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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A acção do ‘c’ em ‘director’, do ‘p’ na ‘adopção’, &c.

Consoantes mudas?


 Este excerto é de 1904, duma obra de Gonçalves Viana, Ortografia Nacional; Simplificação e Uniformização das Ortografias Portuguesas (Livraria da Viúva Tavares Cardoso, Lisboa, p. 73), e nele o autor justifica porque se não devem suprimir certas consoantes etimológicas da grafia das palavras. Gonçalves Viana (ou Gonçalves Vianna, ou Gonçálvez Viana, não sei qual a grafia mais certa) foi um grande paladino da simplificação da ortografia portuguesa; fez parte da comissão instituída pelo governo da República para levar a cabo a reforma ortográfica em 1911 (sempre muito aplaudida) e foi ele próprio o relator da mesma. (A propósito desta comissão comentou António José Saraiva no Expresso de 7/6/86: «O governo criou em 1911 uma comissão para refomar a ortografia, como se a língua estivesse nas atribuições das leis e do parlamento.»)
 Em 1885 propusera já Gonçalves Viana desterrarem-se da escrita portuguesa as marcas «nulas» da etimologia. Não obstante, como princípio geral, exceptuava a eliminação de sinais indicadores de pronúncia (diacríticos ou grafemas etimológicos) quando uma vogal careça de ser pronunciada com modulação especial. E nos princípios particulares afirmava: «Conservamos todo o sinal gráfico de fonema histórico [i.e. consoantes etimológicas], hoje nulo, cuja influéncia (sic) na vogal pertencente é persistente: acção, actor, predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção; e aínda quando é facultativa a pronunciação, como em carácter» (cf. Ivo Castro, Inês Duarte e Isabel Leiria, A Demanda da ortografia Portuguesa, Sá da Costa, Lisboa, 1987, p. 141 e ss.). A reforma de 1911 seguiu o preceito enunciado e o Acordo Luso-Brasileiro de 1945 firmou o mesmo princípio na Base VI. Sucedeu depois que o Brasil roeu a corda ao Acordo de 45 e os pressurosos signatários do novo Acordo nem das lições do tão aclamado simplificador Gonçalves Viana fizeram mais caso. 
 É conhecido o retorno  da escrita sobre a oralidade. Em duas gerações, aguardemos espe(c)tantes, andará o Diário da República pejadinho de nomeações para Dirtor-Geral.

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