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sábado, 9 de janeiro de 2016

Caindo na conta que ofendia...


 Quando aí oiço o escol anglicizado da nossa terra, feito letrado, mas só aculturado no crioulo finório, que realiza quando se adverte, entende, reflecte ou toma noção dalgo (admitindo que possua bestunto capaz de tal extremo), anima-se-me (passe a redundância) a alma pátria (e cada vez mais parva) só com ler o estilo de Fr. Luís de Sousa a contar singelamente de D. João III:



« Dous anos havia que o poder e liberdade real, junta com o fervor da mocidade, traziam a el-rei distraído com mulheres, de que houve filhos, como a diante diremos, vício da fraqueza humana a que os moços, por mui prudentes que sejam, sabem mal resistir; mas caindo na conta que ofendia a Deus tanto mais gravemente quanto em mais alto estado ele o tinha posto, já com o efeito das culpas, já com o mau exemplo delas, inda que as suas não chegaram nunca a fazer afronta a vassalo, nem a mulher força, determinou todavia de trocar o estado de solteiro em casado, que era o mesmo que vestir armas contra o fogo da natureza e contra a liberdade das ocasiões.»


Fr. Luís de Sousa, Anais de Dom João III, v. I, 2.ª ed., Sá da Costa, Lisboa, 1951, p. 165 (sublinhado meu).


5 comentários:

  1. Inspector Jaap10/1/16 20:59

    O figurão considera-se (muito) culto, mas já não é esta a primeira patacoada que lhe ouço; isto para já não falar dos "portugueses e portuguesas" em que é useiro e vezeiro; é desanimador ver como a personalidade das pessoas se esvai na ânsia do poder; vendiam a mãe se necessário fosse; é ao que estamos reduzidos.
    Cumpts

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  2. Esse que refere «vendeu» a família logo em 74, ao que consta. Mas não e o único.
    Cumpts.

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  3. O "realizei" é um anglicismo bastante antigo e que talvez tenha entrado pela leitura dos romances ingleses que estava tão na moda há cento e quarenta anos. Era um pouco leitura de senhora, e deve ter entrado por aí. Em cartas familiares dessa altura aparece bastante, a par com algumas frases ainda em inglês e dezenas de expressões em francês. Num certo sentido, hoje em dia usa-se menos termos estrangeiros. Arrisco supor que a emigração para França terá tido algum papel nesse apagamento. Pelo menos, o "pas devant la bonne" tornou-se em muitos casos inútil.

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  4. Usam-se, não usa-se.
    Também me lembrei depois, do francês usado nos catecismos e nas orações, pelo menos em parte delas. O francesismo era (e é ainda para muitos) uma realidade em Portugal.

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  5. Em correspondência particular de há cento e tal annos, diz!... Não imaginava.
    Não cuido que haja hoje menos barbarismos. Já não caímos na conta dos que usamos, de tal maneira foram assimilados. Galicismos, porque o francês se nem aprende. Os anglicismos são mais notórios, mas nem por ele são menos usados.
    Cumpts.

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