| início |

domingo, 15 de janeiro de 2012

Adéga Regional

 Adega não leva acento. Não me lembro já em que livro (há-de ter sido naquela época em me deleitava a descobrir, fascinado, grafias antigas em velhos alfarrábios a que ia deitando a mão, coisa lá da segunda metade dos anos oitenta) aprendi que os antigos diziam adêga, tal como também diziam côche. Cousa de que os modernos já nesse tempo haviam perdida a noção... — Em boa verdade estas cousas não são tão lineares mas recorda-me de que eu e um camarada da demanda destas novidades antigas, naquele tempo, simplificávamos assim e orgulhávamo-nos de recuperar assim a esquecida prosódia, se possível a par duns quantos arcaísmos. Os antigos sabem sempre melhor, era a noção implícita que tínhamos, e corrigíamo-nos certas vezes quando o hábito de dizermos adéga e cóche aflorava naturalmente sobrepondo-se ao que descobríramos ser o melhor português. Erudito que nos ouvisse havia de ficar impressionado com tão ecléctico alardear de meros rapazolas. E os comuns só ganhavam em nos ouvir.
  Esta vaidade imberbe havia de ter dado em vergonha mais tarde, quando ganhámos o hábito de veranear por Colares...



Adéga Regional de Colares (A.N.T.T., c. 193...)

Adega Regional, Colares, 1937.

O Século (29/3/929), in A.N.T.T., PT/TT/EPJS/SF/001-001/0042/0395L.

11 comentários:

  1. Eu ainda digo adêga.
    Abraço

    ResponderEliminar
  2. Inspector Jaap16/1/12 22:31

    Esse pontapé na gramática vem de que data, sabe?
    Cumpts

    ResponderEliminar
  3. Ainda bem que trás este tema a debate.

    Já estive várias vezes para escrever sobre o mesmo assunto aqui na blogosfera. Há uns dez anos, escrevi para um jornal sobre justamente estas aberrações fonéticas indesculpáveis. Uns anos mais tarde escrevi sobre outros crimes linguísticos ainda piores.

    Desde há cerca de vinte ou trinta anos (quando os iluminados do M.E. começaram a sua árdua tarefa de virar do avesso a nossa ortografia bem como, gramatical, fonética e sintàcticamente, o próprio vocabulário, que os srs. drs. da política e de fora dela, jornalistas, escritores, engenheiros, arquitectos, filósofos, politólogos, comentadores, etc., decidiram começar a falar 'pretoguês' (sem menosprezo para os povos africanos, onde muitos deles com alguma instrução falam melhor do que os srs. drs. e outros licenciados cá do burgo que muito cheios de si olham o ingénuo povinho que os 'elege' do alto da burra) , seguindo as novas regras impostas, uns de moto próprio, outros, sem alternativa, por decreto do M.E...
    Claro que as calinadas no português falado e escrito começaram e nunca mais pararam, com tendência a agravarem-se irremediàvelmente a cada ano que passa.

    Como já disse algures anteriormente, tive excelentes professoras de português, graças a Deus.
    Uma certo dia, creio que ainda na terceira classe, perguntei a uma delas o porquê de pronunciarmos ACORDO com o "O" fechado (surdo, como se dizia) se ele antecedia duas consoantes e gramaticalmente tal regra obrigava a abri-lo tònicamente. Com toda a paciência e tempo que havia então, respondeu-me assim: "Há excepções destas em todas as línguas, neste caso como noutros é uma questão de lógica mas também e principalmente de estética, de elegância de linguagem. Não só soa mal, fere os tímpanos, pronunciar esse vocábulo com o "O" aberto, como é sobretudo deselegante". Nunca mais esqueci estes ensinamentos até hoje.

    E, mais, acrescentou que tal como esses vocábulos, havia mais alguns com exactamente a mesma abordagem fonética e pelos mesmos motivos. Ou seja, em discurso oral e quando no plural, não se abre a vogal que antecede duas consoantes, em designadamente os seguintes casos: aborto-ABÔRTOS; TÊRMAS; molho-MÔLHOS ("O" fechado no singular e plural, quando se refere a alimentos; mólhos quando de trigo, acentuado tònicamente; transtorno-TRANSTÔRNOS; coche-CÔCHES (já referido no texto); transbordo-TRANSBÔRDOS; postal(lê-se 'pustal')-POSTAIS ('pustais'); acordo-ACÔRDOS (já referido acima), etc. Todos SEM acento tónico, òbviamente.

