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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

II-13-09

 O primeiro autocarro de dois pisos da Carris, ao vivo e a cores na estação das Amoreiras. Reservado (a que fim?) e já sem número de frota (201), aqui agora pela habilidade do sr. Cliff Essex. Em 1970-73, talvez.

Autocarro Leyland 201 da C.C.F.L., Amoreiras (C. Esses, 1970)

Boleia

 Eléctrico 807, ou um 17 à cunha e com ciclista à boleia, para o Alto de São João. Imagem da Rua da Palma com memória viva do teatro Apolo na varanda da alfaiataria. Graças ao sr. Tim Boric que nos legou o que havia para ver, do chão da igreja do Soccorro em... 1980, salvo erro.

Eléctrico 807, Rua da Palma (fim Boric, 1980)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Varina

Varina, Cais da Ribeira Nova, (H. Novaes, s.d.)
Varina, Cais da Ribeira Nova, [s.d.].
Horácio de Novais, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Comboio de ratos

 Quando há tempo aflorou à imprensa a notícia de a Parpública ter de prover a tesouraria da TAP, constou-me que o fez a preço de amigo, cobrando uns 8% de juro. Como a Parpública não é propriamente um banco, cuido bem que se ela haja provido por sua vez na banca. Não sei se é verdade. Se é, a voz corrente é de a usura na banca rondar os 5 ou 6% num empréstimo destes. Também não sei. Sei é, também de voz corrente, que os onzeneiros da banca se provêem no Banco Central Europeu a 1%...
 Ele há agora umas ratoeiras modernaças a que chamam estações rateiras, mas parece-me que não é com isso que se apanha um comboio de ratos...

Estação Rateira (c) 2013
Ratoeira Estação rateira -- (c) 2013.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Viaduto ferroviário de Santana de Baixo

 Viaduto ferroviário de Santana de Baixo -- eis o nome correcto. -- Por oposição ao viaduto ferroviário de Santana de Cima, ainda muito familiar -- porque sobrevivo -- àqueles que desçam a Av. Calouste Gulbenkian caminho da ponte ou da auto-estrada do Estádio.
 Ao benévolo leitor curioso de novidades antigas, esquecidas ou nem imaginadas, o panorama do vale e da ribeira de Alcântara ao fundo da Calçada da Quintinha. Para confronto com a das automotoras Allan.



Viaduto ferroviário de Santana de Baixo, Vale de Alcântara, 1940-45.
António Passaporte, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Santana (ponte da Calçada do Baltazar)

 Três automotoras Allan sobre a antiga ribeira da Alcântara a jusante do velho lugar de Santana, a onde se podia ir de Campolide descendo a Calçada da Quintinha e a Calçada do Baltazar. O lugarejo bucólico era atravessado pela velha ribeira; tinha uma igrejinha (ou capela) meia encarrapitada na vertente da Serra de Monsanto. Não sei o orago mas não será difícil deduzi-lo. A ribeira foi encanada e o pequeno povoado foi completamente varrido do mapa. Um primeiro resultado dos aterros foi um estradão que baptizaram Avenida de Ceuta. Não ficou, porém, como aqui vemos Numa fotografia de Diniz Salgado pode o benévolo leitor ter uma perspectiva semelhável.



Ponte de Santana, Lisboa (H. Novaes, c. 1966)

Av. de Ceuta (ponte a jusante do antigo lugar de Santana), Vale de Alcântara, c. 1966.
Horácio de Novaes, in Bibliotheca d' Arte da F.C.G..

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Sevanepe

 Quando nos anos 70 ouvi pela primeira vez dumas gasosas sevanepe fez-me espécie o nome sem sentido. Pior por haverem as garrafas um 7 e um UP gravados. Aquilo de se dizer sevanepe duma vulgar gasosa e ao depois ainda por cima se o escrever setupe era demasiado bizarro para quem aprendia as primeiras letras. Pois bem, passada uma data de anos veio a dar-se o que havia de ser: o nome gasosa, à conta da tal bizarria dita sevanepe, veio a levar sumiço da linguagem comum para designar gasosas. Já lá vamos.

