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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Da cambada...

A.N.T.T., Jornal «O Século», J. Benoliel, Lt. 09, cx. 04, neg. 10

«O sr. D. Carlos tambem hontem não assistiu á tourada no Campo Pequeno.


(Dos jornaes).



 




 


 — Está aqui tudo?
 — Creio que não falta nada. Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente transfi­gurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia, que nin­guem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito para elle — por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata, poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma campainha electrica.
 — Se não soubesse...
 — De primeira ordem, não é verdade?
 — Uma transfiguração á Rocambole.
 — Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...
 — Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.
 — De modo que não haverá perigo...
 — Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.
 — Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa. Has de comprar-me um bilhete de sol.
 Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por dis­farce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado. Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando o sol inteiro gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel, enthusiasmadissimo com um cambio.
 No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo, entrou a dar-lhe conversa.
 — Vê-se que o amigo é amador.
 — Como poucos. Isto é um divertimento real.
 — Lá isso real...
 — Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...
 — Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...
 — E agora já não vem?
 — Acho que cortou a coleta.
 — Elle, afinal, tudo aborrece.
 — Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se parece... 
 Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem o chamava.
 D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas nas pernas.
 — Ninguem desconfiou, é claro?
 — É claro que des
confiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se me não safo tão depressa...
 — E disse-lhe alguma inconveniencia?
 — Lá bem inconveniencia...
 — O melhor, para outra vez...
 — O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.
 — E a quadrilha?
 — Lá isso fica como estava.
 E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:
 — Isto é que é uma cambada!...»


Brito Camacho, Ao de Leve, Guimarães, Lisboa, 1913, pp. 60-62.


 


Fotografia: A.N.T.T., O Século, Joshua Benoliel, lt. 09, cx. 04, neg. 10.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Além do fim do mundo


A.N.T.T., «O Século», J.Benoliel, lt. 08, cx. 10, neg. 04.




«O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á festa das creanças, e pronunciou alli um grande discurso.


(Dos jornaes).



 




 


 — Muito interessante a festa, não é verdade?
 — Sim, foi interessante.
 — Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como todos, como se fossem todos do mesmo collegio?
 — Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que repre­sento.
 — Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.
 — Assim o espero.
 — Assim o creio. E falaste ás creanças?
 — Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que havia de dizer-lhes.
 — Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?
 — Houve só um discurso...
 — Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?
 — Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, muito in­teressante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era divertida a velhota. Diver­tida e estupida, porque nunca desconfiou do garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo que...
 — De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.
 — Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são dos povos. Que quer dizer isto, avósinha?
 — Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo, os creados recebiam ordens dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos cre­ados, e cumprem-n'as.
 — Credo! Mas isso é o fim do mundo.
 — Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.»


Brito Camacho, Ao de Leve, Guimarães, Lisboa, 1913, pp. 63-65.


 


Fotografia: A.N.T.T., O Século, Joshua Benoliel, lt. 8, cx. 10, neg. 4.


domingo, 29 de janeiro de 2012

Gatos de alfândega

 Brito Camacho, Ao de Leve (Guimarães, 1913)

« O governo resolveu supprimir todas as gratificações por serviços extraordinarios.


(Dos jornaes).



 




 


   Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª.
   — De que se trata então?
   — Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que vimos...
   — Está bem; mas o que desejam?
   — Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres que mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis men­saes, sujeitos a descontos.
   — Perfeitamente; mas os senhores são empregados...
   — Saberá V. Ex.ª que da Alfandega.
   — Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o ordenado, e como a verba das gratificações foi supprimida.
   — Se V. Ex.ª dá licença...
   — Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim restaural-a...
   — Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem nos augmentarem os ordenados e sem restabele­cerem as gratificações...
   — A accumulação de serviços equivale a uma gratificação...
   — Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr. conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção...
   — É que não vejo maneira...
   — O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou a quem quer que seja.
   — Em summa, o que é que os senhores desejam?
   — Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega.
   — Gatos da Alfandega?!!...
   — É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000 réis por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa.
   — Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo?
   — Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol‑o pela bôa saude das nossas mulheres e dos nossos filhos...
   — Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo?
   — Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação.
   — Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a ser isso de gatos de Alfandega?
   — Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito nenhum pelas mercadorias que alli se acham depo­sitadas, e havendo todos os dias reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada a corporação dos Gatos da Al­fandega, para a sustentação da qual ha uma verba de proximamente trinta mil réis por mez.
   — Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos...
   — Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque arranjam elles proprios os seus sustentos; e se alli estão só para receberem o ordenado, deixando os ratos em liberdade, não é justo que se gaste com elles um dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia...
   — Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me pelos senhores.
   — Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª.
   Tinham dito a verdade os honrados chefes de familia, e porque o conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, foram os tres nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados secretarios do ministro, ou revisores do caminho de ferro.
   Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi cumprimentar os tres honrados chefes de familia, quando viram as nomeações no Diario do Governo