    Mas, paradoxalmente, abre-se a sílaba tónica quando no plural e em alguns casos, também no singular, ainda que antecedida por duas consoantes, em: aeroporto-aeropórtos (mas aeródromo/aeródromos, singular e plural com acento tónico); porto-pórtos; pósta-restante; póste-póstes; pôsto-póstos; postar(lê-se 'pustar'), etc. Está claro que a grafia destes vocábulos exclui acentuação aguda ou grave ou circunflexa, com a excepção de "aeródromo/s.
    Maria

    Nota: Em títulos sobre o Irão (seria um próximo documentário?), em 19/6 p.p., na TVI24 às 18.20, uma voz masculina em off, anunciou (e fê-lo em todas as notícias do dia) e viu-se escrito a letras gordas no écran, esta pérola: "Conselho dos GUARDIÕES"!!!

    No mesmo canal, creio que no mesmo dia, uma voz feminina pronunciou também em off: "... TRISNETOS"!!! Lindo, não haja dúvidas.

    Parte-se-nos o coração ao vermos a nossa querida língua a ser propositadamente desprezada e definitivamente arrastada pela lama da parte das instituições que dela deviam cuidar, amar e respeitar tanto quanto a própria terra onde ela nasceu. Terra e língua os nossos dois bens mais preciosos. Afinal aqueles que nos deram uma identidade como um povo quase milenar.

    ResponderEliminar
  4. Entre "guardiães" e "guardiões" será talvez esteticamente preferível a primeira forma; mas o uso da segunda não se pode reputar de incorrecto.

    ResponderEliminar
  5. Se assim é presentemente e acredito que o seja, peço desculpa. Mas eu aprendi do modo que exemplifiquei e que durante décadas assim ouvi, escrevi e vi escrito.
    De qualquer modo muito obrigada pela sua achega.

    Tal como ouço nas televisões e até em subtítulos, a toda a hora, pronunciarem e escreverem "anciões" e "anciãos" e no entanto eu aprendi que jamais se devia dizer ou escrever desse modo, mas sim "anciães".
    Já em "aldeão" o plural é "aldeões" e não obstante nas televisões ouço-os dizer frequentemente "aldeãos"... Ou será que também aqui a regra já foi adulterada para não traumatizar as criancinhas facilitando-lhes a aprendizagem da língua?
    Maria

    Obs.: Serão todos estes atropelos ao português produto do famigerado e inconcebível TLEBS, que resolveu, entre outros crimes tão ou mais graves de lesa-língua (como tem frisado nas televisões e jornais, inúmeras vezes, a incansável e excelente professora Mª do Carmo Vieira), lançar às urtigas as regras gramaticais que sempre regeram o ensino do bom português, para começarmos todos a escrever à la Sócrates, ou seja, em português atamancado para abastardarmos ainda mais do que já está a nossa riquíssima língua? Se não foi, imita muito bem.

    ResponderEliminar
  6. Cara Maria, não tem de me pedir desculpa de nada e eu é que agradeço o seu comentário, com o qual genericamente concordo.

    Quanto ao exemplo que dei, quero crer que será uma das excepções e subtilezas em que a língua portuguesa não é incomum. Como disse, "guardiães será forma mais correcta, considerando a etimologia desta palavra, mas autores reputados admitem a alternativa "guardiões" - ver, por exemplo, http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=10195

    ResponderEliminar
  7. Bic Laranja18/1/12 19:29

    Também eu.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  8. Bic Laranja18/1/12 19:31

    Dos anos 10 ou 20, quiçá. Não sei se é pontapé, porém. Hei-de ver...
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  9. Inspector Jaap19/1/12 19:16

    Se calhar a Maria estava a pensar na regra do étimo latino; conhecem? Aquele que agora já não vale de nada por uma qualquer bizarria mental desses traidores…
    Assim, o plural só poderia ser “guardiães”, mas, como agora os dicionários se transformaram em repositórios de asneiras, estão lá os dois; qualquer dia, estes não servirão rigorosamente para nada.

    Cumpts

    ResponderEliminar
  10. Inspector Jaap19/1/12 19:18

    Caro José: desculpará que lhe diga mas, quanto às ciberdúvias, estamos conversados; tenho para mim que esses sujeitos são uns cripto-acorditas de meia-tijela, donde, nada do que lá está é de fiar, científicamente falando, claro.
    Cumpts

    ResponderEliminar
  11. De 1931, afinal; 15 de Agosto, a data da criação da adega regional.
    Sobre a pronúncia de adéga ou adêga, o toleirão do Guegués já produziu sentença. Ámen por isso.
    Cumpts.

    ResponderEliminar