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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Cuanza

 Li no Jornal da Madeira que agora é Angola a exigir que Cuanza figure escrito Kwanza no Vocabulário Ortográfico Comum — o que o aborto gráfico diz que se ia publicar em 1993, que a Academia das Ciências não fez até hoje, mas que uma congénere academia de Angola deve estar para fazer não tarda!...
 O Português deriva do Latim, não do colonialismo, como tantos se convenceram. Ora nem o grego 'k' nem o barbaresco 'w' são do alfabeto latino (o português, afinal). São aceitos no idioma como integrantes de nomes bárbaros, nada mais (e parece-me que o aborto gráfico do ladino Malaca e restantes rastejantes de cá, apesar de tudo lá mantém a regra). Mas será 'Cuanza' nome estrangeiro? Significa que os cafres de Angola o diziam com 'k' e 'w' quando os portugueses os acordaram da pré-história?!... Enfim! Percebe-se o intento; ordenar o crioulo como Português quando do Português até o abecedário atrapalha. E assim cuida esta tribo dos N'golas sublimar os traumas coloniais pela bisonha felicidade de "civilizar" os que lhes levaram as letras. Nem se dão conta de quão infelizes são. 
 Dignos de dó a valer, porém, são uns que se prestam aí com ignominioso labor a algozes do idioma. Até os adivinho já por afanosos despachos e decretos ditando à Armada Portuguesa como há-de escrever Cuanza.


 


NRP Cuanza P1144, S. Gião da Barra de Lisboa (A. Monteiro?, s,.d.)
(Fotografia in NRP Álvares Cabral F336.) 

domingo, 30 de janeiro de 2011

Nos ermos do Bom Sucesso

Gaiola de vidro

Como paredes através das quais
o mundo vemos pelo ser dos outros,
quem vamos conhecendo nos rodeia,
multiplicando as faces da gaiola
de que se tece em volta a nossa vida.

No espaço dentro (mas que não depende
do número de faces ou distância entre elas)
nós somos quem nós somos: só distintos
de cada um dos outros, para quem
apenas somos uma face em muitas,
pelo que em nós se torna, além do espaço
uma visão de espelhos transparentes.

Mas o que nos distingue não existe.


 


Travessa do Arco da Torre [adjacente ao Largo da Princesa], Bom Sucesso (E. Portugal, 1939)
Travessa do Arco da Torre [adjacente ao Largo da Princesa], Bom Sucesso, 1939.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


 


«[...] No entanto a palavra gaiola retinha, no contexto, uma alusão à liberdade que cada vez mais eu via que não há, e que, contraditoriamente nenhuma solidão me daria. Levantei-me para ir visitar a Torre. Mas, quando já descia uma das azinhagas [...] vi um homem, que me olhava com pasmo, encostado numa das esquinas, ao sol. Por certo espantava-se de ver um fulano parado na rua a escrever e, ou já ali estava e observara-me enquanto eu escrevera, ou parara precisamente assistindo à cena para ele insólita. É possível que a minha insatisfação com o final [do poema] tivesse já sido a intromissão, de que eu não fora consciente, de um olhar fito em mim.. Guardei apressadamente o papel no bolso e estuguei o passo [...]»


 


Rua do Arco da Torre, Bom Sucesso (E. Portugal, 1939)
Rua do Arco da Torre [estrada do Forte, adjacente à Fábrica do Gás], Bom Sucesso, 1938.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


 


« Estava já perto da Torre, cuja imagem me distraiu. Não a via completamente, porque a muralha [da Fábrica do Gás] que se continuava do baluarte do Forte [do Bom Sucesso] me encobria a sua parte mais baixa. De resto, o que aparecia à minha frente, ao seguir pela estrada de macadame escuro, era a porta do Forte, que se abriria na parede inclinada, se não estivesse, como estava, apenas entreaberta, e sem sentinela à vista. Diante dela, obliquei à esquerda, entre o baluarte e um muro vermelho acima do qual brilhavam montes de carvão. Passada a aresta do baluarte, um não extenso descampado, com esparsas ervas altas e pequenos montes de lixo e caliça, prolongava-se até à borda da muralha. Fui por ali em direcção à Torre, tal como, pelas azinhagas e sem vê-la, me orientara até à estrada do Forte. Nas proximidades da Torre, e contornando-a a alguma distância só pelo lado de que eu vinha, a muralha descia em rampa meio desfeita para uma praia suja. À beira de água, corriam e saltavam rapazes, uns de cuecas rasgadas, outros inteiramente nus, cujos montes de escassa roupa coloriam espaçadamente o sopé da Torre. Quando me vislumbraram descendo à praia, uns correram a esconder-se atrás da muralha que avançava do Forte, enquanto outros precipitadamente corriam para as roupas. Por certo me haviam tomado por qualquer guarda que os impedia de tomar banho ali, ou que por vezes passava para impor decência aos que andassem nus [...] Eu afastei-me para contornar o monumento e achar a entrada, do outro lado. Na sombra, junto das escadas enterradas parcialmente na areia estavam duas mulheres com dois homens que pararam de rebolar-se por cima delas, quando assomei na esquina. A porta estava de facto fechada. Os quatro, sacudindo-se da areia, ficaram a olhar-me suspeitosamente. Muito mal-encarados, os dois homens pareciam avaliar a minha carteira. As duas mulheres eram menos que prostitutas: no riso alvar que lhes estagnara nos rostos, havia a marca de vadias de arrabalde, entregando-se por uns cobres atrás de um tapume, sobre um monte de lixo. Para mostrar que era a Torre o meu fito, subi os degraus e bati à porta. Um dos homens, atrás de mim, disse: — Não está aí ninguém.»


Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Público, Lisboa, 2003, pp. 504-509 passim.


 


Forte do Bom Sucesso, Pedrouços (E. Portugal 1939)
Forte do Bom Sucesso, Lisboa, 1939.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


 




Notas:


1) O tempo da narrativa é 1936, concretamente na véspera da Revolta dos Barcos (8/9/1936). Segundo diz D.ª Mécia de Sena na introdução desta edição dos Sinais de Fogo, Jorge de Sena percorreu os arredores da Torre de Belém em Setembro de 1939, no regresso duma temporada na Figueira da Foz. Foi nessa ocasião que escreveu o poema Gaiola de Vidro. Transpôs circunstâncias reais desse episódio da sua vida para o tempo do romance fundindo-as com a História; também no romance, Jorge, tornara a Lisboa vindo da Figueira. A descrição da porta entreaberta do Forte, o façanhudo sargento da guarda desvendando que o Forte está em prevenção, o laxismo da sentinela que o autor relata pouco depois neste episódio do livro são, talvez, uma ironia ao desfecho da Revolta dos Barcos, pois, insinua o autor, o governo sabia da iminente revolta e deixou-a dar-se para daí colher dividendos políticos. A bateria do Forte do Bom Sucesso, a par da do Alto do Duque, detiveram os dois navios amotinados (o aviso Afonso de Albuquerque e o contratorpedeiro Dão) de desertarem para se juntarem aos Republicanos na guerra civil de Espanha; logo depois foi criada a Legião Portuguesa e endurecida a vigilância do Estado contra actos sedição.
2) O caminho do Largo da Princesa para a Torre descia pela Travessa do Arco da Torre, passava debaixo da casa do arco onde se abria uma largo, e seguia após cruzar a linha de caminho de ferro, direito ao Forte do Bom Sucesso pela Rua do Arco da Torre — esta rua ainda hoje existe com os seus muretes através do jardim agora fronteiro ao monumento aos soldados do Ultramar; em frente à porta do Forte passava a rua que ligava a Torre de Belém à praia de Pedrouços, já a jusante do Forte. Jorge de Sena não se refere ao caminho de ferro que se entrepunha entre a casa do arco e a rua que levava ao Forte, no entanto refere-se à rua que ia do Forte à praia de Pedrouços, uma estrada militar, por onde a ludibriada sentinela deixou seguir Jorge a troco dum cigarro.

Panorâmica sobre Belém

Panorâmica do ar sobre Belém, Lisboa (Espólio de E. Portugal, c. 1935)
Panorâmica do ar sobre Belém, Lisboa, c. 1935.
Espólio de Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

«O Burguês Fidalgo» (1.ª e 2.ª árias dos Espanhóis)


(Collegium Musicum Bednarska - Anton Birula, Varsóvia, 2010)

Os 24 violinos do Rei

 Para calcar o verbete anterior para baixo deixo o excerto final dum pequeno documentário sobre a reconstrução de três tipos de violinos barrocos desaparecidos há 200 anos [ou 300 anos]. A orquestra câmara do rei, Os 24 Violinos do Rei, compunha-se com tais instrumentos e a tentativa de recuperar a sua sonoridade barroca original propunha o desafio. Os instrumentos perdidos foram recriados pelos artesãos (luthiers) Antoine Laulhère e Giovanna Chitto e vêmo-los aqui ensaiados pela primeira vez em conjunto pelos músicos do ensemble Barroco das Folies Françoises. A peça ensaiada parece-me que é uma jiga (1ª ou 2ª ária de espanhóis?) d' «O Burguês Fidalgo» de Lully mas não sei agora precisar bem...
 O documentário é do canal Arte, tem sei partes e merece a pena; infelizmente não está legendado.


 





quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Só à bengalada

Cláudio César Henriques



 Este cavalheiro, que não usa as regras ortográficas de acentuação no seu nome próprio, que diz que é bacharel em Letras, e que é mais um a mamar na teta do aborto gráfico, disse isto, muito sonso, ao jornal Ponto Final de Macau: Porque é que o português tinha duas ortografias? A gente que estuda a língua portuguesa sabe que a história da ortografia da língua portuguesa é sempre uma história de conflitos, de alguém que concorda com outro e depois, como dizemos no Brasil, rói a corda, rompe.
 Pois a gente não precisa de estudar a língua portuguesa para saber quem na história dos conflitos sobre a grafia (orthographia é outra coisa) do Português concordou sempre primeiro e quem, de sempre, deu em roer a corda; justamente por voracidade sobre o idioma, sintoma aliás duma psicose mal resolvida do Brasil com a sua identidade portuguesa e que sai de jorro naquela (in)subordinada como dizemos no Brasil que irónica e expressivamente faz servir a carapuça a quem rói a corda.
 Este freguês não é um bacharel em Letras. É um doutor em tretas.

