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domingo, 31 de dezembro de 2006

Praça do trauto?

 Fujo à crisma bárbara quando me refiro ao Terreiro do Paço, já aqui o disse; se a praça tem porte aristocrático o nome deve coadunar-se. Não é à toa que uma das maneiras de bem referir o governo é dizer o Terreiro do Paço. Soaria grotesco alguém pronunciar: a Praça do Comércio sobrepõe-se ao poder local. É pena que no terreiro após o terramoto nunca haja havido paço, mas da nobreza do terreiro faz prova a sua qualidade de cais real, antecâmara de honra para reis e rainhas, dignitários e chefes de Estado. Antes e depois de 1910.
 O Rei Venturoso edificou o paço da Ribeira por cima dos armazéns da Casa da Mina. Quanto a mim isso representa o domínio da dignidade sobre o trauto da mercadarya. E não consta que naquele tempo, quando o comércio de além-mar era sustento do reino, e sendo as casas da Mina e Índia plataforma logística [adoro estes nomes da moda!], alguém haja chamado ao lugar Praça do Trauto.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Balanços e votos

 Um balanço de 2006 é que o betão está de pedra e cal.
 Melhores votos para 2007 e seguintes é que todos tenhamos uma empresa de construção civil. E obras. Especialmente na Ota e na Castanheira do Ribatejo: assim poupa-se nas deslocações para depósito das terras movidas por causa do aeroporto (que pena a lezíria não ser mais perto).

Lego 612: camião basculante Lego 612: camião basculante Lego 612: camião basculante

 A quem cuida das gentes faço votos de boas colheitas pelo anúncio de empregos em plataformas logísticas em terras da Reserva Agrícola. 
 A bem da inclusão [adoro estes vocábulos da moda!] dos deslocalizados da Azambuja e do Ministério da Ingrícola...

  

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

A pau com os ursos

 Enquanto me sento aqui com uma manta nas pernas — que helada está esta casa! (*) — ouço na televisão que 2006 foi um dos anos mais quentes das últimas décadas. Gosto da vêemência; gosto do rigor: não foi nem o mais quente, nem sei bem se últimas décadas dá para 20, 40 ou 80 anos. O facto assim afirmado com tanto rigor científico —  percebo-lhe a intenção — substancia uma vez mais (ou substancia-se em) o que garantem 2 500 cientistas dum painel da O.N.U. para as alterações climáticas.
 E esta ciência não pára. Constroem-se modelos climáticos a cavalo num histórico de medições só de algumas décadas quando nem capacidade há para previsões fidedignas além de... dias.
 — Portugal a não escapar ao aquecimento global — parece-me que é o que ouço papaguear como conclusão.
 Pois, pudera! Se nem da Europa, que pode muito menos que o aquecimento global, conseguiu Portugal livrar-se, como ia agora fazê-lo de algo mundial global?!
 Quanto aos 2500 cientistas da O.N.U. não me admira que aqueçam o clima: sem calor será mais dificil aquecerem o tacho. Mas a quem mais interessará o aquecimento global? Aos ursos polares? Ao presidente Bush? É isso que não entendo!


 


Imagem em Amazon.com




(*) Patxi Andion - Palabras (1970)
 

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Andaluz: azimute inverso

O arco no horizonte estava bem à vista. Viemos pelo o azimute inverso.


Arco de Andaluz, Lisboa, c. 1900.
Fotografia: Alberto Carlos Lima, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.


[Que singular aquela casa com zimbório por cima do arco ainda lá existir...]

Andaluz

Passei - passámos - por lá hoje…



Largo de Andaluz, Lisboa, c.1940.
Fotografia: Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

A velhinha Rua do Arco do Cego


 Esta é uma imagem rara e preciosa do primeiro troço da velha Rua do Arco do Cego entre a Av. Duque de Ávila e a Av. António José de Almeida. Pense o benévolo leitor em parar à porta do Centro Comercial de São João de Deus; pouse o tripé e a máquina de Eduardo Portugal, aponte a objectiva para dentro do centro e foque para 1940.
 Cá está!

