
Alameda de Dom Afonso Henriques, Lisboa, c. 1950.
Mário de Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G..
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Anti feudo esquerdóide
segunda-feira, 28 de setembro de 2015
De Espanha nem bom vento nem bom casamento
A alternadeira semanal do Nicolaço — a emissora nacional agora alterna o Nicolaço com uma outra nas Contas do Dia — anunciou esta manhã pràticamente a independência da Catalunha; nem sei, do tom, se a não proclamou mesmo, à revelia de castelões e catalães: — Já nada vai ser como antes! — quereis recado mais peremptório?!… — Nem importa lembrar a revolta da Catalunha de 1640 que levou a que tudo tornasse exactìssimamente a ser como antes (que pena!...) com o fim da monarquia dual, a restauração de Portugal e a subjugação da Catalunha, pois claro. Mas exemplos da História importam só ser contados com o devido jeito. Já lá vamos...
Ao depois, então, a alernadeira do Nicolaço distribuiu avisos sérios a Madrid e a Bruxelas, que devem cuidar dos sonhos dos povos. — É preciso não deprezar o povo e os sonhos dos cidadãos — e lembrou que há modelos federalistas que podem satisfazer os sonhos das populações...
Ora bem! Cá está! Já me havia cheirado o velho propósito iberista por via duma federação de nações da Espanha que para aí se aloja nalgumas irmandades. Para isso há-de-se escavacar primeiro o reino de Espanha e derrubar-lhe a monarquia, desbravando assim caminho a uma república federal. O corolário será encavar Portugal na tal federação das espanhas resultante.
Delírio?
Algum irmão que assome por aí à soleira da loja e mo desminta enquanto limpa as mãos ao avental.
Ou algum iniciado arrependido que no-lo confirme.
O caso com que esta alternadeira do Nicolaço, com seus modelos federalistas de algibeira, bons recados a Madrid sobre os sonhos de autonomia dos povos espanhóis e sinecura… Lusófona… é que tem currículo muito ajustado a doutrinadora de povos, nomeadamente do português: — A falta de inteligência em gerir os sonhos dos povos pode ser dramática — pelo que, inteligentemente, o Ultramar havia de ter sido descolonizado de mão beijada ao primeiro sopro dos ventos da (pré-)história. — Só não esclareceu, do exemplo dado, se era com abandono e generosa dádiva da gente portuguesa que lá houvesse ou se era em debandada como, em fim, a descolonização exemplar…
E o caso de ontem com a Catalunha é que, ao contrário do que troa em toda a imprensa portuguesa — e esta jornalista alternadeira disse-o, mas só entredentes (que gozona!) —, os separatistas não tiveram metade sequer dos votos expressos (v. resumo da coisa). Convenço-me da nossa imprensa e da sua agenda doutrinária que os sonhos de autonomia dos povos se hão-de contar também em votos... sonhados.
Do que se não parece já sonhar em Portugal, porém, é que convulsões em Espanha nunca nos trouxeram cá bom vento. Sei de ser o jornalismo de alternadeira avesso à História, mas nem precisaria estudá-la; bastava-lhe tão só a noção dela pelo ditado. Pois nem isso.
(Front de victoria i de llibertat!, Marti Bas, 1937, in Loja cartazes de História Social[ista].)
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Batalha do Lago ou Guadalete
Acercou-se Rodrigo com a flor da nobreza espanhola e os filhos dos seus reis, os quais, ao verem o número e disposição dos muçulmanos, tiveram uma conferência e disseram uns aos outros:
— Este filho de má mulher [refere-se ao rei Rodrigo] fez-se dono do nosso reino sem ser de estirpe real, mas [é], ao contrário, um dos nossos inferiores. Aquela gente [os mouros] não pretende estabelecer-se no nosso país. A única coisa que deseja é ganhar boa presa: conseguida esta, marcharão e nos deixarão. Empreendamos a fuga no momento da peleja e o filho de má mulher será derrotado.
E foi nisto que acordaram.