Brito Camacho, Ao de Leve, Guimarães, Lisboa, 1913, pp. 84-88.


sábado, 28 de janeiro de 2012

Casa Sonotone (finalmente!)

«Promiscuidade gráfica», [s.l.] (Alves Pereira, 2011)

 Até aqui era mal de ouvido. A gente queixava-se da asneira, bradava sonoramente contra o engano e parecia tudo surdo. Depois agora, com a «promiscuidade gráfica a campear», como tão apropriadamente diz o meu correspondente que em boa hora me enviou esta imagem, parece que alguns começam a ver a asneirada cacográfica com que apedrejaram a nação que os elege. Por certo foram a alguma loja do Grupótico à procura de óculos com que pudessem ler a vergonha gráfica dos diários da Assembleia e da República e vai daí, ledo engano, saiu-lhes uma prótese auditiva. — Olha! Melhoraram das otites; soa que alguns do meio do Atlântico já ouvem, finalmemte, as consoantes «mudas».


Deputados do P.S.D./Açores na Assembleia da República defendem Aplicação do Acordo Ortográfico deve ser suspensa em Portugal


 Os deputados do P.S.D./Açores na Assembleia da República pretendem saber se o Acordo Ortográfico vai ser suspenso em Portugal.
Num documento remetido ao ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, os deputados Mota Amaral, Joaquim Ponte e Lídia Bulcão referem que «agora que a aplicação do Acordo Ortográfico se tornou obrigatória nos documentos oficiais, vai surgindo com evidência o empobrecimento da língua portuguesa dele decorrente» [...]
(in Diário Insular
, 28/1/2012, apud I.L.C.A.O.. Sublinhado meu.)


 




Fotografia gentilmente cedida pelo sr. Alves Pereira.

Pais contra a cacografia no ensino

Já avisou na escola que não deixa a filha aprender as normas do Acordo Ortográfico. E acredita que a lei está do seu lado


 Um pai está a tentar impedir que a filha de oito anos aprenda Português com as novas regras do Acordo Ortográfico (A.O.). «Já falei com o professor e expliquei à directora que não aceito que ela seja ensinada assim», explicou ao SOL José Manuel Bom, que acredita que o A.O. não está em vigor. «Nada revogou o decreto-lei de 1945 que define as regras da ortografia que usamos», defende o consultor, que ainda não obteve da escola qualquer reacção. «Até ao momento, ainda não tive resposta». De resto, o SOL tentou também sem sucesso ter uma resposta do Agrupamento de Escolas Eugénio dos Santos, em Lisboa, que não fez qualquer comentário.


Pais à procura de apoio jurídico

 José Manuel Bom acredita, contudo, que não está sozinho. «Há na internet vários pais que anunciam em blogues que não querem os filhos a aprender regras absurdas», conta o encarregado de educação que se queixa de não perceber a forma como a filha pronuncia as palavras escritas com a nova ortografia. «Há palavras que ficam irreconhecíveis. Por exemplo: deixa de haver uma maneira de diferenciar para’ e ‘pára’, porque o acento do verbo desaparece».
 Já a resistência por parte dos professores pode ser muito mais difícil. «Têm-me chegado denúncias de professores que anunciaram que não iriam aplicar o Acordo e que, por isso, começaram a ter as piores turmas e os piores horários e a ser alvo de verdadeiras perseguições por parte das direcções», revela João Pedro Graça.
 O Ministério da Educação e Ciência (M.E.C.) assegura, contudo, não ter conhecimento de qualquer situação em que pais se estejam a recusar a que os filhos estudem com a nova ortografia.


Margarida Davim, «Resistentes ao acordo ortográfico», Sol, 27/1/2012, apud I.L.C.A.O..




