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terça-feira, 30 de abril de 2013

Salazar em discurso directo e em retórica de papagaios

 Ando às vezes com Salazar debaixo do braço. Ontem vinha com o primeiro volume dos Discursos porque queria passar a forma electrónica as páginas do prefácio à 4.ª edição. O que nele pude ler em escassas 40 páginas assombrou-me pela clareza da exposição de todo um pensamento político e pela capacidade de o sintetizar sem perda em tão pouco papel. Admira-me tamanha simplicidade tanto mais que sei o penoso que me é redigir coerentemente a partir duma meada de ideias que me amiúde assalta e a que tanta vez não acho o fio.
 A admiração por Salazar, nem que seja por um mero prefácio, não se deve verbalizar, nem muito nem pouco (é exactamente isto a censura) pois o papaguear de chavões e ideias feitas (o ruído -- a censura de hoje) que se ouve em reposta é quase pavloviano. Mesmo que comece por uma admiração formal -- Ah! era ele duma inteligência muito superior. Entendia muito bem os problemas. E acho que era sério. Só fez uma coisa mal: o analfabetismo...
 O anlfabetismo?! A que propósito agora esta...?
 Parece que para dizer que com intuito de manter o povo dócil pela ignorância.
 Como consegue alguém concluir isto doutrem quando lhe acaba de afirmar uma inteligência superior e uma índole séria espanta-me. Mas não vou estar (como não estive, no caso) a perder-me em grande retórica para rebater estes ditos que se dizem. Basta-me um quadrinho com o número dos indígenas cá no reino pelo séc. XX e a porção deles que eram analfabetos, com o bocejo de ver o progresso de 2 milhões e 700 mil que sabiam as letras em algo menos de 7 milhões de portugueses (1930), e compará-lo com 6 milhões e 400 mil alfabetizados numa população de oito milhões e 600 mil (1970); eis aí o trabalho feito do começo ao fim do Estado Novo.
 Cada um perceba os factos consoante seja mais ou menos analfabeto ou deixe-se meramente andar na crença em vive.


 




Evolução da população e regressão


do analfabetismo em Portugal


 (1900-2001)


 

Anos



total



analfabetismo*



alfabetos


 

1900 …………



 



73%   



 



1911 …………



5 049 729



69%   



1 567 941



1920 …………



6 032 991



65%   



2 099 481



1930 …………



6 825 883



60%   



2 709 193



1940 …………



7 722 152



52%   



3 694 278



1950 …………



8 510 240



42%   



4 955 513



1960 …………



8 851 289



33%   



5 930 364



1970 …………



8 648 369



26%   



6 399 793



1981 …………



9 833 041



21%   



7 768 102



1991 …………



 



11%   



 



2001 …………



 



9%   



 



Fontes:



Censo da População, I.N.E. - Lisboa;



* António Candeias et al., Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, Fund. C. Gulbenkian, 2007.



 



 


(Revisto às 5h30 da tarde.)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

A lógica dos chonés


« É uma discussão intensa há já algum tempo no seio da equipa de tradução portuguesa do WordPress, adotar [sic] ou não o Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa (AO90). Dessa discussão destacam-se dois consensos alargados: a oposição quase unânime ao AO90 e uma enorme resistência em aplicá-lo ao WordPress pt-PT.
  Todavia, houve um entendimento geral de que se deveria avançar para a adoção [sic] do AO90
(Wordpress Portugal, Wordpress em português: pré ou pós-AO90?
).


  Muitas pessoas nos perguntam (e ainda mais pessoas se perguntam a si mesmas) o que diabo pode levar alguém a adotar o AO90. Pois bem, a transcrição acima esclarece espectacularmente o insondável mistério: há quem adote porque sim e há quem adote porque também.
   Existe uma oposição quase unânime ao AO90 mas não faz mal, adota-se na mesma.
  Há uma enorme resistência em aplicá-lo mas pronto, assim como assim, aplica-se de qualquer forma.»


J.P.G., «É a adoção por entendimento geral, estúpido!», in I.L.C. contra o Acordo Ortográfico, 26/IV/13.


Ballet dos chonés
Ballet da ovelhada choné em ...


domingo, 28 de abril de 2013

Do ruído e do pensamento

 Abril é sempre pasto do maior ruido. A somar ao zunir doutrinador da gente habitual nos jornais, rádio e TV, em Abril os trombeteiros arengam à cidade e ao orbe o sublime catecismo da Liberdade e das liberdades. Arengam mas não explicam.
 Ou melhor, explicam... com o Salazar...
 Com Salazar, pois bem, noto que a História tem uma ironia tramada.



 « Problema nevrálgico não só para as democracias mas para o Mundo civilizado é o respeitante à amplitude e garantias das chamadas liberdades, e à roda dele se tem complicado a questão das formas de governo. Talvez a situação se esclarecesse se pudéssemos entender-nos acerca deste ponto: em que medida dependem as liberdades públicas da forma de organização do Poder? Em que medida ou grau são aquelas liberdades efectivas segundo o regime político ou têm de ser sacrificadas ao interesse comum? Deve notar-se que, repetindo-se quase os diversos textos constitucionais, o uso e garantia das liberdades públicas são mais fruto das leis ordinárias e dos regulamentos que das Constituições, e a execução das leis é mais fruto dos hábitos sociais e da educação dos povos que da vontade dos legislador.»


Oliveira Salazar, in pref. da 4. ed. dos Discursos (vol. I, 5.ª ed., Coimbra, 1961, p.  XXXVII).



 Calassem as trombetas e escutassem livremente o pensamento calado e talvez aprendessem.


