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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

E Salazar é que sabia!...

 Um curtinho resumo sobre o caso (casos) de Humberto Delgado enquanto delegado na O.A.C.I. -- Ninguém no M.N.E. dava grande importância ás comunicações de Delgado --, enquanto adido militar junto do então embaixador em Washington, L. Esteves Fernandes, com quem não se entendia, pode ler-se em Carlos Fernandes, Recordando; O caso Delgado e outros casos, Universitária Editora, Lisboa, 2002, pp. 95-100.


 Este nosso embaixador Carlos Fernandes, depois de ter lidado sempre cordialmente com Delgado em Lisboa, no M.N.E., e em Nova Iorque, quando esteve nas Nações Unidas, surpreendeu-se com a sua candidatura a Presidente da República pela oposição, e ainda mais com os ataques violentos contra Salazar, de quem fora admirador incondicional e panegirista. Mas Humberto Delgado era truculento. Todo o ambiente à sua volta era conflituoso, e não por razões políticas.


 Depois das eleições, consta que o embaixador do Brasil em Lisboa, Álvaro Lins, inimigo declarado de Salazar (apesar disso, o Governo português nunca o declarou «persona non grata»), incitou Delgado à revelia do Itamarati a abrigar-se na embaixada do Brasil e a pedir asilo diplomático, criando um caso. A questão parece, pois, provocada pelo desagrado pessoal do embaixador Álvaro Lins com o Governo de Portugal e configura na prática uma intervenção ilegítima [do Brasil] nos assuntos internos portugueses por, precisamente, haver o Itamarati tomado as dores do seu embaixador em Lisboa. Em toda a história Delgado era um pretexto e uma vítima.


 Eram os fados de Delgado: servir de instrumento a gente com agenda bem definida. Ainda depois de morto serve…


 (Neste passo convém notardes o agravo gratuito do Brasil a Portugal, torpeza que se repete tanta vez sem motivo e que a só estranhareis por haver vicejado então dum capricho particular de Álvaro Lins, logo por infortúnio embaixador.)


*
*        *



[…] Soube depois do assassinato de H. Delgado e fiquei horrorizado, quer pela sua violência quer pelo crime em si, tanto mais quanto associava a D.G.S., e, particularmente, Rosa Casaco àquele assassinato. Fui por isso a correr ver o ministro do Interior, Santos Júnior […]
 Santos Júnior fez-me um relato da ida dos pides a Espanha, afastando a ideia de que a D.G.S. estivesse envolvida no assassinato, mas deixou-me perplexo. Concluí que ele não sabia muito do que realmente se passava na D.G.S., mas não quis ir ver Silva Pais.
 O ministro Franco Nogueira também nada de concreto sabia, tendo mesmo sido enganado pela D.G.S., levando-o a declarações infelizes contra as autoridades espanholas e, finalmente a um péssimo relacionamento com o seu colega espanhol. O próprio Salazar fora enganado.
 Fiquei assim a nada saber de concreto, e, uma vez que já não pode ser condenado ou cumprir pena devido a prescrição, seria de interesse geral que Rosa Casaco esclarecesse devidamente o que se passou com o estúpido e bárbaro assassinato de Humberto Delgado e companheira, se é que sabe, para todos nós também sabermos se constituiu ou não uma vergonha nacional ou apenas a de algumas individualidades ou grupos políticos, de direita ou de esquerda. (pp. 98-99.)



 E aí tendes: os ministros pouco ou nada sabiam; o presidente do conselho fôra enganado e; Rosa Casaco, ainda vivo quando foram escritas as linhas acima, não esclareceu mais nada -- como não esclarecera em 1998 na entrevista ao saco de plástico repescada em 2006. Mas finalmente fez-se toda a luz no caso, porque a Pimentela teve uma fèzada e a Pitonisa corroborou regimentalmente como lhe cabia, para soprarem alegremente as velas do infausto cinquentenário.


Humberto Delgado, Da Pulhice do «Homo Sapiens», Casa Ventura Abrantes, 1933
(Págs. de Humberto Delgado, Da Pulhice do «Homo Sapiens», Ventura Abrantes, Lisboa, 1933.)

