dos planos de urbanização e expansão de Lisboa do tempo do Estado Novo gizados pelo Eng.º Duarte Pacheco e ordenados num plano de avenidas radiais e circulares. O esquema é também conhecido por Plano Director de 1948 ou plano De Groer. As circulares, contadas do exterior para o interior, seriam:
- a 1.ª, de Moscavide a Algés pelo N do aeroporto, Lumiar, Pontinha, Buraca e exterior do Monsanto.
- a 2.ª, de que muito se fala, mas que poucos entendem cabalmente, pois que no plano De Groer ligaria o Cabo Ruivo a Pina Manique, entroncando aí na 1.ª; digo que poucos a entendem porque lhe chamam «circular» sem noção de que para sê-lo, a Av. do Marechal Gomes da Costa é parte integrante; em lugar disso chama muita gente (todos, tenho impressão) 2.ª Circular ao troço (radial) da Av. do Marechal Craveiro Lopes paralelo à Av. da Cidade do Porto.
- a 3.ª, de Alcântara a Xabregas, pelo vale da ribeira (Av. de Ceuta), Sete Rios, Entrecampos, Av. E.U.A. e vale de Chelas;
- a 4.ª, da Cruz da Pedra ao Areeiro pela Afonso III, Alto de S. João, Quinta das Olaias e dali pela João XXI, Av. de Berna e Av. Calouste Gulbenkian até entroncar na 3.ª e;
- a 5.ª, a mais interior, pela Infante Santo, Estrela, Rato, Conde de Redondo, Anjos, Sapadores e St.ª Apolónia.
O plano foi servindo como orientação e sendo adaptado amiúde conforme as circunstâncias até estar esquecido. Mas, como vemos, a circunvalação de 1852 nem considerada estava.
Plano Director de Urbanização de Lisboa, 1948.
In Lisboa — Breve História dos Planos Urbanísticos.
Ainda a 1.ª Circular
Contrariando a insciencia geral e a falsa conjectura de Pedro A. Santos sôbre o nome da 2.ª Circular em particular, esclareci há dias por cá eu o que pude do caso. Não imaginava era vir tarde. O Dept.º de Contôlo de Trafego da C.M.L. há mais de [quase] 20 annos o esclareceu e explicou a um leitor do extincto diario 24 Horas. E com admiravel entendimento de causa.
Registo que da 2.ª Circular os serviços do municipio soubessem já em 1998 do século passado que era uma avenida — Marechal Craveiro Lopes de seu nome. — Descuraram foi esse nome ser só metade... isto é, ¼ de circular, justamente o trôço do Campo Grande ao Relogio, que d'elle ao marco 0 da auto-estrada n.º 1 a dicta avenida é radial. Por dizer ficou a outra metade, o trôço dicto do General Norton de Mattos, do Campo Grande a Benfica e à Buraca, quiçá por vergonha de ser toponimo postiço a esconder o original, do Marechal Carmona, supprimido por «necessidade de eliminação dos nomes afrontosos para a população, pela sua última ligação ao antigo regime» (Edital 161/74, de 30 de Dezembro).
Pormenores que não interessam.
Não obstante a confusão de radial com circular e de circular inteira com metade ou ¼ d'ella (ou por môr d'isso tudo) lá aventaram de sciencia certa (ou de certa sciencia) na resposta ao indagante leitor do jornal o conceito de que tinham, a final, vaga noção, exemplificando, não nunca com a circumvallação de 1852 como Pedro A. Santos (seria estulto esperar tal conhecimento da Historia da cidade na Camara), mas com uma amálgama da 3.ª circular do plano De Groer (de que fizeram segrêdo e baralharam a sequência) com a Av. Central de Chellas (quereriam em vez dizer Estr. de Chellas e R. Gualdim Paes, mas que importa), no que demonstraram sem espantar a sua idéa duma 1.ª Circular que, no entanto, nunca «pegou».
Pudera!
E a 2.ª
Tornaram hontem ou antehontem as trombetas noticiosas com a propaganda à idéa fixa da vereação municipal para a 2.ª Circular.