Dr. Salazar, Terreiro do Paço (H. Novais, 194...)
Salazar (28/4/1889 - 27/7/1970), Terreiro do Paço, 194...
Estúdio de Horácio de Novais, in Bibliotheca de Arte da F.C.G.

sábado, 27 de abril de 2013

Há 85 anos


Salazar discursando na tomada de posse na sala do Conselho de Estado, 27/IV/1928 (



CONDIÇÕES DA REFORMA
FINANCEIRA
1


   Sr. Presidente do Ministério2: — Duas palavras apenas, neste momento que V. Ex.ª, os meus ilustres colegas e tantas pessoas amigas quiseram tornar excepcionalmente solene.
   Agradeço a V. Ex.ª o convite que me fez para sobraçar a pasta das Finanças, firmado no voto unânime do Conselho de Ministros, e as palavras amáveis que me dirigiu. Não tem que agradecer-me ter aceitado o encargo, porque representa para mim tão grande sacrifício que por favor ou amabilidade o não faria a ninguém. Faço-o ao meu País como dever de consciência, friamente, serenamente cumprido.
   Não tomaria, apesar de tudo, sobre mim esta pesada tarefa, se não tivesse a certeza de que ao menos poderia ser útil a minha acção, e de que estavam asseguradas as condições dum trabalho eficiente. V. Ex.ª dá aqui testemunho de que o Conselho de Ministros teve perfeita unanimidade de vistas a este respeito e assentou numa forma de íntima colaboração com o Ministério das Finanças, sacrificando mesmo nalguns casos outros problemas à resolução do problema financeiro, dominante no actual momento. Esse método de trabalho reduziu-se aos quatro pontos seguintes:



  1. Que cada Ministério se compromete a limitar e a organizar os seus serviços dentro da verba global que lhes seja atribuída pelo Ministério das Finanças;

  2. Que as medidas tomadas pelos vários Ministérios, com repercussão directa nas receitas ou despesas do Estado, serão previamente discutidas e ajustadas com o Ministério das Finanças;

  3. Que o Ministério das Finanças pode opor o seu veto a todos os aumentos de despesa corrente ou ordinária, e às despesas de fomento para que se não realizem as operações de crédito indispensáveis;

  4. Que o Ministério das Finanças se compromete a colaborar com os diferentes Ministérios nas medidas relativas a reduções de despesas ou arrecadação de receitas, para que se possam organizar, tanto quanto possível, segundo critérios uniformes.


   Estes princípios rígidos, que vão orientar o trabalho comum, mostram a vontade decidida de regularizar por uma vez a nossa vida financeira e com ela a vida económica nacional.
  Debalde porém se esperaria que milagrosamente, por efeito de varinha mágica, mudassem as circunstâncias da vida portuguesa. Pouco mesmo se conseguiria se o País não estivesse disposto a todos os sacrifícios necessários e a acompanhar-me com confiança na minha inteligência e na minha honestidade – confiança absoluta mas serena, calma, sem entusiasmos exagerados nem desânimos depressivos. Eu o elucidarei sobre o caminho que penso trilhar, sobre os motivos e a significação de tudo que não seja claro de si próprio; ele terá sempre ao seu dispor todos os elementos necessários ao juízo da situação.
   Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura de mandar.
  A acção do Ministério das Finanças será nestes primeiros tempos quase exclusivamente administrativa, não devendo prestar larga colaboração ao Diário do Governo. Não se julgue porém que estar calado é o mesmo que estar inactivo.
   Agradeço a todas as pessoas que quiseram ter a gentileza de assistir à minha posse a sua amabilidade. Asseguro-lhes que não tiro desse acto vaidade ou glória, mas aprecio a simpatia com que me acompanham e tomo-a como um incentivo mais para a obra que se vai iniciar.


 




   1 Na sala do Conselho de Estado, em 27 de Abril de 1928, no acto da posse do Ministro das Finanças, segundo as notas do jornal Novidades.
   2 General Vicente de Freitas.

(Oliveira Salazar, Discursos. Volume Primeiro: 1928 -- 1934, 5.ª ed., Coimbra Editora, [imp. 1961], pp. 3-6.)


Início de leitura




[Em voz alta, para a senhora, lendo consontes mudas e a todas as outras lettras...]



A
FILHA DO ARCEDIAGO
POR
CAMILLO CASTELLO BRANCO


____



TERCEIRA EDIÇÃO
______



PORTO EM CASA DE CRUZ COUTINHO—EDITOR
18 E 20 — CALDEIREIROS — 18 E 20


----
1868

PORTO — TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
rua Ferreira Borges, 31




  Leitores! Se ha verdade sobre a terra, é o romance, que eu tenho a honra de offerecer ás vossas horas de desenfado.


  [-- E em que me interessa isso?
   -- Em nada. É só rhetorica.]


  Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de scenas, que se viram, que se realisaram, e deixaram de si vestigios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracterisa todas as cousas d'este globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infallivel symptoma de que o meu romance é o unico verdadeiro.
  Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu proximo, nem ando pelos salões atraz d'uma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas paginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.
  Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, é-me contado por uma respeitavel senhora, que não vai ao theatro, nem aos cavallinhos, e que tem necessidades organicas, mas todas honestas, e, entre muitas, é predominada pela necessidade de fallar onze horas em cada dez.


  [-- Vá lá! Pensei que fosse coisa peor.]


  Desde que tive a ventura de conhecel-a, não invejo a sorte de ninguem, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organisação, que é estar calado. É que não podemos fallar ambos ao mesmo tempo.
  E, depois, a sua conversação, escassa d'arrebiques, e despretenciosa, abunda em riquezas naturaes, em thesouros impagaveis para o escriptor publico, em estudos sociaes adquiridos no testemunho de factos da vida, que não vieram ás locaes do jornalismo, porque a imprensa, ha poucos annos que denuncia os casamentos, os obitos, e os suicidios.
  Ingrato seria eu, se não significasse aqui, com toda a cordialidade de que sou susceptivel, o meu reconhecimento á dita pessoa, que promette elevar-me á importancia de escriptor veridico, n'um genero em que todos os meus collegas mentem sempre.
  No momento infausto em que os sêllos do tumulo me fecharem este livro do passado, obliterar-se-ha a fecunda veia de romancista, d'onde tenho havido uma barata immortalidade para mim, e para a minha collaboradora. O publico, maravilhado da minha esterilidade, dirá então que os meus romances eram d'ella; e um nome, hoje obscuro, será exhumado do esquecimento para quinhoar da gloria dos escriptores-fêmeas d'esta nossa terra tão escassa — ainda bem — d'esse contra-senso.


