Fujo à crisma bárbara quando me refiro ao Terreiro do Paço, já aqui o disse; se a praça tem porte aristocrático o nome deve coadunar-se. Não é à toa que uma das maneiras de bem referir o governo é dizer o Terreiro do Paço. Soaria grotesco alguém pronunciar: a Praça do Comércio sobrepõe-se ao poder local. É pena que no terreiro após o terramoto nunca haja havido paço, mas da nobreza do terreiro faz prova a sua qualidade de cais real, antecâmara de honra para reis e rainhas, dignitários e chefes de Estado. Antes e depois de 1910.
O Rei Venturoso edificou o paço da Ribeira por cima dos armazéns da Casa da Mina. Quanto a mim isso representa o domínio da dignidade sobre o trauto da mercadarya. E não consta que naquele tempo, quando o comércio de além-mar era sustento do reino, e sendo as casas da Mina e Índia plataforma logística [adoro estes nomes da moda!], alguém haja chamado ao lugar Praça do Trauto.
domingo, 31 de dezembro de 2006
Praça do trauto?
sábado, 30 de dezembro de 2006
Balanços e votos
Um balanço de 2006 é que o betão está de pedra e cal.
Melhores votos para 2007 e seguintes é que todos tenhamos uma empresa de construção civil. E obras. Especialmente na Ota e na Castanheira do Ribatejo: assim poupa-se nas deslocações para depósito das terras movidas por causa do aeroporto (que pena a lezíria não ser mais perto).
A quem cuida das gentes faço votos de boas colheitas pelo anúncio de empregos em plataformas logísticas em terras da Reserva Agrícola.
A bem da inclusão [adoro estes vocábulos da moda!] dos deslocalizados da Azambuja e do Ministério da Ingrícola...
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
A pau com os ursos
Enquanto me sento aqui com uma manta nas pernas — que helada está esta casa! (*) — ouço na televisão que 2006 foi um dos anos mais quentes das últimas décadas. Gosto da vêemência; gosto do rigor: não foi nem o mais quente, nem sei bem se últimas décadas dá para 20, 40 ou 80 anos. O facto assim afirmado com tanto rigor científico — percebo-lhe a intenção — substancia uma vez mais (ou substancia-se em) o que garantem 2 500 cientistas dum painel da O.N.U. para as alterações climáticas.
E esta ciência não pára. Constroem-se modelos climáticos a cavalo num histórico de medições só de algumas décadas quando nem capacidade há para previsões fidedignas além de... dias.
— Portugal a não escapar ao aquecimento global — parece-me que é o que ouço papaguear como conclusão.
Pois, pudera! Se nem da Europa, que pode muito menos que o aquecimento global, conseguiu Portugal livrar-se, como ia agora fazê-lo de algo mundial global?!
Quanto aos 2500 cientistas da O.N.U. não me admira que aqueçam o clima: sem calor será mais dificil aquecerem o tacho. Mas a quem mais interessará o aquecimento global? Aos ursos polares? Ao presidente Bush? É isso que não entendo!
Imagem em Amazon.com
(*) Patxi Andion - Palabras (1970)
quinta-feira, 28 de dezembro de 2006
Andaluz: azimute inverso
O arco no horizonte estava bem à vista. Viemos pelo o azimute inverso.
Arco de Andaluz, Lisboa, c. 1900.
Fotografia: Alberto Carlos Lima, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
[Que singular aquela casa com zimbório por cima do arco ainda lá existir...]
Andaluz
terça-feira, 26 de dezembro de 2006
A velhinha Rua do Arco do Cego
Esta é uma imagem rara e preciosa do primeiro troço da velha Rua do Arco do Cego entre a Av. Duque de Ávila e a Av. António José de Almeida. Pense o benévolo leitor em parar à porta do Centro Comercial de São João de Deus; pouse o tripé e a máquina de Eduardo Portugal, aponte a objectiva para dentro do centro e foque para 1940. Adenda:
2ª adenda:
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segunda-feira, 25 de dezembro de 2006
Uma caixa de bolachas
Lá em casa tínhamos uma caixa de bolachas, daquelas em folha de lata, com o Terreiro do Paço na tampa. Havia mais bonecos à roda da caixa; julgo que eram pormenores barrocos do Terreiro do Paço, parece que detalhes da imagem da tampa, que eu achava muito, muito bonita.
