No meio dum extenso rol de comentários sobre esta tirada dum Bagno brasileiro que quere à força da estupidez legitimar o crioulo caipira como português, verbera do lado português um sr. Levi. Cinjamo-nos só à primeira tirada, que o restante não é de se lhe fazer caso.
« Estar 'meia cansada' não é português brasileiro culto contemporâneo nem aqui, nem na China.»
Segundo os juízos ressabiadamente tropicais será português brasileiro culto; segundo as mentes progressistas, mais ou menos tropicais (é indiferente) simplesmente não será comtemporâneo.
Pois que é português, e culto, é. Afiançado pelos melhores autores. Há 120 anos escrevia sobre ele o Dr. José Leite de Vasconcellos n' «As 'Lições de Linguagem' do Sr. Candido de Figueiredo» (Porto, 1893, pp. 9-11):
" Escreve o sr. C. de F., referindo-se a uma phrase que colheu em certo jornal: «gente meia disposta.... não é cá da casa. É como quem diz as calças MEIAS cosidas, os livros MEIOS lidos, as ruas MEIAS limpas. Mas que M assim diz, diz mal. A coisa é assim: gente MEIO disposta, calças MEIO cosidas, etc. »
Já tambem Silva Tulio nos seus Estudinhos tinha escrito pouco mais ou menos o mesmo, e citado como illustração um trecho de Vieira. Todavia eu posso citar tambem bons exemplos em contrário.
Em Fernão Mendes Pinto leio: «viemos a dar á costa, e meyos alagados nos forão os mares rolando até hũa ponta de pedra». Em Manoel Barradas, fallando dos elephantes: «Tomão-se, não como os antigos escrevem, em arvores meias serradas, a que encostados caem com ellas». Se se desejão AA mais modernos, ahi temos Herculano:Eu te encontrei num alcantil agreste,
Meia-quebrada, oh ! cruz............
ou ainda Almeida Garrett:As palavras meias dittas,
Meias nos olhos escrittas,
Voavam todas, etc.Resulta d'isto que o sr. C. de F. deve ser menos exigente com o jornalista que escreveu «gente meia disposta», porque este tem por si excellentes auctoridades. Tão português é meio disposta como meia disposta.
Se ao sr. C. de F. houvesse occorrido a lembrança de uma lei de syntaxe chamada attracção, comprehenderia o motivo de se dizer adjectivamente meios e meias em vez de se dizer adverbialmente meio. É pela mesma lei que André de Resende diz: «E avendo muitos poucos dias que el Rey era doente» — em vez de muito poucos."
Portanto, em meio cansada, «meio» é advérbio; em meia cansada «meia» é adjectivo. Isto é português. Do que seja legítimo português brasileiro culto ou gramática normativa que não se inspira em nenhum uso real não me pronuncio.
"Quere"?
ResponderEliminarResposta. Quere-a?
ResponderEliminarDize lá: pensavas que era erro, não pensavas?
ResponderEliminarFaze qualquer coisa de útil com o teu tempo e lê uma gramática digna desse nome.
ResponderEliminarExcelente lição de Português, caro Bic ; humilde e prazenteiramente lhe digo que aprendi algo, o que já não é novidade neste magníficio sítio.
ResponderEliminarCumpts
Deixe lá. A gramática normativa do legítimo português foneticista cauciona a pergunta na mesma medida em que fomenta a elisão das vogais. E o caco gráfico é o corolário duma prática de «boa» escrita pelo método do pontapé às letras, veja lá a lógica.
ResponderEliminarCumpts.
Olhe, perante semelhante desconchavo nem sei francamente o que dizer... Qualquer das listas contém erros (de palmatória) de sintaxe e até ortográficos. Que horror! Mas que género de 'linguísta' é este que elabora listas da nossa língua, a que apelida garbosamente "o português culto(???) contemporâneo(???), mas que ao enunciá-las se espalha ao comprido?
ResponderEliminarMaria
Género brasileiro, cara Maria, pois que mais?
ResponderEliminarCumpts
Exactamente, Inspector.
ResponderEliminarMaria
Obrigado, mas o sábio era o Dr. José Leite. Eu sou menos que um anão às cavalitas do gigante.
ResponderEliminarCumpts. :)
:) Cumpts.
ResponderEliminarInfeliz e tristemente tenho que lhe dar razão, caro Bic.
ResponderEliminarCumpts
Pois assim será; mas então aceite novamente os cumprimentos da pulga!
ResponderEliminarCumpts