A FILHA DO ARCEDIAGO


 


CAPITULO I
...



[Sigamos...]

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Efeméride

Procissão da Senhora da Saúde


Procissão da Senhora da Saúde, Rua da Palma (AFCML, 1973)



« No dia 25 de Abril de 1971 (domingo) realiza-se a procissão da Senhora da Saúde, estando a circulação interrompida nos seguintes arruamentos.


  a partir das 14h


Martim Moniz, Rua do Arco do Marquês do Alegrete, Poço do Borratém, Rua dos Condes de Monsanto, Praça da Figueira, Rua da Betesga, Rua Dom Duarte, Rua da Palma e Avenida Almirante Reis até à Rua de Angola


  a partir das 16h15
Rua Augusta e Rossio (nascente)

  A circulação de autocarros e eléctricos pela Rua da Palma faz-se, apenas no sentido descendente, até às 15h25. As carreiras que circulam pela Rua Augusta são desviadas para a Rua do Ouro.»


C. Filipe, Minha Página Carris.



Rua da Palma, L. do Soccorro (A. Serôdio, 1790)




Fotografias:


A.F.C.M.L., A77479 (fot. não id.) e A72135 (Armando Serôdio, 1970).

terça-feira, 23 de abril de 2013

Mais acorditas que abrileiros...?



Ou simplesmente estúpidos. Profundamente...

(-01 de J. A. Machado.)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Das mentes tortuosas

 Passei há pedaço na Rotunda e vi as mentes tortuosas que devem enxamear a câmara. -- Que rematada trapalhice fizeram ali!
 Em tempos pus cá esta imagem do lugar com o excerto de Raul Proença no Guia de Lisboa. O autor figurava a cidade nova como se de realeza se tratasse; o diadema da Rotunda a cingir o boulevard de Rosa Araújo, irradiando para as avenidas novas de Ressano Garcia. O Guia aé de 24 e a imagem da primeira metade da década de 50.
 Um conselho ao benévolo leitor do séc. XXI. Se tiver de ali passar de automóvel não queira saber de diademas doutras eras nem de falsários de melhoramentos citadinos. Faça-se -- olhe! -- toupeira; passe por debaixo do chão, pelos túneis, para não ter trabalhos, nem pena, nem cuidados.

Marquês de Pombal, Lisboa, (A.Passaporte, c. 1953
Praça Marquês de Pombal, Lisboa, c. 1953.
António Passaporte, in Postais de Lisboa, [Lisboa], C.M.L., [1998].

domingo, 21 de abril de 2013

Egreja de Nossa Senhora do Amparo

 O archivo da Camara traz esta ás avéssas...

Igreja de N. Sr.ª do Amparo, Benfica (P. Guedes, c. 1900)
Egreja de Nossa Senhora do Amparo, mais conhecida por egreja de Bemfica, no termo da cidade de Lisboa, c. 1902.
Paulo Guedes, in Archivo Photographico da C.M.L.

Rua Francisco Metrass, 28

Rua Francisco Metrass, 28
Rua Francisco Metrass, 28, Lisboa, 1932.
Estúdio de Mário de Novaes, in Bibliotheca de Arte da F.C.G.

 O filme «O Patriota» (1928), de Ernst Lubitsch, estreou-se em Portugal em 4 de Novembro de 1929. A ser a datação da fotografia correcta (e não no estou a negar), trata-se aqui duma reposição. Dois anos e pico depois da estreia do filme, com grandes enchentes, em Portugal, segundo o Diário de Lisboa (v. Pelos Cinemas, D.L., n.º 2678, 2/I/930). Uma reposição, portanto, num novo cinema modernista dum bairro com ruas no estado em que se viam.
 O Europa Cinema durou menos de trinta anos; sucedeu-lhe o cinema Europa (1958) que, como animatógrafo (ou cinematógrafo), durou menos; fechou em 81. Aguentou-se como estúdio de concursos televisivos mais vinte e tal anos (v. «Cinema Europa», in Restos de Colecção, 31/X/11) e em 2010 deitou-se-o a baixo para fazer andares de luxo.
 Da maneira que vejo o enguiço, naquele gaveto da Metrass com a Almeida e Sousa nada dura mais do que uma geração. O filme em cartaz em 1932 também foi dado como perdido. Diz porém que se salvou um trailer, que é mais do que Europa Cinema. Boa sorte, pois, a quem for ali morar.

sábado, 20 de abril de 2013

Rua Almeida e Sousa, 35

Rua Almeida e Sousa, 35, Lisboa (M. Novaes, 1932)
Rua Almeida e Sousa, 35, Lisboa, 1932.
Mário de Novaes, in Bibliotheca de Arte da F.C.G.

Europa Cinema

 O Europa Cinema foi inaugurado, segundo se repete na rede, em 1930. Ora bem, Maria João Janeiro, na cronologia do seu Lisboa. Histórias e Memórias (Livros Horizonte, 2006, p. 454) dá-o em 1931 sem mencionar fontes (que os que repetem 1930 na rede também não indicam). Não achei notícia da inauguração do Europa Cinema, mas no cartaz de animatógrafos do Diário de Lisboa acho-o pela primeira vez mencionado numa sexta-feira 20 de Fevereiro de 1931, o que parece corroborar Maria João Janeiro. Diz que tinha sessão todas as noites.
 Nesta aqui aprecie-se o estilo modernista e veja-se o filho da leiteira e esta entre a porta antes do sol-pôr.

Europa Cinema, Campo de Ourique (M. Novaies, 1932)

Europa Cinema, Campo de Ourique, 1932.
Mário de Novais, in Biblioteca de Arte da F.C.G.