(Imagem in Ponto Final, 21/9/2010.)

Av. da República/Av. João Crisóstomo

 Uma perspectiva mais larga...
 Percebe-se o conjunto das lojas do nº 20 da João Crisóstomo antes da mutilação do edifício; mais de acordo com a fachada. E virando a esquina, nos prédios que se Vêem de frente, a demonstração que havia mais do que comércio nos r/c (e mais do que serviços nos restantes andares) da Av. da República. Havia vida. Mas extinguiu-se...


Terreno que aguarda construção, Lisboa, 1961.
Augusto de Jesus Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L., A34669.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

«O Burguês Fidalgo»






Jean-Baptiste Lully, Abertura d' «O Burguês Fidalgo»
(Molière, comédia satírica em 5 actos, 1670)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Um conto surpresa

Burrinho  como era, o príncipe foi em busca da tal princesa, mas bolou um plano infeliz já que tinha certeza de que não conseguiria cumprir [...]


 


 O estado a que esta miséria de país chegou já dá para tudo, até para professores preguiçosos e escolas verdadeira-
mente desqualificadas como a do 2º e 3º ciclos de Paredes darem exercícios em português dos trópicos aos alunos. Será que os meninos de Paredes não merecem melhor aprendizado em Português do que um copy/paste a partir duma infeliz professora (?) brasileira? A senhora pode ser bem intencionada mas ler o destrambelho que ela redige dá dó, com os tropeções nos pronomes e o desatino com os verbos. É isto Português? É este o nosso fado agora?
 É o que continuo a dizer: o exercício das letras pode ser para todos (em tese), mas nem todos são para o exercício das letras. O benévolo leitor que tenha paciência veja o conto até ao fim na página da iniciativa contra o aborto gráfico.


Um Conto Surpresa (Janaina, Spolodorio)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Técnica e arte

Exemplo técnico da arte possível.


Av. Casal Ribeiro, 56, Lisboa, 2011.


Estuques


Exemplo possível de arte acabada.


 


Estuques, Saldanha, 2011


Estuques, Saldanha nº 4-8, 2011.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Saldanha, quadrante sul-americano

Saldanha,4-8, Lisboa. (c) 2011
Saldanha,4-8, Lisboa. (c) 2011. 


Fundación a poia...



Saldanha, 8, Lisboa. (c) 2011


Saldanha, 8, Lisboa.(c) 2011.



  Muito se aprende. Uma reclamação que fiz por causa desta pouca-vergonha não passa de voz de burro. Pode chegar à Câmara, mas não chega ao céu, pois que nas altas esferas a voz corrente é que só se dão dos melhores negócios... necessariamente pelos que possuem a omnisciência das artes e a omnipotência de empregar verdadeiros artistas. Nada diferente dos grandes aristocratas do passado, salvo o gosto. No caso, resigno-me ao alto critério desses semi-deuses e ao gosto elevado da fundação Pampeiro, instituição com a qual não tenho questão, até porque não bebo rum e, do que nos chega da Venezuela, não sei dizer nada. Se soubesse, quiçá me viesse mais inspiração...
 Dado o estado da arte confessar-me-ei aliviado com qualquer resposta (ou nenhuma) que brote dos labirintos da vereação à minha burra reclamação. Não passará de formalidade asseada e forma de ocupar algum desses valiosos assessores que enxameiam a Câmara. Salvam-se as aparências e justifica-se o emprego daquelas alpacas. De resto, eu, pelo burro que sou nem bem ideia fazia do coio em Portugal se tornou...


 


(Revisto a um quarto para as sete da tarde.)

Av. da República/Av. João Crisóstomo, 22/22

 Da mesma esquina de ontem em ângulo ligeiramete desviado. Sinais doutras vidas agarrados às paredes interiores. Vidas dum r/c, 1º e 2º, não mais, escala de construção impossivel na barbárie das avenidas. Na nesga do prédio à direita percebe-se o género de portas das lojas que lhe compunham a fachada antes da mutilação empreendedora – este é todo um outro tema...

Terreno proveniente da demolição do prédio nº 22 situado na Av. da República, esquina da Av. João Crisóstomo, Lisboa (A. Madureira, 1960)
Terreno proveniente da demolição do prédio nº 22 situado na avenida da República, esquina da avenida João Crisóstomo, Lisboa, 1960.
Arnaldo Madureira, in Arquivo Fotográfico da C.M.L., A31706.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Da civilização urbana

 Esta fotografia tem tudo o que se queira: fervor sinalizador (olhai a segurança!), obras (vai uma requalificaçãozinha eleiçoeira?), mobiliário urbano (ex.: vidrão – um mimo de design a merecer destaque nesse M.U.D.E.), passeios vedados e intransitáveis (pedimos desculpa pelo incómodo; estamos a melhorar a mobilidade), edificado histórico devoluto (aqui podia morar gente ) caindo em ruína (vai uma sandes de pato-bravo?), fachadas antigas abastardadas (a aposta no empreendedorismo) e edificado moderno do melhor gosto... Tudo o que se queira. Do melhor da civilização urbana.

