« Nós geralmente achamos mais euphonico aquillo que estamos habituados a pronunciar; e cacophonico o contrário. Assim ver-se-ha parece-nos melhor soante que verá-se. Ha no emtanto aqui uma illusão acustica. Basta um pouco de reflexão philosophica para nos convencermos que tão sonoro deve ser um como o outro. Senão, chamemos um estrangeiro, e pronunciemos-lhe as duas palavras; e elle não achará motivo serio para preferir uma á outra.
« Se eu digo por ex. lavei-me, que difficuldade poderia ter em dizer, lavarei-me, onde as terminações são iguaes? E porque não digo então lav-me-ei em vez de lavei-me? O dizer-se pois lavar-me-hei, em logar de lavarei-me, não é questão e euphonia. É outra.
[...]
« Realmente em ver-me-hei, sorrir-se-hão, achar-nos-hemos, etc. não ha em rigor tmese nenhuma, porque na origem verei, sorrirão e acharemos não são palavras simples, são phrases, e a intercalação dos pronomes não se deu na epocha em que a consciencia phrasica se tinha já perdido, mas na epocha em que ainda existia. Eu me explico melhor. Os primeiros que disserão verei, sorrirão e acharemos, etc., não vião nestas palavras fórmas simples, mas sim agrupamentos de duas fórmas: ver hei, sorrir hão, achar hemos; o que correspondia, como mostrei acima, a hei ver, hão sorrir, hemos ou havemos achar; ou o que correspondia ás locuções modernas hei de vêr, hão de sorrir, havemos de achar.
« Ora no português antigo, e não é preciso remontar muito longe, havia mais facilidade de inverter a collocação dos pronomes em relação ao verbo do que hoje. Por brevidade, pois eu tenho lido centenas de exemplos, citarei só aqui Manuel Bernardes e Frei Amador Arráiz : «ha se de pôr a considerar» [Nova Floresta, vol. II, p. 55], e «hei me de deter um pouco» [Dialogos, ed. 1589, fl.2]. Nós hoje invertemos os pronomes e dizemos: «ha de pôr-se» ou «ha-de-se pôr», e «hei de deter-me» ou «hei-de-me deter». Por tanto quem em verei, sorrirão e acharemos via duas palavras ver hei, sorrir hão e achar hemos, não tinha dúvida nenhuma em collocar no meio de cada uma d'essas phrases os pronomes me, se, nos, por isso que era de uso geral, e dizer ver me hei, sorrir se hão, achar nos hemos; e tanto é verdade isto que digo, que nos livros antigos se acha o verbo haver destacado, como em irnos hemos, verme hei, etc.
« Depois estes modos de dizer tornárão-se typicos, forão considerados tambem como locuções ou phrases feitas, e permanecêrão na linguagem até hoje, como fórmas normaes e vivas, quando ellas não são senão o vestigio crystallizado de uma antiga construcção syntactica. Logo, repito, em ver-me-hei não ha propriamente tmese, porque a tmese consiste em intercalar uma palavra entre dois elementos de outra, e verei não é na origem uma palavra, mas uma phrase composta de duas palavras distinctas. Logo tambem é menos exacto escrever-se ver-me-ei, sorrir-se-ão e achar-nos-emos como quer o sr. Figueiredo, porque se os pronomes se fazem seguir immediatamente ao infinito, é porque se mostra que ha ou houve consciencia de que o futuro constava primitivamente de duas palavras e por tanto deve reapparecer o h.
« [...] Escreve-se indemnizarei, indemnizarás, etc., sem h, e indemnizar-te-hei, indemnizar-me-has, etc. com h, porque no primeiro caso quem falla não tem consciencia de que entra nessas fórmas o verbo haver, com quanto elle lá entre, e no segundo caso aquelle que falla revela por tradição antiga ininterrupta, essa consciencia, senão nelle, ao menos nos primeiros que assim dissérão.»
« [...] A não existir em lavar-me-hei, etc. consciencia de que essa expressão se compunha de duas era natural que houvesse outras flexões verbaes com tmese; ora não existe mais nenhuma, senão o condicional, que tem uma origem analoga á do futuro [...]»
José Leite de Vasconcellos, As «Lições de Linguagem» do Sr. Candido de Figueiredo; Anályse Crítica, 2ª ed., Porto, Magalhães & Moniz, 1893, p. 44 e ss.