 Acabei de remeter ao gabinete do Exmo. Sr. Ministro Crato um recado com esta notícia. Para já, o Ministério da Educação não pode continuar a assegurar não ter conhecimento de qualquer situação em que pais se estejam a recusar a que os filhos estudem com a nova ortografia. Depois exorto todos os Pais e Encarregados de Educação a reclamarem directamente a S. Exc.ª o Sr. Ministro Crato para que ele aja, como é de seu dever.


RECLAME! O novo Portal do Governo foi pago com os seus impostos...


(Prima na imagem. RECLAME!) 

Reclamação - 01912002578

C.G.D. - Reclamação
Prezados srs.,


 


 Recebi V/ carta de 23/1/2012 sobre seguros de vida. Extensa, e redigida nessa grafia manhosa que o Conselho de Ministros e a Assembleia agora recomendam por meio de duas resoluções. Ora nenhuma resolução do governo ou da Assembleia se sobrepõe legalmente a decretos-lei em vigor, logo a ortografia portuguesa não pode deixar de ser a do Decreto n.º 35.228 de 8/12/1945, com as alterações do D.L. 32/73 de 6/2 (*).
 Exposto isto, acrescento-vos: nada do que me chegue redigido nessa cacografia crioula que pretendeis crismar como português me é legível. Tropeço nos erros e um asco incontrolável tolhe-me toda a leitura. Por conseguinte não me escrevais mais desta maneira ou vereis rejeitada a v/ correspondência.


Cumpts.
[Cliente muito bem identificado]




De: CGD Espaço Cliente
[cgd.espaco.cliente@cgd.pt]
Enviado: sábado, 28 de Janeiro de 2012 12h54
Para: [Cliente muito bem identificado]
Assunto: Reclamação - 01912002578

Exmo(a) Senhor(a) [Cliente muito bem identificado],


 As exposições dos nossos Clientes merecem-nos toda a atenção e são entendidas como um meio privilegiado para identificar oportunidades de melhoria que permitam aumentar a qualidade do serviço prestado pela Caixa. Neste contexto, agradecemos o seu contacto, registado com o número - 01912002578, a que responderemos com a maior brevidade. Esta referência pode ser utilizada em futuros contactos.


Com os melhores cumprimentos,
Gabinete de Apoio ao Cliente

Nota: Por favor não responda para esta caixa de correio electrónico, que se destina exclusivamente ao envio de mensagens.
Caixa Geral de Depósitos

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Diz a S.I.C. que adoptou o Acordo Ortográfico, não foi?

Telejornal, S.I.C., 27/I/2012


Jornal da Noite, S.I.C., 27/1/2012.
Via mural de «'Tá bonito» no livro das fuças.

O mecânico de aviões Lobato

 O mecânico Lobato põe em movimento a hélice do avião n.º 30.


 


O mecãnico Lobato, [s.l.] (A.N.T.T., SEC-AG-2247I.)
O mecânico Lobato, [Vila Nova da Rainha?], 1934.
A.N.T.T., Arquivo do Jornal O Século, ref.ª PT/TT/EPJS/SF/001-001/0031/2247I.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os críticos inteligentes

« Os criticos intelligentes que accusaram O CRIME DO PADRE AMARO de ser apenas uma imitação da FAUTE DE L'ABBÉ MOURET não tinham infelizmente lido o romance maravilhoso do snr. Zola que foi talvez a origem de toda a sua gloria. A semelhança casual dos dois titulos induziu-os em erro.
  Com conhecimento dos dois livros, só uma obtusidade cornea ou má fé cynica poderia assemelhar esta bella allegoria idyllica, a que está misturado o pathetico drama d'uma alma mystica, ao O CRIME DO PADRE AMARO que, como podem vêr n'este novo trabalho, é apenas, no fundo, uma intriga de clerigos e de beatas tramada e murmurada á sombra d'uma velha Sé de provincia portugueza.
  Aproveito este momento para agradecer á Critica do Brazil e de Portugal a attenção que ella tem dado aos meus trabalhos. 
  Bristol, 1 de janeiro de 1880.


Eça de Queiroz
(Nota da 2.ª edição)


 


O Crime do Padre Amaro (Eça de Queiroz, Porto, Chardron, 1901)
Eça de Queiroz, Crime do Padre Amaro (Scenas da Vida Devota), 4.ª ed., Porto, Livraria Chardron, 1901.