Av. João Crisóstomo, Lisboa - (c) 2011
Av. João Crisóstomo, Lisboa, 2011.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Pelo arrabalde do Bom Sucesso nos anos 30...


Torre de Belém e Fábrica do Gás tomada dumas casas traseiras ao Largo do Chafariz da Princesa, Bom Sucesso, 1938.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


 


«Tomei um carro eléctrico até Belém, mudei para outro até Algés, que estava parado a fazer horas, com duas ou três pessoas dentro, e o guarda-freio e o condutor [o pica-bilhetes] no banco da frente, a conversar e a fumar. A massa branca do Mosteiro dos Jerónimos fez-me pensar que eu nunca vira por dentro a Torre de Belém, apenas entrevista por trás de montes de carvão e misturada com gasómetros, quando se passava no comboio do Estoril. Eu nem sabia como se chegava lá, aonde se descia do eléctrico. Fui perguntar ao condutor. Ele e o guarda-freio discutiram o caso. Nenhum deles tinha a certeza, mas concordaram que o caminho para lá devia ser o mesmo que para o forte [do Bom Sucesso]. O melhor era eu descer no Largo da Princesa [...] Voltei a sentar-me. Uma das pessoas já sentadas dobrou-se para trás no seu banco: era à Torre que eu queria ir? Havia lá um guarda, ele até o conhecia, que morava perto. Mas o homem, coitado, cansava-se de estar a tomar conta duma coisa onde ninguém ia e onde se gelava de frio mesmo no pino do Verão, e nem sempre lá estava. Se ele não estivesse, eu que perguntasse no forte ao lado da Torre. O guarda costumava deixar a chave às sentinelas. Mas para que queria eu ver a Torre por dentro? Aquilo por dentro não tinha nada, ele já lá tinha entrado. E fitava em mim uns olhos inquiridores. Era um homem de meia-idade, muito grisalho, com ar de sapateiro ou qualquer profissão assim doméstica. Vestia modestamente um fato coçado que perdera a cor e que podia ter sido castanho ou pardo. Tinha, porém, gravata: muito esfiada e cheia de nódoas.»


 


Largo da Princesa, Lisboa (E. Portugal, 1939)
Largo da Princesa, Bom Sucesso, 1939.
Eduardo Portugal, in C.M.L., Belém/Bellem; Reguengo da Cidade, Porto, Asa, 1990.


 


«[...] Apeei-me e fiquei defronte do largo. Muitas vezes passara ali de eléctrico, vagamente reconhecendo a existência daquele largo que nunca vira. Ao atravessar as linhas dos carros e ao pisar nele, que era calçado irregularmente de pedras arredondadas cuja curvatura o tempo não delira [mais que perf. do v. delir], umas azuladas, outras brancas, todas à mistura e que não formavam passeio à beira da rua, mas desciam continuamente para uma valeta pouco funda, reparei que o largo era fechado por três lados com uma balaustrada de pedra, a que se encostavam antigos bancos de pedra também, daqueles que são uma laje de bordas trabalhadas, assentes em dois enormes pés recortados em voluta, semelhantes esses bancos aos que, de espaço a espaço, havia ao longo da rua. O chafariz erguia-se elegante daquele espaço de cuja calçada, e alteando com as invisíveis raízes, brotavam, esguias e grossas, árvores esparsas. A um lado e outro do largo desciam azinhagas, e outra havia por trás dele. As casas — modestas e antigas como ele — emergiam do outro lado das azinhagas, com as janelas dos andares à altura do balaústre, o que as fazia distantes e próximas, ao mesmo tempo. Os bancos ao longo da rua eram como que uma separação entre dois mundos: um, em que já havia carros eléctricos passando por entre muros velhos, e outro, ali recolhido, em que o tempo se suspendera uns dois séculos atrás, e onde apenas se ouvia o gorgolejar ténue da água caindo de uma das troneiras do chafariz. Deserto o largo, quietas as casas, a brisa que sacudia levemente as folhas e as sombras nas pedras azuis e brancas da calçada acrescentava a tudo, não um ar de sonho, mas de realidade perdida, de espaço não ocupado pelo tempo circundante.»


Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Público, Lisboa, 2003, p. 503, passim.


