Esta é uma imagem rara e preciosa do primeiro troço da velha Rua do Arco do Cego entre a Av. Duque de Ávila e a Av. António José de Almeida. Pense o benévolo leitor em parar à porta do Centro Comercial de São João de Deus; pouse o tripé e a máquina de Eduardo Portugal, aponte a objectiva para dentro do centro e foque para 1940. Cá está!
 Rua do Arco do Cego [vista S. desde o cruzamento da Av. Antº José de Almeida], Lisboa, 1940. Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Mas o que tinha esta rua de extradordinário? Provavelmente nada. Por isso não tenho encontrado sem trabalho descrições ou imagens dela. Aqueles prédios de rendimento à esquerda, pelo género, são dos anos 20, semelhantes a muitos em Arroios ou na Estefânia; em 1908 não figuraram no Levantamento da Planta de Lisboa (1). A rampa teria pouco mais de meia dúzia de anos quando Eduardo Portugal passou por ali com o Sol a pino num dia de Agosto de 1940; servia para nivelar o cruzamento com a novíssima Av. António José de Almeida (A) cuja cota ficou uns bons dois metros acima da velhina Rua do Arco do Cego. Com porte senhorial, a casa à direita (2) diante do moço que se debruça na grade é por certo uma das casas da quinta do conde de Sintra (áreas azul e cor-de-rosa); uma que ficava entre um jardim de buxo (3) (certamente já soterrado em 1940 pela António José de Almeida) e uma passagem (portão?) de acesso da dita quinta (4). As casas seguintes não tenho a certeza se eram da dita quinta do conde de Sintra; certo é que a segunda casa a contar do suposto portão (5) - a que se vê meia janela do primeiro sobrado - também dá ares de nobre; sabe-se pela planta topográfica de 1908 que possuía nas traseiras um jardim de buxo (6). Se uma delas seria a casa nobre da quinta do conde de Sintra é o que fico por saber. Como vedes, uma rua com prédios de rendimento e casas de quinta não merecia especial atenção na Lisboa de 1940. Extraordinária nesse longínquo ano foi a Exposição do Mundo Português; talvez fosse por ela que obtivemos uma bonita fotografia da Rua do Arco do Cego engalanada com bandeiras da fundação nas varandas; um festivo suspiro de glórias passadas duma rua sem história aparente, e já condenada.
Adenda:
Com o que entretanto consegui colher, soube que a casa nobre do Conde de Sintra foi queimada durante a guerra civil (os proprietários eram miguelistas) e reconstruida numa versão em que as janelas eram arrendondadas ou ogivais e que acabaria por ficar junto ao famoso "sobe e desce" [...]. A família (que já saíra da antiga casa familiar, o hoje Ateneu, à R. dos Condes, vendida aos argentários Burnay) foi expropriada deste refúgio e saíu em 1934. Falta perguntar a quem sabe, se confirma a sua sugestão de identificação. Lá irei e cá virei; entretanto..bem haja!
Comentário de Je Maintiendrai em 26/12/06 às 11:26 PM
2ª adenda:
Já voltei. A casa é mesmo, como aventou, a dos Condes de Sintra. No r/c uma porta entre três janelas e sete de sacada no 1.º. A travessa à esquerda era, de facto, a entrada para um beco com as casas de serviço e portão da quinta. [...] Como bem lembra, só falta espiolhar na "Lisboa de Lés-a-Lés"
Comentário de Je Maintiendrai em 27/12/06 às 11:32 PM
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Bravo! Estou espantado com os seus inesgotáveis recursos! Com o que entretanto consegui colher, soube que a casa nobre do Conde de Sintra foi queimada durante a guerra civil (os proprietários eram miguelistas) e reconstruida numa versão em que as janelas eram arrendondadas ou ogivais e que acabaria por ficar junto ao famoso "sobe e desce" (cá está o Confrade a acertar na mouche...). A família (que já saíra da antiga casa familiar, o hoje Ateneu, à R. dos Condes, vendida aos argentários Burnay) foi expropriada deste refúgio e saíu em 1934. Falta perguntar a quem sabe, se confirma a sua sugestão de identificação. Lá irei e cá virei; entretanto..bem haja!
ResponderEliminarTenho a certeza de estar, ter vindo a assistir ao início (?) de uma magnífica obra de olisipografia.
ResponderEliminarAbraço
Agradeço muito os vossos generosos comentários! Já fiquei "todo inchado". Mas é justo partilhar o mérito com o confrade Je Mantieindrai que deu o mote e que traz agora preciosa informação. Obrigado a ambos!
ResponderEliminarEstás um investigador de primeira água! :)
ResponderEliminarO senhor Bic podia juntar estas crónicas todas e fazer um livro! Eu comprava com todo o gosto.
ResponderEliminarA foto é espantosa. Estou a arremelgar os olhos a ver o que reconheço e eu passo por lá todos os dias.
Talvez... Obrigado! // Dona T., muito obrigado! Nessa eventualidade oferecer-lhe-ia com prazer um exemplar. Mas não gaste mais a vista; este troço da rua já não existe. // Cumpts. e feliz 2007.
ResponderEliminarJá voltei. A casa é mesmo, como aventou, a dos Condes de Sintra. No r/c uma porta entre três janelas e sete de sacada no 1º. A travessa à esquerda era, de facto, a entrada para um beco com as casas de serviço e portão da quinta. Uma vez mais, parabéns pelo achado e pelo acréscimo olisipográfico. Como bem lembra, só falta espiolhar na "Lisboa de Lés-a-Lés"
ResponderEliminarGrato pela descrição e pela confirmação. Logo mais segue nova adenda. Passe a imodéstia, rico serviços aqui fizemos. Cumpts.
ResponderEliminarComo sempre, a sensibilidade da T merece a postagem: a curva perspectivada com a nitidez dos prédios decrescendo dá uma aura romântca à fotografia muito digna de memória, E, por falar em Arroios, a protecão metálica de uma das abas da via lembrou-me outra que ainda hoje lá se debruça sobre umas escadas. Abraço.
ResponderEliminarDá sim senhor. A grade que fala é na Rua Pascoal de Melo, creio. Cumpts.
ResponderEliminarForça continua
ResponderEliminarObrigado! Cumpts.
ResponderEliminarE vá-se lá saber porquê hoje só apareceu a fotografia.
ResponderEliminarFico admirada com o que os Senhores sabem!
Obrigado por nos darem a conhecer.
Obrigado eu pelas boas palavras. Fica ainda o mistério da fotografia... Feliz ano novo!
ResponderEliminarApenas com intenção didáctica, admitindo poder estar enganado, não será que a Rua que aparece nesta foto como sendo a R. do Arco do Cego não é senão a R. de S. Bento junto ao nº 107 ? Parece-se tanto....
ResponderEliminarhttps://www.google.ch/maps/@38.7120518,-9.1527712,3a,75y,164.96h,91.44t/data=!3m6!1e1!3m4!1sAAXb_iTnTFnO3PhNKzRxEA!2e0!7i13312!8i6656?hl=pt-PT
Parece por causa do «sobe e desce», a rampa.
ResponderEliminarMas não.
A Rua de S. Bento desce direita desde a rampa até ao palácio da Flor da Murta e a obliterada Rua do Arco do Cego descrevia um arco desde o chafariz onde confluíam a antiga Rua dos Açores e das actuaes Rovisco Paes, Visconde de Santarém e Duque de Ávila até atingir este ponto na actual António José de Almeida.
Vê-se como era na linha de casario entre o Instituto e a estação do Arco do Cego na vista aérea em Quintas do Arco do Cego.
Cumpts.