R. do Arco do Cego (E.Portugal, 1940)
Rua do Arco do Cego [vista S. desde o cruzamento da Av. Antº José de Almeida], Lisboa, 1940.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 Mas o que tinha esta rua de extradordinário? Provavelmente nada. Por isso não tenho encontrado sem trabalho descrições ou imagens dela.
 Aqueles prédios de rendimento à esquerda, pelo género, são dos anos 20, semelhantes a muitos em Arroios ou na Estefânia; em 1908 não figuraram no Levantamento da Planta de Lisboa (1). A rampa teria pouco mais de meia dúzia de anos quando Eduardo Portugal passou por ali com o Sol a pino num dia de Agosto de 1940; servia para nivelar o cruzamento com a novíssima Av. António José de Almeida (A) cuja cota ficou uns bons dois metros acima da velhina Rua do Arco do Cego.
 Com porte senhorial, a casa à direita (2) diante do moço que se debruça na grade é por certo uma das casas da quinta do conde de Sintra (áreas azul e cor-de-rosa); uma que ficava entre um jardim de buxo (3) (certamente já soterrado em 1940 pela António José de Almeida) e uma passagem (portão?) de acesso da dita quinta (4). As casas seguintes não tenho a certeza se eram da dita quinta do conde de Sintra; certo é que a segunda casa a contar do suposto portão (5) - a que se vê meia janela do primeiro sobrado - também dá ares de nobre; sabe-se pela planta topográfica de 1908 que possuía nas traseiras um jardim de buxo (6). Se uma delas seria a casa nobre da quinta do conde de Sintra é o que fico por saber.
 Como vedes, uma rua com prédios de rendimento e casas de quinta não merecia especial atenção na Lisboa de 1940. Extraordinária nesse longínquo ano foi a Exposição do Mundo Português; talvez fosse por ela que obtivemos uma bonita fotografia da Rua do Arco do Cego engalanada com bandeiras da fundação nas varandas; um festivo suspiro de glórias passadas duma rua sem história aparente, e já condenada.




Adenda:



 Com o que entretanto consegui colher, soube que a casa nobre do Conde de Sintra foi queimada durante a guerra civil (os proprietários eram miguelistas) e reconstruida numa versão em que as janelas eram arrendondadas ou ogivais e que acabaria por ficar junto ao famoso "sobe e desce" [...]. A família (que já saíra da antiga casa familiar, o hoje Ateneu, à R. dos Condes, vendida aos argentários Burnay) foi expropriada deste refúgio e saíu em 1934. Falta perguntar a quem sabe, se confirma a sua sugestão de identificação. Lá irei e cá virei; entretanto..bem haja!

Comentário de Je Maintiendrai em 26/12/06 às 11:26 PM





2ª adenda:



 Já voltei. A casa é mesmo, como aventou, a dos Condes de Sintra. No r/c uma porta entre três janelas e sete de sacada no 1.º. A travessa à esquerda era, de facto, a entrada para um beco com as casas de serviço e portão da quinta. [...] Como bem lembra, só falta espiolhar na "Lisboa de Lés-a-Lés"

Comentário de Je Maintiendrai em 27/12/06 às 11:32 PM




 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Uma caixa de bolachas

 Lá em casa tínhamos uma caixa de bolachas, daquelas em folha de lata, com o Terreiro do Paço na tampa. Havia mais bonecos à roda da caixa; julgo que eram pormenores barrocos do Terreiro do Paço, parece que detalhes da imagem da tampa, que eu achava muito, muito bonita.


Desfile, T. do Paço (J. Cyriaco, 1794)
Desfile de cortejo: vista imaginária do Terreiro do Paço
J.A Cyriaco, 1794.
Óleo sobre tela, 450 x 940 mm, in Museu Nacional dos Coches.


 Poder passar lá no eléctrico tornava-se fantástico; o lugar real que eu via tão encantador na caixa das bolachas estava ao meu alcance. E contudo em lá passando, vendo as magníficas arcadas e as grandes janelas mai-los grossos torreões a rematar a praça à beira-rio, sentia dali algum desencanto. Eu não pressentia ali realeza. Intrigava-me como podia a imagem da caixa das bolachas transmitir um encanto de realeza e ao depois o terreiro verdadeiro não no ter. Ingenuamente - teria eu uns 4 ou 5 anos - ocorria-me que podia ser por a imagem da caixa de bolachas retratar o tempo dos reis. Na realidade não havia rei...