Gasosa «sevanepe»

 Duma vez que dei quantia de mais para pagar uma bica e uma água fiquei ante a empregada que me serviu, com olhar inquisidor, à espera da demasia. Ela, uma mulatita moça, desentendida, embora de boa fé, procurou-me se era mais alguma coisa.
 — Sim. A demasia.
 Pôs um ar intrigado — Demasia?!...
 — Sim. Sabe o que é a demasia?
 — É... o troco?
 — Ora já vê! — e com isto recebi a demasia com um sorridente pedido de desculpa.
 Passado tempo cruzei-me com esta moça que estava na caixa ao fim da linha de refeição da cantina. É aqui que entra o sumiço da gasosa. Vendo que não levava eu bebida na bandeja perguntou-me: — Não quere a bebida?
 — Quero. Dê-me uma gasosa.
 — Gasosa?!!
 — Gasosa.
 — É uma sevanepe — soprou-lhe uma que estava detrás dela a atender quem vinha do lado de lá.
 Foi-ma buscar. Quando ma pôs na bandeja lembrou-se da demasia: — Ah! O senhor é aquele senhor que fala estranho.
 Falar estranho parece que é troco de dizer gasosa por sevanepe.

(Imagem adaptada do Custo Justo.)

Ratos no lixo

 Donde me vejo lixo é lixo, é para deitar fora. Logo, descarto simplesmente o lixo, não gero matéria prima. A perspectiva do industrial da reciclagem é que concebe o lixo como matéria prima. Pois bem, qualquer matéria prima é susceptível de incorporação de valor. Naturalmente, justo é que quem tome o lixo desprezado e lhe incorpore valor num dado processo de produção venha a arrecadar renda da mais-valia gerada. Naturalmente, justo será também, que venha a arcar por si com os necessários custos de produção. -- Ora por que diabo hei eu de dar a minha força de trabalho a tal processo de produção se me não há-de calhar quinhão do lucro? Pela fé de salvar o planeta?! Deus me livre!
 E em cima disto ainda andam por aí a ratar-me dos impostos municipais as ladainhas com que me enganam.


Com lixo me enganas...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Interlúdio

Ouvindo telefonia, Anos 40 (in Planeta Barbarella)

(Música: Glenn Miller & Ray Eberle, Blueberry Hill; fotografia: Planeta Barbarella.)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Tradu... mutila

 Admira-me gente que se alardeia humilde vir dizer: — Em muitas horas de emissão, se esse é o único erro / lapso / gralha a apontar, muito obrigado! Só nos dá a certeza de estar[mos] entre as melhores empresas de tradução.
 Admira-me gente que se tenha na grande conta de estar entre os melhores da tradução e legendagem não reconhecer na expressão de escárnio «grafia macaca-casteleira» uma invectiva ao autor do sistema cacográfico com que irresponsavelmente segue em mutilar o português e a tome ensimesmadamente respondendo-me que desconheço por completo o trabalho que está por detrás de uma tradução e legendagem.
 Admira-me sobretudo gente que maneja tão laboriosamente o idioma conseguir com vanglória e alardo escrevê-lo com menos letras do que os sons que se dizem.

Tradu... mutila

Postalinho ao Bama do Intendente (pub)

Anuncie aqui. Contacto: Câmara Municipal do Intendente

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Caso perdido

O Mirante (14/II/13)
(O Mirante, 14/II/13)



 O Mirante é um bom jornal, que (por bem melhor) se nem compara ao pasquim Correio da Manhã. Apesar disso incorreu neste erro, hoje já sem emenda. Sei que a Camilo e Eça lhes falhou também o mata-borrão no mesmo (cf. «Há por havia», 9/IX/12). Ou antes deles, Garrett, infelizmente -- 'Meu Carlos' ditto assim, não o ouvíra elle ha muito tempo (Viagens na Minha Terra, cap. XXXV). -- Com vultos tais a caucionar desde o séc. XIX a macarrónica sintaxe não é grande quinau que aqui faço a O Mirante. Nem cogitava eu de tornar agora com o caso. Orelha nenhuma hoje o parece estranhar: o verbo haver seguido locução de tempo tende a tornar-se adverbial, com sempre invariável.
 Todavia sucedeu esta tarde que, por fortuita coincidência, me surgiu diante, da pena de Hermano Saraiva -- Além disso, dissera, havia anos, que o Demónio falava por um crucifixo (Vida Ignorada de Camões, 2.ª ed., p. 114).
 Valha-me não estar eu mal acompanhado.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Fadista falhado

