Há emoções vividas em tenra idade que ficam profundamente vincadas na memória. Como se fossem vigoroso labor de lapicida em pedra pouco rija. E tal como às lápidas dos antigos, o tempo vai escondendo essas marcas na memória deitando-lhes aos poucos camadas de sedimento. Podia pensar que se esbatem. Não nas vivências mais emotivas, que nem luz rasante precisam para avivar esses sulcos da memória. É necessário tão só desempoeirá-las do sedimento para se ver quão vivas estão. Falo de boas recordações.
Vi os Pequenos Vagabundos pela muito novinho. Inicialmente induzido pelo meu irmão, mais crescidote. Eu gostava era de ver bonecos animados, e disse-lhe. Ele só me respondeu: - Vê que vais gostar. - Que fabulosas aventuras as daqueles moços (que crescidos então me pareciam) na busca do tesouro, em passagens secretas, acampando em ruínas; o Castelo Sem Nome, a escalada das torres, armaduras sinistras, lutas aguerridas, corridas de karting, cavalos, a perseguição de mota, o aviãozinho telecomandado, o helicóptero dos bandidos - e aquele meio chinês muito mau -, os capuchos misteriosos, enfim, tudo. Mais a música...
Comprei a série. Fui-a saboreando sem pressa - um episódio ou dois em cada sábado - mais a senhora (que nunca a vira ou não se lembra). Em cada cena que fui revendo tudo me voltava. Com o mesmo prazer de quando vi pela primeira vez, em criança. Em cada cena que ia revendo pensava emocionado: - Ah pois é! Havia esta cena! - sem me lembrar da que viria a seguir. E logo na seguinte a mesma emoção de rever repetia-se: - Ena, pois é! Havia esta cena!... Estava cá tudo guardado, com todas as emoções que aquelas aventuras então me causaram. Foi um ciclo de mais ou menos 35 anos que me fez reviver com a mesma emoção momentos muito agradáveis que tive na infância.
É quanto agora terei de esperar, parece-me!... Senão estraga...