 
Isto a propósito de algumas bojardas...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

«Portugal devastado pelas agoas. Os temporaes de dezembro»

Rua de Cascais, Alcântara (J. Benoliel, 1910)

Rua de Cascaes em Alcantara, Lisboa, 1910.

A.N.T.T., O Século, Joshua Benoliel, cota desc. 018.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Mãi

 Há uma reforma ortográfica que é a da «mãi» (Portaria 7:117, Diário do Govêrno n.º 126/31, I.ª Série, de 27 de Maio cf. § 5.º). Para irmos ao encontro do Brasil...


 Quem leia de Machado de Assis as «Histórias Sem Data» (Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1884) encontra lá quási um quarteirão de «mãis», dois pares e meio de «mamãis» mais ou menos bradadas (— «Mamãi, mamãi», bradou Ernestina entrando na saleta) e, para compor, meia dúzia de «mães».
 Ontem entrevi a «boa Mãi» de José de Alencar quando lia «Como e porque sou um romancista» (Rio de Janeiro, B. Leuzinger & Filhos, 1893); a boa senhora «assistia ao preparo de chocolate com bolinholos, que era costume offerecer aos convidados por volta de nove horas» — vem a pp. 18 e merece o episódio relatado um aparte, tem graça e valor histórico.


« Uma noite por semana, entravam mysteriosamente em nossa casa os altos personagens filiados ao Club Maiorista de que era pesidente o Conselheiro Antonio  Carlos e Secretario o Senador Alencar.
   Celebravam-se os serões em um aposento do fundo, fechando-se nessas occasiões a casa ás visitas habituaes, afim [sic] de que nem ellas nem os curiosos da rua suspeitassem do plano politico [antecipar a entrega do governo a D. Pedro II], vendo illuminada a sala da frente.
   Em quanto deliberavam os membros do Club, minha boa Mãi, assistia ao preparo de chocolate com bolinholos, que era costume offerecer aos convidados por volta de nove horas, e eu, ao lado com impertinencias de filho querido, insistia por saber o que alli ia fazer aquella gente.
   Conforme o humor em que estava, minha boa mãe ás vezes divertia-se logrando com historias a minha curiosidade infantil; outras deixava-me fallar ás paredes e não se distrahia de suas occupações de dona de casa.
   Até que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas gulosinas a bandeja que voltava completamente destroçada; eu que tinha os convidados na conta de cidadãos respeitaveis, preoccupados dos mais graves assumptos, indignava-me ante aquella devastação, e dizia com a mais profunda convicção:
   — O que estes homens vem fazer aqui é regalarem-se de chocolate.»


 Adiante. Tornando à «boa Mãi» de Alencar em menino, o seu humor parece que se reflecte também na escrita do autor: Mãi/mãe.
 Com isto, não chegando a mães-de-santo nem nada que o valha, podia cuidar eu ainda assim, serem as «mãis» mais tropicais do que reinóis quando, já não sei por que estranho acaso, abri «O Crime do Padre Amaro» (4.ª ed., Lello, Porto, 1901) e li:
 « — Adeus Ruça! estás magrinha: pega-te com a Senhora Mãi dos Homens.»
 É na página 70.




Varias rimas ao Bom Jesus e à Virgem Gloriosa Sua Mãi e a Santos Particulares (Diogo Bernanrdes, Lisboa: na Of. de Miguel Rodrigues, 1770)
Diogo Bernardes, Varias Rimas ao Bom Jesus, e á Virgem Gloriosa Sua Mãi.., Lisboa, 1770.
(Biblioteca Nacional de Lisboa http://purl.pt/181/3/)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Subsídio de férias!

Desembarque de caixotes com ouro destinados ao Banco de Portugal («O Século, 31/III/1937)
O desembarque de caixotes com ouro destinado ao Banco de Portugal, Porto de Lisboa, 1937.
A.N.T.T., Dp6/Sl1/Arm1 (O Século, 31/3/1937).

domingo, 15 de janeiro de 2012

Concerto


John Williams & Orquestra da B.B.C., Concerto de Aranjuez (J. Rodrigo)
(2005)

