Vieram os eléctricos e durante muitos meses os pavimentos ficaram revolvidos. Era o progresso, a civilização à porta. Ainda me lembro da tardinha calmosa em que passou o primeiro, com a bandeirola a dizer «Experiência», vagaroso, tacteando os carris novos, cheio de pessoal, até parecia uma gaiola de estorninhos. Foi um acontecimento. O comércio animou-se. Houve quem desse palmas! Os pinocas do bairro aprenderam a subir e a descer com o carro em andamento: alguns estampavam-se. As meninas caseiras punham-se à janela para ver quem subia e quem descia. As criadas vinham com um banquinho, para que as patroas de saia travadinha pudessem trepar ao estribo, duma altura vertiginosa. Nesse tempo ainda havia lugar nos eléctricos, seu Apolinário: e «carros do povo» e carros do Chora a fazer concorrência!
José Rodrigues Miguéis, «Saudades para a Dona Genciana», in Léah e Outras Histórias, Círculo de Leitores, [s.l.], [1971], pp. 192-193.
Rua Paschoal de Mello, Lisboa, c. 1908.
José Arthur Leitão Barcia, in archivo photographico da C.M.L.
Ó diabo, isso é muito antigo. Ainda não havia bifes com ovo a cavalo, lá na esquina...
ResponderEliminarO que mais me admira é o desnível do aterro entre o jardim de Constantino e a Av. D.ª Amélia (Almirante Reis). Soterrou inúmeras casas por ali e afrontou umas quantas mais. Hoje mal se percebe, salvo no viaduto da rua de Arroios.
ResponderEliminarCumpts,