Cais da alfândega

Cais da alfândega, Lisboa (M. Novaes, post 1955)
Cais da Alfândega, Lisboa, post 1955.
Estúdio de Mário de Novaes, in Bibliotheca de Arte da F.C.G.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Orthographia

 Do estimado leitor mujahedin recebi uma generosíssima trasncripção que para aqui traslado porque merece ampla divulgação. Quizesse Deus que os peralvilhos da moderna sociedade entendessem o que n'ella se diz. Mais actual não podia ser.





 Caro Bic, conforme prometido, aqui fica, do Diccionario Contemporaneo (oxalá o fosse ainda), a transcripção da parte intitulada ORTOGRAPHIA.


 


ORTHOGRAPHIA


« Adoptàmos a orthographia etymologica para os termos de origem erudita e historica, e para as palavras populares a forma popular. Todavia a tendencia moderna é ir substituindo o elemento popular pelo etymologico. Hoje, geralmente, escreve-se egreja em vez de igreja; egual em vez de igual; similhante em vez de semelhante; logar em vez de lugar, não obstante este uso contrariar as leis da nossa morphologia.
 O systema que se funda na imitação do som, denominado orthografia phonetica, não tem outro principio regulador senão o capricho individual, e as suas regras pertencem ao dominio da imaginação. Hoje os grandes philologos não se occupam d'ella. Os phonetistas, em face da actual sciencia linguistica, representam o papel dos alchimistas da edade media em busca da transformação dos metaes.
 O fim secundario da orthographia é pintar os sons, o primario é dar-nos a conhecer a palavra, dizer-nos a sua origem e a sua historia.
 A orthographia phonetica trata de pintar, e mal, os sons que necessariamente se modificam de dia para dia, e concorre para a instabilidade das linguas; a orthographia etymologica tende ao contrario a fixal-as e determinal-as.
 Na littertura e na sciencia não se póde prescindir do estudo da origem das palavras e da sua historia. Succede com as palavras o mesmo que com os homens.
 Ignorando-se a filiação de uma pessoa e sua vida, ha uma certa hesitação em tratar com ella. N'esta mesma difficuldade ou embaraço se acha muitas vezes o escriptor em relação ao emprego das palavras. Não tendo segurança na sua procedencia e formação, fica perplexo sobre a legitimidade, propriedade ou conveniencia do seu emprego. O elemento etymologico é o certificado que nos justifica a filiação do vocabulo, o que dá grande satisfação e confiança ao escriptor que se preza de correcto.
 O que ignora que a origem commum dos vocabulos aurora e doirado é o termo latino aurum, não hesitará em empregar a phrase vulgar doirada aurora; que equivale etymologicamente á expressão ouro dourado. Os que não conhecem os elementos etymologicos do termo vangloriar-se, empregam como é vulgar este verbo como synonymo de gloriar-se; quando o verbo vangloriar-se só se póde applicar para exprimir uma jactancia ingloria e vã. A palavra manquejar é a fórma frequentativa do verbo mancar, formado do radical mão. Os que ignoram esta procedencia applicam-no aos homens aleijados dos pés, que claudicam, que coxeam. O termo autonomia é de procedencia directa latina e indirecta grega; exprime o direito que os romanos davam a certas cidades do imperio de se governarem pelas suas proprias leis, e elegerem os seus magistrados. Os que não conhecem esta procedencia empregam-no na accepção de independencia.
 O termo candidato, de origem latina, significava entre os romanos o cidadão que aspirava a algum cargo ou dignidade, e como taes se apresentavam vestidos de uma toga branca, candida.
 Por allusão dava-se este nome aos que aspiravam ao suffragio do povo.
 E, todavia, não ha muito, vimos que a imprensa chamava a el-rei D. Fernando candidato ao throno de Hespanha, quando elle não só não se propunha áquella suprema dignidade civil, mas pelo contrario se recusava formalmente a acceital-a.
 Vulgar é encontrar o verbo obcecar escripto com s (obsecar); os que sabem que o radical secare significa cortar, sorriem da troca.
 O elemento etymologico serve ainda em grande numero de vocabulos de distinguir dois termos que na linguagem falada estão envolvidos nas trevas do homonymo; taes como: assento e accento, cella e sella; anhelar e anellar, annular e annullar, valle e vale, buxo e bucho, sega e cega, sem e cem, chama e chamma, gema e gemma, era e hera, laço e lasso, sumo e summo, tensão e tenção, etc.
 Um partidario da orthographia phonetica escrevia ha pouco — El-rei matou dois servos. Elle queria dizer dois cervos (veados).


 Outra ordem de idéas, postoque de menos valia, recommenda a orthographia etymologica.
 A orthographia etymologica é a parte esthetica da palavra.
 Assim as palavras historicas monumentaes, que nos trazem á imaginação a veneração por um heroe ou as recordações gloriosas de um grande povo, melhor falarão ao nosso enthusiasmo, quando a sua fórma concorrer para excitar a nossa sensibilidade.
 A orthographia phonica apresenta o esqueleto da palavra, a orthographia erudita mostra-nos o verbum tal qual elle viveu no vigor e brilho da sua existencia.
 A orthographia sabia fala á intelligencia e ao coração, a phonica apenas se dirige ao sentido de audição.
 Quando lemos a palavra homem, a lettra morta h traz-nos á phantasia a grande civilisação romana filia o homem actual n'essa gloriosa pleiade de heroes latinos, cujas acções maravilhosas ainda hoje assombram o mundo.
 Para bem se apreciar quanta influencia exerce no nosso espirito a apparencia das cousas adduzâmos um exemplo: Dispam-se ao grande apostolo das Indias os seus habitos talares e substituam-se pelos requintes da moda do ultimo figurino parisiense; e a figura evangelica de S. Francisco Xavier deixará de nos enthusiasmar a imaginação, confundindo o heroe da fé christã com os peralvilhos da moderna sociedade.»


Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza [Aulete], Lisboa, Imprensa Nacional, 1881, pp. XIX-XX.