Desfile de cortejo: vista imaginária do Terreiro do Paço
J.A Cyriaco, 1794.
Óleo sobre tela, 450 x 940 mm, in Museu Nacional dos Coches.
Poder passar lá no eléctrico tornava-se fantástico; o lugar real que eu via tão encantador na caixa das bolachas estava ao meu alcance. E contudo em lá passando, vendo as magníficas arcadas e as grandes janelas mai-los grossos torreões a rematar a praça à beira-rio, sentia dali algum desencanto. Eu não pressentia ali realeza. Intrigava-me como podia a imagem da caixa das bolachas transmitir um encanto de realeza e ao depois o terreiro verdadeiro não no ter. Ingenuamente - teria eu uns 4 ou 5 anos - ocorria-me que podia ser por a imagem da caixa de bolachas retratar o tempo dos reis. Na realidade não havia rei...
Gravura colorida, séc. XVIII, 410 x 825 mm
Projecto para a Praça do Comércio atribuído a Eugénio dos Santos.
Pouco tempo após deslindei o caso: o Terreiro do Paço na realidade estava inacabado; faltavam-lhe as cúpulas nos torreões e a torre sineira no cimo do arco triunfal como na caixa de bolachas.
Mas ainda assim, sobretudo faltava-lhe ser paço.
domingo, 24 de dezembro de 2006
Festas Felizes
Um saltinho à quinta do Conde de Sintra e um passeio no Chao Phrya em bergantim real (cortesia do confrade das Combustões), eis-me que torno à Guerra Junqueiro:
— FELIZ NATAL A TODOS!
Armando Serôdio, 1959 (ainda a expensas da Câmara Municipal de Lisboa).
sábado, 23 de dezembro de 2006
Quintas do Arco do Cego
O confrade Je Maintiendrai lançou-me na esplanada da Mexicana um interessante e honroso desafio: investigar o velho Arco do Cego, com especial incidência numa velha quinta com casa nobre, ali onde é hoje a Casa da Moeda; o fito era afixar cá na parede do blogo alguma fotografia da tal quinta. Temo sinceramente que o objectivo fique aquém… Mas vamos por partes.
O Arco do Cego em três planos: o Instituto Superior Técnico; um troço da Rua do Arco do Cego que já não existe; a Carris e os restos das quintas, terras onde hoje estão os quarteirões da Casa da Moeda até à Av. Elias Garcia.
Vista Geral do Arco do Cego, Lisboa, c. 1930.
(O Livro de Lisboa, Livros Horizonte, 1994.)
Planta Topográfica de Lisboa, Arquivo do Arco do Cego , C.M.L., (plantas 10L e 11L,1906-1908).
Na planta acima há quatro vias principais correndo mais ou menos de S. para N.: da esquerda para a direita temos a Av. Cinco de Outubro, a Av. da República (mais larga), a Av. dos Defensores de Chaves e a velha Rua do Arco do Cego (menos regular); de N para S vemos sucessivamente a Barbosa do Bocage, a Elias Garcia, a Visconde de Valmor, a Miguel Bombarda e, no encontro com a Defensores de Chaves ainda vemos a João Crisóstomo.