Rodrigo dera o mando da ala direita do seu exército a Sisberto e o da esquerda a Opas, ambos filhos do seu antecessor Vitiza e cabeças da conspiração indicada. Aproximou-se, pois, com um exército de cerca de 100 000 combatentes e tinha este número (e não outro maior) porque houvera em Espanha uma fome que (principiou ano de 88 e continuou durante todo o ano e os de 89 e 90) e uma peste durante a qual morreram metade ou mais dos habitantes. Veio depois o ano de 91 (9-XI-709 a 28-X-710) que foi ano em Espanha que, por sua abundância, recompensou os males passados e no qual se efectuou a invasão de Tárique.
Encontraram-se Rodrigo e Tárique, que permanecera em Algeciras num lugar chamado o Lago, e pelejaram encarniçadamente. Mas as alas direita e esquerda, a mando de Sisberto e Opas, filhos de Vitiza, puseram-se em fuga. E ainda que o centro resistisse algum tanto, no final Rodrigo foi também derrotado e os muçulmanos fizeram grande matança nos inimigos. Rodrigo desapareceu em que se soubesse o que lhe havia acontecido, pois os muçulmanos só encontraram o seu cavalo branco com sela de ouro, guarnecida de rubis e esmeraldas e um manto tecido de ouro e bordado de pérolas e rubis. O cavalo caíra num lodaçal e o cristão que caiu com ele, ao arrancar [a] pé, deixara um tesouro no lodo. Só Deus sabe o que se passou, pois não se teve notícia dele nem se encontrou vivo ou morto.Ant.º Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, 2.ª ed., vol. 2, Caminho, Lisboa, 1989, p. 45.
Batalha de Guadalete (Mariano Barbasán Langueruela, 1882).
Óleo sobre tábua, 21,9 × 50,2 cm.
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Andam faunos pela cidade
Os do partido dos animais, noutro tempo, haviam de por devoção e fé professar num convento de franciscanos. O espirituoso amor à bicharada ascèticamente enquadrado no claustro dar-lhes-ia decerto o céu...
No Campo Grande, no passadiço de ante a universidade que diplomou o Relvas com a distinção que a imprensa aclamou, pende uma faixa: PAN, PESSOAS – ANIMAIS – NATUREZA. Parece-me um lema excessivo porque, como o bodejar panteísta do Pan testemunha e a teoria dos conjuntos corrobora, bastava dizerem a natureza, que lògicamente contém os animais, e estes contêm, por sua vez, a multidão de primatas que por convenção muitos designam pessoas, quando não mesmo pessoas humanas. A menos que o lema indique o percurso naturista pessoas > animais > natureza, três passinhos na re-volução da cultura à natura.
Mais um partido progressista propondo o paraíso, este Pan.
A invasão
Quando isto viram (os muçulmnos) desejaram passar prontamente para lá. E Muça nomeou chefe da vanguarda um liberto seu, chamado Tárique ibne Ziade, persa de Hamadane — ainda que outros digam que não era seu liberto, mas da tribo de Sadife —, para que fosse a Espanha com 7000 muçulmanos, na sua maior parte berberes e libertos, pois havia pouquíssimos árabes. E passou no ano 92 (29-X-710 a 18-X-711) nos quatro barcos mencionados, os únicos que tinha, os quais foram e vieram com infantaria e cavalaria, que se ia reunindo num monte muito forte, situado à beira-mar, até que esteve completo todo o seu exército.
Quando o rei de Espanha soube as novas da correria de Tárique, considerou o assunto uma coisa grave. Estava ausente da corte, combatendo Pamplona, e dali se dirigiu ao meio-dia, tendo reunido contra este (Tárique) um exército de cem mil homens ou coisa semelhante, segundo se conta.