P. Comércio, Lisboa (E.Santos)
Gravura colorida, séc. XVIII, 410 x 825 mm
Projecto para a Praça do Comércio atribuído a Eugénio dos Santos.


 Pouco tempo após deslindei o caso: o Terreiro do Paço na realidade estava inacabado; faltavam-lhe as cúpulas nos torreões e a torre sineira no cimo do arco triunfal como na caixa de bolachas.
 Mas ainda assim, sobretudo faltava-lhe ser paço.

domingo, 24 de dezembro de 2006

Festas Felizes

Um saltinho à quinta do Conde de Sintra e um passeio no Chao Phrya em bergantim real (cortesia do confrade das Combustões), eis-me que torno à Guerra Junqueiro:

— FELIZ NATAL A TODOS!


Av. Guerra Junqueiro, Lisboa (A. Serôdio, 1959)


Armando Serôdio, 1959 (ainda a expensas da Câmara Municipal de Lisboa).

sábado, 23 de dezembro de 2006

Quintas do Arco do Cego

 O confrade Je Maintiendrai lançou-me na esplanada da Mexicana um interessante e honroso desafio: investigar o velho Arco do Cego, com especial incidência numa velha quinta com casa nobre, ali onde é hoje a Casa da Moeda; o fito era afixar cá na parede do blogo alguma fotografia da tal quinta. Temo sinceramente que o objectivo fique aquém… Mas vamos por partes.


 O Arco do Cego em três planos: o Instituto Superior Técnico; um troço da Rua do Arco do Cego que já não existe; a Carris e os restos das quintas, terras onde hoje estão os quarteirões da Casa da Moeda até à Av. Elias Garcia.


Vista Geral do Arco do Cego, Lisboa, c. 1930.
(O Livro de Lisboa, Livros Horizonte, 1994.)


Planta Topográfica de LisboaArquivo do Arco do Cego , C.M.L., (plantas 10L e 11L,1906-1908).

 Na planta acima há quatro vias principais correndo mais ou menos de S. para N.: da esquerda para a direita temos a Av. Cinco de Outubro, a Av. da República (mais larga), a Av. dos Defensores de Chaves e a velha Rua do Arco do Cego (menos regular); de N para S vemos sucessivamente a Barbosa do Bocage, a Elias Garcia, a Visconde de Valmor, a Miguel Bombarda e, no encontro com a Defensores de Chaves ainda vemos a João Crisóstomo.
 A velha Rua do Arco do Cego corria para NNO desde o ponto de encontro da Av. Rovisco Pais com a Duque de Ávila. Corria sensivelmente pelo que são hoje os logradouros dos quarteirões orientais da R. de Dona Filipa de Vilhena. Sobrevive ainda o troço entre esta e o Campo Pequeno. No lado ocidental da dita Rua do Arco do Cego podem identificar-se na Planta Topográfica de Lisboa três quintas: a Quinta do Chora ou do conde Sintra (azul); a Quinta da Brasileira (amarelo); e a Quinta dos condes das Galveias (verde). Destas, a que interessa aqui é primeira. A dúvida agora é saber naquela fiada de casas adjacentes (rosa) identificar a casa nobre da quinta. Para ajudar há lá dois jardins de buxo.
 O problema é que naquela fotografia lá mais acima — onde se vê a terraplenagem da Av. António José de Almeida através da nossa quinta a caminho da Miguel Bombarda — já não sobrava muita casa de pé…

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

A Mexicana

 O toldo que se vê na Av. Guerra Junqueiro não é da Mexicana; é duma loja que lá houve antes. O que era não sei. Uma mercearia, uma leitaria, talvez uma garrafeira...? Quem souber que me confirme os alvitres.

Av. Guerra Junqueiro, Lisboa (A.Passaporte, c. 1950)
Av. Guerra Junqueiro, Lisboa, [c. 1950].
António Passaporte, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 Fico sabendo que o programa curricular do em boa hora retornado Manuel (Mexicana I, Mexicana II, Mexicana Descritiva, Comida e Bebida) é dalguma reforma do ensino posterior a 62; é o que depreendo da datação da fotografia de Vasques, ali mais abaixo.
 Em tempos frequentei a Mexicana mas não passei nenhuma das cadeiras mencionadas. A escola era outra, mais atrasada, embora depois houvesse algumas cadeiras feitas na Sul América!...
 Há bastante que lá não vou. A ambas.

