Ora da nau catrineta (*)
Dela vos quero contar!
Ouvide agora, senhores,
Uma história de pasmar.
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Lá vem o João Ancinho
Que tem muito que plantar
Sacos, alfaias, sementes,
E a Dyane a transportar.
— Bom dia! — Viva! Bom dia!
* * *
No sossego dum destes serões lia calmamente eu a Garrett no Romanceiro: Esta é sem questão a mais geralmente sabida e cantada de nossas xácaras populares, a «Bela Infanta», cujos versos são aqueles — Estava a bela Infanta // No seu jardim assentada // Com o pente de oiro fino // Seus cabelos penteava &c. — Estranha coisa a dos referenciais. A verdade dela, que me deixa até nalguns cuidados, é que no ritmo dos versos que lia e trauteava mentalmente vinha-me à ideia aquela velha ladainha publicitária da Citroën Dyane, que aprendi de ouvido em pequenino: Lá vem a D.ª Maria // Mais o seu belo carrinho // Leva os meninos à escola // Faz as compras de caminho. // E eu a vê-los passar...
Os meus cuidados são, pois, aflição fácil de entender a quem me conheça: a xácara da Bela Infanta, a mais geralmente sabida e cantada das nossas xácaras populares, nunca a conhecera eu de tradição oral, nem de lê-la, sequer, senão agora nesta idade que a lia. E no entanto o reclamo da Dyane (uma coisa moderna e lá de fora) aprendera-o em tenra idade como por... tradição oral. Que ironia!
Metido nestes cuidados, pois bem, lembrei-me d' A Nau Catrineta, o único rimance aprendido de que retinha memória; bem certo que lhe não sabia mais que um par de versos (que aflitiva falta de cultura, Jasus!), mas pelo menos tinha-o de ouvir dizer. E folheando adiante o Romanceiro que lia sempre o achei — Lá vem a nau Catrineta // Que tem muito que contar! — A semelhança com aqueles Lá vem o João Ancinho // Que tem muito que plantar é evidente, mas nunca tal me ocorrera até ali. Bem lhes percebo, agora, aos do anúncio, a inspiração. Já lá vamos...
O caso é que A Nau Catrineta, como todo o romanceiro português, esqueceu. Se se ouve é como curiosidade etnográfica; se sobrevive é em livros que poucos lêem; pode até dar (e talvez deia) nas TV, mas como coisa de museu, nada como as ladainhas repetitivas e efémeras da publicidade hodierna. Aquele velho e vivo repetir dos romances populares na voz das gentes acabou; hoje trauteiam-se outras coisas...
Desculpo-me da minha ignorância do romanceiro português com fracos argumentos, pois bem. E com uma descoberta: nestas cogitações apercebi-me do saber literário e da destreza poética do publicitário por estribar-se habilmente nos versos d' A Nau Catrineta; se bem que gente em geral como eu nem haja aprendido o seu romanceiro, o ritmo que ancestralmente nos fazia, aos portugueses, com toda facilidade reter de ouvido os romances da tradição era a redondilha maior, que é muito do génio da nossa linguagem. Vejo por conseguinte como são os versos da Citroën Dyane todos em redondilha maior e como me por isso ficaram até hoje no ouvido. Se n' é cousa de pasmar, é bem ela de admirar.
Lá vem o João Ancinho — Bom dia! — Viva! Bom dia! Lá vem a Dona Maria (Nhã nhanhã nhanhã nhã!) E eu a vê-los passar! Que diabo de negócio |
(*) Sigo a lição da Estremadura ensinada em nota por Garrett, que preferiu seguir no seu Romanceiro a mais geral Lá vem a nau Catrineta // Que tem muito que contar (ed. do Círculo de Leitores, 1997, p. 272).
Imagem dos Livros Suméria.
Obrigado, Caro Bic, por me ter feito sorrir e lembrar os tempos de infância da minha filha mais velha; nesse tempo ainda havia neurónios nos publicitários (que eram uns exagerados - lembra-se?); agora é o deserto em todo o seu esplendor.
ResponderEliminarCumpts
Assistimos a histriões como cachos...
ResponderEliminarTão cachos que ante uma Sagres querem rimar milagres. Milagre, como sabemos, era ser tinto.
É o pátio das cantigas em sinapses de euromelões...
Cumpts.