Há a bruma da memória e a embrumação. O objecto em vislumbre no meio da névoa, de feito, é atreito a brumas. E a embrumação também.
Vamos vogando em meias águas...
Ponte Salazar, Lisboa, c. 1966.
Eduardo Gageiro, in archivo photographico da C.M.L.
Vem esta imagem etiquetada no archivo municipal como «Ponte 25 de Abril» e datada de 1982. A coisa, por conseguinte, passa por bem ser da Era Abrilina, legada tanto melhor assim à posteridade quanto se acha também publicada com tal legenda e data em José Sarmento Matos (org. e coord.), Lisboa à Beira Tejo (1860-2010), [Lisboa], C.M.L./E.G.E.A.C., [2010]. Com a fraca cultura geral acelerada da vida moderna, a coisa pode — há-de — passar ao curioso folheador de álbuns de memórias muito capazmente: se se vê ali ponte com o tabuleiro por acabar e a data é 1982, é porque deve ter sido a ponte feita por essa altura. Como lhe chamam «25 de Abril», não espanta.
A subtileza destas manipulações doutrinárias, sem embargo de as cogitações sobre elas poderem incorrer na opinião pública veìculada (e mormente disso), incrementa-lhes e muito a eficácia. A memória é fraca e deixa-se levar. Se as brumas da memória podem porventura haver conduzido (ou não) o photographo à má lembrança da data em que bateu a chapa e disso haver vindo a enganar os agentes municipais da cultura, estão todos desculpados. Facto é que a transmissão da memória prossegue assim enevoada aos vindouros. Eis a manipulação doutrinária. — A ponte é Ponte Salazar. A chapa é de c. 1966.
Quem esteja atento não se deixa enganar, mas as massas ignaras que vegetam no quotidiano acelerado na sua rica vidinha assimilarão a legenda da Ponte Salazar com a designação Abrilina enxertada e, repeti-la-ão sem nada cuidar do que seja; de erros nem do descarado roubo da memória histórica — o notíciário hora a hora do trânsito é exemplo desse eco potentíssimo que dá para inculcar formidàvelmente uma certa memória das coisas.
Este ano de 16 haveremos o cinquentenário da Ponte Salazar. Haverá decerto foguetório noticieiro e arraial de emplastros democráticos acotevelando-se sob os holofotes duma memória de que se apropriaram. Será vê-los a querer sobressair da embrumação que sobreerguem, quais dões Çabastiões da nacional-transparência e, no fim, achá-los, todinhos, acabados engenheiros de obras feitas. Bem o portugalinho Abrilo-regimental, hem!
Feliz anno de 16!
Esta ponte tem várias características que esta súcia não aprecia por aí além:
ResponderEliminar1- Foi feita por razões técnicas válidas e não por afã de ganância de um qualquer sucialista desejoso de ir enriquecer a cidade das luzes com a sua sabedoria pulhitico-filosófica, por filantropia de terceiros.
2- Não deu origem a fortunas particulares directamente proporcionais ao cinzentismo da sua origem, pois no tempo da “longa noite” fassista a probidade era regra e não o seu contrário, daí que,
3- Tenha sido cuidadosamente estudado o seu custo/benefício não tendo assim dado origem a endividamentos tresloucados que os feitores da liberdade obrigam os desvalidos a pagar depois.
Por tudo isto, se calhar, se houver por aquelas bandas alguma centelha de decoro, talvez o caro Bic se engane no seu último parágrafo; mas não é líquido que tal venha a acontecer.
O Estadista bem disse que não queria o seu nome dado a essa grandiosa obra de engenharia, pois que via longe e sabia bem como na defunta de má memória se passavam as coisas, e, para não variar, acertou.
Calorosos cumprimentos pela reposição da verdade, arredia que anda destas paragens, faz tempo.
Cumpts
Eu sempre lhe chamei e continuarei a chamar Ponte Sobre o Tejo.
ResponderEliminarA fotografia é uma maravilha. Feliz ano de 2016!
PONTE SALAZAR eternamente!
ResponderEliminarEsta súcia se queria der um nome a uma ponte feita após a Abrilada, podiam ter escolhido a que agora se chama Vasco da Gama!
Eu sempre chamei àquilo «Ponte sobre o Tejo». Acompanhei, diariamente, a sua construção. Por razões da vida visitei-a, de ponta a ponta, quando fecharam o vão: em "todo-o-terreno" que saltava em cada junta. Tive como guia o Eng-Chefe da USC (united states steel corporation).
ResponderEliminarSó após o 25 do a é que me apercebi do seu nome original.
Abraço
Acompanhou diàriamente a construção e nem deu pelo nome com que a inauguraram?!. Vossemecê é um brincalhão.
ResponderEliminarPsst! Isso não se diz. Olhe que ainda para aí aparece alguém mandando repetir 100 vezes «25 Dabril».
ResponderEliminarAno bom!
O problema de toda a nomenclatura (sobretudo na toponímia) de regime é o regime da viradeira que se lhe segue.
ResponderEliminarTodavia noto que são os regimes «progressistas» que mais sobrepõem a sua nomenclatura doutrinária à precedente. Vejo-o em Lisboa nas avenidas que na 1.ª República tiveram os topónimos todos remexidos; e vejo-o nesta 3.ª...
É tão flagrante que a lição já devia ter sido aprendida, mas duvido.
Ano bom, Rosa!
Há mais: foi acabada antes do prazo e sem necessidade de «orçamento rectificativo»; determinou-se-lhe portagem de 20$00 por 20 anos que só não foi rigorosamente cumprida porque foi decretada fascista em 1974; foi por isso que teve de aumentar. E continua.
ResponderEliminarCumpts.
Vossemecê é um chato (pediculus pubis).
ResponderEliminarDiz-se aborrecido. Chato é Vossemecê.
ResponderEliminarAnno bom!
Aquando da sua construção o geógrafo Orlando Ribeiro mostrou preocupação com um possível despovoamento da Margem Norte e a proliferação de subúrbios a Sul...
ResponderEliminarTinha alguma razão. E talvez fosse dessa maneira de ver as coisas que levou tanto tempo a fazer-se-a.
ResponderEliminarAnno bom!