Pastelaria Mexicana, Lisboa (Vasques, post 1962)
Pastelaria Mexicana, Lisboa, c.1977.
Fotografia de Vasques in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Galeão Trindade

 Ando aqui há tempo com ela fisgada para falar de duas cousas mas outros afazeres (calhando é falta de arte) me têm tolhido o intento. Uma é a Nossa Senhora da Rocha e o vale do Jamor e a outra é Goa. Deixando agora o primeiro, pego ao de leve na sede do nosso Estado da Índia.
 Fez há dias 45 anos da invasão de Goa Damão e Diu e talvez por isso tenham dado há pedaço um documentário sobre ele no canal da R.T.P. Memória. Da bravura dos nossos em tão agrestes e ingratas circunstâncias, estou convicto, não se envergonharia Albuquerque. Mas confesso que não estou nada à vontade no tema. Afortunadamente há gente quem sabe e nos lembra o que se passou e tem passado...
 Há quase 500 anos assentou o grande Afonso de Albuquerque de acometer a cidade de Goa. Conquistando-a uma primeira vez viu-se obrigado a retirar. Achando-se mal julgado por deixá-la acometeu-a segunda vez e tomou-a aos Turcos pelas armas: um dos seus capitães, «Manuel de Lacerda, que andava [ferido] com uma setada polo rosto, em entrando pela porta encontrou-se com hum Turco de cavallo, e matou-o, e subio-se no cavallo, e foi seguindo a vitoria [...] Quando o elle vio [Afonso de Albuquerque] com as armas todas tintas de sangue, abraçou-o, e disse-lhe: Senhor Manuel de Lacerda, confesso-vos que vos hei grande inveja, e assim vo-la houvera o grande Alexandre se aqui estivera [...] » (Comentários do Grande Afonso de Albuquerque, parte III, cap. III).
 Foi no dia de Santa Catarina de 1510. Uma das velas da frota da conquista de Goa é este magnífico galeão Trindade. Logo depois seguiu a frota para Malaca...


Galeão Trindade (T. Gomes)
Telmo Gomes, Galeão Trindade.
(Navios Portugueses do Oriente: Século XVI, Inapa, 1999.)

Av. Guerra Junqueiro

 Aos meus bons amigos Fernando C. e Pedro Oliveira que comentaram o Posto 6 de maneiras distintas, remetendo porém ambos para a Av. Guerra Junqueiro: a entrada do Posto 6 da Caixa adivinha-se mais do que se percebe, logo após a esquina, sensivelmente diante do autocarro de 2 pisos; a Mexicana, topa-se-lhe o toldo à esquerda de quem começa a descer a Guerra Junqueiro; se já se chamava Mexicana desconheço.
 O postal é de 1959 (possivelmente tirado do alto do Ministério das Corporações em construção); a edição é de António Passaporte.
 Notai que nesta altura já os arruamentos laterais da Manuel da Maia haviam sido modificados em passeios e estacionamento.E a tabuleta do Restaurante Portugal parece-me que também... (cf. Posto 6).
Av. Guerra Junqueiro e Manuel da  Maia (A.Passaporte, 1959)

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Posto 6

 Do Restaurante Portugal não me lembro. Recorda-me, sim, de haver ali um balcão do Banco Nacional Ultramarino. No primeiro andar, disse o meu irmão, era o posto 6 da Caixa; diz que fomos lá algumas vezes com a mãe, mas não me consigo lembrar.


Viata parcial da Praça de Londres e da Av. Manuel da Maia, Lisboa (A. Passaporte, c. 1950)
Vista parcial sobre a Praça de Londres e Avenida Manuel da Maia,  Lisboa, anos 50.
Fotografia de António Passaporte  in  Arquivo fotográfico da C.M.L.

Estrada da Carapuça

Ou [futura] Rua Nova dos Bombeiros.
Ou [mais futura] Av. dos Bombeiros Voluntários.