Desvanecer, v. tr. e pr. (Aulete, 1881)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O fim (i. é, o objectivo) da crise...

... e a pesada herança do fascismo.



 [Megan Green da Maverick disse que] a crise atingiu um ponto em que menos doloroso seria Chipre procurar uma «separação amigável» da zona Euro e livrar-se dos grilhões.
 Decerto. E como falamos nele, procuremos uma «separação amigável» para todos: para Portugal, para a Irlanda, para Espanha, para Itália e, acima de tudo, para a Alemanha, pois que todos eles são prejudicados de diversa maneira pelo projecto infernal (da moeda única). Todos eles são vítimas das suas élites.
 [...]
 Devia ser já óbvio que as solenes promessas dos senhores da zona Euro são balelas. Mudam de conversa quando lhes convém e quando a política dos seus países o exige.
 Chipre pode não ser um ensaio mas é nitidamente um aviso a qualquer outro país da zona Euro a braços com a dívida externa, doravante. Os credores podem ir longe para evitarem assumir perdas. Vemos já que as reservas de ouro são o que têm poder de alcançar. Que irá suceder com a economia portuguesa a afundar-se na voragem recessiva e com o
deficit encalhado perto dos 6% do P.I.B., apesar da carga fiscal, e a dívida pública a raiar 5/4  do P.I.B.?
 Portugal possui (a expressão do inglês é
holds = guarda, que não remete exactamente para ideia de posse) 382 t de ouro, 14.ª maior reserva nacional do Mundo, mais do que a Grã-Bretanha ou a Espanha. -- Por delicadeza passo os métodos de Salazar em no adquirir (por delicadeza, realmente, calava o calunioso despropósito).
 Portanto, irá a Troika mandar Portugal entregar a sua reserva de ouro se o país pedir um 2.º resgate como vaticinam inúmeros analistas na City de Londres?


Ambrósio Evans-Pritchard, «A trama da zona Euro adensa-se enquanto os credores cobiçam a reserva de ouro de Chipre», The Telegraph, 11/IV/13 (trad. e comentários meus).



 Portugal tinha em 25 de Abril de 1974 mais de 900 t de ouro. Hoje tem 382 t. E sobre o método de o adquirir veja-se se já em 1937 vinha com suástica.


 


Desembarque de caixotes com ouro destinados ao Banco de Portugal («O Século, 31/III/1937)
O desembarque de caixotes com ouro destinado ao Banco de Portugal, Porto de Lisboa, 1937.
A.N.T.T., Dp6/Sl1/Arm1 (O Século, 31/3/1937).

terça-feira, 16 de abril de 2013

A factura da E.P.A.L.

Acaba de me ligar uma sr.ª Catharina Guerra da E.P.A.L. a propor-me aquilo que mais interessa à dita E.P.A.L.: que eu receba a factura da água por via electrónica.
-- É gratuito.
(Gratuito será, pois, para a E.P.A.L., que assim se livra da despesa dos C.T.T.)
-- A sr.ª deve estar a referir-se a fâ'turas, que eu, da E.P.A.L., há muito não recebo facturas.
-- ?
-- Minha sr.ª. No dia em que a E.P.A.L. me tornar a enviar facturas -- fac-tu-ras, note bem, com «c» -- redigidas sem o Acordo Ortográfico eu respondo-lhe a isso que me pergunta. Portanto escreva aí: o cliente quer facturas com o texto redigido sem o Acordo Ortográfico porque receber facturas em linguagem estrangeira na sua própria terra o ofende.
-- (...pede facturas sem o Acordo Ortográfico.) Eu vou ter de falar com o meu chefe a ver se é possível e entretanto muda-se já...
-- Não senhora. Não muda nada. Primeiro a E.P.A.L. que me responda, ao depois muda-se o que for de mudar que tanto me dá, está bem?
-- Sim senhor.
-- Muito bem. Então vamos aguardar a resposta
-- Muito obrigado. Boa tarde.

A imagem é do dono das Agoas Livres...

Estrada de Benfica

Cruzamento com a Rua de Campolide (oculta), à mão esq., e com a travessa das Laranjeiras, à mão dir. O muro é do Jardim Zoológico.

Estrada de Benfica, Sete Rios (Col. d' «O Século»)
«Estrada de Benfica», Sete Rios,195...
A.N.T.T, «O Século», Joshua Benoliel...

domingo, 14 de abril de 2013

Jazz em Viena


Diana Krall, Temptation
(Jazz à Vienne, 2010).

blogs.sapo.ao (Ria!...)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A notícia que nenhum jornal quis dar


Governo ameaçou a Academia das Ciências por objecção ao Acordo Ortográfico



  O responsável da área cultural no [XVII.º] governo ameaçou inclusive o presidente da Academia das Ciências [prof. Adriano  Moreira] de extinguir a Academia – sim, sim, de extinguir a Academia! – pelo facto de ela não estar ao lado do governo nessa matéria -- foram as palavras de Anselmo Soares, em 28 de Março na audição do grupo de trabalho da Assembleia da República que acompanha a aplicação do Acordo Ortgráfico.


  O prof. Anselmo Soares, actual vice-presidente da Academia, declarou ainda aos deputados do grupo de trabalho que aquela instituição é, segundo a lei, o órgão consultivo do governo em matéria linguística, e que não foi ouvida acerca da ratificação do Acordo. Disse-o por três vezes, querendo frisar -- Não foi ouvida. Isto é um dado objectivo factual. Não foi ouvida.
 
Antes dissera já, procurando enquadrar os deputados com o problema, que os trabalhos preparatórios para a entrada em vigor do Acordo nunca se fizeram. E durante vinte anos estivemos a olhar uns para os outros [...] E justamente ao fim de vinte anos, um membro do governo de então, que antecedeu a professora Gabriela Canavilhas na [pasta] da Cultura, decidiu, com argumento político, pôr em vigor imediatamente o Acordo. Sem ouvir ninguém. E tornou a sublinhar. A Academia não foi ouvida.
 