Mal esta notícia chegou aos ouvidos de Tárique, escreveu a Muça pedindo-lhe mais tropas e dando-lhe parte de que se apossara de Algeciras e do Lago, mas que o rei de Espanha vinha contra ele com um exército que não podia defrontar. Muça, que desde a partida de Tárique mandara construir barcos e já tinha muitos, mandou-lhe com eles 3000 homens de modo que o exército chefiado por Tárique chegou a 12 000. Tinha já cativas muitas e importantes personagens; e com ele estava Julião, acompanhado de bastante gente do país, o qual lhe indicava os pontos indefesos e servia para espionagem.
Acercou-se Rodrigo com a flor da nobreza espanhola...Ant.º Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, 2.ª ed., vol. 2, Caminho, Lisboa, 1989, p. 45.
(Gravura de Tárique de Teodoro Hosemann — 1807-1875).
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Três vistas do Areeiro (*)
Praça do Areeiro, Lisboa, c. 1955.
Fotografias: Horácio de Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.
(*) Os canastrões da Fundação Gulbenkian etiquetaram estas três vistas como Praça Francisco Sá Carneiro, antiga do Areeiro. Uma tentativa espúria, a par do município, de impingir toponímia política, sectária, de regime, num lugar com topónimo natural e ancestralmente sabido da gente. Areeiro e mai' nada é como dizem os alfacinhas —Toma! — O Metro e os autocarros também; se estes mudarem perceberemos a vontade do regime democrático em democràticamente ditar a sua democrática vontade ao povo à gente.
Monumentalidade de Maio, melhoramentos de Abril...
Quem, vindo de automóvel das Picoas ao Campo Grande, se encaminhe pelo túnel no Campo Pequeno apanha com as ventas duma cavalgadura bem diante, num cartaz eleitoral.
É. A democracia tem custo imaterial que não é barato...
Pois bem, tenho encarado com aquilo diàriamente, mas ontem vi que alguma alma caridosa rasgara uma tira de alto a baixo no meio do cartaz; desgraçadamente a fronha retratada via-se à mesma, sem dano... — Bom, quando hoje tornei a passar já alguém restaurara o cartaz; do rasgão nem sinal; uma diligência partidária assaz capaz em compor um estrago, honestamente. O diabo é que o figurão que se apresenta no cartaz mortinho por reger o que resta da nação esteve oito anos como presidente da C.M.L. e já de lá cavou. E nesse tempo todo conseguiu escavacar a Praça do Areeiro sem a nunca restaurar. Cá está como ficou. Até hoje.
Pr. do Areeiro calcetada em betão-relvado, Lisboa, 2015.
In O Corvo.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Lutas civis e traição na Espanha visigoda
Nisto morreu o rei de Espanha, Vitiza, deixando alguns filhos, entre eles Opas e Sisberto, que o povo não quis aceitar. E alterando o país, tiveram por bem eleger e confiar o mando a um infiel chamado Rodrigo, homem resoluto e animoso que não era de estirpe real, mas chefe e cavaleiro.
Os grandes senhores de Espanha costumavam mandar os seus filhos, varões e fêmeas, para o palácio real de Toledo, na altura fortaleza principal da Espanha e capital do reino, a fim de que estivessem às ordens do monarca a quem só eles serviam. Ali se educavam até que, chegados à idade núbil, o rei os casava, provendo-os para isso de tudo o necessário.
Quando Rodrigo foi proclamado rei, prendeu-se da filha de Julião e forçou-a. Escreveram ao pai o sucedido e o infiel guardou o seu rancor e exclamou.
-- Pela religião do Messias, que hei-de transtornar o seu reino e hei-de abrir uma cova debaixo dos seu pés.
Mandou em seguida a sua submissão a Muça: conferenciou com ele, entregou-lhe as cidades colocadas sob o seu mando, mediante um pacto que concertou com vantagens e condições seguras para si e seus companheiros. E tendo-lhe feito uma descrição de Espanha estimulou-o a que procurasse a sua conquista. Acontecia isto no fim do ano 90 (20-XI-708 a 8-XI-709).