Estrada da Carapuça e ribeira, Algés (E. Portugal, 1941)
Estrada da Carapuça e ribeira, Algés, 1941.
Fotografia de Eduardo Portugal in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

A Tasca do Confrade

Tasca do Confrade, Aveiro © 2006 Por via dum pecadilho, deu-me para pôr aqui no blogo um Piranesi. Dei-me depois conta que o confrade Je Maintiendrai nos brindara com mais três, magníficos, retirados dum guia piranésico de Roma, que generosamente nos depositou na mão esquerda. Não contente, deixou-nos ainda um guia gastronómico na direita.
 Sabe quem sabe!






 

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Concurso maravilha (mais um)

 Interrogo-me se esta maravilha se não irá apresentar a concurso... com um grãozinho na asa.



Torre dos Clérigos, Porto (E.Casanova, c. 1890)

Enrique Casanova, Porto: Torre dos Clérigos, c. 1890.
Litografia color.; 29 x 30 cm

domingo, 17 de dezembro de 2006

Piranesi

 Acho que ninguém notou: fui espreitar as prendas de Natal da Sr.ª D.ª Emília. Espero que o Piranesi seja para o meu Menino Jesus!...


Templo de Saturno e Arco de Septímio Severo.
João Baptista Piranesi (1720-1778).

sábado, 16 de dezembro de 2006

Quitoso

 O príncipe regente, futuro D. João VI, embarcara com a sua corte para o Brasil em 27 de Novembro de 1807. Pelo dia de hoje há 199 anos consta que já andariam todos com um camadão de piolhos (1).

Embraque do Príncipe Regente (il. C. Alberto) 
Ilustração: Carlos Alberto in História de Portugal, 13ª ed., Agência Portuguesa de Revistas, [s.l.], 1968.


(1) Patrick Wilcken, O Império à Deriva: a corte portuguesa no Rio de Janeiro 1808-1821, Porto, Civilização, 2004, p. 52 e ss.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Gestão da mudança

 Acabei de ouvir um jornalista no Rádio Clube perguntar ao sr. ministro da agricultura se vão haver deslocalizações de funcionários.

 O sr. ministro evitou habilmente responder com um hadem...

 Gosto que o Ministério da Agricultura (oportunamente mudará o nome para Ministério da Consultoria - ou será Consultadoria?) haja encontrado uma nova missão agora que a agricultura é de cimento e as pescas são bacalhau da Noruega e carapau espanhol. Chama-se isto gestão para a mudança.

 Mas atenção notai, os funcionários afinal não se mudam. Deslocalizam-se!



Quinta da Graça, Lisboa (A.Madureira, 1961)

Quinta da Graça, Marvila [S. João de Brito], 1961.

Fotografia de Arnaldo Madureira in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Cais das Colunas


 Honra-me o confrade Mendo Ramires com um convite para pendurar aqui na parede um postalinho do saudoso Cais das Colunas - que a empreitada do Metropolitano haja. Meio desprevenido e um tanto atrasado, vale-me que o cavalheiro Jorge Ferreira supriu a falha com cinco belíssimos postais ilustrados n' O Carmo e a Trindade, com dedicatória a condizer.
 Pois caro confrade, cá ficam mais dois postais. Cuido vir ainda em tempo de não dar impressão que andei a pintar a manta. A dedicatória é de Raul Proença.

Cais das Colunas (E.Gageiro, 1973)
Cais das Colunas, Lisboa, 1973 (1).
Fotografia de Eduardo Gageiro in Lisboa no Cais da Memória: 1957-1974, p. 108.


 


*   *   *


« O lado S da praça é formado pelo chamado Cais das Colunas (de duas colunas que aí se levantaram), hoje um pouco deteriorado, sendo raros os desembarques que nele se efectuam, a não ser de pequenos vapores e embarcações de vela que fazem a travessia do Tejo para a outra banda. De aí desce até ao rio uma ampla escadaria de mármore.» (2)


Caes das Columnas, Terreiro do Paço (J. benoliel, 1912)


Vapor, Cais das Colunas (Anón., 1930-32)




Chegada de D. Tomás Lipton ao Caes das Columnas, Lisboa (A.C.Lima, 1911)


Caes das Columnas, Lisboa (Anón., ante 1939)


Caes das Columnas, Lisboa (J.A.L. Bárcia, s.d.)


