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domingo, 22 de janeiro de 2012

Mãi

 Há uma reforma ortográfica que é a da «mãi» (Portaria 7:117, Diário do Govêrno n.º 126/31, I.ª Série, de 27 de Maio cf. § 5.º). Para irmos ao encontro do Brasil...


 Quem leia de Machado de Assis as «Histórias Sem Data» (Rio de Janeiro, B. L. Garnier, 1884) encontra lá quási um quarteirão de «mãis», dois pares e meio de «mamãis» mais ou menos bradadas (— «Mamãi, mamãi», bradou Ernestina entrando na saleta) e, para compor, meia dúzia de «mães».
 Ontem entrevi a «boa Mãi» de José de Alencar quando lia «Como e porque sou um romancista» (Rio de Janeiro, B. Leuzinger & Filhos, 1893); a boa senhora «assistia ao preparo de chocolate com bolinholos, que era costume offerecer aos convidados por volta de nove horas» — vem a pp. 18 e merece o episódio relatado um aparte, tem graça e valor histórico.


« Uma noite por semana, entravam mysteriosamente em nossa casa os altos personagens filiados ao Club Maiorista de que era pesidente o Conselheiro Antonio  Carlos e Secretario o Senador Alencar.
   Celebravam-se os serões em um aposento do fundo, fechando-se nessas occasiões a casa ás visitas habituaes, afim [sic] de que nem ellas nem os curiosos da rua suspeitassem do plano politico [antecipar a entrega do governo a D. Pedro II], vendo illuminada a sala da frente.
   Em quanto deliberavam os membros do Club, minha boa Mãi, assistia ao preparo de chocolate com bolinholos, que era costume offerecer aos convidados por volta de nove horas, e eu, ao lado com impertinencias de filho querido, insistia por saber o que alli ia fazer aquella gente.
   Conforme o humor em que estava, minha boa mãe ás vezes divertia-se logrando com historias a minha curiosidade infantil; outras deixava-me fallar ás paredes e não se distrahia de suas occupações de dona de casa.
   Até que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas gulosinas a bandeja que voltava completamente destroçada; eu que tinha os convidados na conta de cidadãos respeitaveis, preoccupados dos mais graves assumptos, indignava-me ante aquella devastação, e dizia com a mais profunda convicção:
   — O que estes homens vem fazer aqui é regalarem-se de chocolate.»


 Adiante. Tornando à «boa Mãi» de Alencar em menino, o seu humor parece que se reflecte também na escrita do autor: Mãi/mãe.
 Com isto, não chegando a mães-de-santo nem nada que o valha, podia cuidar eu ainda assim, serem as «mãis» mais tropicais do que reinóis quando, já não sei por que estranho acaso, abri «O Crime do Padre Amaro» (4.ª ed., Lello, Porto, 1901) e li:
 « — Adeus Ruça! estás magrinha: pega-te com a Senhora Mãi dos Homens.»
 É na página 70.




Varias rimas ao Bom Jesus e à Virgem Gloriosa Sua Mãi e a Santos Particulares (Diogo Bernanrdes, Lisboa: na Of. de Miguel Rodrigues, 1770)
Diogo Bernardes, Varias Rimas ao Bom Jesus, e á Virgem Gloriosa Sua Mãi.., Lisboa, 1770.
(Biblioteca Nacional de Lisboa http://purl.pt/181/3/)

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