Muça escreveu a Alualide (califa de Damasco, chefe supremo do Islão) a nova destas conquistas e do projecto apresentado por Julião, ao que o califa respondeu dizendo:
-- Manda a esse país alguns destacamentos que o explorem e tomem informes exactos. E não exponhas os muçulmanos a um mar de ondas revoltas.
Muça respondeu-lhe que não era um mar, mas um estreito que permitia ao observador descobrir de uma parte a forma que o lado oposto revestia. Mas Alualide replicou-lhe:
-- Ainda que seja assim, informa-te por exploradores. Enviou, pois, um dos seus libertos, chamado Tárife e de cognome Abú Zara, com 400 homens, entre eles 100 de cavalaria, o qual passou em quatro barcos e arribou a uma ilha, chamada ilha de Andaluzia, que era arsenal (dos cristãos) e ponto donde largavam as suas embarcações. Por ter desembarcado ali tomou o nome de ilha de Tárife (Tarifa). Esperou que se lhe juntassem todos os seus companheiros e depois dirigiu-se em algara contra Algeciras. Fez muitos cativos como nem Muça nem os seus companheiros tinham visto semelhante; recolheu grande roubo e regressou são e salvo. Isto foi no Ramadã (sic) do ano de 91 (Julho de 710).
Quando isto viram (os muçulmanos) desejaram...Ant.º Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, 2.ª ed., vol. 2, Caminho, Lisboa, 1989, pp. 43-44.
(Imagem em ...)
Do ímpio desacato
Ah! a Volkswagen!
Aldrabar testes de emissão de carbono para a atmosfera é atroz sacrilégio! Comparável aos piores crimes punidos outrora pela Santa Inquisição. A Volkswagen só não acaba na fogueira porque um auto-de-fé seria condenado pelo Santo Ofício do Ambiente por razões fáceis de perceber. Não havendo auto-de-fé, porém, há no entanto Autoeuropa. — O Nicolaço lamuriou já esta manhã na emissora nacional as consequências para a Autoeuropa em Portugal. À falta de se lhe alguma vez plantar no bestunto qualquer ideia de auto-Portugal na Europa (ou sòmente em Portugal, que seja), fica-lhe bem a preocupaçãozinha com isso das coiso-Europas em Portugal. Quase tão bem como o papillon. E é para o que as nossas élites estrangeiradas dão...
Mas deste nefando desacato ando curioso: em caindo (e sendo apanhado) num pecado ambiental da ordem dos 9 dígitos como é possível não se haver comprado uma indulgência por, sei lá, um dízimo disso... E assalta-me a dúvida, terrível: é só a Volkswagen?!...
Carocha eco lógico em Carros & Clássicos.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
O mouro Muça
Muça dirigiu-se contra as cidades da costa do mar onde havia governadores do rei de Espanha que se tinham tornado donos delas e dos territórios circunvizinhos. A capital destas cidades era chamada Ceuta. E nela e nas comarcas mandava um infiel, de nome Julião, a quem Muça ibne Noçáir combateu, mas achou que tinha gente tão numerosa, forte e aguerrida como até então não tinha visto. E não podendo vencê-la, voltou para Tânger e começou a mandar algaras que devastassem os arredores, sem que por isso lograsse a sua rendição, porque, entretanto, iam e vinham de Espanha barcos carregados de víveres e tropas e eram, além disso, amantes do seu país e defendiam as suas famílias com grande esforço. Nisto morreu o rei de Espanha (...)Ant.º Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, 2.ª ed., vol. 2, Caminho, Lisboa, 1989, p. 43.
(Gravura do mouro Muça em Almusafir.)
Migrantes, não é?...
Dos canais nacionais aos «sky news» desta vida a transumância de gente pelo globo passou a equivaler-se à migração das andorinhas: temos só migrantes, portanto.