(Revisto em 20 às 8.)

19 comentários:

  1. O autor material do crime até poderá ter sido a PIDE. As questões que neste caso se colocam são outras, às quais - que saiba - os “democráticos” nunca responderam coerentemente e que respeitam ao autor moral do mesmo crime:

    1º) Por que motivo decidiu reentrar Delgado em Portugal naquela altura? Algo ou alguém o convenceu a dar tal passo?

    2º) Como soube a PIDE que Delgado ia reentrar em Portugal? Como obteve ou quem lhe transmitiu tal informação?

    3º) Pretendia a PIDE apenas deter Delgado? Se sim, por que é que a coisas se descontrolaram e acabaram como acabaram?

    Obter respostas para estas perguntas ajuda(ria) muito a esclarecer todo este imbróglio...

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  2. A esquerda comunista, socialista e extremo-esquerdista anda há séculos a teimar a pés juntos que foi Salazar quem mandou matar Delgado... Pois, mas o que é estranhíssimo foi o facto de ao ter tomado conhecimento do crime ter ficado irritadíssimo, ter dito que tal acto (totalmente fora das normas seguidas pelo regime quanto a enfrentar oposicionistas dos mais perigosos, tanto na Metrópole como em África) poderia provocar graves danos no regime e por isso ter ordenado d'imediato que o crime fosse minuciosamente investigado e que todas as provas fossem enviadas à Justiça.

    Pois é, esta foi a sua atitude e palavras tendo ele 'sido' o 'mandante' do crime..., o que diria se não tivesse sido...

    Hipócritas, cínicos e mentirosos d'um raio.
    Maria

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  3. O sem medo quando em Washington — adido militar de aeronautica — portanto em representação de Portugal, desatou a comer as mulheres dos colegas da NATO. Claro que quando uma mulher passa para segunda, terceira ou quarta posição envenena tudo e todos. Foi isso que lixou o sem medo. Toda a gente sabia.
    Além de um comportamento indigno, sabido nos meios políticos (e não só em Portugal) e com a ordem de Salazar, foi logo recambiado para a Pátria.
    Salazar não se opunha a devaneios extra-matrimoniais. Mas ali estava o bom nome de Portugal. Um representante do País não podia "dar bandeira" em negócios de alcova.
    Tiraram-lhe a alcofa debaixo dos queixos e o sem medo passou-se para a oposição.
    Mais coragem teve o Henrique Galvão. Um dia conto-vos a saga.
    Abraço

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  4. A caca do sistema usado não nos informa de nada. Vai uma cópia.

    O sem medo quando em Washington — adido militar de aeronautica — portanto em representação de Portugal, desatou a comer as mulheres dos colegas da NATO. Claro que quando uma mulher passa para segunda, terceira ou quarta posição envenena tudo e todos. Foi isso que lixou o sem medo. Toda a gente sabia.
    Além de um comportamento indigno, sabido nos meios políticos (e não só em Portugal) e com a ordem de Salazar, foi logo recambiado para a Pátria.
    Salazar não se opunha a devaneios extra-matrimoniais. Mas ali estava o bom nome de Portugal. Um representante do País não podia "dar bandeira" em negócios de alcova.
    Tiraram-lhe a alcofa debaixo dos queixos e o sem medo passou-se para a oposição.
    Mais coragem teve o Henrique Galvão. Um dia conto-vos a saga.
    Abraço

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  5. Houve de moderar os comentários por causa de certos marotos inconvenientes.
    Lamento.

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  6. Desconhecia. Esses assuntos não transpiram, como não transpira que o bando de Argel o denegria e acusava de manobras publicitárias quando deixou de dar notícias em Fevereiro de 65, mas pela surra lhe tentou deitar a mão aos arquivos no escritório em Argel. E logo que correu a notícia de sua morte o retomaram por um dos seus e para obterem um mártir.
    O que transpira é, pois, só só o «demito-o», que já rescende a bafio.
    Cumpts.

