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segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Heresias de fim de ano

 Esta aqui dos anos 90 é de quando as minhas passagens de ano eram sempre a abrir. Apesar da aparelhagem antiquada que se vê no princípio tem grande ritmo para festejar o ano novo. Aquela parte da letra que diz All we have to do now, Is take these lies and make them true somehow vai direitinha para o intrujão do inglês técnico. Mas o melhor do teledisco é que traz a Linda Evangelista, a Cindy Crawford, a Naomi, a Christy Turlington e a Tatjana Patitz, um quinteto à atenção do género masculino da confraria dos blogos que aqui passa (dedicatória especial para o confrade Réprobo). Mais dedicado às consorores tenho a vaga ideia que no teledisco há também uns moços modelos, mas não posso identificar, que aqui o meu computador só dá as piquenas.
 Bom ano a todos!



Jorge Michael, Freedom (1990).

domingo, 30 de dezembro de 2007

O que há a saber sobre a lei do tabaco


Cultivar tabaco é legal. Fabricar cigarros é legítimo. Vender tabaco não é crime. Ah! Mas ai de quem fumar! Os fumadores ficam à porta como os cães.
E no entanto...
 Plantar cocaína é ilegal; sintetizar estupefacientes é ilegal; vender drogas é crime. Ah, mas ai coitadinhos dos drogados toxicodependentes! É preciso pôr-lhes umas salinhas para se drogarem asseadamente.
 E dar-lhes seringas.
 E se for preciso ir levar-lhas à cadeia.



Maus hábitos
 A lei é para cumprir.


(Fotografia em Associações Livres do Dr. X, onde as fotografias antigas são [foram] um primor.)


sábado, 29 de dezembro de 2007

Tarifa de bordo

 O bilhete do autocarro exibe pomposamente o nome 'Tarifa de Bordo'. Ora tarifa significa preço, mas o bilhete não diz o preço em lado nenhum. Diz só segundo tarifas em vigor I.V.A. 5% em português arrevesado, o que demonstra que na Carris do "+ próximo" conhecem o outro significado de tarifa: pauta de impostos.
 E os avisos no verso: este bilhete é individual... e conserve este bilhete até ao final... provam que na Carris do "+ fácil" alguém tem ainda vaga ideia de se dizer bilhete.
 Não entendo, portanto, como na Carris do "+ rápido" se não valeram logo do bárbaro em que se mostram tão expeditos.
 Tiquê de Bordo é que era!
UU642478

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Autocarro XXI

Autocarro 54-3 — (c) 2004

O obliterador?


 Não sei já onde vi que o bilhete era € 1,30.
 Subi, pus o dinheiro certo na bandeja do cobrador (que por acaso é também motorista).
 Com o bilhete na mão devo ter olhado intrigado para a máquina ali à frente sem ranhura e hesitado a caminho doutra mais atrás.
 Foi quando ouvi o motorista (que por acaso também é cobrador) dizer secamente sem olhar para mim.
 — Não é preciso.



Do autocarro certificado
Of the bus certificaded (*)


 Andar de autocarro dá tempo para observar.
 O aviso de parar que pisca quando tocamos a campainha agora diz 'stop'. Dantes dizia 'parar'.
 E o linguajar no autocarro é crioulo.
 Ir no autocarro vai-me dando para pensar — exercício que procuro fazer uma ou duas vezes por semana:
 Se for para crioulos os avisos e a sinalização devem ser em linguagem de bárbaros...?

(*) É ingliú, subdialecto do bárbaro.


Autocarro 54-3, Buraca, 2004.

 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Casas caras

Já nem sei há quanto tempo não andava de autocarro.
Quando me pus na paragem do 45 veio uma cigana velha falando alto perguntar-me:
— Este autocarro passa nos corrêos do Campo Grande?
Deve ser surda — pensei.
— Pois no Campo Grande passa, mas não sei onde são os correios... — respondi-lhe elevando um tanto a voz.
Calou-se e ficou para ali um instante a remoer. Nisto desata a falar da Feira. Percebi-lhe qualquer coisa meia gemida do género: — «Ai! Acabarem com a Fêra...»
— É para fazer casas — atalhei-lhe.
Ficou a olhar para mim. Pensou um pedaço lá consigo, mirou na direcção da Fêra e daí a nada disparou, puxando-me o braço.
— Casas... de habitaçã' sociáli?
Olhei para ela seriamente, a rir-me cá dentro. Não querias mais nada. Mas olha que o descaramento até te melhora os conceitos. Habitaçã' sociáli demonstra muita escola.
— Não. Casas caras.
— Casas caras?!...
Fiz que sim com a cabeça, com ar sério.