 Já tínhamos  dado conta do pobre Viegas ser mais ventre do que cérebro. Daí a ventriloquência, ou pior...
 Ontem quis meter-se a fadista; de tão dado que é ao Bataclan saiu-lhe modinha de samba. -- Ora invectivar alguém com vá tomar... como quem manda tòmá' um drink é lá alguma coisa?! -- Lembra-me dum que, de tão educadinho, o pior palavrão que dizia nem «merda» era; era «merdinha». -- Pois o tipo fadista com que o ex-secretário procurou chocar a malta não é de usar canivetes. A vir de naifa há-de ser com ponta e mola. E nem há-de remeter cá para mariquices passivas. Quando um fadista insulta manda sem mais à parte viril: -- Vá prò... -- Ou não é?


(Imagem em ...)

Cinema catástrofe

 Caiu com estardalhaço um meteorito na Rússia. Admira-me é os «amaricanos» não no terem previsto. Só devem ser capazes no cinema...


(Meteoro, 1979, in Sean Connery.)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Cintra (Portugal)

Cintra (Portugal) - Palacio Monserrate - Aminho da Fonte dos Amores.

(Postal na rede, não sei já donde.)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Presidente do Conselho Directivo da A.R.S. de... da Estremadura

  Recebi uma cartinha da A.R.S. de Lisboa e Vale do Tejo... -- dantes dizia-se com mais propriedade Estremadura mas ia lá o povo agora perceber sentido nos estranhos nomes das províncias portuguesas. Também ninguém no ensina...
 Adiante.
 Recebi uma cartinha da Administração Regional de Saúde a dizer-me que por conta de não sei quantos despachos e decretos me riscavam do posto da Caixa (dantes dizia-se assim mas agora chamam ACES à coisa; nem sei o que significa). A cartinha veio ofensivamente em acordês mas era assinada por ninguém menos do que o sr. Presidente do Conselho Directivo. Isto mesmo: Directivo. Não é espantoso?!


 Não sou de fazer esperar gente de títulos em tão recto português e vai daí respondi-lhe prestes -- até redigi à mão -- que, já que a lei mo permite, me mantivessem a inscrição no posto da caixa (ou no ACES ou lá como é) e que fizesse o sr. Presidente do Conselho Directivo o favor de transmitir esta minha tenção aos respectivos serviços.
 Disse-lhe mais, mas o principal foi isto.

Resposta ARS/LVT

Ameaça velada vestida de notícia



 Nas sociedades agrárias qualquer cavador sabe que para tocar as bestas à frente do arado há-de-se-lhes dar ração. Esta agora de esporear todo o animal na feira para vigiar o comércio por conta do governo, em troca de nada, é digna de nota. Ao pé dos que inventam estas os agentes da P.I.D.E. eram meninos de coro.

(Imagem. Jornal de Negócios, 13/2/2013.)

O formidável «acordo ortográfico»



 Lê-se adepto mas escreve-se com menos do que se diz. Tal como facto, invicto, ficção, secção &c. A simplificação é assim. Delir grafemas apesar dos fonemas. O exercício simplificador é grafar menos para ir dizendo menos. O cúmulo é nem grafar sílaba nenhuma quando a linguagem for em grunhidos monossílabos; até nos calarem de vez a voz.

(Imagem por Rui Moura, via I.L.C. contra o Acordo Ortográfico.)

Igreja de N. Sr.ª de Fátima (Av. Marquês de Tomar e Barbosa du Bocage)

Igreja de N. Sr.ª de Fátima, Lisboa (M. Novais, s.d.)
Igreja de N. Sr.ª de Fátima, Lisboa, c. 1940.
Estúdio de Mário de Novaes, in Bibliotheca de Arte da F.C.G..

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dio

Caravela VI-R, o primeiro avião a jacto da T.A.P., matrícula CS-TCC, baptizado Dio (prima a fotografia para ampliar).


Desembarque de passageiros da TAP, Aeroporto da Portela, 1962-75.
Estúdio de Mário de Novais, in Bibliotheca de Arte da F.C.G..