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  7. O assassinato de pouco servia ao governo e serviu de bandeja um mártir aos comunistas. Configura-se mais ao modus operandi dos estalinistas que do Estado Novo, embora a propaganda apregoe o contrário.
    Mas a verdade é que não sabemos como nem porquê sucedeu o que sucedeu.
    Cumpts

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  8. Rosa Casaco afirmou que foi um ardil da P.I.D.E. para o prender. Não vejo razão para duvidar. Que algo correu mal também o diz. Porquê é que não disse. Calhando nem ele soube. E calhando a explicação mais prosaica é a verdadeira: Delgado ter-se destemperado com tentarem prendê-lo e puxado duma arma. Era homem para isso. Casimiro Monteiro disparou primeiro. O resto são teorias da conspiração e propaganda gratuita.
    Cumpts.

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  9. Com os anti-fâxistas à perna? Ainda por cima nascidos ontem,ouviram dizer.Dos verdadeiros,os que deram o "corpo ao manifesto",poucos restarão.De resto e a "traço grosso" a Pide/DGS assumiu a morte.Ouvi a versão
    Pereira de Carvalho,diferindo um pouco da de Casaco,havia algumas incompatibilidades entre directores,uma das versões de Casaco aponta para Casimiro Monteiro como responsável.São unânimes nisto:
    a morte não estaria planeada(Casaco refere ter visto cal e ácido num dos carros...)mas aconteceu.E nenhum "chutou" para Salazar.

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  10. Deram o corpo a manifesto deram. E a alma ao Diabo.
    E do resto, a verdade é que não sabemos.
    Cumpts.

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  11. Inspector Jaap1/3/15 12:38

    Pois de facto não sabemos mesmo; mas usando a lógica: a quem aproveitou – de facto – a sua morte? Ao regime? Decerto que não; Foi Salazar que ordenou a sua morte? Pimentélico delírio politicamente correcto; pois se isso fosse verdade acham mesmo que o ABC alguma vez saía com vida das garras da tenebrosa P.I.D.E .? Acham mesmo?
    Ao que parece o homem era imprevisível e espaventoso; isso da Argel está mais do que (com)provado; e sabe-se que o PCP nunca foilá muito tolerante com gente que não controlasse COMPLETAMENTE, com o era o caso… Já imaginaram o que seria o novo regime se ele tivesse sido eleito? Acham que seria o PCP a formar governo? Se calhar a P.I.D.E. tornar-se-ia bem mais activa e, quiçá violenta, pois tal estaria bem mais de acordo com a mente do tal senhor.
    A quem aproveitou – de facto – a sua morte?
    Para meditar.
    Cumpts

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  12. A verdade é que se não sabe nada. E quando não se sabe nada pode dizer-se tudo.
    Cumpts.

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  13. Manuel Cáceres23/7/15 09:23

    Ver mis comentarios a partir del 17-18 de Febrero de 2015:

    http://noledigasamimadrequeestoyhaciendofoto.blogspot.com.es/2015/02/se-conmemora-el-50-aniversario-del.html

    Y otro enlace:

    http://noledigasamimadrequeestoyhaciendofoto.blogspot.com.es/2015/02/se-conmemora-el-50-aniversario-del_1.html

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  14. Prezado Sr. Manuel Cáceres, muito lhe agradeço as remissões que fez o favor de deixar. O seu estudo dos factos parece-me vasto e pormenorizado. Os seus comentários são preciosos, sem a tentação de especular, o que é raro.
    Deixo as remissões directas.

    Comentários

    Imagens

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  15. Manuel Cáceres22/8/15 09:40

    Se añadió una foto-composición, del monumento en Villanueva del Fresno, para que vean si es que existe diferencia.

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  16. Obrigado pela remissão.
    Cumpts.

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  17. Manuel Cáceres10/11/16 06:25

    He añadido algunas,interesantes,fotos más.

    http://noledigasamimadrequeestoyhaciendofoto.blogspot.com.es/2015/02/se-conmemora-el-50-aniversario-del_1.html

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  18. Manuel Cáceres17/2/17 06:55

    Se añadieron más fotos y documentos.

    http://noledigasamimadrequeestoyhaciendofoto.blogspot.com.es/2015/02/se-conmemora-el-50-aniversario-del_1.html

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