Um curtinho resumo sobre o caso (casos) de Humberto Delgado enquanto delegado na O.A.C.I. -- Ninguém no M.N.E. dava grande importância ás comunicações de Delgado --, enquanto adido militar junto do então embaixador em Washington, L. Esteves Fernandes, com quem não se entendia, pode ler-se em Carlos Fernandes, Recordando; O caso Delgado e outros casos, Universitária Editora, Lisboa, 2002, pp. 95-100.
Este nosso embaixador Carlos Fernandes, depois de ter lidado sempre cordialmente com Delgado em Lisboa, no M.N.E., e em Nova Iorque, quando esteve nas Nações Unidas, surpreendeu-se com a sua candidatura a Presidente da República pela oposição, e ainda mais com os ataques violentos contra Salazar, de quem fora admirador incondicional e panegirista. Mas Humberto Delgado era truculento. Todo o ambiente à sua volta era conflituoso, e não por razões políticas.
Depois das eleições, consta que o embaixador do Brasil em Lisboa, Álvaro Lins, inimigo declarado de Salazar (apesar disso, o Governo português nunca o declarou «persona non grata»), incitou Delgado à revelia do Itamarati a abrigar-se na embaixada do Brasil e a pedir asilo diplomático, criando um caso. A questão parece, pois, provocada pelo desagrado pessoal do embaixador Álvaro Lins com o Governo de Portugal e configura na prática uma intervenção ilegítima [do Brasil] nos assuntos internos portugueses por, precisamente, haver o Itamarati tomado as dores do seu embaixador em Lisboa. Em toda a história Delgado era um pretexto e uma vítima.
Eram os fados de Delgado: servir de instrumento a gente com agenda bem definida. Ainda depois de morto serve…
(Neste passo convém notardes o agravo gratuito do Brasil a Portugal, torpeza que se repete tanta vez sem motivo e que a só estranhareis por haver vicejado então dum capricho particular de Álvaro Lins, logo por infortúnio embaixador.)
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[…] Soube depois do assassinato de H. Delgado e fiquei horrorizado, quer pela sua violência quer pelo crime em si, tanto mais quanto associava a D.G.S., e, particularmente, Rosa Casaco àquele assassinato. Fui por isso a correr ver o ministro do Interior, Santos Júnior […]
Santos Júnior fez-me um relato da ida dos pides a Espanha, afastando a ideia de que a D.G.S. estivesse envolvida no assassinato, mas deixou-me perplexo. Concluí que ele não sabia muito do que realmente se passava na D.G.S., mas não quis ir ver Silva Pais.
O ministro Franco Nogueira também nada de concreto sabia, tendo mesmo sido enganado pela D.G.S., levando-o a declarações infelizes contra as autoridades espanholas e, finalmente a um péssimo relacionamento com o seu colega espanhol. O próprio Salazar fora enganado.
Fiquei assim a nada saber de concreto, e, uma vez que já não pode ser condenado ou cumprir pena devido a prescrição, seria de interesse geral que Rosa Casaco esclarecesse devidamente o que se passou com o estúpido e bárbaro assassinato de Humberto Delgado e companheira, se é que sabe, para todos nós também sabermos se constituiu ou não uma vergonha nacional ou apenas a de algumas individualidades ou grupos políticos, de direita ou de esquerda. (pp. 98-99.)
E aí tendes: os ministros pouco ou nada sabiam; o presidente do conselho fôra enganado e; Rosa Casaco, ainda vivo quando foram escritas as linhas acima, não esclareceu mais nada -- como não esclarecera em 1998 na entrevista ao saco de plástico repescada em 2006. Mas finalmente fez-se toda a luz no caso, porque a Pimentela teve uma fèzada e a Pitonisa corroborou regimentalmente como lhe cabia, para soprarem alegremente as velas do infausto cinquentenário.

(Págs. de Humberto Delgado, Da Pulhice do «Homo Sapiens», Ventura Abrantes, Lisboa, 1933.)
(Revisto em 20 às 8.)