Ando às vezes com Salazar debaixo do braço. Ontem vinha com o primeiro volume dos Discursos porque queria passar a forma electrónica as páginas do prefácio à 4.ª edição. O que nele pude ler em escassas 40 páginas assombrou-me pela clareza da exposição de todo um pensamento político e pela capacidade de o sintetizar sem perda em tão pouco papel. Admira-me tamanha simplicidade tanto mais que sei o penoso que me é redigir coerentemente a partir duma meada de ideias que me amiúde assalta e a que tanta vez não acho o fio.
A admiração por Salazar, nem que seja por um mero prefácio, não se deve verbalizar, nem muito nem pouco (é exactamente isto a censura) pois o papaguear de chavões e ideias feitas (o ruído -- a censura de hoje) que se ouve em reposta é quase pavloviano. Mesmo que comece por uma admiração formal -- Ah! era ele duma inteligência muito superior. Entendia muito bem os problemas. E acho que era sério. Só fez uma coisa mal: o analfabetismo...
O anlfabetismo?! A que propósito agora esta...?
Parece que para dizer que com intuito de manter o povo dócil pela ignorância.
Como consegue alguém concluir isto doutrem quando lhe acaba de afirmar uma inteligência superior e uma índole séria espanta-me. Mas não vou estar (como não estive, no caso) a perder-me em grande retórica para rebater estes ditos que se dizem. Basta-me um quadrinho com o número dos indígenas cá no reino pelo séc. XX e a porção deles que eram analfabetos, com o bocejo de ver o progresso de 2 milhões e 700 mil que sabiam as letras em algo menos de 7 milhões de portugueses (1930), e compará-lo com 6 milhões e 400 mil alfabetizados numa população de oito milhões e 600 mil (1970); eis aí o trabalho feito do começo ao fim do Estado Novo.
Cada um perceba os factos consoante seja mais ou menos analfabeto ou deixe-se meramente andar na crença em vive.
do analfabetismo em Portugal (1900-2001) |
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Anos |
total |
analfabetismo* |
alfabetos |
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1900 ………… |
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73% |
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1911 ………… |
5 049 729 |
69% |
1 567 941 |
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1920 ………… |
6 032 991 |
65% |
2 099 481 |
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1930 ………… |
6 825 883 |
60% |
2 709 193 |
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1940 ………… |
7 722 152 |
52% |
3 694 278 |
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1950 ………… |
8 510 240 |
42% |
4 955 513 |
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1960 ………… |
8 851 289 |
33% |
5 930 364 |
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1970 ………… |
8 648 369 |
26% |
6 399 793 |
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1981 ………… |
9 833 041 |
21% |
7 768 102 |
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1991 ………… |
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11% |
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2001 ………… |
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9% |
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Fontes: |
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Censo da População, I.N.E. - Lisboa; |
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* António Candeias et al., Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, Fund. C. Gulbenkian, 2007. |
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(Revisto às 5h30 da tarde.)