 


Largo da Princesa, Bom Sucesso (P. Guedes, 19...)
Largo da Princesa, Rua de Pedrouços, 19...
Paulo Guedes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Eduardo Gageiro. Retratos com histórias

 No meio da  tralha (poucochinha, felizmente) da correspondência electrónica que me arriba ao correio vinha hoje um powerpoint diaporama com fotografias de Eduardo Gageiro. São retratos notáveis de gente nossa, notável, com legendas do próprio Eduardo Gageiro que as enchem ainda mais de alma; são imagens raras - a do Welles diz que é no Guincho mas eu diria poder ser na Praia das Maçãs; a do dr. Salazar... à laia duma de Rosa Casaco; a da Amália é da sequência duma aqui...
 Leio agora (a notícia tem dias) que são duma exposição com o título do diaporama: Retratos com Histórias. Saíram no Público em Dezembro de 2010. Cuido que a compilação que circula chegou seja dum sr. João de Miranda. Vale a pena ampliar o projector do Google de modo que se vejam bem as legendas. O som de fundo perdeu-se na conversão do Google Docs mas não se perde nada.


 



 




 


Adenda já tarde na noite: de candeias às avessas com o Google Docs – que parecer não se dar com o blogo – dei-me a um longo serão de produção audiovisual (arte em que sou inepto). Vai o diaporma agora com Satie mas com degradação das fotografias; para as ver com mais qualidade e para ler as respectivas legendas, o que aconselho, melhor será o benévolo leitor seguir o diaporama mudo do Google Docs.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Electro-livro

Diálogo do Sítio de Lisboa, 1608

Sabeis aquelas crianças que carregam um brinquedo novo para todo lado?... pub

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Nevoeiro em Lisboa

Nevoeiro, Lisboa (Cmdt. Jos+e Costa, 2010)
Nevoeiro, Lisboa, Dez. 2010.
Fotografia: Cmdt. José Costa (A320, TAP).

domingo, 16 de janeiro de 2011

Programa de Variedades: James Brown


James Brown, It's A Man's Man's World
(n' O Olympia, Paris, 1966)

Nos ermos do Bom Sucesso...

«[...] Sentei-me num dos bancos, e fiquei a saborear aquela paz, aquele isolamento, aquela claridade que a passagem de um eléctrico de quando em quando amarelava fugidiamente. Às vezes, percorrendo distraidamente certas porções de Lisboa, houvera à minha volta, ou deslizara a meu lado, alguma atmosfera como aquela. Outras vezes, numa rua modificada ou alargada, em que demolições inconclusas enchiam de escombros e de lixo, ou de paredes interiores semi-demolidas em que sinais de vida ainda se agarravam, um dos lados da rua, eu sentira que, do lado oposto e não atingido pelas modificações, um velho palacete ou uma correnteza de humildes casas, projectavam uma aura semelhante àquela [do Largo da Princesa, à Rua de Pedrouços], apenas já marcada por uma condenação senil. Ainda outra vezes, como por exemplo na Graça, na Estrela, nas Amoreiras, ou na Costa do Castelo para Alfama, a atmosfera mantinha-se, mas mais palpitante, como quando, ao silêncio que só os passos cortavam, se sobrepunha no ar um eco de vozes, de gritos longínquos, de burburinho feito de agitação tranquila em muitas ruas diversas. Mas, ainda que em lugares mais vetustos, mais pitorescos, mais sujos de passado eu pudesse ter sentido mais fortemente ou mais sugestivamente uma atmosfera assim, talvez nunca antes me penetrasse tanto, e tão pacificadoramente como na simplicidade quase mesquinha daquele largo agora, uma consciência de que o passado pode ser, sem história e sem memória, sem azedume ou saudade, sem culpa ou inquietação, um espaço em que se pára, menos para regressar a ele, que para estar nele sem regresso algum. Um espaço que se não procura ou se nos não impõe teimosamente, mas um espaço que se encontra sem que ele tenha de comum connosco mais que uma coincidência de estar ali.»


Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Público, Lisboa, 2003, p. 504.


 



Quinta do Seabra na Rua de Pedrouços [adjacente ao Largo da Princesa], Bom Sucesso, c. 1939.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


 Jorge, a personagem da narrativa, entremeia meditações num episódio em que decide de súbito visitar a Torre de Belém. A descrição daqueles ermos arrabaldinos em Agosto 1936 (tempo da narrativa) não deixa de supreender. A fisionomia do largo é hoje diferente, o caminho até à Torre (pela Rua do Arco da Torre) ou a fauna humana que se encontrava por aquelas bandas estranhamo-la hoje conhecendo o lugar...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Os burros de Samatra

 Tomemos o topónimo Barroso. É uma terra transmontana. Se o ensinarmos a um inglês é natural que ele o aprenda e depois o repita com a sua característica pronúncia britânica Barroso (bʌr.oʊzo). Se o vier a transmitir oralmente a conterrâneos seus — Barroso (bʌr.oʊzo) — e algum deles precisar de escrevê-lo, para não se esquecer p. ex., há muita possibilidade que essoutro venha a escrever Burroso (bʌr.oʊzo, tal e qual), que é coisa assaz conforme à fonética do idioma inglês. Ora perante um escrito desses — Burroso — só um indígena de cá em sendo burro não emendará: Barroso.
 Ficam, pois, explicadas todas as Sumatras de toda imprensa do país do Barroso.


