Este verbete vai na orthographia etymologica do portuguez.
Tropéço eu mais n'esta escripta de atrasados mentaes d'agora do que na do tempo de Eça ou de Camillo. Aliás, n'essa maneira de escrever antiga — que ninguem se nunca preoccupou por môr de qualquer ideologia em systematizar (e bem) — vou por ella bem ligeiro, só do gôzo que me dá em lê-la.
Sôbre esta velha orthographia, as grammaticas antigas sómente remettiam para os exemplos dos melhores auctores; e sôbre regras de accentuação simplesmente mandavam que se marcassem com elles [os accentos] as palavras cuja escripta se confundisse com homographos — «tres», p. ex., não carecia de accento. — Quereis regra de accentuação mais simples?
Quem deu em forçar o idioma por motivos estrictamente ideologicos foram os republicanos em 1911. A orthographia do portuguez, a face visivel mais perenne do idioma patrio, anda em convulsão dês d'ahi. Ao proposito ideologico de moldar uma escripta que delisse os ultimos annos da Monarchia sommaram os irreflectidos ideologos um paternalismo inconsciente e uma crença desarrazoada n'aquelles côcos em que, se ensinassem a escrever filosofia em vez de philosophia, erradicariam o analphabetismo; como se a filosofia se tornasse mais facil do que a philosophia sem haver Instrucção Pública illustrada e capaz. A crença cega em que a mudança dos rotulos muda a realidade das cousas tem progredido muito d' então para cá — vede a revolução nos transportes que foi a rede 7 da Companhia Carris ou a pujante dynamica internacional do portuguez com êsse accôrdo cacographico do govêrno...
Innumeros entendidos e milagreiros d' alto coturno foram convidados em 1910 pelos republicanos para integrar a commissão da reforma orthographica que havia de erradicar o secular analphabetismo dos portugueses. Entre elles, o Dr. José Leite de Vasconcellos, o qual percebendo ao que aquillo levaria, intelligentemente se escusou; não quiz tomar parte na dicta commissão. O sr. Candido de Figueiredo, afamando diccionarista, sendo que entendia bem a realidade das cousas, como veremos, não se escusou, porém. Succede que vindo a ser a dicta reforma officialmente decretada pelo govêrno da Republica em 1911, o sr. Candido de Figueiredo fez tanto caso d'ella e do trabalho que n'ella fizeram que em 1913 se sahiu com isto logo de entrada á nova edição do seu diccionario:
NOVO DICCIONÁRIO DA LÍNGUA PORTUGUESA
Redigido em harmonia com os modernos princípios da sciência da linguagem, e em que se contém quási o dôbro dos vocábulos até agora registados em todos os diccionários portugueses, além de satisfazer a todas as graphias legítimas, especialmente a que tem sido mais usual e aquella que foi prescrita officialmente em 1911.
Todas as graphias legítimas, especialmente a mais usual é symptomatico de quem percebe onde pára a realidade d'um idioma vivo e o valor da ideologia official. Por isso adeantava n'estes termos:
Officialmente, considera-se modêlo a orthographia do Diário do Govêrno. É verdade que o próprio Govêrno, isto é, os ministros, só a praticam nas columnas da mesma fôlha; cá fóra, praticam o que lhes ensinou o professor de primeiras letras, cuja orthographia já brigava com a do professor da vizinha escola.
E conclue com elementar razão:
Ora o diccionarista não tem o direito de escrever somente como entende. A sua missão não é preconizar systemas, nem fazer reformas, nem manter intolerantes exclusivismos. Àparte os termos que êlle só conhece de outiva ou que colheu da linguagem oral, e que tem de reproduzir phoneticamente, se a etymologia, a derivação, ou a analogia lhe não aconselham outro processo, todos os vocábulos que êlle viu escritos, sob a responsabilidade de um escritor antigo ou moderno ou sob a chancella da prática corrente numa época, tem de os reproduzir taes, quaes os viu; e, se a fórma varía de escritor para escritor ou de época para época, essas variantes devem fazer parte do seu trabalho, sob pena de sensíveis imperfeições ou de lastimosas deficiências.
Por isso é que o leitor encontrará nesta obra numerosas variantes autorizadas; e nem de outra fórma o Diccionário reproduziria, como deve, o estado actual da escrita portuguesa. Veja-se idéa e ideia, pae e pai, philósopho e filósofo, ouro e oiro, distincto e distinto, escripto e escrito, lyra e lira.
Pois não era isto que a Academia das Sciencias de Lisboa podia ter lavrado depois de 1955?!... Um diccionario que registasse variações auctorizadas reproduzindo o estado da escripta dos melhores auctores (antigos e modernos) de língua portuguesa?! Um trabalho com intelligente e elementar senso da realidade (os idiomas regem-se simplesmente pelo uso e pela Grammatica, não por despachos e decretos) e, em corollario, obra de discreta magnanimidade. Não é simplesmente isto que os ingleses fazem em lugar de se pôrem a ridículo em desaccôrdos parvos e humilhantes?
Plough (US = plow). Oxford Advanced Learner's English Dictionary of Current English, 3rd. impr., Oxford University Press, 1987.
(Excerptos in Candido de Figueiredo, Novo Diccionário da Língua Portuguesa, [2.ª ed.], Empreza Litteraria e Typographica, Porto, 1913, na transcripção electronica do projecto Guttenberg, 2010.)
Excelente. Simplesmente excelente.
ResponderEliminarMuito bem!
ResponderEliminarEu diria mesmo: excellente. Simplesmente excellente.
ResponderEliminarPuxa vida! (como diziam os poucos brasileiros que por cá faziam turismo pelos anos 60/70).
ResponderEliminarO que aqui se pode ler não só é uma lição de português em toda a linha, mas sobretudo de erudição, de civilidade e muito particularmente de lusitanidade.
Perante um tão elaborado quão impecável texto, tudo quanto houvesse a acrescentar tornar-se-ia mais do que prolixo, supérfluo:)
Maria
Grato pelo apreço.
ResponderEliminarCumpts.