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domingo, 16 de janeiro de 2011

Nos ermos do Bom Sucesso...

«[...] Sentei-me num dos bancos, e fiquei a saborear aquela paz, aquele isolamento, aquela claridade que a passagem de um eléctrico de quando em quando amarelava fugidiamente. Às vezes, percorrendo distraidamente certas porções de Lisboa, houvera à minha volta, ou deslizara a meu lado, alguma atmosfera como aquela. Outras vezes, numa rua modificada ou alargada, em que demolições inconclusas enchiam de escombros e de lixo, ou de paredes interiores semi-demolidas em que sinais de vida ainda se agarravam, um dos lados da rua, eu sentira que, do lado oposto e não atingido pelas modificações, um velho palacete ou uma correnteza de humildes casas, projectavam uma aura semelhante àquela [do Largo da Princesa, à Rua de Pedrouços], apenas já marcada por uma condenação senil. Ainda outra vezes, como por exemplo na Graça, na Estrela, nas Amoreiras, ou na Costa do Castelo para Alfama, a atmosfera mantinha-se, mas mais palpitante, como quando, ao silêncio que só os passos cortavam, se sobrepunha no ar um eco de vozes, de gritos longínquos, de burburinho feito de agitação tranquila em muitas ruas diversas. Mas, ainda que em lugares mais vetustos, mais pitorescos, mais sujos de passado eu pudesse ter sentido mais fortemente ou mais sugestivamente uma atmosfera assim, talvez nunca antes me penetrasse tanto, e tão pacificadoramente como na simplicidade quase mesquinha daquele largo agora, uma consciência de que o passado pode ser, sem história e sem memória, sem azedume ou saudade, sem culpa ou inquietação, um espaço em que se pára, menos para regressar a ele, que para estar nele sem regresso algum. Um espaço que se não procura ou se nos não impõe teimosamente, mas um espaço que se encontra sem que ele tenha de comum connosco mais que uma coincidência de estar ali.»


Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Público, Lisboa, 2003, p. 504.


 



Quinta do Seabra na Rua de Pedrouços [adjacente ao Largo da Princesa], Bom Sucesso, c. 1939.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


 Jorge, a personagem da narrativa, entremeia meditações num episódio em que decide de súbito visitar a Torre de Belém. A descrição daqueles ermos arrabaldinos em Agosto 1936 (tempo da narrativa) não deixa de supreender. A fisionomia do largo é hoje diferente, o caminho até à Torre (pela Rua do Arco da Torre) ou a fauna humana que se encontrava por aquelas bandas estranhamo-la hoje conhecendo o lugar...

5 comentários:

  1. Mário Cruz17/1/11 14:57

    A quinta é hoje ocupada pelo Instituto de Altos Estudos do Exército?

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  2. Isso não é mais para o lado de Algés? Esta imagem é adjacente à Av. da Torre de Belém, que não existia ainda.
    Cumpts.

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  3. Mário Cruz19/1/11 17:08

    Sobre o IAEM
    «Inicialmente, o IAEM herdou as instalações que vinham sendo utilizadas pela ECO, mantendo-se, assim, no Palácio Real de Caxias, até à data em que foi transferido para a quinta dos Duques de Cadaval, em Pedrouços. A propriedade era posse da Câmara Municipal de Lisboa, que a transferiria para o Exército, que por sua vez, no que restava da quinta e respeitando a traça do palácio e do bosque, construiu as instalações do Instituto de Altos Estudos Militares.
    O processo iniciou-se em 15 de Março de 1949 e consistiu na realização de um auto de arbitragem entre o Exército e a Câmara Municipal de Lisboa, detentora do terreno.
    As novas instalações do IAEM foram inauguradas no dia 4 de Novembro de 1958, tendo o ano lectivo de 1958-1959, cuja abertura solene teve lugar na mesma data, decorrido já no novo aquartelamento.»
    Quinta dos Duques do Cadaval, haverá fotos?
    Cumps

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  4. Há. uma busca rápida aos arquivos da Câmara dão isto... antes de se começar a separar o trigo do joio. A casa fica no lado oposto aos Altos Estudos, na Rua de Pedrouços.
    Cumpts.
    P.S.: Ainda lhe devo um comentário sobre aquela encosta N da Penha de França. Não me esqueci, mas peço-lhe entretanto desculpa da demora.

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  5. Mário Cruz28/1/11 09:35

    Muito obrigado.

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