Variedades ao serão

The Carpenters, Close to You
(1971)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Putos alfacinhas


Putos alfacinhas, Largo do Chafariz de Dentro, [s.d.].
Estúdio de Mário de Novaes, in Bibliotheca de Arte da F.C.G.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Hotel Restaurant Royal Belle-Vue

 O hotel Royal Belle-Vue da Praia das Maçãs, soube-o há tempo que teve honras de albergar o Afonso Costa em 1913. O hotel ardeu em 1921. -- A casa prosaicamente chamada «Avermar» que lá se acha hoje há-de ser a versão contemporânea da belle vue dos tempos chiques de Afonso Costa. -- O hotel não mais foi reconstruído.
 O Afonso Costa hospedara-se ali em veraneio quando os paisanos que o guardavam deram conta duns espias que cirandavam o hotel à espreita, à procura de o fisgar (ao Afonso Costa). Eram um Miguel Gaião e um Jaime Granja; queriam-no abater a tiro ou, quando não, à bomba. Parece que enterraram o engenho que fabricaram quando se viram notados e deram em fugir para Lisboa. Entretanto foram apanhados em Sintra. A notícia vem na Illustração Portugueza n.º 398, de 6 de Outubro de 1913, que mandou os repórteres.
 Ficam documentadas umas fotografias que achei há tempos na Torre do Tombo e que publiquei aqui, mais esta agora.

Hotel Restaurant Royal Belle Vue, Praia das Maçãs (A.N.T.T., Col. «O Século», Benoliel, lote 8, cx. 1 -1913)
Hotel Restaurant Royal Belle Vue, Praia das Maçãs, 1913.
(A.N.T.T., Col. «O Século», Benoliel, lote 8, cx. 1, neg. ?)

De Janas

 Passei hoje em Janas e lembrou-me da do poço coberto. Lembrou-me do sr. Pedro Macieira e do trabalho a que se deu para achá-lo, da notícia que me entretanto dele deu, mais de ter achado também o sr. Armindo, que era quem estava a cavalo no burro e que tem para cima de 90 anos. Veja o benévolo leitor no Rio das Maçãs.


Sr. Armindo e o burro, Poço coberto de Janas, 1957.
Arquivo da Ordem dos Arquitectos, PT-OA-IARP-LSB-SNT00-001.




Outra do poço coberto


Poço coberto, Janas, 1957. Arquivo da Ordem dos Arquitectos, PT-OA-IARP-LSB-SNT00-029.
Poço coberto, Janas, 1957.
Arquivo da Ordem dos Arquitectos, PT-OA-IARP-LSB-SNT00-029.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Do legislador playmobil

 O projecto de alterações ao Código da Estrada na baila subjuga agora o automobilista aos ases do pedal. Deve ser veneração do moderno legislador playmobil ao bravo feitio para pára-choques do ciclista citadino. Cuido também que se devia pôr na lei que todo o semáforo encarnado se prostrasse ao venerando ciclista e não que ficasse firme naquela cor, indiferente à sua passagem. Já de desservir os deuses Ambiental e Sustentável com cerimoniosa queima de combustível refinado à venerada passagem de veículos de tracção animal, não sei que diga. Isto de rezar a tantos deuses é tramado.


(Boneco da rede.)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Diário do razão

 Hoje falam as notícias em mais 1 000 000 000,00 € (mil milhões de euros; para cima de 200 milhões de contos em dinheiro português) metidos no B.P.N.. Nem sei que diga. Chego a julgar que o caso serve de capa a toda e qualquer vigarice com dinheiros que se descubra e se não queira que saiba. -- O que significará que não foi só no B.P.N. que andou ladroagem... -- Sucede, porém, que desde a descoberta das partidas dobradas na contabilidade se sabe que para todo o «deve» há-de haver um «haver» de valor igual. Faltava conhecermos em que conta foi lançado. Ora até à data só sabemos dum gajo a quem ofereceram uma pulseira...

c
Furtado com pernas (anúncio do B.P.N.), ante 2009.
(Imagem do Universo Paralelo).

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Filme vespertino

Triumph TR3A 1960

Imperativo categórico

 Os mandaretes lá hão-de ter recebido ordens. Hoje tornaram com o T.G.V. às calhas:



O governo português obteve a garantia em Bruxelas de financiamento comunitário... (Público, 6/II/13)



 Comunidades há muitas: as que financiam; as que se penhoram; as que vêem passar os comboios...