A velha Rua do Arco do Cego corria para NNO desde o ponto de encontro da Av. Rovisco Pais com a Duque de Ávila. Corria sensivelmente pelo que são hoje os logradouros dos quarteirões orientais da R. de Dona Filipa de Vilhena. Sobrevive ainda o troço entre esta e o Campo Pequeno. No lado ocidental da dita Rua do Arco do Cego podem identificar-se na Planta Topográfica de Lisboa três quintas: a Quinta do Chora ou do conde Sintra (azul); a Quinta da Brasileira (amarelo); e a Quinta dos condes das Galveias (verde). Destas, a que interessa aqui é primeira. A dúvida agora é saber naquela fiada de casas adjacentes (rosa) identificar a casa nobre da quinta. Para ajudar há lá dois jardins de buxo.
O problema é que naquela fotografia lá mais acima — onde se vê a terraplenagem da Av. António José de Almeida através da nossa quinta a caminho da Miguel Bombarda — já não sobrava muita casa de pé…
sexta-feira, 22 de dezembro de 2006
A Mexicana
O toldo que se vê na Av. Guerra Junqueiro não é da Mexicana; é duma loja que lá houve antes. O que era não sei. Uma mercearia, uma leitaria, talvez uma garrafeira...? Quem souber que me confirme os alvitres.
Av. Guerra Junqueiro, Lisboa, [c. 1950].
António Passaporte, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Fico sabendo que o programa curricular do em boa hora retornado Manuel (Mexicana I, Mexicana II, Mexicana Descritiva, Comida e Bebida) é dalguma reforma do ensino posterior a 62; é o que depreendo da datação da fotografia de Vasques, ali mais abaixo.
Em tempos frequentei a Mexicana mas não passei nenhuma das cadeiras mencionadas. A escola era outra, mais atrasada, embora depois houvesse algumas cadeiras feitas na Sul América!...
Há bastante que lá não vou. A ambas.
Pastelaria Mexicana, Lisboa, c.1977.
Fotografia de Vasques in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
quinta-feira, 21 de dezembro de 2006
Galeão Trindade
Ando aqui há tempo com ela fisgada para falar de duas cousas mas outros afazeres (calhando é falta de arte) me têm tolhido o intento. Uma é a Nossa Senhora da Rocha e o vale do Jamor e a outra é Goa. Deixando agora o primeiro, pego ao de leve na sede do nosso Estado da Índia.
Fez há dias 45 anos da invasão de Goa Damão e Diu e talvez por isso tenham dado há pedaço um documentário sobre ele no canal da R.T.P. Memória. Da bravura dos nossos em tão agrestes e ingratas circunstâncias, estou convicto, não se envergonharia Albuquerque. Mas confesso que não estou nada à vontade no tema. Afortunadamente há gente quem sabe e nos lembra o que se passou e tem passado...
Há quase 500 anos assentou o grande Afonso de Albuquerque de acometer a cidade de Goa. Conquistando-a uma primeira vez viu-se obrigado a retirar. Achando-se mal julgado por deixá-la acometeu-a segunda vez e tomou-a aos Turcos pelas armas: um dos seus capitães, «Manuel de Lacerda, que andava [ferido] com uma setada polo rosto, em entrando pela porta encontrou-se com hum Turco de cavallo, e matou-o, e subio-se no cavallo, e foi seguindo a vitoria [...] Quando o elle vio [Afonso de Albuquerque] com as armas todas tintas de sangue, abraçou-o, e disse-lhe: Senhor Manuel de Lacerda, confesso-vos que vos hei grande inveja, e assim vo-la houvera o grande Alexandre se aqui estivera [...] » (Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, parte III, cap. III).
Foi no dia de Santa Catarina de 1510. Uma das velas da frota da conquista de Goa é este magnífico galeão Trindade. Logo depois seguiu a frota para Malaca...

Telmo Gomes, Galeão Trindade.
(Navios Portugueses do Oriente: Século XVI, Inapa, 1999.)