Compreende-se. A civilização das andorinhas é de bandos e não faz caso de fronteiras. A da gente, porém, é mais complexa e, como tal, os gregos que se abstiveram ontem ouvi-os hoje referidos pelo papillon como... emigrantes. Tem graça. Além do desvalorizar a abstenção em eleições — coisa que fica muito melhor a um democrata do que usar lacinho — os gregos, pertencendo a um grémio de estados que faz descaso das fronteiras internacionais entre si, são emigrantes. Os bandos de asiáticos e africanos à procura de raptar a Europa, são migrantes, pois, como as andorinhas...
Dantes os internacionalistas pagavam estadias por tempo adequado em estâncias de evangelização aos que desconhecessem a Revelação. Evangelização e catecismo ficavam por conta daqueles missionários da Boa Nova. Hoje o catecismo é servido por sermão e homilia liberal, democrática e pluripartidária na casa de jantar do cidadão eleitor ao preço tele-eucarístico do pacote do cabo. Paga o cidadão, bem entendido, porque nem democracia nem partidos hão-de ser diferentes dos almoços. O que espanta no meio deste roncar plural (cada partido sua sentença) é o diabo da força global que há aí capaz de pôr os noticieiros dos quatro cantos da democracia universal no ecuménico coro dos «migrantes» para referir as bárbaras e cafreais hordas que invadem a Europa. — Será a força geral da falta de nervo individual? Pois se é, não tarda a polícia e a tropa serem só de andorinhas migradoras... Roma desfez-se certa vez assim.
Ilustração: Carlos Alberto, História de Portugal, 13ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, [s.l.], 1968.
domingo, 20 de setembro de 2015
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
Vocabulário dos Descobrimentos
CEVADEIRA — Vela que pendia de uma verga atravessada no gurupés. ESCOTA — Cabo de que uma extremidade se fixa no punho inferior (isto é, no canto inferior) de uma vela e que serve para esticar a vela de maneira que receba bem o vento. ESCOVÉM — Abertura na proa, por onde passam as amarras que se prendem às âncoras. GÁVEA — A segunda vela do mastro grande, a que está acima da vela grande. Gávea de proa: segunda vela do mastro de proa, a que está acima do traquete. PAPA-FIGOS — As velas redondas mais baixas, isto é, a vela grande e o traquete. TRAQUETE — A mais baixa e maior vela redonda do mastro de proa. É um dos papa-figos. Primeiramente chamou-se «traquete» a qualquer vela redonda em geral, e «traquetes de gávea» ao que depois se chamou «gáveas». |
AMANTILHOS — Cabos que, fixos nas pontas das vergas, as seguram para os mastros a fim de as manter horizontais quando as velas estão colhidas. AMARRA - Cabo grosso que se prende à âncora para CHAPITÉU — Parte do navio mais elevada, à popa; castelo de popa. ENXÁRCIA — O conjunto dos cabos fixos que, para um e outro bordo, aguentam os mastros reais, descendo até às mesas. GURUPÉS — Mastro colocado na extremidade da proa, para diante, formando com a horizontal um ângulo de 30 a 40 graus. |
In Ant.º Sérgio (adapt.), História Trágico-Marítima, 10.ª ed., Sá da Costa, Lisboa, 1996.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
Duns pedaços de asno
Esta manhã parece que há Sporting – Benfica eleitoral. Na emissora nacional a notícia não era bem o acontecimento, mas o facto de ser a emissora nacional mai-lo resto da rádio a promover o acontecimento, inclusive por imagens — vá perceber-se a rádio!... — De caminho ouvi o locutor dos factos anunciar pelo meio dos quadrilheiros de turno à coscuvilhice dos acontecimentos que o contendor Costa fazia esperar o contendor-outro por estar engarrafado. Pois bem, era caso para ter ido de burro.
Aterro de Santos-o-velho, Lisboa, c. 1910.
Foto: Charles Chusseau-Flaviens, in George Eastman House.
Dafundo
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
Era de iluminados
O irmão Constâncio raiou esta manhã a arengar sobre a horda que invade a Europa. Um frete por dever de obediência que a emissora nacional não resumiu melhor:
O vice-presidente do Banco Central Europeu admite que as taxas de desemprego são elevadas e defende que os imigrantes são vitais para manter a força de trabalho (R.T.P., 16/IX/15).