Conheço a predilecção do pessoal politico d'estes valhacoutos municipaes pelo cimento e pelo alcatrão. Mas, como é negócio que anda deprimido, cheira-me que se propuseram agora aquelles em desbravar novos mercados; como flôres dão pouco (mas já se viu como destruiram os brasões da Praça do Imperio para opportunamente contratarem nova jardinagem politicamente mais correcta) e, como massacrar o arvoredo dos jardins e avenidas da cidade são migalhas que mal pagam a pateada que os votantes alfacinhas hão-de dar nas urnas, vemos os tractantes municipaes n'estes dias empenhados em plantar árvores com tanto ardor que scismam até cravá-las entre alcatrão e cimento; a 2.ª Circular, se não acabar numa Amazónia dos pequeninos há-de vir ser a Floresta Negra de Entre-Monsanto-e-Aeroporto.
Perdão! Floresta Marechal Craveiro Lopes.
Segunda Circular à Az. das Galhardas e a floresta autoctone, Lisboa, 1961.
Arthur Goulart, in archivo photographico da C.M.L.
(O recorte do 24 Horas devo-o ao estimado Plúvio.)
(Revisto.)
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Uma forma de prostituição
No tempo dos campeonatos da 1.ª, da 2.ª, da 3.ª divisões nacionais, com todas as zonas e séries, mai-los campeonados distritais com suas divisões 1.ª e 2.ª também, o dinheiro não abundava. Jogava-se em campos pelados, os sócios quotizavam-se, os putos até aos 14 entravam à borla a par dum adulto — ó vizinho deixe-me entrar consigo! — e... a bola era uma festa, de amadores no genuíno sentido do termo; o bairro ou as gentes da terra não esmoreciam, jogavam ou apoiavam; os clubes não faliam nem acabavam assim... — Ainda há dias o Benfica jogou com o Oriental em Marvila a fazer lembrar esse tempo; clubes de bairro no campeonato nacional da 1.ª Divisão?! E, pregunto-me, se hoje o campo ainda é pelado.
— Ná! Podia lá ser!...
Com tanto fausto para aí agora, tanto profissionalismo, tudo Sociedades Anónimas Desportivas Futebol Club, e não há dinheiro que chegue para tudo nem dinheiro para nada. Hoje há campeonatos organizados por uma liga de clubes (ia dizer rameiras) em que tudo se põe à venda. Daqui, por isso, a prostituição em que os vejo.
Festa rija da subida do Vitória à III Divisão Nacional de futebol, Picheleira, 1977.
Cliché do sr. Vieira da Silva, in De Cabelos em Pé.
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Bem comem do prato em que cospem
Dizem que é historiadora, mas, tenho impressão que é burguesa com cabeça boa para franja. — A rebrilhante Pimentela fez hoje o necrológio do architecto do franjinhas. Lá lhe catou da biographia, para contraste, a linhagem catholica monarchica, o parentesco no Estado Novo, a militancia no Nacional Sindicalismo, o alistamento na Mocidade Portuguesa, o activismo falangista e... — E ao depois diz que por volta da II Grande Guerra a anglophilia lhe virou o tino contra o regimen dando d' ahi em guiar-se — quiçá por iniciatica inspiração — para a luz que guia offuscantemente a Pimentela: a P.I.D.E./D.G.S. Por quatro vezes viu o architecto a luz a que se guiou, tanto que ganhou resplendor.
Abençoada P.I.D.E., sem a qual não haviamos heroes, nem tinha esta Pimentela entretém.
(Photomontagem burguesa do pasquim censurado com fragmento do ganha-pão.)
Govêrno-sarna
Soou a notícia há semanas ou coisa. O govêrno ensaia-se em decretar metade do assucar nos pacotinhos da bica. Depois de tê-los — aos do govêrno — besuntando-se-me na torrada do pequeno-almôço meio-sal, hei-de tê-los agora dissolutos no meu café meio assucarado. Ainda um dia destes hei-de deitar-me e acho o govêrno empulgado-me a cama.
(Revisto.)
domingo, 24 de janeiro de 2016
O Marcelinho da «Gente»
N’ A Porta de Marfim o prof. Marcello Caetano refere em remate duma longa carta o, nestes dias depois do fim, eleito presidente da coisa.
« É certo que, à parte as de 1969, não consegui fazer eleições que se impusessem pelos seus resultados, porque os adversarios as boicotavam e nos deixavam sozinhos em campo. As oposições não eram ao Governo, mas à Constituição e ao regime, e todos os esforços que fiz para criar uma força política que dentro da órbita constitucional competisse com a A.N.P. (grupo de deputados liberais, SEDES, de que fui o único fundador...) tudo isso esbarrou com a incompreensão e espírito contestário dos meus próprios amigos. Agora têm o que merecem... Mas participam, partilham... Das anedotas que o Marcelinho R. de S. conta perfidamente na «Gente». Estão felizes.»