 


Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, Pedro Crasbeeck, 1614, f. 1
Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto... / escrita pelo mesmo Fernão Mendez Pinto.
- Em Lisboa : por Pedro Crasbeeck: a custa de Belchior de Faria Cavaleyro da casa del Rey nosso Senhor,
& seu Livreyro, 1614, fl. 1.

Voz ao exm.º ‘presidento’










Não fala tal e qual como os presidentos?

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A acção do ‘c’ em ‘director’, do ‘p’ na ‘adopção’, &c.

Consoantes mudas?


 Este excerto é de 1904, duma obra de Gonçalves Viana, Ortografia Nacional; Simplificação e Uniformização das Ortografias Portuguesas (Livraria da Viúva Tavares Cardoso, Lisboa, p. 73), e nele o autor justifica porque se não devem suprimir certas consoantes etimológicas da grafia das palavras. Gonçalves Viana (ou Gonçalves Vianna, ou Gonçálvez Viana, não sei qual a grafia mais certa) foi um grande paladino da simplificação da ortografia portuguesa; fez parte da comissão instituída pelo governo da República para levar a cabo a reforma ortográfica em 1911 (sempre muito aplaudida) e foi ele próprio o relator da mesma. (A propósito desta comissão comentou António José Saraiva no Expresso de 7/6/86: «O governo criou em 1911 uma comissão para refomar a ortografia, como se a língua estivesse nas atribuições das leis e do parlamento.»)
 Em 1885 propusera já Gonçalves Viana desterrarem-se da escrita portuguesa as marcas «nulas» da etimologia. Não obstante, como princípio geral, exceptuava a eliminação de sinais indicadores de pronúncia (diacríticos ou grafemas etimológicos) quando uma vogal careça de ser pronunciada com modulação especial. E nos princípios particulares afirmava: «Conservamos todo o sinal gráfico de fonema histórico [i.e. consoantes etimológicas], hoje nulo, cuja influéncia (sic) na vogal pertencente é persistente: acção, actor, predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção; e aínda quando é facultativa a pronunciação, como em carácter» (cf. Ivo Castro, Inês Duarte e Isabel Leiria, A Demanda da ortografia Portuguesa, Sá da Costa, Lisboa, 1987, p. 141 e ss.). A reforma de 1911 seguiu o preceito enunciado e o Acordo Luso-Brasileiro de 1945 firmou o mesmo princípio na Base VI. Sucedeu depois que o Brasil roeu a corda ao Acordo de 45 e os pressurosos signatários do novo Acordo nem das lições do tão aclamado simplificador Gonçalves Viana fizeram mais caso. 
 É conhecido o retorno  da escrita sobre a oralidade. Em duas gerações, aguardemos espe(c)tantes, andará o Diário da República pejadinho de nomeações para Dirtor-Geral.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Da tmese e outras divagações

«  Nós geralmente achamos mais euphonico aquillo que estamos habituados a pronunciar; e cacophonico o contrário. Assim ver-se-ha parece-nos melhor soante que verá-se. Ha no emtanto aqui uma illusão acustica. Basta um pouco de reflexão philosophica para nos convencermos que tão sonoro deve ser um como o outro. Senão, chamemos um estrangeiro, e pronunciemos-lhe as duas palavras; e elle não achará motivo serio para preferir uma á outra.
« Se eu digo por ex. lavei-me, que difficuldade poderia ter em dizer, lavarei-me, onde as terminações são iguaes? E porque não digo então lav-me-ei em vez de lavei-me? O dizer-se pois lavar-me-hei, em logar de lavarei-me, não é questão e euphonia. É outra.
   [...]
«   Realmente em ver-me-hei, sorrir-se-hão, achar-nos-hemos, etc. não ha em rigor tmese nenhuma, porque na origem verei, sorrirão e acharemos não são palavras simples, são phrases, e a intercalação dos pronomes não se deu na epocha em que a consciencia phrasica se tinha já perdido, mas na epocha em que ainda existia. Eu me explico melhor. Os primeiros que disserão verei, sorrirão e acharemos, etc., não vião nestas palavras fórmas simples, mas sim agrupamentos de duas fórmas: ver hei, sorrir hão, achar hemos; o que correspondia, como mostrei acima, a hei ver, hão sorrir, hemos ou havemos achar; ou o que correspondia ás locuções modernas hei de vêr, hão de sorrir, havemos de achar.
«   Ora no português antigo, e não é preciso remontar muito longe, havia mais facilidade de inverter a collocação dos pronomes em relação ao verbo do que hoje. Por brevidade, pois eu tenho lido centenas de exemplos, citarei só aqui Manuel Bernardes e Frei Amador Arráiz : «ha se de pôr a considerar» [Nova Floresta, vol. II, p. 55], e «hei me de deter um pouco» [Dialogos, ed. 1589, fl.2]. Nós hoje invertemos os pronomes e dizemos: «ha de pôr-se» ou «ha-de-se pôr», e «hei de deter-me» ou «hei-de-me deter». Por tanto quem em verei, sorrirão e acharemos via duas palavras ver hei, sorrir hão e achar hemos, não tinha dúvida nenhuma em collocar no meio de cada uma d'essas phrases os pronomes me, se, nos, por isso que era de uso geral, e dizer ver me hei, sorrir se hão, achar nos hemos; e tanto é verdade isto que digo, que nos livros antigos se acha o verbo haver destacado, como em irnos hemos, verme hei, etc.
«   Depois estes modos de dizer tornárão-se typicos, forão considerados tambem como locuções ou phrases feitas, e permanecêrão na linguagem até hoje, como fórmas normaes e vivas, quando ellas não são senão o vestigio crystallizado de uma antiga construcção syntactica. Logo, repito, em ver-me-hei não ha propriamente tmese, porque a tmese consiste em intercalar uma palavra entre dois elementos de outra, e verei não é na origem uma palavra, mas uma phrase composta de duas palavras distinctas. Logo tambem é menos exacto escrever-se ver-me-ei, sorrir-se-ão e achar-nos-emos como quer o sr. Figueiredo, porque se os pronomes se fazem seguir immediatamente ao infinito, é porque se mostra que ha ou houve consciencia de que o futuro constava primitivamente de duas palavras e por tanto deve reapparecer o h.
«   [...] Escreve-se indemnizarei, indemnizarás, etc., sem h, e indemnizar-te-hei, indemnizar-me-has, etc. com h, porque no primeiro caso quem falla não tem consciencia de que entra nessas fórmas o verbo haver, com quanto elle lá entre, e no segundo caso aquelle que falla revela por tradição antiga ininterrupta, essa consciencia, senão nelle, ao menos nos primeiros que assim dissérão.»
«   [...] A não existir em lavar-me-hei, etc. consciencia de que essa expressão se compunha de duas era natural que houvesse outras flexões verbaes com tmese; ora não existe mais nenhuma, senão o condicional, que tem uma origem analoga á do futuro [...]»


