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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Memórias


« O D. Luiz pôde ir até ao fim do seu reinado, porque elle proprio o disse — «um principe é um dissimulador». Mas D. Carlos é que não foi nunca um dissimulador. D. Carlos desprezava os politicos. Dizia: — Tu ouvel-os falar? Se lesses as cartas que me escrevem enchias-te de nojo. — Essas cartas existem... Na verdade toda a gente dizia mal da politica e desprezava os politicos: só elle os não podia desprezar. É authentico tambem que no seu desdem chegou a envolver o paiz. Toda a gente, desde o literato ao homem rude, dizia mal do paiz. Tempo houve em que foi moda dizel-o. Só elle não devia dizer mal do paiz.
  [...]
 Porque foi, por exemplo, morto D. Carlos? É fora de duvida que até os monarchicos receberam com alegria a sua morte. «Não vi lagrimas» — diz Julio de Vilhena. Eu avanço mais: só vi aplausos. E no entanto já hoje se pode afirmar sem erro que D. Carlos não foi morto pelos seus defeitos, mas pelas suas qualidades. Respirou-se! respirou-se! — o que não impede que, a cada anno que passa, esta figura cresça, a ponto de me parecer um dos maiores reis da sua dinastia. Já redobra de proporções e não se tira do horizonte da nossa consciencia. O rei tinha na verdade defeitos, mas—diga-se! diga-se!—não foram os seus defeitos que o mataram, foram as suas qualidades. Só o assassinaram quando elle tomou a serio o seu papel de reinar, e quando, com João Franco, quiz realisar dentro da monarchia o sonho de Portugal Maior. Foi esse o momento em que, talvez pela primeira vez na historia, os monarchicos aplaudiram um crime que os deixava sem chefe, e se abriram de par em par as portas das prisões, congraçando-se todos os politicos sobre os corpos ainda mornos dos dois desventurados.»
Raul Brandão
, Memórias, 1.º vol, Renascença Portuguesa, Porto, [1919], p. 289, passim.




El-Rei Dom Carlos com o presidente do Conselho, conselheiro João Franco, no local do futuro lyceu de Passos Manoel, Lisboa, 1907.
Alberto Carlos Lima, in archivo photografphico da C.M.L.

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