(M.ª Helena Prieto, A Porta de Marfim, Lisboa, Verbo, 1992, p. 108.)
Curiosamente a entrada de comentário da autora à carta é.... 24 de Janeiro de 1983 e escreveu unicamente: «A 9 de Maio de 1978 respondias-me com amigável malícia.»
(*) Título revisto, inspirado no comentário de Manuel.
sábado, 23 de janeiro de 2016
Belem, reguengo da cidade e a tracção animal
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Da harmonia architectonica occulta
In James Murphy, Plans Elevations Sections and Views of the Church of Batalha, in the Province of Estremadura in Portugal by Fr. Luis de Sousa; with remarks. To which is prefixed an Introductory Discourse on the Principles of Gothic Architecture, London, I. & J. Taylor, High Holborn, 1795.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Da estética que nos vendem
Bloco das Águas Livres, Lisboa, 1959.
Architectos: Nuno Teotónio Pereira, Bartolomeu da Costa Cabral; prémio da I.ª Exp. Gulbenkian, 1955. Photographia: Fernando Manuel de Jesus Matias, in archivo photographico da C.M.L.
Do substantivo bloco para designar o que se rotula Arte, aos prèmiozinhos e prèmiozões que o corroboram, há todo um sentido do Belo, assaz insensato incensado, que emana não sei donde e resvala para não sei quê. E nós dele con... vencidos.
Deixá-lo!
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Das cousas que as gentes dizem (diziam)
Como tenho pouco gôsto no Inverno e aprecio dias maiores, em dia de S. Sebastião não sou só laranjinha na mão, mas repito-me sempre que em 20 de Janeiro vai uma hora por inteiro e que quem bem souber contar, hora e meia lhe há-de achar.
Campinos, Ribatejo, 1950-70.
Amadeu Ferrari, in archivo photographico da C.M.L.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Laranjeiras
O eléctrico 13 que se via ainda ontem para Carnide numa garganta da Estrada das Laranjeiras ia justamente aqui, só que se via vindo de lá para cá. O prezado leitor José Lima foi quem catou bem o ponto no mappa: Estr. das Laranjeiras 218, na exacta confluência da Rua das Laranjeiras com a Estrada das dictas. — Se me não engano agora, a Rua das Laranjeiras (à esq.) designou-se Azinhaga da Ponte (ou Fonte) Velha; descia, como ainda desce, da Palma — lugarejo ancestral que se por ali conserva encravado entre edificado pós-modernista-ò-pós-modernaço e rodovias xpto.
Um pouco adeante, caminho de Sete Rios, achava-se o chafariz das Laranjeiras ante a quinta do conde de Farrobo, que marca ainda agora o entroncamento da Estrada das sobredictas Laranjeiras com a Calçada da Palma de Baixo. O progresso não lhe deu cabo (ao chafariz) mas deu-lhe uma reviravolta...
Na Calçada da Palma de Baixo, nº 2 (photo em cima, à dir.) via-se na primitivamente o portão e placa da Quinta das Rosas, tal qual se o ainda lá pode ver agora, afortunadamente; o alargamento da Calçada da Palma de Baixo fez-se à custa do largo do chafariz.
Justamente na calçada, imediatmente a seguir ao portão da Quinta das Rosas há hoje uma serventia de acesso à Quinta das Palmeiras onde, segundo a leitora Zazie, era o colégio do Infante de Sagres. Cuido que fosse assim.
Photographias: 1) Rua e Estr. das Laranjeiras, 2) Chafariz das Laranjeiras e 3) Calç. da Palma de Baixo (Ed. Portugal, 1944); 4) Col. do Infante de Sagres (Kurt Pinto, 195...). In archivo photographico da C.M.L.
Basilica da Estrella
Qualquer venerável que se fine passa por ela. Que terá a franco-maçonaria com a basílica da Estrella?
Photographia de Mário de Novaes, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.