Av. Guerra Junqueiro
Aos meus bons amigos Fernando C. e Pedro Oliveira que comentaram o Posto 6 de maneiras distintas, remetendo porém ambos para a Av. Guerra Junqueiro: a entrada do Posto 6 da Caixa adivinha-se mais do que se percebe, logo após a esquina, sensivelmente diante do autocarro de 2 pisos; a Mexicana, topa-se-lhe o toldo à esquerda de quem começa a descer a Guerra Junqueiro; se já se chamava Mexicana desconheço.
O postal é de 1959 (possivelmente tirado do alto do Ministério das Corporações em construção); a edição é de António Passaporte.
Notai que nesta altura já os arruamentos laterais da Manuel da Maia haviam sido modificados em passeios e estacionamento.E a tabuleta do Restaurante Portugal parece-me que também... (cf. Posto 6).
terça-feira, 19 de dezembro de 2006
Posto 6
Do Restaurante Portugal não me lembro. Recorda-me, sim, de haver ali um balcão do Banco Nacional Ultramarino. No primeiro andar, disse o meu irmão, era o posto 6 da Caixa; diz que fomos lá algumas vezes com a mãe, mas não me consigo lembrar.
Vista parcial sobre a Praça de Londres e Avenida Manuel da Maia, Lisboa, anos 50.
Fotografia de António Passaporte in Arquivo fotográfico da C.M.L.
Estrada da Carapuça
A Tasca do Confrade
Por via dum pecadilho, deu-me para pôr aqui no blogo um Piranesi. Dei-me depois conta que o confrade Je Maintiendrai nos brindara com mais três, magníficos, retirados dum guia piranésico de Roma, que generosamente nos depositou na mão esquerda. Não contente, deixou-nos ainda um guia gastronómico na direita.
Sabe quem sabe!
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
Concurso maravilha (mais um)
Interrogo-me se esta maravilha se não irá apresentar a concurso... com um grãozinho na asa.

Enrique Casanova, Porto: Torre dos Clérigos, c. 1890.
Litografia color.; 29 x 30 cm
domingo, 17 de dezembro de 2006
Piranesi
Acho que ninguém notou: fui espreitar as prendas de Natal da Sr.ª D.ª Emília. Espero que o Piranesi seja para o meu Menino Jesus!...
Templo de Saturno e Arco de Septímio Severo.
João Baptista Piranesi (1720-1778).
sábado, 16 de dezembro de 2006
Quitoso
O príncipe regente, futuro D. João VI, embarcara com a sua corte para o Brasil em 27 de Novembro de 1807. Pelo dia de hoje há 199 anos consta que já andariam todos com um camadão de piolhos (1).
Ilustração: Carlos Alberto in História de Portugal, 13ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, [s.l.], 1968.
(1) Patrick Wilcken, O Império à Deriva: a corte portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821, Porto, Civilização, 2004, p. 52 e ss.
sexta-feira, 15 de dezembro de 2006
Gestão da mudança
Acabei de ouvir um jornalista no Rádio Clube perguntar ao sr. ministro da agricultura se vão haver deslocalizações de funcionários.
O sr. ministro evitou habilmente responder com um hadem...
Gosto que o Ministério da Agricultura (oportunamente mudará o nome para Ministério da Consultoria - ou será Consultadoria?) haja encontrado uma nova missão agora que a agricultura é de cimento e as pescas são bacalhau da Noruega e carapau espanhol. Chama-se isto gestão para a mudança.
Mas atenção notai, os funcionários afinal não se mudam. Deslocalizam-se!
Quinta da Graça, Marvila [S. João de Brito], 1961.
Fotografia de Arnaldo Madureira in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
Cais das Colunas
Honra-me o confrade Mendo Ramires com um convite para pendurar aqui na parede um postalinho do saudoso Cais das Colunas - que a empreitada do Metropolitano haja. Meio desprevenido e um tanto atrasado, vale-me que o cavalheiro Jorge Ferreira supriu a falha com cinco belíssimos postais ilustrados n' O Carmo e a Trindade, com dedicatória a condizer.