É vital manter a força de trabalho de 26 milhões e meio de pessoas sem emprego?!... Que raio de iluminação!
Moeda de culção
Certa vez reclamei formalmente ao patrão duma melhoria de ordenado negada por migalhas de absentismo. Invoquei o artigo do decreto tal, a alínea não sei das quantas, o espírito da lei e a moral do legislador ou vice-versa, já me não lembro muito bem. Mas tudo muito bem redigido e argumentado, porque o absentismo estava mal contado. Recebi do director de Pessoal uma resposta toda jurídica contra-argumentando suas razões e que assim eram e não haviam de deixar de ser. Não me querendo meter em demandas nem contendas, aconselharam-me o Provedor de Justiça. Assim foi. Passados dois meses ou coisa oficiou-me justamente o provedor, em anexo, com a mesmíssima resposta toda jurídica do sr. director de Pessoal e nos exactíssimos contra-argumentos que me anteriormente fora apresentada. Sem mais. Ficámos assim.
Lembrou-me agora desta historieta por ler na folha oficial de duas inutilidades de nomeada — o Provedor da Justiça e a Casa da Moeda — e do que andam elas a preparar. Parabéns à prima!
(Revisto.)
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Do jornalismo de inculca
Público, 15/IX/15.
A 1.ª página de hoje do Público nutre os neurónios ao leitor com inculcas à la Catarina Martins. Percebe-se o concerto deste jornalismo capcioso — desfazer do governo (não que o defenda eu!) — Sucede que estas inculcas são doutrinárias em mais do que essa medida; rebaixam a gente cá, especialmente se trazem (como habitual) comparação com os de lá da Europa, essa luz de progresso assaz imperiosa a quem antes se soube fazer ao Atlântico a dar novas terras ao reino e novos mundos à... Europa.
Os portugueses são, pois, dos últimos da Europa a regressar às aulas. Convençam-nos subliminarmente que sim, por desorganização, por mandriice, por atavismo serôdio — o mesmo que povoa este jornalismo, pois claro. Está bem de ver que lá na Europa progressiva, onde o Verão é ratinho, os meninos tornem temporãos à escola porque neva no pino do Inverno que Deu-lo dá impossibilitando haver escola. Mas claro que o portugalinho moderno e desenvolvido que se quere — de preferência à esquerda, porque não há progresso em mais quadrante nenhum — precisa de fazer descaso dos verões abrasadores e dos invernos amenos que lhe calharam ao atraso civilizacional. Daqui ouvirmos aí já latir que deva haver por cá férias de Inverno à maneira estrangeira. E começar as aulas talvez em Agosto, a par da bola. Melhor só o sol-pôr no Verão às 11h00 da noute...
No tempo em que o ano lectivo começava em 7 de Outubro...
... E como ao depois dos amanhãs a cantar os anos lectivos entravam em Novembro e Dezembro sem haver professores...
Há dias ecoou-me dum noticiário domingueiro a coordenadora do tijolo da canhota «nunca a escola pública começou tão tarde…». Bem sei que à esquerda o mundo só começou agora, mas, na realidade nunca começou tão cedo.
Não é tão tenrinha aquela coor'nadora?...
Escola primária n.º 24, B.º de S. Miguel em Lisboa, 1956.
Armando Serôdio, in archivo photographico da C.M.L.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
Redondilha maior
Ora da nau catrineta (*)
Dela vos quero contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.
== // ==
Lá vem o João Ancinho
Que tem muito que plantar
Sacos, alfaias, sementes,
E a Dyane a transportar.
— Bom dia! — Viva! Bom dia!