Escadaria, Cais das Colunas (A. Passaporte, 195...)




*   *   *



Caes das Columnas, Lisboa (F. Cunha, s.d.)
Cais das Colunas, Lisboa, [s.d.]
Fotografia de Ferreira da Cunha (1901-1970) in Arquivo Fotográfico da C.M.L..




(1) A silhueta do silo da Trafaria e o tipo do cacilheiro atracado parece-me que tornam a fotografia daquém 1973, mas posso estar enganado.
(2) Raul Proença, Guia de Portugal, 1.º v., Generalidades; Lisboa e arredores, 1.ª ed., Lisboa, B.N., 1924, p. 209.
(3) Há um ano publiquei uma outra do Cais das Colunas, também do E. Gageiro. Foi nas Canoas do Tejo. E em Janeiro deste ano outra ainda, de Ant.º Passaporte, no Tamandaré. [Não esquecendo a primeira de todas, o Eugénio dos Santos].




Música: Verdes Anos (Carlos Paredes).


 


(Revisto em 20/VII/14. Muito revisto e augmentado em 12/XI/17.)



 

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Dos aterros

 Uma fotografia aérea sobre a zona de Belém e Algés (Kurt Pinto, Filmarte, c. 1930, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.) apresenta a Torre de Belém com um fuliginoso guarda-costas: a fábrica de gás. A Av. da Índia (se é que assim se já chamava) terminava na Rua do Arco da Torre de Belém, que se percebe mais ou menos na transversal da fotografia, cruzando a linha de Cascais e prosseguindo (encoberta) a ocidente da fábrica, até à porta do forte do Bom Sucesso.
Vista de Belém e Algés (K.Pinto, c. 1939)
 Um detalhe interessante, se atentardes, é o areal da praia que em estreita faixa acompanha a linha de Cascais: são sucessivamente as praias de Pedrouços, de Algés (onde se distingue o pontão da ribeira do mesmo nome) e, lá onde a vista já não alcança, a Cruz Quebrada. Apercebo-me que desde a construção da Docapesca e tudo o mais que se tem feito em aterros sucessivos, a orla costeira avançou mais de dez vezes o tamanho destas praias de 1930.
 Não é justo pois que Neptuno reclame agora em São João da Caparica parte do que lhe foi esbulhado?

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Serra de Montemuro

 Normalmente torço o nariz se ouço muita conversa que há neve na Serra da Estrela nos telejornais, logo nas primeiras pontes de Dezembro. Especialmente se ouço logo a seguir que na Serra Nevada não há nem um farrapito. Mas ontem ao almoço mencionaram Cinfães e a Serra de Montemuro; coisa rara. Não que não costume nevar ali, mas como não há lá canhões de fazer neve...
 Deixo-vos no km 47 da E.N. 321 - ainda sem neve - na dita Serra de Montemuro; de Cinfães para Castro Daire.
Serra de Montemuro, 2006

domingo, 10 de dezembro de 2006

Barbeiro

Dizia um, meio empolgado:
- Aquilo é que é um negócio, pá! Aquilo todos compram: compram os do Benfica, compram os do Sporte e compram os do Porto.
- Até os que sabem ler hão-de comprar - disse entre dentes um que lia o jornal.

Barbeiro (E.Gageiro, 1967)
Barbeiro, Ribeira de Lisboa, 1967.
Fotografia de Eduardo Gageiro in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

- A escrever desta maneira, a rapariga ainda dá cabo da saúde! - ouviu-se o barbeiro...

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Rua Dom Pedro V

 O confrade Jansenista teve um brilhantíssimo relampejo de saudade no caminho do Chiado pela Escola Politécnica. Diz ele:

 A «sétima colina» corre-me nas veias, com a sua despovoada vaidade queirosiana, é a coisa mais parecida com uma aldeia que tenho para apresentar. Nunca ninguém me descerrará uma lápide por isso, mas eu já a tatuei no peito. Do lado de dentro.