Estrada Nacional
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
13 — Carnide
Estrada da Luz (viaducto da)
A pregunta dum benévolo leitor suscitou-me a lembrança dumas fotografias da Estrada da Luz que mostram que a feitura do viaducto da 2.ª circular ali veio a desviar aquela velha estrada do seu leito primitivo. E de facto a casa que vedes à esquerda na 2.ª e 3.ª imagens a seguir (está de pé mas não há-de ser por muito pois há annos que se acha destelhada nas traseiras, que sempre dá menos nas vistas) tem um alinhamento excêntrico ante estrada actual. Nada menos que o alinhamento primitivo da Estada da Luz.
Simples curiosidade.
Photographias: 1) 2.ª Circular no cruzamento da Estr. da Luz, Lisboa (A. Goulart, 1963); 2) e 3) Obras do viaducto da Luz na 2.ª Circular, Estr. da Luz (A. Serôdio, 1965); 4) Viaducto da Luz, Estr. da Luz (A. Serôdio, 1966); 5) Prédios em demolição, Estr. da Luz (A. Madureira,1968). In archivo photographico da C.M.L.
Metrologia de Estado
Os papagaios das notícias «avançaram» hoje que as bombas de gasolina vão ser fiscalizadas. Não eram?!...
Até ao início do corrente ano, o controlo metrológico em Portugal era assegurado pelas Direcções Regionais da Economia — entretanto extintas, pelo que o Instituto Português da Qualidade procedeu à qualificação de empresas privadas [i.é, particulares] para o exercício destas atribuições, actualmente, e que são designadas Organismos de Verificação Metrológica (O.V.M.). Estes O.V.M. verificam a conformidade dos instrumentos de medição dos postos de abastecimento, emitem o respectivo certificado e procedem, ainda, à selagem dos equipamentos garantindo, assim, a sua conformidade legal com as respectivas normas que regulamentam o controlo metrológico, e que acima estão identificadas («Controlo Metrológico como nova atribuição da E.N.M.C.», Min. da Economia/E.N.M.C,16/12/15).
Pelo Decreto-Lei 291/90, de 20 de Setembro, a superintendência do controlo metrológico das bombas de gasolina cabe ao Instituto Português da Qualidade. O I.P.Q. pode reconhecer e delegar em terceiros a verificação e fiscalização das bombas (art. 8.º, n.º 1). Como manda mas não executa, incumbiu as Direcções-Regionais de Economia (apesar de não haver regionalização, parece que tem havido regionalização administrativa) de coordenar, fiscalizar e verificar as bombas (art. 8.º, n.º 2). Com a sua extinção (das D.R.E.) a fiscalização e aferição das bombas foi então trespassada a empresas qualificadas pelo próprio I.P.Q. em Organismos de Verificação Metrológica que, vem ver-se, carecem de ser elas próprias fiscalizadas.
Assim, resumindo:
- O I.P.Q. superintende a coisa;
- as D.R.E. faziam a coisa, mas acabaram;
- o I.P.Q. comete então a coisa a empresas que qualificou e qualificadamente designou O.V.M. capazes de levar a coisa a cabo e;
- Cria-se em fim uma Entidade Nacional para o Mercado de Combustíveis para fiscalizar os qualificados e designados do ponto 3...
Talvez os O.V.M não sejam de fiar, mas, como sabemos se a E.N.M.C., o I.P.Q. e as ex-D.R.E. são/eram? — Porque sejam públicos estes e particulares aqueles? — E neste caso se nos fiamos mais dos órgãos do Estado porque não faz simplesmente a nóvel E.N.M.C. o que faziam as ex-D.R.E. a haver-se de chamar particulares ao processo? Sairá porventura mais em conta pagar aos de O.V.M. para fazer o que faziam as ex-D.R.E. havendo ainda de pagar a E.N.M.C. para fiscalizar os O.V.M.?
Confusos? — Pois então explicai-me também da competência dos municípios na aferição metrológica...
(Fotografia da estação de serviço da Soc. Comercial Guérin na Rua José Estêvão em Lisboa de Horácio de Novais, na Bibliotheca d' Arte da F.C.G.)
domingo, 17 de janeiro de 2016
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Da desagregação dum Estado
A Assembleia da República, órgão legislativo por definição constitucional, padece duma maioria de esquerda. Daí me não espantar do resumo do Diário da República de hoje: três resoluções — não leis, notai! —, mas três resoluções que são palavras de ordem. A assembleia foi tomada por agitadores panfletários que — isto é extraordinário — tendo o poder legislativo nas mãos não passam do seu estado primário: a propaganda por via de, não leis, torno a dizer, mas resoluções e recomendações ao Executivo. Qual é o imperativo duma recomendação?...