* * *
No sossego dum destes serões lia calmamente eu a Garrett no Romanceiro: Esta é sem questão a mais geralmente sabida e cantada de nossas xácaras populares, a «Bela Infanta», cujos versos são aqueles — Estava a bela Infanta // No seu jardim assentada // Com o pente de oiro fino // Seus cabelos penteava &c. — Estranha coisa a dos referenciais. A verdade dela, que me deixa até nalguns cuidados, é que no ritmo dos versos que lia e trauteava mentalmente vinha-me à ideia aquela velha ladainha publicitária da Citroën Dyane, que aprendi de ouvido em pequenino: Lá vem a D.ª Maria // Mais o seu belo carrinho // Leva os meninos à escola // Faz as compras de caminho. // E eu a vê-los passar...
Os meus cuidados são, pois, aflição fácil de entender a quem me conheça: a xácara da Bela Infanta, a mais geralmente sabida e cantada das nossas xácaras populares, nunca a conhecera eu de tradição oral, nem de lê-la, sequer, senão agora nesta idade que a lia. E no entanto o reclamo da Dyane (uma coisa moderna e lá de fora) aprendera-o em tenra idade como por... tradição oral. Que ironia!
Metido nestes cuidados, pois bem, lembrei-me d' A Nau Catrineta, o único rimance aprendido de que retinha memória; bem certo que lhe não sabia mais que um par de versos (que aflitiva falta de cultura, Jasus!), mas pelo menos tinha-o de ouvir dizer. E folheando adiante o Romanceiro que lia sempre o achei — Lá vem a nau Catrineta // Que tem muito que contar! — A semelhança com aqueles Lá vem o João Ancinho // Que tem muito que plantar é evidente, mas nunca tal me ocorrera até ali. Bem lhes percebo, agora, aos do anúncio, a inspiração. Já lá vamos...
O caso é que A Nau Catrineta, como todo o romanceiro português, esqueceu. Se se ouve é como curiosidade etnográfica; se sobrevive é em livros que poucos lêem; pode até dar (e talvez deia) nas TV, mas como coisa de museu, nada como as ladainhas repetitivas e efémeras da publicidade hodierna. Aquele velho e vivo repetir dos romances populares na voz das gentes acabou; hoje trauteiam-se outras coisas...
Desculpo-me da minha ignorância do romanceiro português com fracos argumentos, pois bem. E com uma descoberta: nestas cogitações apercebi-me do saber literário e da destreza poética do publicitário por estribar-se habilmente nos versos d' A Nau Catrineta; se bem que gente em geral como eu nem haja aprendido o seu romanceiro, o ritmo que ancestralmente nos fazia, aos portugueses, com toda facilidade reter de ouvido os romances da tradição era a redondilha maior, que é muito do génio da nossa linguagem. Vejo por conseguinte como são os versos da Citroën Dyane todos em redondilha maior e como me por isso ficaram até hoje no ouvido. Se n' é cousa de pasmar, é bem ela de admirar.
Lá vem o João Ancinho — Bom dia! — Viva! Bom dia! Lá vem a Dona Maria (Nhã nhanhã nhanhã nhã!) E eu a vê-los passar! Que diabo de negócio |
(*) Sigo a lição da Estremadura ensinada em nota por Garrett, que preferiu seguir no seu Romanceiro a mais geral Lá vem a nau Catrineta // Que tem muito que contar (ed. do Círculo de Leitores, 1997, p. 272).
Imagem dos Livros Suméria.
domingo, 13 de setembro de 2015
Meditações copo-de-leite
Comenta-se por aí a fotografia de plástico. É só o que se comenta. Uns dizem isto, outros aquilo. Alguém me pregunta por que mandou ele aquilo aos jornais, ensaiando pronta a resposta: -- Para mostrar que está na maior?!... -- Não sei. Nem me ocorre razão senão o reclamo à água engarrafada. -- Depois das pizzas, a água engarrafada. -- E de feito, os comensais na fase do arroto àquela mesa não só se não perdem nos negocios, como se vão até achando nalguns... Só faltou lá o Vara...