O prof. Anselmo Soares manifestou-se equidistante de posições extremadas, dizendo-se a favor do Acordo naquilo que não mexe com a fala, e deu o exemplo do caso do «espectador» em que agora as televisões já estão a pôr o «c»; porque chegaram à conclusão que era uma vergonha o «espectador», não é? -- dando a entender que as consoantes mudas são necessárias ao português.




 
   Informou a este propósito os deputados de que o Vocabulário da Academia das Ciências recentemente publicado tem o lexema «ótico» e tem o lexema «óptico», respondendo-lhes à admiração com veemência: – Tem o «p»! – Tem o «p», com certeza! Para os olhos. Para distinguir os olhos dos ouvidos. Mas é inacreditável! As pessoas não pensam, não raciocinam. Querem-nos obrigar à força a escrever contra a nossa fala. Contra a nossa fala.
 
Referiu-se a colegas da Academia como sumidades indialogáveis, a favor e contra. E sobre Malaca Casteleiro não se conteve: -- Quem ouve o meu colega Malaca Casteleiro parece que ele sabe tudo. Francamente!



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 A transcrição ipsis verbis da audição do prof. Anselmo Soares foi ontem publicada na página da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico (ilcao.cedilha.net) onde pode ser lida na íntegra. A gravação áudio é facultada na página do grupo de trabalho da Assembleia que intende à aplicação do Acordo Ortográfico.
 Até este momento (1h00 da tarde de 12 de Abril de 2013) não tive notícia de nenhuma notícia deste teor difundida na imprensa. Ficam desde já os jornais livres de publicar esta.





(Ultima revisão às 4h50 da tarde.)

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Aulete, 1881

Aulete, 1881

 Quando há dias o benévolo leitor S.H. me procurou se sabia dalguma versão na rede da 1.ª ed. do Diccionario Contemporaneo da Lingua Portugueza (habitualmente designado por Aulete -- Lisboa, Imprensa Nacional, 1881) só lhe soube responder que não, não sabia. Dei-lhe em alternativa o Candido de Figueiredo de 1913 (menos digno de apreço) e não se deu S.H. com ele por achado, foi diligente. Tanto que no dia seguinte me trazia novas duma versão beta, como se agora diz. E ontem mesmo trouxe-me a novidade de ter conseguido que a Universidade do Michigan facultasse os dois volumes na rede. Notável labor, cujas remissões para o vol. I e vol. II podemos agora ter mais a jeito. A edição que possuo tem a encadernação um tanto cansada e assim posso poupá-la. (A propósito, tinha dito que me custara 900$00 nos anos 80, mas enganei-me; foram 950$00 e com notação do alfarrabista -- dicionario raro).
 De tê-lo há tanto ano esquecera-me já o texto de introdução (plano da obra) deste Diccionario, muito embora há dias S.H. mo houvesse referido. Pois ao leitor mujahedin despertou-lhe bem a curiosidade e, do que lá vem, avivou-me este a memória com dois passos interessantes.



« Pus-me a ler o princípio do Diccionario por curiosidade, e é uma autêntica maravilha!
 A parte a que chamam "Plano", onde se faz a crítica dos outros dicionários que à data existiam é deliciosa...
 Por exemplo, a propósito da definição dada à palavra "Abáda" [sic]:


« Abada é o nome indiano do rhinoceronte, quadrupede da ordem dos pachidermes; sáem-lhe dos ossos do nariz uma ou duas pontas corneas, é animal herbivoro e tão estupido como pacifico, quando não o provocam, e até certo ponto domesticavel.
 Roquette, classificando este animal de feroz, falta à verdade, que se deve a todos, a até mesmo aos rhinocerontes. O sr. Lacerda é ainda mais injusto contra este inoffensivo quadrupede, porque o classifica de ferocissimo.
 Ambos lhe negam a sua mais illustre procedencia, que é a Asia, não obstante vir em todos os compendios de historia, que D. Manuel, entre outros donativos que fez ao pontifice, como primazia da Asia, lhe enviou uma abada, que foi o primeiro exemplar d'este animal que se viu na Europa.
 Roquette, para augmentar a fealdade d'este bicho, diz que tem tromba como o javali. O rhinoceronte não tem tromba, mas sim o beiço superior maior que o inferior; isto porém não é o que em physiologia se denomina tromba. Trombudos ficariam certamente os rhinocerontes se podessem ter co
nhecimento das calumnias que contra elles levantaram os dois sacerdotes portuguezes.



 Não resisto a transcrever mais um trecho do referido "Plano"!
 Dada a seguinte definição por um dos prévios "diccionaristas" (as palavras e suas definições são apresentadas lado a lado, cada uma respectivamente definida pelos Roquette, Lacerda e Moraes, a relevante é a de Lacerda), é depois feita a a correspondente crítica:


LACERDA


ABADEJO, s.m. nome vulgar do peixe que, estando curado, se chama bacalhau. V. Badejo: - cantharida. V. Vaca-loura. É palavra mais hespanhola que portugueza.


VACA-LOURA, s.f. abadejo, insecto.


BADEJO, s.m. (lat. badare, fr. ant. bader, abrir muito a bôca); (h.n.) peixe do genero gadus de Lineu. A sua pesca mais abundante é na Terra Nova e no cabo Breton. Depois de salgado e curado chama-se-lhe bacalhau.