Adéga Regional

 Adega não leva acento. Não me lembro já em que livro (há-de ter sido naquela época em me deleitava a descobrir, fascinado, grafias antigas em velhos alfarrábios a que ia deitando a mão, coisa lá da segunda metade dos anos oitenta) aprendi que os antigos diziam adêga, tal como também diziam côche. Cousa de que os modernos já nesse tempo haviam perdida a noção... — Em boa verdade estas cousas não são tão lineares mas recorda-me de que eu e um camarada da demanda destas novidades antigas, naquele tempo, simplificávamos assim e orgulhávamo-nos de recuperar assim a esquecida prosódia, se possível a par duns quantos arcaísmos. Os antigos sabem sempre melhor, era a noção implícita que tínhamos, e corrigíamo-nos certas vezes quando o hábito de dizermos adéga e cóche aflorava naturalmente sobrepondo-se ao que descobríramos ser o melhor português. Erudito que nos ouvisse havia de ficar impressionado com tão ecléctico alardear de meros rapazolas. E os comuns só ganhavam em nos ouvir.
  Esta vaidade imberbe havia de ter dado em vergonha mais tarde, quando ganhámos o hábito de veranear por Colares...



Adéga Regional de Colares (A.N.T.T., c. 193...)

Adega Regional, Colares, 1937.

O Século (29/3/929), in A.N.T.T., PT/TT/EPJS/SF/001-001/0042/0395L.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ál-var-o

Ál-var-o, executivo da tróica

 — « É importantíssimo fazermos as reformas laborais que tróica determinou.»

 Se não foi isto anda perto — o que o ministro (?) Álvaro disse na televisão.
 Tão desgraçada sujeição dum ministro de Portugal, fosse ele reflectido e houvesse um mínimo de brio, não na haveria nunca de revelar assim diante das câmaras. Agora, quando a esperteza nem para aprender a estar calado dá, imaginai só que trabalho acabará por produzir...

(Imagem do Álvaro a fazer de ministro na página da comissão liquidatária.)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Da fuga de capitais

  Os prostitutos do idioma inventaram agora a «deslocalização de capitais». Dantes dizia-se fuga de capitais mas a chularia politicamente correcta deve andar a querer amaciar os desvios.

Cadeia do distrito de Colômbia (Harris & ewing, 1919)
Cadeia do distrito de Colômbia, E.U.A., 1919.
Harris & Ewing, in Shorpy.

A polícia da saúde

Até aqui os fumadores quedavam-se à porta como os cães. Agora quere-se que vão morrer longe.

Times Sq., Nova Iorque (J.Vachon, 1943)
Anúncio aos cigarros Camel na Times Square, Nova Iorque, 1943.
John Vachon, in Shorpy.

Agenda cultural da câmara

Cara [Correspondente],

Repare no texto (7.ª linha):
«[…] prostituição nas ruas realiza-se na terceira terça-feira de cada mês e tem encontro marcado às 10h30 no café A Brasileira.»

Ainda continuei a ler até às «arquiteturas» mas confesso que tais arqui-preeminências aliadas ao texto anterior me intimidaram um tanto.
De toda a forma obrigado pela agenda.
Cumpts.

[Do blogo Bic Laranja]




De: [Correspondente identificada]
Enviado: 13 de Janeiro de 2012 11:14
Assunto: Azulejos em Lisboa



Prostituição nas ruas... (Agenda Cultural da C.M.L., 13/1/2012)


(Agenda cultural da C.M.L., 13/I/12.)

Dois estúpidos e seu povo

« A 12 de janeiro de 1759 foi proferida a sentença, e, n'essa noite sinistra, á luz dos archotes, os operarios martellavam o cadafalso. As pancadas dos martellos ouviam-n'as os infelizes condemnados, reunidos todos n'uma casa do palacio de Belem. A marqueza, D. Leonor Tavora, tinha sido conduzida, do convento das Grillas para Belem. Ahi se juntáram todas as victimas do odio dos dois estupidos. Pela madrugada já o povo enchia a praça e os logares d'onde se podesse contemplar o horroroso supplicio.»


Manoel Caldas Cordeiro, «O Marquez de Pombal (Folheto para Poucos)», Porto, A. J. da Silva, 1890.


Demonstração do Teatro em que depois de justiçados os Reos... Anónimo, c. 1759-60.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Do furo jornalístico

 Não há agora dia em que a imprensa não descubra um maçon. Trabalho fastidioso e de pouca novidade. Notícia seria porventura darmos aí um pontapé numa pedra sem sair um maçon de baixo, muito embora furo jornalístico de nomeada fosse achar um jornalista maçon.


