— Muito interessante a festa, não é verdade? — Sim, foi interessante. — Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como todos, como se fossem todos do mesmo collegio? — Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento. — Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados. — Assim o espero. — Assim o creio. E falaste ás creanças? — Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que havia de dizer-lhes. — Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então? — Houve só um discurso... — Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse? — Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo que... — De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª. — Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são dos povos. Que quer dizer isto, avósinha? — Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo, os creados recebiam ordens dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos creados, e cumprem-n'as. — Credo! Mas isso é o fim do mundo. — Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.»
Brito Camacho, Ao de Leve, Guimarães, Lisboa, 1913, pp. 63-65.
Fotografia: A.N.T.T., O Século, Joshua Benoliel, lt. 8, cx. 10, neg. 4.
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