 Lacerda apresenta duas definições para a mesma palavra, porque abadejo e badejo são o mesmo termo. A primeira definição é applicavel a qualquer peixe doente que tem a fortuna de se restabelecer. A segunda é mais explicativa: diz-nos que o badejo, segundo a sua raiz, anda sempre com a bôcca aberta, e que o bacalhau só existe quando lhe tiram a cabeça, os interiores, e o salgam e curam, que é a maneira menos racional de elle poder existir. Todavia n'esta ultima parte estão os tres diccionaristas de accordo, accordo de facil explicação, porque todos elles copiaram a definição de Rafael Bluteau, desprezando a auctoridade de Brotero, o nosso primeiro naturalista, e o uso geral, como facilmente se deprehende das phrases generalissimas oleo de figado de bacalhau, bacalhau frescal[fresco?], pesca de bacalhau, porque nenhuma d'estas phrases se póde applicar ao bacalhau salgado e curado.
(...)
 O sr. Lacerda escreve Vaca-loura, insecto, com um só c; e vacca, quadrupede, com dois. Esta incoherencia só se póde explicar pela analogia que apresenta com a theoria de um celebre grammático hespanhol, que propoz que se escrevessem com lettras grandes os nomes das cousas grandes, e com lettras pequenas os das cousas pequenas; por exemplo: a perna de uma formiga com lettra pequena, e a de um elephante com lettra grande. Entre outras vantagens que allegou o illustre innovador, notava-se a de se poder conhecer, pela simples inspecção de um livro, se n'elle se tratava de cousas grandes ou de cousas pequenas.



:)

Os meus agradecimentos ao amável S.H. por disponibilizar tão interessante documento.
»


(De mujahedin em 10 de Abril de 2013.)


terça-feira, 9 de abril de 2013

Curva na estrada

 Curva na estrada no caminho de Lisboa. Talvez em tarde de Inverno, a julgar do Sol baixo que se percebe no muro da casa, lá onde o homem se cruza como o automóvel. Há marcos na fotografia que deixam situá-la. Com um nadinha de poesia, quem sabe seja possível bater uma chapa do ponto exacto donde se punha o fotógrafo.

 (E. Portugal, 1938)
Fotografia: Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

domingo, 7 de abril de 2013

Não compro português brasileiro

  Achei o Azeite da cooperativa agrícola de Moura com um rótulo novo na prateleira do super. Estas «novidades» só no pacote, dos marketeiros, sempre me deram certo enjoo, ainda mais agora com o analfabetismo por decreto.
  Pus-me a ler o rótulo e diziam os da cooperativa que o azeite tem «caraterísticas»... Parou a leitura logo ali. Não estou para os aturar. Azeite é cousa que não falta. Em quanto a mim, nem que dêem os azeiteiros todos deste reino em escrever como analfabetos, ele sempre haverá à mão azeite espanhol. Se querem que leve a finis patriae a sério, pois bem, este é o meu método.


  Passemos ao café.



 Para já é assim. Ao depois se verá.

Adenda:



De JPG a 8 de Abril de 2013 às 11:58.
A marca Delta, do "comendador" Nabeiro, é, para ser sucinto, ortograficamente asquerosa: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1954694&page=-1.







Imagens da Coop. Agrícola de Moura, da Nestlé (adaptada) e do supermercado Apolónia.

O mundo Disney

O livro das fuças: A publica um verbete na rede; A republica o verbete passados 3 anos num domínio das fuças; B «gosta»; D« gosta»; E e F «gostam»; G «gosta» e «partilha»; H, I, J, K e L «gostam» em G; A não «gosta» em G mas «partilha» A em A via G.
Ei-lo:

sábado, 6 de abril de 2013

Variedades: Yvonne Elliman


Yvonne Elliman, Can't Find My Way Home

Cacilheiro «Um de Abril»...

... Acostado ao cais fluvial antes da edificação do padrão dos Descobrimentos. Cuido que a fotografia seja pouco anterior ás comemorações henriquinas que devolveram o padrão à doca de Belém.

Cacilheiro Um de Abril, Estação fluvial de Belém, ante 1960.
Cacilheiro «Um de Abril», Estação fluvial de Belém, Lisboa, [s.d.].
Estúdio de Mário Novais (1933-1983), in Bibliotheca de Arte da F.C.G..

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Domínio público

Domínio público


Se é do domínio público toma lá! -- (passar com o cursor do rato na imagem de domínio público.)

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Ratices jornaleiras


Do lustro ao ego

 Esta agora vai direitinha à Sr.ª Helena Aguiar.
 Pode a senhora publicar o que lhe pareça do Arquivo Fotográfico da C.M.L.. O que não pode (ou não devia, por mera questão de ética) é publicar uma adaptação particular (minha) duma fotografia do referido arquivo e publicá-la sem menção donde a colheu. Não lhe fica bem. Muito pior lhe fica varrer o que veladamente lhe fiz ver ao lhe apensar a legítima fonte do que publicou, substituindo-o por uma remissão directa para a fonte primária que com toda aa probabilidade também colheu no blogo Bic Laranja ao clicar na imagem adaptada.
 Surripiar o o trabalho alheio (a pesquisa em arquivo exige tempo e dedicação) para puxar o lustro ao ego tem de acabar.
 Aqui fica a imagem original do Arco de Santo André (cota FAN000902) do arquivo municipal e a remissão para o meu texto, onde foi adaptada.


Arco de Santo André, Lisboa, [1898-1904].
A.F.C.M.L., Fundo antigo, FAN000902.

Imolação dum espantalho

 O relvas demitiu-se do governo. É pouco. A nulidade da licenciatura é a própria nulidade do relvas. A prova foi o Relativo do relvas irromper-lhe R.T.P. a dentro. Falou-se aí em ardil do relvas, vê-se que era tão só falência geral do meco. Ao relvas só salvava demitir-se de relvas pròpriamente. O relvas não tinha só rabo de palha. O relvas era um espantalho completo. Imolaram-no ora num auto-de-fé em redenção geral de inseguros.

Representação de um Auto da Fé [Visual gráfico. - [Lisboa : Typ. Maigrense, 1822]. - 1 gravura : buril e água-forte, p&b ; 14x20 cm. - Il. de Lavallée, J. _ História completa das Inquisições..., p. 208. - Dim. da matriz : 11,8x7,6 cm
Representação de um Auto da Fé [Lisboa : Typ. Maigrense, 1822].
Gravura em buril e água-forte, 14 x 20 cm. Il. de J. Lavallée, in História completa das Inquisições..., p. 208
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(Via Biblioteca Nacional Digital.)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

«Meio» como advérbio



 No meio dum extenso rol de comentários sobre esta tirada dum Bagno brasileiro que quere à força da estupidez legitimar o crioulo caipira como português, verbera do lado português um sr. Levi. Cinjamo-nos só à primeira tirada, que o restante não é de se lhe fazer caso.