Composição da linha do Vale do Vouga, Foz do rio Mau (Carvoeiro) em 23/02/1969 (in Postais Ilustrados - prof2000.pt)
Composição da Linha do Vale do Vouga, Foz do rio Mau (Carvoeiro), 1969.
In Postais Ilustrados.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Do «...trabalho optimizado [i.é, 'de excelência'].»

 Vê-se hoje em dia muita coisa «de excelência». Coisas excelentes é outra conversa, mas «de excelência»…
 Bom! O Guglo dá hoje treze milhões e duzentos mil resultados «de excelência». Empresas e centros «de excelência» (incluí pólos, campi e regiões inteiras também) é o mais que se queira e, como não se quer mais nada, o caso é que as «perfeitas» condições «de excelência» ao dispor são corolário dos frutíferos modelos «de excelência» que se propagam como coelhos. O resultado são ninhadas produtos e serviços «de excelência».  É toda uma cultura; é toda uma civilização.
 Com isto a excelência deu em low cost e, como tudo o que é demais, enjoou. --  A quantos não satisfariam mais naturalmente quaisquer bons produtos ou serviços (olhai, o Serviço Nacional de Saúde «de excelência», p. ex.) do que toda essa banha da cobra rotulada, homologada e certificada «de excelência»? Ou que dizer daqueles «S. Exc.ª isto» ou «Vossa Exc.ª , sr. deputado, aquilo» que ressoam amiúde dos lados de S. Bento, a julgar do (pouco) subtil agravo ao interlocutor posto em tão deferente tratamento?...
 Veio-me isto a propósito dum «optimizado», que é outro chavão corriqueiro para definir inúmeros trabalhinhos que levamos a cabo a cada dia com os conhecidos resultados «de excelência». O que me quer que surja «de excelência» causa-me má impressão, dá-me brotoeja, e não consigo metê-lo em texto que redija. De modo que me lá resigno ao «optimizado». Sucedeu-me ter tido hoje de redigir algo que havia fatalmente de cair nas garras dum revisor acordita. Era certo e sabido que o «optimizado» acabaria mal...  Pois acabou, «de excelência».
 (Vale-me de que a redacção também era do género para quem é bacalhau basta.)

(Imagem in «Acçoriano» Oriental, numa qualquer notícia de querer o arquipélago ser destino «de excelência».)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Candido de Figueiredo

 Este verbete vai na orthographia etymologica do portuguez.
 Tropéço eu mais n'esta escripta de atrasados mentaes d'agora do que na do tempo de Eça ou de Camillo. Aliás, n'essa maneira de escrever antiga — que ninguem se nunca preoccupou por môr de qualquer ideologia em systematizar (e bem) — vou por ella bem ligeiro, só do gôzo que me dá em lê-la.
 Sôbre esta velha orthographia, as grammaticas antigas sómente remettiam para os exemplos dos melhores auctores; e sôbre regras de accentuação simplesmente mandavam que se marcassem com elles [os accentos] as palavras cuja escripta se confundisse com homographos — «tres», p. ex., não carecia de accento. — Quereis regra de accentuação mais simples?
 Quem deu em forçar o idioma por motivos estrictamente ideologicos foram os republicanos em 1911. A orthographia do portuguez, a face visivel mais perenne do idioma patrio, anda em convulsão dês d'ahi. Ao proposito ideologico de moldar uma escripta que delisse os ultimos annos da Monarchia sommaram os  irreflectidos ideologos um paternalismo inconsciente e uma crença desarrazoada n'aquelles côcos em que, se ensinassem a escrever filosofia em vez de philosophia, erradicariam o analphabetismo; como se a filosofia se tornasse mais facil do que a philosophia sem haver Instrucção Pública illustrada e capaz. A crença cega em que a mudança dos rotulos muda a realidade das cousas tem progredido muito d' então para cá — vede a revolução nos transportes que foi a rede 7 da Companhia Carris ou a pujante dynamica internacional do portuguez com êsse accôrdo cacographico do govêrno...
 Innumeros entendidos e milagreiros d' alto coturno foram convidados em 1910 pelos republicanos para integrar a commissão da reforma orthographica que havia de erradicar o secular analphabetismo dos portugueses. Entre elles, o Dr. José Leite de Vasconcellos, o qual percebendo ao que aquillo levaria, intelligentemente se escusou; não quiz tomar parte na dicta commissão. O sr. Candido de Figueiredo, afamando diccionarista, sendo que entendia bem a realidade das cousas, como veremos, não se escusou, porém. Succede que vindo a ser a dicta reforma officialmente decretada pelo govêrno da Republica em 1911, o sr. Candido de Figueiredo fez tanto caso d'ella e do trabalho que n'ella fizeram que em 1913 se sahiu com isto logo de entrada á nova edição do seu diccionario:


NOVO DICCIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA



 Redigido em harmonia com os modernos princípios da sciência da linguagem, e em que se contém quási o dôbro dos vocábulos até agora registados em todos os diccionários portugueses, além de satisfazer a todas as graphias legítimas, especialmente a que tem sido mais usual e aquella que foi prescrita officialmente em 1911.



Todas as graphias legítimas, especialmente a mais usual é symptomatico de quem percebe onde pára a realidade d'um idioma vivo e o valor da ideologia official. Por isso adeantava n'estes termos:



Officialmente, considera-se modêlo a orthographia do Diário do Govêrno. É verdade que o próprio Govêrno, isto é, os ministros, só a praticam nas columnas da mesma fôlha; cá fóra, praticam o que lhes ensinou o professor de primeiras letras, cuja orthographia já brigava com a do professor da vizinha escola.



 E conclue com elementar razão:



 Ora o diccionarista não tem o direito de escrever somente como entende. A sua missão não é preconizar systemas, nem fazer reformas, nem manter intolerantes exclusivismos. Àparte os termos que êlle só conhece de outiva ou que colheu da linguagem oral, e que tem de reproduzir phoneticamente, se a etymologia, a derivação, ou a analogia lhe não aconselham outro processo, todos os vocábulos que êlle viu escritos, sob a responsabilidade de um escritor antigo ou moderno ou sob a chancella da prática corrente numa época, tem de os reproduzir taes, quaes os viu; e, se a fórma varía de escritor para escritor ou de época para época, essas variantes devem fazer parte do seu trabalho, sob pena de sensíveis imperfeições ou de lastimosas deficiências.
  Por isso é que o leitor encontrará nesta obra numerosas variantes autorizadas; e nem de outra fórma o Diccionário reproduziria, como deve, o estado actual da escrita portuguesa. Veja-se
idéa e ideia, pae e pai, philósopho e filósofo, ouro e oiro, distincto e distinto, escripto e escrito, lyra e lira.



 Pois não era isto que a Academia das Sciencias de Lisboa podia ter lavrado depois de 1955?!... Um diccionario que registasse variações auctorizadas reproduzindo o estado da escripta dos melhores auctores (antigos e modernos) de língua portuguesa?! Um trabalho com intelligente e elementar senso da realidade (os idiomas regem-se simplesmente pelo uso e pela Grammatica, não por despachos e decretos) e, em corollario, obra de discreta magnanimidade. Não é simplesmente isto que os ingleses fazem em lugar de se pôrem a ridículo em desaccôrdos parvos e humilhantes?


Plough (US = plow) (Oxford Advanced Learners, 3rd. impr., 1987)
Plough (US = plow). Oxford Advanced Learner's English Dictionary of Current English, 3rd. impr., Oxford University Press, 1987.




(Excerptos in Candido de Figueiredo, Novo Diccionário da Língua Portuguesa, [2.ª ed.], Empreza Litteraria e Typographica, Porto, 1913, na transcripção electronica do projecto Guttenberg, 2010.)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Dignitários da nossa cultura

Canavilhas A sr.ª deputada Canavilhas, açoriana de Angola, vem citada no título da notícia da audiência dada pela comissão parlamentar de Educação, Ciência e Cultura aos representates da I.L.C. contra o «acordo ortográfico». -- «O futuro faz-se hoje» -- disse. Havia dias que, na constituição deste grupo de trabalho para apreciar o caos provocado pelo «acordo», trauteara ela uma cassete doutrinária -- «o conteúdo científico [?!] e académico [do desconchavo ortográfico] foi sancionado polìticamente». -- Cantigas de quem não está sequer para se maçar a pensar! -- Não sei o contexto agora da nova tirada mas, «o futuro faz-se hoje» é o vazio a falar. É como falar do tempo. O povo, que não é soberbo e sabe exprimir-se muito mais chãmente, diz melhor: -- «o futuro a Deus pertence». O presente é que não passa deste vazio de asneiras pseudo-profundas.
 O garfólogo que sobraçou a pasta da cultura nacional a seguir à dr.ª em música fica mais aquém no subproduto intelectual. Reage, porém, muito prosaicamente quando lhe vão à manjedoura:Viegas



