Acercou-se Rodrigo com a flor da nobreza espanhola e os filhos dos seus reis, os quais, ao verem o número e disposição dos muçulmanos, tiveram uma conferência e disseram uns aos outros:
— Este filho de má mulher [refere-se ao rei Rodrigo] fez-se dono do nosso reino sem ser de estirpe real, mas [é], ao contrário, um dos nossos inferiores. Aquela gente [os mouros] não pretende estabelecer-se no nosso país. A única coisa que deseja é ganhar boa presa: conseguida esta, marcharão e nos deixarão. Empreendamos a fuga no momento da peleja e o filho de má mulher será derrotado.
E foi nisto que acordaram.
Rodrigo dera o mando da ala direita do seu exército a Sisberto e o da esquerda a Opas, ambos filhos do seu antecessor Vitiza e cabeças da conspiração indicada. Aproximou-se, pois, com um exército de cerca de 100 000 combatentes e tinha este número (e não outro maior) porque houvera em Espanha uma fome que (principiou ano de 88 e continuou durante todo o ano e os de 89 e 90) e uma peste durante a qual morreram metade ou mais dos habitantes. Veio depois o ano de 91 (9-XI-709 a 28-X-710) que foi ano em Espanha que, por sua abundância, recompensou os males passados e no qual se efectuou a invasão de Tárique.
Encontraram-se Rodrigo e Tárique, que permanecera em Algeciras num lugar chamado o Lago, e pelejaram encarniçadamente. Mas as alas direita e esquerda, a mando de Sisberto e Opas, filhos de Vitiza, puseram-se em fuga. E ainda que o centro resistisse algum tanto, no final Rodrigo foi também derrotado e os muçulmanos fizeram grande matança nos inimigos. Rodrigo desapareceu em que se soubesse o que lhe havia acontecido, pois os muçulmanos só encontraram o seu cavalo branco com sela de ouro, guarnecida de rubis e esmeraldas e um manto tecido de ouro e bordado de pérolas e rubis. O cavalo caíra num lodaçal e o cristão que caiu com ele, ao arrancar [a] pé, deixara um tesouro no lodo. Só Deus sabe o que se passou, pois não se teve notícia dele nem se encontrou vivo ou morto.Ant.º Borges Coelho, Portugal na Espanha Árabe, 2.ª ed., vol. 2, Caminho, Lisboa, 1989, p. 45.
Batalha de Guadalete (Mariano Barbasán Langueruela, 1882).
Óleo sobre tábua, 21,9 × 50,2 cm.
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