O benévolo leitor que haja tido a paciência para ler este longo arrazoado há-me de perguntar: ao que vem agora isto?
Pois, para começar, a tese do Dr. Leite de Vasconcelos: no idioma Português não existe, em rigor, tmese (ou mesóclise); atendendo à composição das flexões verbais do futuro e do condicional o que temos é uma perífrase verbal antiga cuja noção da sua natureza se não perdeu ainda de todo. Nos portugueses. Nos brasileiros, apesar de o Português ser também a sua língua mãe, é vã a demanda de exemplos da dita mesóclise (e inclusive de formas de conjugação pronominal e reflexa; ex. embargou-se-lhe a voz). — Porquê? A minha ideia é que os brasileiros, neste caso, falam correntemente a língua materna perdidos da tal tradição antiga ininterrupta (se há outras marcas arcaizantes no português dos brasileiros, notai que elas só são arcaizantes duma perspectiva portuguesa contemporânea, pois que no Brasil são simplesmente linguagem corrente; e vice-versa). Se a perderam (à dita tmese) não sei. Talvez (mais certo) a menor rigidez na colocação dos pronomes no português antigo haja vindo a cristalizar de maneiras divergentes em Portugal e no Brasil. — Mas mesmo de haverem os portugueses ainda consciência de o futuro e o condicional dos verbos serem etimologicamente uma perífrase verbal antiga não sei o que diga: pela frequência com que ouço conjugações como darei-lhe ou pelo espanto e admiração que vejo em redor quando se enuncia rectamente dar-lhe-ei, por ex.; ou até pelo definhar das simples conjugações pronominais... Veja-
-se a imprensa.
Trata-se todavia isto de algo muito vago — a consciência real de falares ancestrais manifestada em formas vivas do idoma, quem a terá? — A linguagem é um mimetismo colectivo de formas de dizer. De dizer; que de escrever já a conversa é outra. Mas tudo se perde. É que, se falar se aprende de ouvido, escrever exige estudo e reflexão. Ou exigia... E a tradição antiga da oralidade também era mais sólida. Hoje com as grafonolas radiotelevisivas debitando discurso inconsistentemente e a toda a hora a linguagem torna-se demasiado volúvel e, por falta de erudição capaz, confusa e coalhada de barbarismos. E a ortografia é cada vez menos argamassa que cimente o idioma para os vindouros, ou sequer para uma próxima geração. O desvirtuar das etimologias na escrita, guiada pelo mito cego da macieza da instrução dos meninos, tadinhos, enfraquece o sentido das palavras e mina o domínio da linguagem com a devida propriedade a quem, aprendendo debilmente a ler e escrever significantes decepados das suas raízes etimológicas, sofre tábua rasa do significado primitivo das palavras e firma mal o seu sentido actual. Quanta gente haverá sabendo que pedófilo (adjectivo semanticamente desvirtuado por transliteração ignorante) vem do grego (paidos, criança + philo, amigo)? Quantos haverá capazes de usar vocabulário tão elementar como (e nem sugiro judiar) intimidar ou atormentar para dizer o barbaresco bullying? Quanta gente será afinal capaz de já ter reconhecido as formas compostas dum infinitivo e do auxiliar haver na conjugação do futuro ou do condicional dos verbos? E quanta mais as reconheceria se a orthographia bastasse só por si (sorrir-se-há), sem precisão de accôrdos?
Saber escrever até talvez devesse ser para todos (em tese), mas nem todos darão para amanuenses, por mais que se simplifique a escrita. E muitos menos haverá, mesmo redigindo bem, que saiam escritores, ao contrário do que o panorama de edição livreira faz crer (nem tudo é publicável, ou é? se calhar é...) Este texto certamente não é.
Adorei! O velho artigo e o comentário. Abraço!
ResponderEliminarObrigado!
ResponderEliminarExcelente!
ResponderEliminarObrigado!
ResponderEliminarCaro Bic Laranja,
ResponderEliminaraté parece que li o seu blog antes de escrever os meus comentários sobre o texto da infeliz professora Janaína. Mas não, juro que acabo de chegar, por indicação do JPG.
Um abraço aqui do patag(ó/ô)nico fim do mundo em que vivo.
Honra-me tê-lo por cá. Seja bem-vindo!
ResponderEliminarObrigado ao sr. J.P.G..
Cumpts. a ambos.