José Leite de Vasconcellos, As «Lições de Linguagem» do Sr. Candido de Figueiredo; Anályse Crítica, 2ª ed., Porto, Magalhães & Moniz, 1893, p. 44 e ss.


 


  O benévolo leitor que haja tido a paciência para ler este longo arrazoado há-me de perguntar: ao que vem agora isto?
  Pois, para começar, a tese do Dr. Leite de Vasconcelos: no idioma Português não existe, em rigor, tmese (ou mesóclise); atendendo à composição das flexões verbais do futuro e do condicional o que temos é uma perífrase verbal antiga cuja noção da sua natureza se não perdeu ainda de todo. Nos portugueses. Nos brasileiros, apesar de o Português ser também a sua língua mãe, é vã a demanda de exemplos da dita mesóclise (e inclusive de formas de conjugação pronominal e reflexa; ex. embargou-se-lhe a voz). — Porquê? A minha ideia é que os brasileiros, neste caso,  falam correntemente a língua materna perdidos da tal tradição antiga ininterrupta (se há outras marcas arcaizantes no português dos brasileiros, notai que elas só são arcaizantes duma perspectiva portuguesa contemporânea, pois que no Brasil são simplesmente linguagem corrente; e vice-versa). Se a perderam (à dita tmese) não sei. Talvez (mais certo) a menor rigidez na colocação dos pronomes no português antigo haja vindo a cristalizar de maneiras divergentes em Portugal e no Brasil. — Mas mesmo de haverem os portugueses ainda consciência de o futuro e o condicional dos verbos serem etimologicamente uma perífrase verbal antiga não sei o que diga: pela frequência com que ouço conjugações como darei-lhe ou pelo espanto e admiração que vejo em redor quando se enuncia rectamente dar-lhe-ei, por ex.; ou até pelo definhar das simples conjugações pronominais... Veja-
-se a imprensa.
  Trata-se todavia isto de algo muito vago — a consciência real de falares ancestrais manifestada em formas vivas do idoma, quem a terá? — A linguagem é um mimetismo colectivo de formas de dizer. De dizer; que de escrever já a conversa é outra. Mas tudo se perde. É que, se falar se aprende de ouvido, escrever exige estudo e reflexão. Ou exigia... E a tradição antiga da oralidade também era mais sólida. Hoje com as grafonolas radiotelevisivas debitando discurso inconsistentemente e a toda a hora a linguagem torna-se demasiado volúvel e, por falta de erudição capaz, confusa e coalhada de barbarismos. E a ortografia é cada vez menos argamassa que cimente o idioma para os vindouros, ou sequer para uma próxima geração. O desvirtuar das etimologias na escrita, guiada pelo mito cego da macieza da instrução dos meninos, tadinhos, enfraquece o sentido das palavras e mina o domínio da linguagem com a devida propriedade a quem, aprendendo debilmente a ler e escrever significantes decepados das suas raízes etimológicas, sofre tábua rasa do significado primitivo das palavras e firma mal o seu sentido actual. Quanta gente haverá sabendo que pedófilo (adjectivo semanticamente desvirtuado por transliteração ignorante) vem do grego (paidos, criança + philo, amigo)? Quantos haverá capazes de usar vocabulário tão elementar como (e nem sugiro judiar) intimidar ou atormentar para dizer o barbaresco bullying? Quanta gente será afinal capaz de já ter reconhecido as formas compostas dum infinitivo e do auxiliar haver na conjugação do futuro ou do condicional dos verbos? E quanta mais as reconheceria se a orthographia bastasse só por si (sorrir-se-há), sem precisão de accôrdos?