 


Figurões da maçonaria, Público, 12/1/2012 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A ponte aérea

« No dia 28 de Agosto de 1975 apresentei-me, como Co-Piloto de Boeing 747, nas Operações da TAP para fazer mais um voo da Ponte Aérea.
   Neste caso: Lisboa / Luanda / Nova Lisboa / Luanda / Lisboa. Já à saída de Lisboa se notava um ambiente estranho entre a tripulação (reforçada): havia um grupo que parecia saber de coisas que viriam a acontecer e mais ninguém sabia.
   Os outros interrogavam-se, notando a ligação ao Partido Comunista daquele grupo sabedor de coisas...
   A pouco e pouco, até Luanda, percebeu-se do que se tratava, sem que os 2 Comandantes tivessem sido avisados da alteração "programada" (à revelia) do propósito inicial do voo a Nova Lisboa: recolher civis Portugueses e trazê-los para Lisboa.
   E o que se tramava era nem mais nem menos do que deixar em terra, em Nova Lisboa , os Portugueses e levar para Luanda os militares do M.P.L.A., em perigo dado o apertar do cerco à cidade pela UNITA.»


Gabriel Cavaleiro, «A Ponte Aérea de 1975; um episódio», in Rio dos Bons Sinais, 7/IV/2011.

Boeing 747 CS-TJB, Luanda (?), 1975(?)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Compro o que é malaguenho

 Dantes havia a alfândega. O preço dos bens importados era nivelado com os produzidos em Portugal, o erário obtinha boa receita, a indústria nacional não falia à primeira, o estado poupava em subsídios de desemprego e os tribunais não se perdiam a gerir falências. Perdiam os marketeiros subvencionados com impostos extraordinários por um governo evangelizador de massas sobre que o nacional é bom. Ora as massas sabem sem evangelização nenhuma que bom, bom, é poderem comprar. E para isso convém as massas haverem rendimento, nem que seja do trabalho.
  Ao quarto dia dos idos de Janeiro uma formidável empresa do estado português — o que subsidia a catequização geral sob o lema compro o que é nosso — distribuiu (ou alocou, chiquerrimisticamemte dizendo) agendas ao pessoal. As tipografias malaguenhas rejubilam (clique na bola amarela).

Agenda malaguenha 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Da cultura

Não percebi o incómodo jornaleiro hoje com umas ordinarices nas catacumbas da bola. E ouvi que o Ministério Público se pôs em campo. Perde-se tempo com cada uma!...





Bach, Concerto de Brandeburgo n.º 6 em Si bemol maior - 3.º (allegro).

(Karl Richter, Orquestra de Bach de Munique.)

O rei bai nu

« Seis de janeiro de 1832. Manhã chuvosa e frigidissima. O zimbro rufava nas frestas envidraçadas da egreja de Santa Maria de Abbade. Ringiam as carvalheiras varejadas pelo norte. Ao arraiar do dia, a devota dos Tres Reis Magos, a tia Bernabé, tecedeira,—viuva do operario Bernabé, que lhe deixára o nome e uma cabana com sua horta — ergueu-se, foi á residencia parochial pedir a chave da egreja; e, sobraçando a bassoura de giesta para barrer o chão, e a almotolia para prover as lampadas, entrou no adro. Ao passar em frente da porta principal, ajoelhou, persignou-se e orou. N'este momento, ouviu o vagir convulso e rispido de criança.»
Camillo Castello Branco, «O Commendador», in Novellas do Minho, v. I, 2.ª ed., Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 1903, p. 83 (sublinhado meu).


 Uma «bassoura» só pode ser para «barrer»... Liberdade literária talvez esquecida, mas não interdita; liberdade prosódica como determinante ortográfica vedada até aqui, legitimada agora pelos murcons Bichara & Malaka mai-lo competentinho Diário da República... E já agora que falo de leis, há alguém reflectido que me explique (sem implícita ou explicitamente perpassar pingo do conceito de colonialismo no que venha a dizer) o senso dum tratado internacional ratificado por três estados imperar na ordem jurídica de oito nações soberanas; ou, limitando-nos ao Direito português, como pôde uma resolução (e não uma lei) dos deputados à Assembleia revogar um decreto-lei.