* * * « O lado S da praça é formado pelo chamado Cais das Colunas (de duas colunas que aí se levantaram), hoje um pouco deteriorado, sendo raros os desembarques que nele se efectuam, a não ser de pequenos vapores e embarcações de vela que fazem a travessia do Tejo para a outra banda. De aí desce até ao rio uma ampla escadaria de mármore.» (2)
(1) A silhueta do silo da Trafaria e o tipo do cacilheiro atracado parece-me que tornam a fotografia daquém 1973, mas posso estar enganado. Música: Verdes Anos (Carlos Paredes).
(Revisto em 20/VII/14. Muito revisto e augmentado em 12/XI/17.) |
terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Dos aterros
Uma fotografia aérea sobre a zona de Belém e Algés (Kurt Pinto, Filmarte, c. 1930, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.) apresenta a Torre de Belém com um fuliginoso guarda-costas: a fábrica de gás. A Av. da Índia (se é que assim se já chamava) terminava na Rua do Arco da Torre de Belém, que se percebe mais ou menos na transversal da fotografia, cruzando a linha de Cascais e prosseguindo (encoberta) a ocidente da fábrica, até à porta do forte do Bom Sucesso.
Um detalhe interessante, se atentardes, é o areal da praia que em estreita faixa acompanha a linha de Cascais: são sucessivamente as praias de Pedrouços, de Algés (onde se distingue o pontão da ribeira do mesmo nome) e, lá onde a vista já não alcança, a Cruz Quebrada. Apercebo-me que desde a construção da Docapesca e tudo o mais que se tem feito em aterros sucessivos, a orla costeira avançou mais de dez vezes o tamanho destas praias de 1930.
Não é justo pois que Neptuno reclame agora em São João da Caparica parte do que lhe foi esbulhado?
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
Serra de Montemuro
Normalmente torço o nariz se ouço muita conversa que há neve na Serra da Estrela nos telejornais, logo nas primeiras pontes de Dezembro. Especialmente se ouço logo a seguir que na Serra Nevada não há nem um farrapito. Mas ontem ao almoço mencionaram Cinfães e a Serra de Montemuro; coisa rara. Não que não costume nevar ali, mas como não há lá canhões de fazer neve...
Deixo-vos no km 47 da E.N. 321 - ainda sem neve - na dita Serra de Montemuro; de Cinfães para Castro Daire.
domingo, 10 de dezembro de 2006
Barbeiro
Dizia um, meio empolgado:
- Aquilo é que é um negócio, pá! Aquilo todos compram: compram os do Benfica, compram os do Sporte e compram os do Porto.
- Até os que sabem ler hão-de comprar - disse entre dentes um que lia o jornal.
Barbeiro, Ribeira de Lisboa, 1967.
Fotografia de Eduardo Gageiro in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
- A escrever desta maneira, a rapariga ainda dá cabo da saúde! - ouviu-se o barbeiro...
sexta-feira, 8 de dezembro de 2006
Rua Dom Pedro V
O confrade Jansenista teve um brilhantíssimo relampejo de saudade no caminho do Chiado pela Escola Politécnica. Diz ele:
A «sétima colina» corre-me nas veias, com a sua despovoada vaidade queirosiana, é a coisa mais parecida com uma aldeia que tenho para apresentar. Nunca ninguém me descerrará uma lápide por isso, mas eu já a tatuei no peito. Do lado de dentro.
Pois vejo aqui no Guia de Portugal que, antecedendo a aldeia do dito confrade, a «sétima colina» era um campo extramuros onde D. João I de Castela assentou arraial para o cerco a Lisboa; cem anos volvidos era a vasta quinta dos Andradas que ocupava o dito campo; a edificação do bairro alto seguiu-se à da ermida de S. Roque (1506), vindo para ali muita aristocracia lisboeta; em 1589 ainda acampou no semi-arrabalde a tropa de Isabel Tudor que o Prior do Crato trouxe para cercar a Lisboa filipina.