O decreto regional, por seu lado, e o seu objecto, são o exemplo acabado da desagregação institucional e da entropia posta na ordem jurídica do Estado. Comparável desagregação das instituições do Estado português, nem nas invasões francesas tenho impressão; garantidamente nem nos tempos filipinos.
(Revisto às dez menos vinte da noute.)
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Ordenações
Transpõe a Directiva que altera a Directiva que altera o Decreto pela sexta vez... — Bate certo.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Ironias do real na república das bananas
Ligo a televisão e sai-me um desconhecido que pela legenda diz que é um ministro. De Portugal, deduzo. O esmero na comunicação audiovisual e o sentido de Estado estão patentes na bandeira com que se enquadra na imagem.
Portugal, 2016.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
A fábrica dos mitos (ou o frete das obediências)
Não tendo havido Benfica ontem nem sendo o Australopitégui já notícia, a emissora nacional abriu esta manhã o noticiário das 8h00 com uma novidade em lata — tamanho familiar — da central makro das notícias: o passamento do David Bowie.
Levaram 4-minutos-4 (meio noticiário, para aí...), na dita emissora nacional, em gabos e louvaminhas ao finado artista mais completo de sempre — jucunda rotulagem esta, de ração enlatada que se presume nutrir as monas lisas de aviário que se procuram cultivar do lado de cá do noticiarismo radiofónico a cada hora certa. E logo com anúncio de reportagem de enfardadeira — já a seguir — imediatamente depois daquele espaço informativo e antes do próximo, para reforço chouriceiro do morto mito em venda.
Tem graça que ainda anteontem as mesmas charcutarias a retalho destes enlatados noticiosos apregoavam a marca Bowie na volta dos seus provectos 69 Invernos — que marco!... — e com a edição dum novo disco. Na altura nem um acorde soou de que o defunto ainda por findar estaria por dias, nem do mal que o consumia — ou calhando fui eu; a publicidade distrai-me tanto que acabo sempre por fugir-lhe com a atenção... — De maneira que, hoje, o passamento do defunto foi-me verdadeiramente novidade. Mas, caramba, metade do noticiário com a promoção do morto mito! Que grande fé no rótulo grandioso que os da central das notícias põem no produto!...
Pois bem, não se tratando do Benfica e fora de ironias, caio na conta de, nestes dias que vivemos, só alguém ser homossexual ou maçon justifica tão empolado necrológio. Ou parafraseando Plúvio a propósito dum desses: o que certas obediências, o corporativismo sodomita (lobby gay, há quem prefira) e a morte não fazem por uma pessoa... e pela mitologia popular!
Última nota: a notícia do infausto acontecimento corria em rodapé às 9h e picos na Radiotelevisão (que é a outra-mesma emissora nacional) e dizia textualmente: David Bowie morre com a família vítima de cancro, sem vírgulas nem nada. Literalmente, uma desgraça nunca vem só...
Imagem captada da página da Radiotelevisão onde se massacra o bárbaro (Blackstar/BlackStar) e se autoreinventa... [?] autoreinvenciona... [?] o português.
Revisto.
domingo, 10 de janeiro de 2016
Só começa hoje?!...
Diziam as notícias que hoje era o começo oficial da campanha eleiçoeira. — Só começa agora?! Ninguém diria!… — Mas bom, paciência, agora é que vai ser! Agora é que vão começar a assoar a soar as trombetas a valer, bem estou a ver...
Evergreen Moodies, Arruada do Padeiro (da vers. amaricana Baker Street)
Aquela tipa que canta não canta lá grande coisa, mas o cabedal dela dá certos ares de Marisa, não?!...
É. Tudo se conjuga; a da corneta também faz lembrar a Catarina — da estridência. — O gajo da guitarra eléctrica fica um bocado mais aquém (na estridência), como o Arroja.
Hoje é que começa a campanha. Boa!
sábado, 9 de janeiro de 2016
Caindo na conta que ofendia...
