(O Mirante, 14/II/13)
O Mirante é um bom jornal, que (por bem melhor) se nem compara ao pasquim Correio da Manhã. Apesar disso incorreu neste erro, hoje já sem emenda. Sei que a Camilo e Eça lhes falhou também o mata-borrão no mesmo (cf. «Há por havia», 9/IX/12). Ou antes deles, Garrett, infelizmente -- 'Meu Carlos' ditto assim, não o ouvíra elle ha muito tempo (Viagens na Minha Terra, cap. XXXV). -- Com vultos tais a caucionar desde o séc. XIX a macarrónica sintaxe não é grande quinau que aqui faço a O Mirante. Nem cogitava eu de tornar agora com o caso. Orelha nenhuma hoje o parece estranhar: o verbo haver seguido locução de tempo tende a tornar-se adverbial, com há sempre invariável.
Todavia sucedeu esta tarde que, por fortuita coincidência, me surgiu diante, da pena de Hermano Saraiva -- Além disso, dissera, havia anos, que o Demónio falava por um crucifixo (Vida Ignorada de Camões, 2.ª ed., p. 114).
Valha-me não estar eu mal acompanhado.
Caro amigo estar a ler um jornal em Portugal hoje em dia é um trabalho de tradução, passar de uma língua derivada do português, para português.
ResponderEliminarCaro Senhor,
ResponderEliminarJá antes falámos sobre o assunto. Se Camilo e Eça e Garrett usam o "há" no presente isso apenas quer dizer uma coisa: em português pode-se usar.
Cabe aos gramáticos perceberem o porquê desse uso perante os exemplos de três génios absolutos da Literatura Portuguesa - e mesmo fundadores do português moderno!
Se a eles prefere a companhia do Saraiva, que lhe poderei dizer?
P.S. No post de Domingo 17 escreve: "com que irresponsavelmente segue em mutilar o português". "Segue em mutilar"? Não ficaria mais explícito e escorreito dizer "continua a mutilar"?
Cabe-nos não tomar a nuvem por Juno.
ResponderEliminarPelo caminho a Vicencia fallava-me da titi, que a trouxera, havia seis annos, da Misericordia (Eça, A Reliquia)
[...] sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma madrugada, havia treze dias, e não voltaram.( Camillo, A Neta do Arcediago)
Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu leito [...] (Garrett, Viagens...)
Como resolveu mordeu o isco cá lhe deixo estes exemplozinhos, mas nestes auctores havia (há-os) às carradas. Estamos, eu e o prof. Saraiva, em boa companhia, descanse.
Muito obrigado pela resposta.
ResponderEliminarSim, com certeza. Mas o uso feito por aqueles Autores legitima a possibilidade do uso do presente do indicativo, mesmo quando não seja imediatamente evidente que a acção se prolongue até ao presente.
Li (e agora releio) durante anos e desde os 12 ou 13 Eça e Camilo, et alia na ortografia da época, que acho bastante mais bonita, lógica e convidativa à meditação do que a de 1911.
Nunca me provocou "erros", salvo uma vez, com a palavra gás que eu escrevi gaz e creio que em alguns assentos que nunca deixei de pôr.
Seguimos todos, portanto, em boa companhia. E em não querer mutilar mais o idioma.
ResponderEliminarCumpts.
É falacioso comparar ambos os jornais...
ResponderEliminarO Correio da Manhã é um pasquim nacional enquanto O Mirante é um meramente regional.
É falacioso, é...
ResponderEliminarCumpts.