 Pois vejo aqui no Guia de Portugal que, antecedendo a aldeia do dito confrade, a «sétima colina» era um campo extramuros onde D. João I de Castela assentou arraial para o cerco a Lisboa; cem anos volvidos era a vasta quinta dos Andradas que ocupava o dito campo; a edificação do bairro alto seguiu-se à da ermida de S. Roque (1506), vindo para ali muita aristocracia lisboeta; em 1589 ainda acampou no semi-arrabalde a tropa de Isabel Tudor que o Prior do Crato trouxe para cercar a Lisboa filipina.
 A par de velhos casarões nobres que lá vão resistindo, a toponímia campesina sobrevive nas ruas da Vinha, do Loureiro, na travessa da Horta. E qual aldeia com a sua rua direita, a série de arruamentos que se enfiam desde o actual largo de Trindade Coelho até [ao L. do Rato] constituiam, correndo na linha da cumeada, uma das vias suburbanas da capital, com o nome quinhentista de Estrada de Campolide (Guia de Portugal, vol. I, Generalidades, Lisboa e Arredores, p. 335).

Vendedora ambulante, Lisboa (s.d.)
Vendedora ambulante com burro, Rua Dom Pedro V, [s.d.].
Fotógrafo não identificado, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 Ora o troço dessa via que dá o mote a isto que escrevemos é a Rua Dom Pedro V (antiga do Moinho de Vento): dum lado os antiquários, do outro o aparente cosmopolitismo do Pavilhão Chinês: armazém de víveres e pastelaria...

Pavilhão Chinez (J.Benoliel, c. 1908)
Paviilhão Chinez, mercearia e pastelaria, Lisboa, c. 1908.
Fotografia de Joshua Benoliel in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

 Na varanda sobre a cidade que nos oferece S. Pedro de Alcântara talvez torne eu também depois a abrandar o passo...

Fogo à peça!

Pretende um hotel ou mamarracho de charme sobre o seu velho imóvel classificado ou em vias de classificação há 15 anos? Não sabe o que fazer?
 Use autocombustão! E assim evita atirar suspeitas de fogo posto ao Almeida Garrett, que morou lá em 1852!...

Arco da Torre de Belém, Lisboa (E.Portugal)

Arco da Torre de Belém, Lisboa (E.Portugal)

 Olha estes a olhar!...
 — Não foi ninguém; a casa do arco ardeu sozinha e prontos!




As fotografias da Casa onde morou Almeida Garrett em 1852 e arco da Torre de Belém, [Pedrouços, 1938 ou 1939] são de Eduardo Portugal e estão no Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Revisto às 9 e meia da noite.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

O pastoreio

 A estatística dos espectadores em teatros e cinemas é do I.N.E., mas na notícia dos resultados à hora do almoço resvala-se para consumo cultural; o rodapé reforçava o subtil desvio (doutrinação?) para um registo de compra & venda: consumo de teatro e cinema baixou.
 O léxico é uma paleta que os humanos usam para comunicarem a policromia da vida em sociedade. Quando o tom do vocabulário se desvia invariavelmente para um matiz mercantil não admira que se desvaneça o colorido das freguesas na praça, dos hóspedes no hotel, dos passageiros no avião, dos depositantes no banco ou dos espectadores no teatro. Isso é gente. O que importa é haver de clientes. Em rebanho. Consumindo.


Estr. da Charneca, Lisboa (E.Portugal, 1939)
Panorâmica do local onde se irá construir o aeroporto da Portela, Estr. da Charneca, 1939.
Fotografia de Eduardo Portugal in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Diz que é uma canção nova...

E que é o que gostam: tocar canções novas.


 




Dire Straits: Once upon a time in the West

(Rockpalast 79).


 

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Os bichos

 Há bichos na selva que marcam território urinando nas plantas. O seu cheiro assim espalhado avisa os outros da espécie que o território tem dono. Noutras selvas os cães têm o mesmo instinto; na falta dum tronco de árvore usam a roda dum carro, com vantagens óbvias.


Régua — © 2006


Os humanos são menos olfactivos e têm umas latinhas de tinta...