Quando aí oiço o escol anglicizado da nossa terra, feito letrado, mas só aculturado no crioulo finório, que realiza quando se adverte, entende, reflecte ou toma noção dalgo (admitindo que possua bestunto capaz de tal extremo), anima-se-me (passe a redundância) a alma pátria (e cada vez mais parva) só com ler o estilo de Fr. Luís de Sousa a contar singelamente de D. João III:
« Dous anos havia que o poder e liberdade real, junta com o fervor da mocidade, traziam a el-rei distraído com mulheres, de que houve filhos, como a diante diremos, vício da fraqueza humana a que os moços, por mui prudentes que sejam, sabem mal resistir; mas caindo na conta que ofendia a Deus tanto mais gravemente quanto em mais alto estado ele o tinha posto, já com o efeito das culpas, já com o mau exemplo delas, inda que as suas não chegaram nunca a fazer afronta a vassalo, nem a mulher força, determinou todavia de trocar o estado de solteiro em casado, que era o mesmo que vestir armas contra o fogo da natureza e contra a liberdade das ocasiões.»
Fr. Luís de Sousa, Anais de Dom João III, v. I, 2.ª ed., Sá da Costa, Lisboa, 1951, p. 165 (sublinhado meu).
Nótula bibliófila
Chega-me à mão o pacote com os dois volumezinhos dos «Anais de D. João III», pref. e notas do prof. Rodrigues Lapa, da Colecção de Clássicos Sá da Costa. São da 2.ª ed., 1951 e 1954 (I e II vol. respectivamente). Trazem capas de brochura originais esmeradamente guardadas com fino papel vegetal, etiquetadas no fundo da lombada com os n.ºs 808-8 e 808-9; ex-libris com divisa Vida, Liberdade, Cultura de A. Ribeiro dos Santos, médico (...?). Fios de pó velho na cabeça e ambos os volumes com os cadernos inteiramente por abrir. Nunca foram lidos. Vida demasiado cheia, liberdade de não ler tudo o que havemos numa biblioteca pessoal ou cultura de armazém, leiloada ao pó?
(Fr. Luís de Sousa, Anais de Dom João III, 2.ª ed., Sá da Costa, Lisboa, 1951-54.)
(Revisto.)
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
Inflação

O malfadado aborto gráfico gera fenómenos de hipercorrecção. Este é um caso. Inflacção em lugar de inflação (e derivados), apesar do a pré-tónico pronunciado geralmente aberto. Só lhe acho motivo (à abertura daquela vogal) pela importação do vocábulo. Nada o justifica. Se derivássemos o substantivo inflação do verbo erudito inflar aquele àzinho seria â, como fàcilmente percebemos se pensamos nos substantivos em -ção tirados doutros verbos da 1.ª conjugação: aclamar > aclamação; conjugar > conjugação; virar > viração, &c. Como o substantivo inflação nos brotou no Português dissociado do verbo inflar, que nada usamos por há seculos o termos afeiçoado em inchar, damos acrìticamente em
- pronunciar inflàção como acontece em inúmeros nomes próprios e comuns estrangeiros (v.g. àlô, bàsquetebol, ràdar, (e)strèssado, &c.); o ancestral emudecimento das vogais pré-tónicas do Português não funciona bem no léxico bárbaro; e em
- derivar-lhe um novo verbo inflacionar que conjugamos sempre e só com senso monetário (pois que foi por isso que ele nos veio cá) sem a noção sequer da gaseificação subjacente. — Aliás os amaricanos dizem inflated (= inflado, de inflar) em vez de gaseificarem macarrònicamente o seu bárbaro com inflationated.
O vocábulo, com sentido que lhe damos referido à subida dos preços, está atestado no bárbaro norte-americano em 1838. Parece coisa do Novo Mundo, como as batatas e sífilis.
Adenda: no Dicionário Etimológico, José Pedro Machado dá a origem do subst. «inflação» no léxico português, com o sentido finaceiro hoje vulgaríssimo e quase único, aos anos 20 e à América; no sentido primordial de inchamento atesta-o no nosso idioma no séc. XVI — «... e peorava com ter inflaçoẽs no estamaguo», Coloquios dos simples &c., f. 182 v. — e não creio que se não pronunciasse aquele a pré-tónico senão como â.
Lisboa, 1987 [i.é, 1978] *
Típico quadro alfacinha de Lisboa desaprumada depois do fim de Portugal. Sempre necessária em parede de boa alvenaria era a berrante estridência comunistóide...