A par de velhos casarões nobres que lá vão resistindo, a toponímia campesina sobrevive nas ruas da Vinha, do Loureiro, na travessa da Horta. E qual aldeia com a sua rua direita, a série de arruamentos que se enfiam desde o actual largo de Trindade Coelho até [ao L. do Rato] constituiam, correndo na linha da cumeada, uma das vias suburbanas da capital, com o nome quinhentista de Estrada de Campolide (Guia de Portugal, vol. I, Generalidades, Lisboa e Arredores, p. 335).
Vendedora ambulante com burro, Rua Dom Pedro V, [s.d.].
Fotógrafo não identificado, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Ora o troço dessa via que dá o mote a isto que escrevemos é a Rua Dom Pedro V (antiga do Moinho de Vento): dum lado os antiquários, do outro o aparente cosmopolitismo do Pavilhão Chinês: armazém de víveres e pastelaria...
Paviilhão Chinez, mercearia e pastelaria, Lisboa, c. 1908.
Fotografia de Joshua Benoliel in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Na varanda sobre a cidade que nos oferece S. Pedro de Alcântara talvez torne eu também depois a abrandar o passo...
Fogo à peça!
Pretende um hotel ou mamarracho de charme sobre o seu velho imóvel classificado ou em vias de classificação há 15 anos? Não sabe o que fazer?
Use autocombustão! E assim evita atirar suspeitas de fogo posto ao Almeida Garrett, que morou lá em 1852!...

Olha estes a olhar!...
— Não foi ninguém; a casa do arco ardeu sozinha e prontos!
As fotografias da Casa onde morou Almeida Garrett em 1852 e arco da Torre de Belém, [Pedrouços, 1938 ou 1939] são de Eduardo Portugal e estão no Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Revisto às 9 e meia da noite.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2006
O pastoreio
A estatística dos espectadores em teatros e cinemas é do I.N.E., mas na notícia dos resultados à hora do almoço resvala-se para consumo cultural; o rodapé reforçava o subtil desvio (doutrinação?) para um registo de compra & venda: consumo de teatro e cinema baixou.
O léxico é uma paleta que os humanos usam para comunicarem a policromia da vida em sociedade. Quando o tom do vocabulário se desvia invariavelmente para um matiz mercantil não admira que se desvaneça o colorido das freguesas na praça, dos hóspedes no hotel, dos passageiros no avião, dos depositantes no banco ou dos espectadores no teatro. Isso é gente. O que importa é haver de clientes. Em rebanho. Consumindo.
Panorâmica do local onde se irá construir o aeroporto da Portela, Estr. da Charneca, 1939.
Fotografia de Eduardo Portugal in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Diz que é uma canção nova...
E que é o que gostam: tocar canções novas.
Dire Straits: Once upon a time in the West
(Rockpalast 79).
terça-feira, 5 de dezembro de 2006
Os bichos
Há bichos na selva que marcam território urinando nas plantas. O seu cheiro assim espalhado avisa os outros da espécie que o território tem dono. Noutras selvas os cães têm o mesmo instinto; na falta dum tronco de árvore usam a roda dum carro, com vantagens óbvias.
Os humanos são menos olfactivos e têm umas latinhas de tinta...
segunda-feira, 4 de dezembro de 2006
Martha's Harbour (All About Eve)
Ainda viajando em mundos imaginários.
A idealização que me advém d' Os Cinco mais a sua estranha mistura com os lugares de Sintra funde-se com sensações que colho de «Martha's Harbour».
À primeira que ouvi a cantiga (foi na telefonia em 88; quem explica esta absurda associação com os Cinco?) tive a sensação de vogar na música em águas frias, cristalinas - assim é a voz de Julianne Regan. Nas imagens e emoções que me afluiam da canção ouvia, pelo meio das ondas a bater, a ilha dos murmúrios, frondosa, via a torre do farol, pressentia os afundadores algures... Vi-me sentado num cais na baía Kirrin à noite; os barcos balouçando na calmaria de «Martha's Harbour». Depois o espírito vagueou em todas as direcções da balada…

I sit by the harbour
The sea calls to me
I hide in the water
But l need to breathe
You are an ocean wave my love
Crashing at the bow
I am a galley slave my love
If only I would find out the way
To sail you...
