
Torre de Belém e Fábrica do Gás tomada dumas casas traseiras ao Largo do Chafariz da Princesa, Bom Sucesso, 1938.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
«Tomei um carro eléctrico até Belém, mudei para outro até Algés, que estava parado a fazer horas, com duas ou três pessoas dentro, e o guarda-freio e o condutor [o pica-bilhetes] no banco da frente, a conversar e a fumar. A massa branca do Mosteiro dos Jerónimos fez-me pensar que eu nunca vira por dentro a Torre de Belém, apenas entrevista por trás de montes de carvão e misturada com gasómetros, quando se passava no comboio do Estoril. Eu nem sabia como se chegava lá, aonde se descia do eléctrico. Fui perguntar ao condutor. Ele e o guarda-freio discutiram o caso. Nenhum deles tinha a certeza, mas concordaram que o caminho para lá devia ser o mesmo que para o forte [do Bom Sucesso]. O melhor era eu descer no Largo da Princesa [...] Voltei a sentar-me. Uma das pessoas já sentadas dobrou-se para trás no seu banco: era à Torre que eu queria ir? Havia lá um guarda, ele até o conhecia, que morava perto. Mas o homem, coitado, cansava-se de estar a tomar conta duma coisa onde ninguém ia e onde se gelava de frio mesmo no pino do Verão, e nem sempre lá estava. Se ele não estivesse, eu que perguntasse no forte ao lado da Torre. O guarda costumava deixar a chave às sentinelas. Mas para que queria eu ver a Torre por dentro? Aquilo por dentro não tinha nada, ele já lá tinha entrado. E fitava em mim uns olhos inquiridores. Era um homem de meia-idade, muito grisalho, com ar de sapateiro ou qualquer profissão assim doméstica. Vestia modestamente um fato coçado que perdera a cor e que podia ter sido castanho ou pardo. Tinha, porém, gravata: muito esfiada e cheia de nódoas.»

Largo da Princesa, Bom Sucesso, 1939.
Eduardo Portugal, in C.M.L., Belém/Bellem; Reguengo da Cidade, Porto, Asa, 1990.
«[...] Apeei-me e fiquei defronte do largo. Muitas vezes passara ali de eléctrico, vagamente reconhecendo a existência daquele largo que nunca vira. Ao atravessar as linhas dos carros e ao pisar nele, que era calçado irregularmente de pedras arredondadas cuja curvatura o tempo não delira [mais que perf. do v. delir], umas azuladas, outras brancas, todas à mistura e que não formavam passeio à beira da rua, mas desciam continuamente para uma valeta pouco funda, reparei que o largo era fechado por três lados com uma balaustrada de pedra, a que se encostavam antigos bancos de pedra também, daqueles que são uma laje de bordas trabalhadas, assentes em dois enormes pés recortados em voluta, semelhantes esses bancos aos que, de espaço a espaço, havia ao longo da rua. O chafariz erguia-se elegante daquele espaço de cuja calçada, e alteando com as invisíveis raízes, brotavam, esguias e grossas, árvores esparsas. A um lado e outro do largo desciam azinhagas, e outra havia por trás dele. As casas — modestas e antigas como ele — emergiam do outro lado das azinhagas, com as janelas dos andares à altura do balaústre, o que as fazia distantes e próximas, ao mesmo tempo. Os bancos ao longo da rua eram como que uma separação entre dois mundos: um, em que já havia carros eléctricos passando por entre muros velhos, e outro, ali recolhido, em que o tempo se suspendera uns dois séculos atrás, e onde apenas se ouvia o gorgolejar ténue da água caindo de uma das troneiras do chafariz. Deserto o largo, quietas as casas, a brisa que sacudia levemente as folhas e as sombras nas pedras azuis e brancas da calçada acrescentava a tudo, não um ar de sonho, mas de realidade perdida, de espaço não ocupado pelo tempo circundante.»
Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Público, Lisboa, 2003, p. 503, passim.

Largo da Princesa, Rua de Pedrouços, 19...
Paulo Guedes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
É pena que não diga de quem é o texto.
ResponderEliminarLapso imperdoável. Já corrigido.
ResponderEliminarCumpts.
Muito obrigado. Havia hiperligação para um outro texto de Sena, mas fiquei hesitante.
ResponderEliminarObrigado eu pelo aviso.
ResponderEliminarCumpts.
Às vezes, colegas meus perguntam-me como é Portugal em geral e Lisboa em particular. Eu digo que é um país com um "montão de coisas" (normalmente digo só as boas) e que Lisboa é muito bonita. Depois venho aqui e vejo que conjugo os verbos no tempo errado: Lisboa era bonita...
ResponderEliminarArrisco "Lisboa foi"... O imperfeito dá a acção por inconclusa. E Lisboa, definitivamente, já não é...
ResponderEliminarPretérito perfeito são o tempo e modo, portanto.
Cumpts.
Infelizmente, tenho que concordar em género, número e grau!
ResponderEliminarSeja bem-vinda.
ResponderEliminarCumpts.
Há, parece-me, uma nota positiva. Atentado paisagistico era a Torre de Belém rodeada por todos aqueles edifícios.Hoje, desafogada, está bem melhor. Também ao nível de visitantes se evoluíu bastante, apesar de ainda não ser um monumento muito visitado.
ResponderEliminarA.v.o.
Tem muita razão. Há mais um pedacinho em Jorge de Sena que corrobora isto que agora me diz. Conto alinhavá-lo aqui em breve com mais alguma imagens.
ResponderEliminarCumpts.
Tomei a liberdade de partilhar este post no blog "Um pastel em Belém".
ResponderEliminarEspero que não haja problema.
http://www.umpastelembelem.com/2011/01/26/pelo-arrabalde-do-bom-sucesso-nos-anos-30/ (http://www.umpastelembelem.com/2011/01/26/pelo-arrabalde-do-bom-sucesso-nos-anos-30/)
Cumprimentos e continuação de um bom trabalho.
Não senhor. Grato pelo apreço.
ResponderEliminarCumpts.