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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Os tagiários e o salpicão do Nordeste

 -- O sr. telespectador sabe o que são bísaros?... Bísaros... -- O professor Hermano Saraiva dialogava assim connosco nos Horizontes da Memória. Dizia-o naquela maneira clara e ritmada, entoando bem as sílabas e baixando a voz quando repetia o mote -- Bísaros... -- antes de desvendar o enigma.


 Bom, não é de bísaros, é de tagiários. -- O benévolo leitor sabe o que são tagiários? -- Camões falou nas tágides; acha o meu benévolo leitor que aqueles são uma espécie de ninfas do Tejo?... -- Tagiários!...


 Pois eu não sei. Dizia a sr.ª jornalista há pedaço na telefonia de as autarquias haverem de receber mil e quinhentos tagiários. Não sei se são ninfas, mas fiquei a saber que podem ser jovens pois houve logo a seguir um sr. comentador com conversa de entendido que reforçou de as autarquias receberem «jovens tagiários».
 Tagiários.


Bísaros (J.H. Saraiva, «O salpicão do Nordeste», in «Horizontes da Memória», 2001)
José Hermano Saraiva, «O salpicão do Nordeste», in Horizontes da Memória, R.T.P., 2001.

19 comentários:

  1. Marcos Pinho de Escobar9/2/15 13:33

    Caro Amigo, das duas uma: ou trata-se de mais um caso de adopção do léxico lulo-brasílico (ou siuvo-brasileiro) ou desejam diferenciar os novos dos que já não o são mais... De qualquer forma vamos mesmo rumo ao fim. Pobre Camões! Hoje o Vate arranca-va o outro olho e furava os tímpanos! E talvez fugisse para a Terra do Fogo. Abraço!

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  2. Nem parece seu, caro Bic, então não se vê logo que se trata de uma aglutinação atrevida (a ignorância é sempre atrevida). Vejamos se percebe: jov' enstagiários. Agora repita com a celeridade própria da conversa corrente e verá que o resultado... resulta (diriam eles).

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  3. Bem sei. É a prosódia dos taleiros e das cutas.
    Cumpts.

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  4. Caro Bic

    «Tagiários» é um eufemismo para trabalho escravo.

    Os meus cumprimentos

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  5. Anónimo9/2/15 18:47

    Uma coisa é a fala corrente que justamente por ser proferida com a velocidade própria dos portugueses e isto é um facto fàcilmente observável sobretudo na zona de Lisboa, poderá ou não ser aceite. Na oralidade essa pecha talvez seja desculpável e é-o na maioria dos casos. Eu própria 'como' sílabas quando falo com alguém porque o faço com rapidez mas sobretudo porque ganhei esse hábito nos colégios lisboetas que frequentei por ser essa a norma, que creio ainda existir.

    Outra completamente diferente e indesculpável é ser adoptada por quem tem responsabilidade

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  6. É, Camões havia de fugir e pedir asilo notess paragens.
    Cumpts.

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  7. A prosódia de locutores de rádio e TV deve ser cuidada, não preguiçosa. É imperativo. O estrago por descuidos continuados são desgraçados.
    Cumpts.

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  8. Mas, vejamos, confere: "tagiários" está muito bem num país "assim tipo bué da altamente".

    Ya, 'tá-se... (ou será "tásse"?).

    Costa

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  9. Anónimo9/2/15 21:50

    Na fala corrente, sobretudo para quem cresceu e sempre viveu na zona de Lisboa, o português (e mais concretamente a pronúncia lisboeta) por norma fala depressa e tende a comer sílabas sobretudo as últimas (neste particular os brasileiros que o assinalam têm razão, já que eles, sim, pronunciam-nas pausada e claramente). Eu própria o faço inconscientemente, mais que não seja pelo hábito adquirido nos colégios durante os vários anos que os frequentei.

    Mas atenção, esta minha pecha, mea culpa, começa e acaba aqui. Faço uma critica acerba àqueles que comunicam oralmente com o público, seja ele através das rádios, televisões, em palestras, discursos, nas escolas, etc.
    É absolutamente indesculpável que quem tem essa missão, nobre por certo, dado que estas são profissões privilegiadas exercidas por poucos e justamente por isso com responsabilidades acrescidas que requerem um especial cuidado no modo como as palavras são pronunciadas e as sílabas articuladas. Quem não o fizer cai num erro crasso e é uma vergonha que tal seja permitido por quem tem a obrigação de supervisionar os respectivos profissionais, bem como tudo o que faça parte do seu discurso oral. Não se admitem erros ortográficos (nos jornais, revistas, subtítulos televisivos e legendas de filmes), verbais (locutores de radio, de telejornais, apresentadores de programas televisivos e comentadores convidados) e/ou uma dicção que pode ir de má a péssima, como frequentemente acontece com os supra-citados profissionais.

    Estou perfeitamente à vontade para poder criticar quem assim procede, inclusive dando o meu próprio exemplo. Falo como acima referi. Porém quando ainda estudante tive em simultâneo duas diferentes actividades que, segundo os meus patrões, desempenhei exemplarmente. Não minto no que estou a escrever nem exagero. No primeiro emprego (locução de um programa radiofónico) fui escolhida entre várias concorrentes por, segundo depois me informaram, ter um timbre de voz muito bonito e uma dicção perfeita. No segundo emprego também a utilização da minha voz (desta vez através de microfone, direccionada ao público) foi a qualidade que sobressaiu para ser a escolhida. Quando mais tarde fui fazer uma visita às minhas colegas e elas me pediram, a brincar, para proferir um dos avisos habituais (para matar saudades, diziam elas) e eu apanhada de surpresa lhes questionei o porquê do pedido insólito, a resposta foi "porque a tua foi a voz mais bonita que por aqui passou". Tenho dito.


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  10. Anónimo9/2/15 21:54

    Este comentário ficou incompleto..., o resto fugiu:) Já o re-escrevi e enviei.
    Maria

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  11. A mandriice e a incultura a campear.
    Cumpts.

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  12. Noutras paragens, entenda-se

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  13. Ou, como dizia há uns tempos uma entrevistada na RTP1: "É assim... eu sou professora de Português, OK?"
    E (relativamente à entrevistada) está tudo dito...

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  14. o link que nos deu não funciona.

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  15. Pois não, o das 8h00 da manhã parece que sim. É quase igual.
    Cumpts.

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  16. Os brasileiros também abreviam as sílabas; fazem-no é ao seu jeito. A lei do nmenor esforço calha a todos.
    O descuido na dicção nas rádios e TV, porém, tornou-se um hábito. Se afloram isso nos cursozinhos de jornalismo, locução ou teatro, o que se sobrepõe ao fim é a ligeireza com tudo se faz actualmente. Um qualquer mais-ou-menos é quanto basta à (baixa) exigência de rigor do público. Eis porque de nada serve reclamar; só serve de desabafo.
    Cumpts.

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