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Martha's Harbour (All About Eve)

 Ainda viajando em mundos imaginários.
 A idealização que me advém d' Os Cinco mais a sua estranha mistura com os lugares de Sintra funde-se com sensações que colho de «Martha's Harbour».
 À primeira que ouvi a cantiga (foi na telefonia em 88; quem explica esta absurda associação com os Cinco?) tive a sensação de vogar na música em águas frias, cristalinas - assim é a voz de Julianne Regan. Nas imagens e emoções que me afluiam da canção ouvia, pelo meio das ondas a bater, a ilha dos murmúrios, frondosa, via a torre do farol, pressentia os afundadores algures... Vi-me sentado num cais na baía Kirrin à noite; os barcos balouçando na calmaria de «Martha's Harbour». Depois o espírito vagueou em todas as direcções da balada…




I sit by the harbour
The sea calls to me
I hide in the water
But l need to breathe

You are an ocean wave my love
Crashing at the bow
I am a galley slave my love
If only I would find out the way
To sail you...
Maybe I'll just stow away...

I've been run aground
So sad for a sailor
I felt safe and sound
But needed the danger

You are an ocean wave my love...


 



Andar de escorrega

 Tenho cá na ideia o mundo d' Os Cinco. São as personagens da minha meninice, formadas das ilustrações de Eileen Soper, com todo aquele mundo encantador que me ocorre moldado nos desenhos dela. É o mundo que formei na minha imaginação, sobre cenários campestres britânicos do tempo da Enid Blyton, com os ingredientes que ela me deu: ilhas misteriosas e castelos normandos semi-arruinados cheios de passagens secretas; faróis e afundadores; pântanos e contrabandistas; caravanas de ciganos; e Os Cinco livres de adultos, vagabundeando por planícies de urze e tojo, acampando por montanhas e lagos.
 As ilustrações originais de Eileen Soper, muito simples e bonitas, guiaram-me a imaginação dentro de quadros de época - os anos 40, sei agora - que não identifiquei muito bem quando li as histórias nos anos 70. Um sobrinho disse-me mais tarde: -- Os livros são giros, tio, mas são antiquados. -- O que desmotivava o moço, no meu tempo tornava para mim aquele mundo de aventuras mais romântico e encantador. O comboio fantasma era um clássico comboio a vapor; na Casa do Mocho havia um Bentley antigo magnífico; os ciganos eram nómadas e andavam em caravanas puxadas por cavalos, cousa que eu não via aos ciganos abarracados de Lisboa. Depois havia reminiscências de séculos passados, com afundadores e navios à vela, tesouros esquecidos, eu sei lá!Bentley Mk. VI -- 1946
 Por uma qualquer estranha associação de ideias, quando vou de Colares para a Praia das Maçãs há umas casinhas no pinhal que me remetem para um mundo fabuloso, próximo do que recriei dos livros d' Os Cinco. Mas não só: a charneca entre Janas e o Carrascal até ao Magoito também. E a costa escarpada da Praia das Maçãs ao Magoito outro tanto. Será por eu associar escarpas costeiras à Cornualha, onde acho que Os Cinco andaram? Será por associar as neblinas que sobem do mar pela charneca à planície misteriosa que se cobria de espessos nevoeiros? 
 Será que ando tolinho de todo?


O escorrega, Eileen Soper, c. 1926.
O escorrega
, Eileen Soper, c. 1926.

Gravura em Lapada.
 




Imagens d' Os Cinco em www.misteriojuvenil.com.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Aveiro

 Quando os nossos povoados tinham horizontes o de Aveiro era como vedes.
 Na fotografia de cima as tradicionais marinhas de sal: notai que as há mal o casario se acaba, na margem esquerda do Canal das Pirâmides. O panorama em baixo é o do Cais dos Botirões e Mercantéis há mais de cem anos, antes da edificação do mercado do peixe. A vista também é aberta e livre dos obstáculos que hoje em dia se interpõem diante da nossa vista em qualquer rua ou praça. Não nego a utilidade de candeeiros nem certo encanto nos velhos postes de telefones bordejando velhas estradas; mas ele há tanto sinal de trânsito, tanto cartaz publicitário, tanta indicação de caminhos (ups!) acessibilidades, tanto ornamento de duvidoso gosto, tanta cousa...
 E cada vez mais gruas.
 Este blogo torna-se cada vez mais um lamento…


Ria e marinhas de sal, Aveiro, 1950.
[Postal da colecção do sr. João Augusto Simões da Rocha, Vagos.]


Aspecto do Cais dos Botirões e Mercantéis, Aveiro, fins do séc. XIX.




Fotografias em Imagem Digital.