Rua dos Cavaleiros, Mouraria, 1987 1978.
Ricardo Lomas, in Eléctricos em Portugal.
Cuidais que melhorou?...
* Umas vezes me espanto outras me avergonho. Ou ambos. Publiquei este crendo firmemente tratar-se duma imagem de 1987. Emendo agora quando aponho a remissão directa ao blogo do autor da fotografia, onde, espantado, vejo que vi mal o que era claro de lá ver. As imagens são de 1978. Avergonho-me de logo no título haver um êrro.
Emendado a correr às vinte para as quatro da tarde.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
Os seguranças
José Hermano Saraiva, Barcelos Canta de Galo
(Horizontes da Memória, R.T.P., 1997)
Os seguranças. Há exércitos de seguranças. Pois há... Mas quando era eu novo (e não me comparo ao prof. Hermano Saraiva) o Estado ainda se empenhava em ter o monopólio da violência. Vá lá que admitisse guarda-costas particulares, mas com muita reserva. Para guardar bancos e assim, quem queria segurança, contratava... a Polícia de Segurança Pública, pois; para vigiar entradas em repartições ou prédios mais abastados havia porteiros(as), simplesmente. Ao depois, por altura da C.E.E., esta coisa da segurança passou a ser um negócio como outro qualquer. Foi quando brotaram empresas de (cá está) segurança. A coisa deu certo brado, recorda-me; a Polícia não viu o caso com bons olhos. Mas é como se desfaz o Poder do Estado, de mansinho, em favor do comércio, o novo Poder que se impõe. E agora há exércitos de seguranças, porque o Estado de há muito deu em abdicar do monopólio da violência. Salvo a fiscal. E mesmo essa...
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
Brumas
Há a bruma da memória e a embrumação. O objecto em vislumbre no meio da névoa, de feito, é atreito a brumas. E a embrumação também.
Vamos vogando em meias águas...
Ponte Salazar, Lisboa, c. 1966.
Eduardo Gageiro, in archivo photographico da C.M.L.
Vem esta imagem etiquetada no archivo municipal como «Ponte 25 de Abril» e datada de 1982. A coisa, por conseguinte, passa por bem ser da Era Abrilina, legada tanto melhor assim à posteridade quanto se acha também publicada com tal legenda e data em José Sarmento Matos (org. e coord.), Lisboa à Beira Tejo (1860-2010), [Lisboa], C.M.L./E.G.E.A.C., [2010]. Com a fraca cultura geral acelerada da vida moderna, a coisa pode — há-de — passar ao curioso folheador de álbuns de memórias muito capazmente: se se vê ali ponte com o tabuleiro por acabar e a data é 1982, é porque deve ter sido a ponte feita por essa altura. Como lhe chamam «25 de Abril», não espanta.
A subtileza destas manipulações doutrinárias, sem embargo de as cogitações sobre elas poderem incorrer na opinião pública veìculada (e mormente disso), incrementa-lhes e muito a eficácia. A memória é fraca e deixa-se levar. Se as brumas da memória podem porventura haver conduzido (ou não) o photographo à má lembrança da data em que bateu a chapa e disso haver vindo a enganar os agentes municipais da cultura, estão todos desculpados. Facto é que a transmissão da memória prossegue assim enevoada aos vindouros. Eis a manipulação doutrinária. — A ponte é Ponte Salazar. A chapa é de c. 1966.
Quem esteja atento não se deixa enganar, mas as massas ignaras que vegetam no quotidiano acelerado na sua rica vidinha assimilarão a legenda da Ponte Salazar com a designação Abrilina enxertada e, repeti-la-ão sem nada cuidar do que seja; de erros nem do descarado roubo da memória histórica — o notíciário hora a hora do trânsito é exemplo desse eco potentíssimo que dá para inculcar formidàvelmente uma certa memória das coisas.
Este ano de 16 haveremos o cinquentenário da Ponte Salazar. Haverá decerto foguetório noticieiro e arraial de emplastros democráticos acotevelando-se sob os holofotes duma memória de que se apropriaram. Será vê-los a querer sobressair da embrumação que sobreerguem, quais dões Çabastiões da nacional-transparência e, no fim, achá-los, todinhos, acabados engenheiros de obras feitas. Bem o portugalinho Abrilo-regimental, hem!
Feliz anno de 16!