Õrthographia


  Saber escrever até talvez devesse ser para todos (em tese), mas nem todos darão para amanuenses, por mais que se simplifique a escrita. E muitos menos haverá, mesmo redigindo bem, que saiam escritores, ao contrário do que o panorama de edição livreira faz crer (nem tudo é publicável, ou é? se calhar é...)  Este texto certamente não é.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Monsanto

Restaurante panorâmico, Monsanto (V.G. Figueiredo, 1973)
Panorâmico do Monsanto, Lisboa, 1973.
Vasco Gouveia de Figueiredo, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Memória da Expó. Pavilhão da América

Pavilhão da América, Expó (Luís Pavão, 2000)
Pequenos pavilhões [i.e. barraca de comes e bebes], Olivais, 2000.
Luís Pavão, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Das bestas

No Correio da Manhã de ontem duas notícias:



  1. Uns abusadores de crianças (a notícia releva que um deles diz que a polícia lhe bateu)... - pois bem - esses abusadores foram soltos pelo tribunal. Parece que com recomendação (ou ordem, já que a coisa emana dum tribunal) de se não aproximarem de crianças.

  2. Em Portalegre um touro "de raça alentejana" (a notícia menciona a raça, não sei qual a importância) matou um homem, numa feira de gado. Diz que a polícia apreendeu o touro.


Quais das bestas (e há nos casos uma multidão delas) com instinto menos desviado? E quais deviam andar presas?


 


Companhia das Lezírias, Ribatejo (M. Novais, s.d.)
Companhia das Lezírias, Ribatejo, [s.d.].

Estúdio de Mário de Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Do fandango

 Essa espécie de exército profissional que agora temos, soube hoje pelas notícias que está mesmo madurinho para as Bósnias, para os Líbanos, ou para os Afeganistões da virtuosa 'comunidade internacional'. Calhando o armamento ir parar só (só!) às mãos de gatunos de ourivesarias e podem os políticos regentes ir respirando de alívio. Já se calha a cair nas mãos de gente mais subversiva, com uma tropa assim para guardar o regime...


Revolta de 26/8/31, Lisboa (H. Novais, 1931)
Revolta de 26 de Agosto de 1931, Lisboa.
Horácio de Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G..


 


O melhor é a marinha guardar bem o submarino. E o exército, bem... que contrate a Sonasa.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Se é contra o aborto gráfico...

Carta manuscrita (16/12/2010)


 


 Existe alguma alternativa para acabar com aquele horror [o aborto gráfico] além da Iniciativa Legislativa de Cidadãos?
 Não, não há.
[...] 
 A nossa língua-mãe, o Português, esse ser vivo antiquíssimo, com o seu tronco gigantesco, de casca rugosa e cheia de antigas e veneráveis cicatrizes; não permitiremos nem que o serrem pela base, separando-o da raiz como quem separa um corpo da sua cabeça, nem que lhe decepem os oito braços grandes, enormes, tão imponentes como os oito países que representam.
Aqui estamos e ficaremos, portanto, inamovíveis e determinados, lutando até ao limite das nossas forças por aquilo que é de todos e de que apenas uns poucos pretendem abrir mão.
 Em suma, quer isto dizer que o prazo para recepção das subscrições da I.L.C. contra o AO90 prolonga-se até ao próximo dia 25 de Abril.


 Teria graça! Ver a iniciativa ter êxito em 25 de Abril para cair no colo dos deputados em 26. Uma rica ironia para o pouco que eles fazem da gente.

Falinhas mansas?

Ensitel (Aviso de 31/12/10).


 


Pois agora será precisa ainda maior cautela.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O Bataclan

 A Maria Machadão lá tomou posse. 
 A R.T.P., que não hesitou em abrasileirar-se no directo da passagem de ano, ganhou vergonha e conteve a nova "presidenta" com umas pudibundas aspas. Fez melhor do que a Maria Machadão, que já rege o Bataclan com uma virtuosa guarda pretoriana só de "meninas". O Brasil é mesmo assim; passa carnavalescamente dum presidente molusco para uma presidente muito macha. Não fora ser terra dada a carnavais, o ridículo mataria.

Nova «presidenta» (R.T.P., 1/1/11)


(Imagem da R.T.P.)

Ano novo, vida nova

Portugal ultramarino (S.E.I.T. nº 284684)
Fotografia da S.E.I.T./D.G.I., nº 384684, amavelmente cedida pelo sr. António Fernandes.


 


Feliz ano novo!