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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Inflação


 O malfadado aborto gráfico gera fenómenos de hipercorrecção. Este é um caso. Inflacção em lugar de inflação (e derivados), apesar do a pré-tónico pronunciado geralmente aberto. Só lhe acho motivo (à abertura daquela vogal) pela importação do vocábulo. Nada o justifica. Se derivássemos o substantivo inflação do verbo erudito inflar aquele àzinho seria â, como fàcilmente percebemos se pensamos nos substantivos em -ção tirados doutros verbos da 1.ª conjugação: aclamar > aclamação; conjugar > conjugação; virar > viração, &c. Como o substantivo inflação nos brotou no Português dissociado do verbo inflar, que nada usamos por há seculos o termos afeiçoado em inchar, damos acrìticamente em



  1. pronunciar inflàção como acontece em inúmeros nomes próprios e comuns estrangeiros (v.g. àlô, bàsquetebol, ràdar, (e)strèssado, &c.); o ancestral emudecimento das vogais pré-tónicas do Português não funciona bem no léxico bárbaro; e em

  2. derivar-lhe um novo verbo inflacionar que conjugamos sempre e só com senso monetário (pois que foi por isso que ele nos veio cá) sem a noção sequer da gaseificação subjacente. — Aliás os amaricanos dizem inflated (= inflado, de inflar) em vez de gaseificarem macarrònicamente o seu bárbaro com inflationated.


 O vocábulo, com sentido que lhe damos referido à subida dos preços, está atestado no bárbaro norte-americano em 1838. Parece coisa do Novo Mundo, como as batatas e sífilis.


 


Adenda: no Dicionário Etimológico, José Pedro Machado dá a origem do subst. «inflação» no léxico português, com o sentido finaceiro hoje vulgaríssimo e quase único, aos anos 20 e à América; no sentido primordial de inchamento atesta-o no nosso idioma no séc. XVI — «... e peorava com ter inflaçoẽs no estamaguo», Coloquios dos simples &c., f. 182 v. — e não creio que se não pronunciasse aquele a pré-tónico senão como â.

4 comentários:

  1. Inspector Jaap9/1/16 12:54

    Pois, decerto!
    E o malfadado, como justamente é apelidado o aborto, neste verbete, transformou a língua numa batata que sofre de sífilis, logo, condenada à implosão; é só uma questão de tempo.
    Cumpts

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  2. Não acredito. No portugalinho finado de 74 não há remissão, só evolução. Sabemos o que «evolução» significa.
    Cumpts.

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  3. "inflacção" seria sempre um erro, mas há quem, escrevendo contracto por se escrever em inglês contract devolva a etimologia à palavra.
    Por mim, comecei a escrever contracto. O governo ditatorial que promulgou a "reforma" em 1911 não tinha qualquer legitimidade para impor as suas crenças.

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  4. Contracto, práctica... São fenómenos de hipercorrecção que ressurgiram. Ambos têm a etimologia por si.
    A primeira forma, com 'c' sonoro, existia já como part. passado irregular do v. 'contrair', o que só por si era contraditório com 'contrato' (acordo entre partes) que, se lhe rasparam o 'c', foi por ser barbarismo semântico importado à margem do v. 'contrair', como 'inflação' o foi a descaso de 'inflar'. E desse 'contrato' bárbaro se fez derivar o v. 'contratar', sem atender a 'contair', como de 'inflação' se derivou 'inflacionar' sem caso do mais legítimo que seria 'inflar'. Hoje parecem progredir mais e mais os idiotas imbecilizados da lusofonia nacional: dizem 'contratualizar', de 'contratual', por sua vez derivação adjectiva de 'contrato'.
    Confuso? Não. Simples elaboração intelectual de mentes superiormente esclarecidas, me parece. Por elas segue o idioma.
    Cumpts.

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