| início |

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Caso perdido

O Mirante (14/II/13)
(O Mirante, 14/II/13)



 O Mirante é um bom jornal, que (por bem melhor) se nem compara ao pasquim Correio da Manhã. Apesar disso incorreu neste erro, hoje já sem emenda. Sei que a Camilo e Eça lhes falhou também o mata-borrão no mesmo (cf. «Há por havia», 9/IX/12). Ou antes deles, Garrett, infelizmente -- 'Meu Carlos' ditto assim, não o ouvíra elle ha muito tempo (Viagens na Minha Terra, cap. XXXV). -- Com vultos tais a caucionar desde o séc. XIX a macarrónica sintaxe não é grande quinau que aqui faço a O Mirante. Nem cogitava eu de tornar agora com o caso. Orelha nenhuma hoje o parece estranhar: o verbo haver seguido locução de tempo tende a tornar-se adverbial, com sempre invariável.
 Todavia sucedeu esta tarde que, por fortuita coincidência, me surgiu diante, da pena de Hermano Saraiva -- Além disso, dissera, havia anos, que o Demónio falava por um crucifixo (Vida Ignorada de Camões, 2.ª ed., p. 114).
 Valha-me não estar eu mal acompanhado.

7 comentários:

  1. Caro amigo estar a ler um jornal em Portugal hoje em dia é um trabalho de tradução, passar de uma língua derivada do português, para português.

    ResponderEliminar
  2. Caro Senhor,

    Já antes falámos sobre o assunto. Se Camilo e Eça e Garrett usam o "há" no presente isso apenas quer dizer uma coisa: em português pode-se usar.
    Cabe aos gramáticos perceberem o porquê desse uso perante os exemplos de três génios absolutos da Literatura Portuguesa - e mesmo fundadores do português moderno!
    Se a eles prefere a companhia do Saraiva, que lhe poderei dizer?

    P.S. No post de Domingo 17 escreve: "com que irresponsavelmente segue em mutilar o português". "Segue em mutilar"? Não ficaria mais explícito e escorreito dizer "continua a mutilar"?

    ResponderEliminar
  3. Cabe-nos não tomar a nuvem por Juno.

    Pelo caminho a Vicencia fallava-me da titi, que a trouxera, havia seis annos, da Misericordia (Eça, A Reliquia)

    [...] sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma madrugada, havia treze dias, e não voltaram.(
    Camillo, A Neta do Arcediago)

    Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu leito [...] (
    Garrett, Viagens...)

    Como resolveu mordeu o isco cá lhe deixo estes exemplozinhos, mas nestes auctores havia (há-os) às carradas. Estamos, eu e o prof. Saraiva, em boa companhia, descanse.

    ResponderEliminar
  4. Muito obrigado pela resposta.
    Sim, com certeza. Mas o uso feito por aqueles Autores legitima a possibilidade do uso do presente do indicativo, mesmo quando não seja imediatamente evidente que a acção se prolongue até ao presente.

    Li (e agora releio) durante anos e desde os 12 ou 13 Eça e Camilo, et alia na ortografia da época, que acho bastante mais bonita, lógica e convidativa à meditação do que a de 1911.
    Nunca me provocou "erros", salvo uma vez, com a palavra gás que eu escrevi gaz e creio que em alguns assentos que nunca deixei de pôr.



    ResponderEliminar
  5. Seguimos todos, portanto, em boa companhia. E em não querer mutilar mais o idioma.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  6. É falacioso comparar ambos os jornais...
    O Correio da Manhã é um pasquim nacional enquanto O Mirante é um meramente regional.

    ResponderEliminar