« Estar 'meia cansada' não é português brasileiro culto contemporâneo nem aqui, nem na China.»



 Segundo os juízos ressabiadamente tropicais será português brasileiro culto; segundo as mentes progressistas, mais ou menos tropicais (é indiferente) simplesmente não será comtemporâneo.
 Pois que é português, e culto, é. Afiançado pelos melhores autores. Há 120 anos escrevia sobre ele o Dr. José Leite de Vasconcellos n' «As 'Lições de Linguagem' do Sr. Candido de Figueiredo» (Porto, 1893, pp. 9-11):



" Escreve o sr. C. de F., referindo-se a uma phrase que colheu em certo jornal: «gente meia disposta.... não é cá da casa. É como quem diz as calças MEIAS cosidas, os livros MEIOS lidos, as ruas MEIAS limpas. Mas que M assim diz, diz mal. A coisa é assim: gente MEIO disposta, calças MEIO cosidas, etc. »
  Já tambem Silva Tulio nos seus Estudinhos tinha escrito pouco mais ou menos o mesmo, e citado como illustração um trecho de Vieira. Todavia eu posso citar tambem bons exemplos em contrário.
  Em Fernão Mendes Pinto leio: «viemos a dar á costa, e meyos alagados nos forão os mares rolando até hũa ponta de pedra». Em Manoel Barradas, fallando dos elephantes: «Tomão-se, não como os antigos escrevem, em arvores meias serradas, a que encostados caem com ellas». Se se desejão AA mais modernos, ahi temos Herculano:


Eu te encontrei num alcantil agreste,
Meia-quebrada, oh ! cruz............



ou ainda Almeida Garrett:


As palavras meias dittas,
Meias nos olhos escrittas
,
Voavam todas, etc.


  Resulta d'isto que o sr. C. de F. deve ser menos exigente com o jornalista que escreveu «gente meia disposta», porque este tem por si excellentes auctoridades. Tão português é meio disposta como meia disposta.
  Se ao sr. C. de F. houvesse occorrido a lembrança de uma lei de syntaxe chamada attracção, comprehenderia o motivo de se dizer adjectivamente meios e meias em vez de se dizer adverbialmente meio. É pela mesma lei que André de Resende diz: «E avendo muitos poucos dias que el Rey era doente» — em vez de muito poucos."



 Portanto, em meio cansada, «meio» é advérbio; em meia cansada «meia» é adjectivo. Isto é português. Do que seja legítimo português brasileiro culto ou gramática normativa que não se inspira em nenhum uso real não me pronuncio.

Entregues a batedores de punho...


« "Bater punho e nunca desistir" é o mote central desta experiência desenhada para a transportar à tua equipa tópicos fortes, com uma potência de activação sem precedentes! »



 A frase faz todo o sentido (inclusive sintacticamente...) Só não sei se é o ministro a bater punho ao «embaixador», se o «embaixador» ao ministro. Uma perspicuidade, em todo o caso...




(Pitch do ecossistema onde se bate punho...)

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Nótulas de desprezo

 Há coisas com graça. O Facebook não é uma delas. No entanto fui lá «inscrever-me». Antes, porém, que venha aqui o benévolo leitor lembrar-me (e bem) o desprezo que manifestei por esse mundo Disney palpitante de publicidade, conceda-me a indulgência de um minutinho de sua atenção em que passo a explicar.
 Seguindo o rasto do Grupo Amigos de Lisboa (têm um novo sight) desaguei no seu livro das fuças e... -- Bom, a curiosidade moveu-me a «inscrever-me» lá para ver o que ali havia (quiçá foi para sublimar o desgosto de o vizinho do Sócrates me ter riscado a «inscrição» do posto da Caixa). E o que havia lá tinha graça (não foi justamente o que comecei por dizer?!).
 O que tinha mais graça, por conseguinte, era haver inúmeras fotografias sobre a Lisboa doutras eras, algumas já publicara eu aqui no blogo. -- Qual a surpresa? -- dir-me-eis -- Se são aqueles lá Amigos de Lisboa e se o blogo aqui roça por tanta vez a olisipografia! Natural é que as esferas duns e doutro se intersectem, pois claro.
 Sucede todavia que das imagens publicadas aqui e lá, uma parte era-o por notável afã duma Sr.ª Telma de Castro, pessoa estimável, e viam-se por lá com legendas tais e quais as eu tenho cá. Num caso até, com uma gralhazinha numa abreviatura B.º, que saiu B.ª. O copy paste decalque da empenhada Sr.ª Telma de Castro foi tão rigoroso que nem emendou a subtil gralha. Fico-lhe reconhecido. Pena não lhe ter sobrado rigor para mencionar a fonte. Ficou só assim, por seu punho, obra e graça (ora cá está ela outra vez). Ainda lá estará agora de sua tal e qual graça, cuido, embora não no possa dar eu por inteiramente certo porque, ao lhe manifestar interesse na sua amizade, a Sr.ª Telma de Castro -- pessoa urbana e estimável, decerto -- me ostracizou do seu particular livro das fuças. Um lastimável engano!...

Telma Castro brilha com o alheio... E mesmo assim, pouco.
Telma de Castro brilha com o alheio. E mesmo assim pouco. Espigado do Livro das Fuças, 1/IV/13.

Nota final:
 
A imagem em causa foi publicada por mim com elevada resolução porque a adquiri e paguei no Arquivo Fotográfico da C.M.L., a onde me desloquei para obtê-la. Quando a ofereci aos cibernautas, sem marca de água e com explicação detalhada do que ela mostra, sabia o que ia acontecer. Era fatal como o destino.