Decreto n.º 35:228, de 8 de Dezembro de 1945 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Deputado maçon investiga superespião maçon

 A ver se entendi bem...
 Os jornalistas andam a dizer que um deputado investigador é tão maçon como o super ex-espião investigado. O filme parece ao contrário, mas não é bem isso. O deputado respondeu que os jornalistas sabem mais da maçonaria do que ele. Não negou. Disse que os jornalistas sabem mais da maçonaria do que ele.
 Pois é! Calhando sabem... Ou, como dizia o cigano, isto agora é tudo uma raça pegada.

Raça pegada
(Imagem da Internete. Verbete revisto às dez para o meio-dia de 4.)

Ai as otites!...

« Uma circular informativa do Infarmed esclarece que os titulares de Auctorização de Introducção no Mercado (A.I.M.) teem de implementar o Accôrdo Orthographico da Língua Portuguesa na informação dos medicamentos, como o Resumo das Características do Medicamento (R.C.M.), o folheto informativo e a rotulagem.»
Accôrdo Orthographico applicado a partir de hoje nos documentos officiaes. FonteLusa [Brasílica], 1/I/2012 (a graphia original foi corrigida segundo o exemplo dos melhores auctores).


 


 Hoechst Portuguesa, Av. Duque de Ávila, (M. Novais, s.d.)
Hoechst Portuguesa, Av. Duque de Ávila, 196...
Estúdio de Mário de Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..

Um cartoonista espectacular

«Nota: este cartoonista não sabe escrever com as regras do novo acordo ortographico» (no pé do desenho). 



José Bandeira, Cravo & Ferradura, D.N., 3/I/2012.

(Com agradecimento especial ao meu bom amigo D. que me enviou o boneco.)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Da forma de certos recados

 Segundo o Rui da D.ª Esperança e o Beto dos cabacinhos, era eu pequeno, havia a Húngria - às vezes calhavam uns desafios de bola com os húngaros (e talvez daqui a Húngria) nas quartas-feiras europeias. Ao depois, no liceu, houve o império austro-húngaro, mas fracturou-se.
 Pois a Hungria soou-me que fez agora uma Constituição anti... fracturante. Uma que não admite qualquer par de jarras abortar o instituto do casamento nem permite o propriamente dito aborto, se bem ouvi na Emissora às seis da tarde, e ao depois às sete. Há também, parece, que uma menção a Deus...
 Estas são daquelas notícias em que se pressente o tom agoniado dos noticieiros. Tanto que ensaboaram logo os húngaros (e a nossa mente) com o comissário Barroso mais a secretária Clinton que com saliva e cuspo espumaram preocupação sobre a sancta democracia e que louvada seja a libardade. Não sei se não tarda, havemos de ver a Hungria a contas com a dívida soberana ou algo assim aborrecido.

«Perigo Magiar» (Jean Platureux, Le Monde, apud Presseurop)



Ilustração: Jean Plantureaux, Perigo Magiar (Le Monde, apud Presseurop).

Diário de Notícias erra pela terceira vez

« A [Em] 9 de Dezembro [de 1945], o D.N. publicava o decreto que aprovava [approvava] as regras, que então asseguravam "a unidade e o esplendor do idioma comum [commum]" e garantiam "a segurança e permanência de uma só língua portuguesa no mundo".»


«A terceira vez que o D.N muda de ortografia [orthographia]», in Diário de Notícias, 1/I/2012 (os quinaus são meus).


 


 E em cima da contumaz asneira (a de 45, garantindo a segurança e permanência de uma só língua portuguesa no mundo é de gritos) calha-me hoje em sorte um tal sr. Ferreira Fernandes «optimista», raspando com as mãos e quebrado nos quartos traseiros. Garrochada em tal cernelha é puro desperdício. Vá de pampilho nos lombos de volta para os curros e poupem-se os espectadores aficionados a más sortes!
 [Vaias ao ganadero do Diário de Notícias!]

Edifício do Diário de Notícias, Rua dos Calafates (E. Portugal, 1942)

domingo, 1 de janeiro de 2012

Borda d'Água

  Estive há dias a ver o ano de 2012. O 1 e o 8 de Dezembro calham ao sábado. Ora aí estão dois feriados bons para o capataz do triunvirato desbastar no ano que vem, com margem para 2013.
 Ao depois... Ao depois se há-de ver o que sobra do calendário gregoriano. Ou desse tal capataz...


 Feliz 2012! 



Borda d'Água para 2012, Ed. Minerva (in Passeio Verde)

(Almanaque do Borda d'Água no Passeio Verde.)