Maybe I'll just stow away...
I've been run aground
So sad for a sailor
I felt safe and sound
But needed the danger
You are an ocean wave my love...
Andar de escorrega
Tenho cá na ideia o mundo d' Os Cinco. São as personagens da minha meninice, formadas das ilustrações de Eileen Soper, com todo aquele mundo encantador que me ocorre moldado nos desenhos dela. É o mundo que formei na minha imaginação, sobre cenários campestres britânicos do tempo da Enid Blyton, com os ingredientes que ela me deu: ilhas misteriosas e castelos normandos semi-arruinados cheios de passagens secretas; faróis e afundadores; pântanos e contrabandistas; caravanas de ciganos; e Os Cinco livres de adultos, vagabundeando por planícies de urze e tojo, acampando por montanhas e lagos.
As ilustrações originais de Eileen Soper, muito simples e bonitas, guiaram-me a imaginação dentro de quadros de época - os anos 40, sei agora - que não identifiquei muito bem quando li as histórias nos anos 70. Um sobrinho disse-me mais tarde: -- Os livros são giros, tio, mas são antiquados. -- O que desmotivava o moço, no meu tempo tornava para mim aquele mundo de aventuras mais romântico e encantador. O comboio fantasma era um clássico comboio a vapor; na Casa do Mocho havia um Bentley antigo magnífico; os ciganos eram nómadas e andavam em caravanas puxadas por cavalos, cousa que eu não via aos ciganos abarracados de Lisboa. Depois havia reminiscências de séculos passados, com afundadores e navios à vela, tesouros esquecidos, eu sei lá!
Por uma qualquer estranha associação de ideias, quando vou de Colares para a Praia das Maçãs há umas casinhas no pinhal que me remetem para um mundo fabuloso, próximo do que recriei dos livros d' Os Cinco. Mas não só: a charneca entre Janas e o Carrascal até ao Magoito também. E a costa escarpada da Praia das Maçãs ao Magoito outro tanto. Será por eu associar escarpas costeiras à Cornualha, onde acho que Os Cinco andaram? Será por associar as neblinas que sobem do mar pela charneca à planície misteriosa que se cobria de espessos nevoeiros?
Será que ando tolinho de todo?
O escorrega, Eileen Soper, c. 1926.
Gravura em Lapada.
Imagens d' Os Cinco em www.misteriojuvenil.com.
domingo, 3 de dezembro de 2006
Aveiro
Quando os nossos povoados tinham horizontes o de Aveiro era como vedes.
Na fotografia de cima as tradicionais marinhas de sal: notai que as há mal o casario se acaba, na margem esquerda do Canal das Pirâmides. O panorama em baixo é o do Cais dos Botirões e Mercantéis há mais de cem anos, antes da edificação do mercado do peixe. A vista também é aberta e livre dos obstáculos que hoje em dia se interpõem diante da nossa vista em qualquer rua ou praça. Não nego a utilidade de candeeiros nem certo encanto nos velhos postes de telefones bordejando velhas estradas; mas ele há tanto sinal de trânsito, tanto cartaz publicitário, tanta indicação de caminhos (ups!) acessibilidades, tanto ornamento de duvidoso gosto, tanta cousa...
E cada vez mais gruas.
Este blogo torna-se cada vez mais um lamento…
Ria e marinhas de sal, Aveiro, 1950.
[Postal da colecção do sr. João Augusto Simões da Rocha, Vagos.]
Aspecto do Cais dos Botirões e Mercantéis, Aveiro, fins do séc. XIX.
Fotografias em Imagem Digital.