« Pretendem os burocratas de Bruxelas que o bacalhau comercializado nos países da União Europeia fique sujeito a tratamento com polifosfatos que podem alterar o sabor, a textura e a qualidade [...] Uma coisa é sermos europeus, outra é estarmos dispostos a que nos mexam no prato e nos alterem a ementa. Não estou a brincar; é um caso sério de identidade nacional.»
(Francisco Viegas, «Bacalhau de Bruxelas», in Origem das Espécies, 30/I/13).



 Ficamos cientes de que um caso sério de identidade nacional é o que lhe percorra o tubo digestivo fazendo-o arrotar assim. Na obtusidade córnea da criatura o idioma confundir-se-á muito provàvelmente com feijoada à brasileira.

(Imagens da rede da Internete.)

Memórias


« O D. Luiz pôde ir até ao fim do seu reinado, porque elle proprio o disse — «um principe é um dissimulador». Mas D. Carlos é que não foi nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os politicos. Dizia: — Tu ouvel-os falar? Se lesses as cartas que me escrevem enchias-te de nojo. — Essas cartas existem... Na verdade toda a gente dizia mal da politica e desprezava os politicos: só elle os não podia desprezar. É authentico tambem que no seu desdem chegou a envolver o paiz. Toda a gente, desde o literato ao homem rude, dizia mal do paiz. Tempo houve em que foi moda dizel-o. Só elle não devia dizer mal do paiz.
  [...]
 Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos? É fora de duvida que até os monarchicos receberam com alegria a sua morte. «Não vi lagrimas» — diz Julio de Vilhena. Eu avanço mais: só vi aplausos. E no entanto já hoje se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! respirou-se! — o que não impede que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a ponto de me parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e não se tira do horizonte da nossa consciencia. O rei tinha na verdade defeitos, mas—diga-se! diga-se!—não foram os seus defeitos que o mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando elle tomou a serio o seu papel de reinar, e quando, com João Franco, quiz realisar dentro da monarchia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em que, talvez pela primeira vez na historia, os monarchicos aplaudiram um crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das prisões, congraçando-se todos os politicos sobre os corpos ainda mornos dos dois desventurados.»
Raul Brandão
, Memórias, 1.º vol, Renascença Portuguesa, Porto, [1919], p. 289, passim.




El-Rei Dom Carlos com o presidente do Conselho, conselheiro João Franco, no local do futuro lyceu de Passos Manoel, Lisboa, 1907.
Alberto Carlos Lima, in archivo photografphico da C.M.L.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Embaixador acordita





« Não vale a pena pensar que temos possibilidade de crescer nas instituições europeias. Enquanto língua de trabalho, o Português vai lentamente desaparecer", disse ontem na Academia das Ciências de Lisboa o embaixador Francisco Seixas da Costa. »



Conhecido acordita (e cheira-me que confrade aventaleiro) este embaixador sai-se com isto para dizer quê?



« Seixas da Costa sugere que os agentes políticos que trabalhem em cenários diplomáticos sejam instruídos a "usar o Português sempre que possível", acções políticas de alto nível na O.N.U. ou acções conjugadas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e da C.P.L.P..»



Ah! Agentes instruídos a usar o português sempre que possível...




Na O.N.U. ...


 




(Excertos do Público, 1/2/13.)

[Sem título]


— «Ao primeiro tiro — continua o Navarro — a cabeça do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para o lado». O Buiça, que tirára a carabina debaixo do gabão, apontava e descarregava. O principe real ergueu-se — cahiu varado. A rainha, louca de dôr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores. — Então não acodem?! Não ha quem me acuda?! — Ninguem.


Raul Brandão, Memórias, 1.º vol, Renascença Portuguesa, Porto, [1919], p. 173.

El-Rei Dom Carlos, a rainha D. Amélia e o infante D. Manuel, L. D. João da Câmara (A. C. Lima, ante 1908)

El-Rei D. Carlos, a Rainha D. Amélia e o Infante D. Manuel
, Largo de Camões [Pr. D. João da Câmara], ante 1908.
Alberto Carlos Lima, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..