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Alvores do bairro de Arroios
Vieram os eléctricos e durante muitos meses os pavimentos ficaram revolvidos. Era o progresso, a civilização à porta. Ainda me lembro da tardinha calmosa em que passou o primeiro, com a bandeirola a dizer «Experiência», vagaroso, tacteando os carris novos, cheio de pessoal, até parecia uma gaiola de estorninhos. Foi um acontecimento. O comércio animou-se. Houve quem desse palmas! Os pinocas do bairro aprenderam a subir e a descer com o carro em andamento: alguns estampavam-se. As meninas caseiras punham-se à janela para ver quem subia e quem descia. As criadas vinham com um banquinho, para que as patroas de saia travadinha pudessem trepar ao estribo, duma altura vertiginosa. Nesse tempo ainda havia lugar nos eléctricos, seu Apolinário: e «carros do povo» e carros do Chora a fazer concorrência!
José Rodrigues Miguéis, «Saudades para a Dona Genciana», in Léah e Outras Histórias, Círculo de Leitores, [s.l.], [1971], pp. 192-193.
Rua Paschoal de Mello, Lisboa, c. 1908.
José Arthur Leitão Barcia, in archivo photographico da C.M.L.
sábado, 5 de setembro de 2015
Dumas terraplenagens na Alameda...
Terreplenagens na Alameda, Lisboa, 1939.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.
Em tempos andei às voltas com esta imagem tentando enquadrá-la com os quarteirões edificados a N da Alameda. Consegui percebê-la graças à casa assinalada que, com admiração, então, verifiquei das vistas aéreas ainda existir. O que me mais surpreendeu, todavia, então, foi a dita casa não ter frente para nenhuma das ruas adjacentes; acha-se encravada no interior do quarteirão. Na altura não curei muito mais do caso. Apenas conjecturei que pudesse ter serventia independente para rua através dalgum arco nos prédios que a rodeiam, à maneira de tantas vilas operárias que ainda podemos ver em Lisboa.
Tem graça isto agora porque ouvi há pedaço nas notícias uma jornalista pé-de-microfone dizer que nas traseiras da casa de que se fala, na Rua Abade Faria, 33 há uma «vivenda»... — Afinal aquela casa que me intrigou faz tempo não tem serventia independente.
Empreendendo de novo agora no caso, a razão do seu desvio das ruas adjacentes — mormente da Abade Faria — é bem ela pousar no que era orla SE [NE] da velha quinta dos Pacatos (retiro alfacinha dos mais afamados) que dava para a esquecida Azinhaga do Areeiro — antiga Azinhaga do Areeiro, depois Rua Carvalho Araújo e hoje, pois bem, Rua Abade Faria — e ter sido edificada antes (portanto à revelia) do alinhamento do bairro; isto tira-se muito facilmente da fotografia. Como acabou tão recuada, deu azo a que se lhe levantassem capazmente outros prédios à face das ruas do novo bairro sem na demolir. A parcela em que estava deu boa folga ao que o transeunte vê hoje como o 33 da Abade Faria, morada que, no fundo, não deixa de ser ela mesma, a tal casa...
Uma curiosidade olisipográfica de engenharia civil relativa que fico a dever, no fundo, ao 44 de Évora, que é o que admira mais.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
Notícia de inteligência...
O meu prezado amigo Fernando C. cumprimentou-me hoje com uma pergunta enigmática: se já ouvira a expressão saved by the bell?
Bom, já, mas, e a sua origem, sabia-a eu?
Por acaso não.
— Nos tempos daquelas epidemias que dizimavam numerosa gente acontecia enterrarem vivos pelo meio dos mortos. E então prendia-se-lhes uma sineta na mão que havia de tocar se o «morto» não tivesse morrido. Pois bem, isso era dantes. Agora, está aqui no jornal, os espanhóis descobriram uma maneira melhor de não enterrar vivos: matam os mortos duas vezes...
Destak, 1/IX/15.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Almoço ao lume
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Vista do alto
Vista sobre a Rua de Paschoal de Mello, Arroios, c. 1908.
José Arthur Leitão Bárcia, in archivo photographico da C.M.L.