Entrecampos (c) 2004
Entrecampos: horizonte (ainda) aberto, Lisboa, 2004.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Fim do Natal


 Os reclamos na televisão anunciavam o tempo das prendas. Era um tempo mágico. A mãe e o pai ensinaram-me que na véspera de Natal devia pôr o sapatinho na chaminé e ir dormir se não o Menino Jesus não vinha para dar as prendas. O mano, sempre mandão repetia:
 — Não podes ficar acordado senão o Menino não te dá nada!
 Eu cumpria. E o Menino Jesus não faltava ao prometido.
 Houve uma vez — devia ter três ou quatro, não sei — que a ansiedade me acordou de madrugada, ainda não amanhecera.
 Chamei baixinho pelo meu irmão:
 — Mano! O Menino Jesus já veio?
 — Não sei — respondeu. — A mãe é que sabe.
 A mãe sabia que sim:
 — Vamos lá ver — disse ela quando a fui acordar.
 Em casa acenderam-se muitas luzes e num instante demos com os sapatinhos e a chaminé cheios de prendas. Ena! Aquilo é que foi uma alegria! Ao lado do meu sapatinho, havia um camião gigante azul e amarelo embrulhado com uma fita encarnada. E a seu lado uma escavadeira do mesmo tamanho que elevava a pá! Fiquei felicíssimo e quis logo ir brincar às obras, mas a mãe disse que ainda eram horas de dormir; o Menino Jesus podia ainda tornar outra vez com mais prendas. Demasiado excitado, lá aceitei ir-me deitar.
 Na manhã de Natal, corri a desembrulhar as prendas para a cama dos pais. No sapatinho, além de roupas e coisas menos engraçadas ainda achei uma debulhadora…
 Esbagoando e enfardando agora estas histórias lembro-me que depois desse Natal tudo se baralhou: o Pai Natal apareceu também a dar prendas e na confusão veio-me à ideia que ele devia ser pai do Menino Jesus... Ao depois os miúdos da taberna — os cabacinhos como lhes chamava a D.ª Joana — mais o primo deles, disseram-me que não havia Pai Natal nem Menino Jesus nem nada; que eram os pais a fingir. Foi o desencantamento mais custoso que passei.



Camião Dodge (Matchbox 48)
Camião Dodge, Matchbox 48 (série Superfast), 1970.




Escavadeira (Matchbox 16)
Escavadeira, Matchbox 16, 1969.




Debulhadora (Matchbox 65)
Debulhadora, Matchbox 65, 1967.





Carrinhos de Steve Beckett Vintage Diecast e de Malcom's Diecast Showroom.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Coro de Aleluia



Coro de Aleluia

Handel, O Messias.

Orquestra Sinfónica de Atlanta e Coro de Câmara.

Maestro: Robert Shaw (1987).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Barroco puro


Sara Macliver - Rejoice Greatly, O Daughter Of Zion
Handel, O Messias.
(ABC Classics)

Cartão de Natal



Jan de Bray
A Sagrada Família*
Óleo sobre tábuas, 41 x 34 cm
(Colecção particular)


Aos benévolos leitores que
generosamente visitam este blogo,
sinceros votos de um
SANTO E FELIZ NATAL .

Agradeço especialmente as prendas
que a Dona T.* e os confrades
Combustões*, Exactor *,
Jansenista* e Je Maintiendrai*
particularmente me dedicaram.
[E àqueles que eu tarde dei por elas.]

A todos,
BOAS FESTAS !

domingo, 23 de dezembro de 2007

Alguém hoje acordou assim

(Plagiando a blogosfera)
Acordar assim
Postito com Bic Laranja (c) 2007.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Vila Castanheira


 Mais ou menos pela Rua Damião de Góis, onde assenta modernamente o viaduto da C.R.I.L..
 Ah! A estrada que vedes acompanhar a ribeira era a Estrada da Carapuça. Levava à quinta de Miraflores.


Vila Castanheira, Algés, 1941.


Estrada Militar da Circunvalação


 O casarão que se esconde no arvoredo defronte da praça sobrevive, lá onde a Rua de Dom Jerónimo Osório desemboca debaixo do moderno viaduto.


Vila Castanheira, em último plano vê-se a praça de touros de Algés, Algés, 1941.



Fotografias de Eduardo Portugal in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A ribeira de Algés


 Do Trancão ao Jamor, Lisboa já não tem campos nem ribeiros. Em lugar disso tem aterros e caneiros que, embora sejam coisas de engenho, não têm poesia nenhuma. Em tempos a Rua de Pedrouços seguia direita até à alameda de Algés. O eléctrico para o Dafundo despedia-se de Lisboa na ponte nova sobre a ribeira de Algés, num cenário bucólico impossível hoje de imaginar. Na margem esquerda da ribeira eram as portas fiscais, idênticas às de Benfica, porto seco no trânsito das mercadorias para a cidade. Para montante hortas e arvoredos ornavam as margens bucólicas da ribeira; mais além o serpentear cheio da ribeira espelhava a Vila Castanheira, que sobressaía do pitoresco para lá da ponte velha, por cima da copa das árvores.
 Curiosamente aquele moinho de elevar água não se quedava longe da torre do relógio do largo de Algés. Era só uns 5 ou 10 metros mais para cá.



Fotografias: autor não identificado, c. 1900 (as duas primeiras) e Paulo Guedes, 1905. Todas do Arquivo Fotográfi-
co da C.M.L..

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Epigrafia



Lápide da ponte velha de Algés, [c. 1939]
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..




A CIDADE
MANDOV FA
ZER ESTA
PONTE NO A
NNO DE I605



 


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Total cárie

Total cárie
Gralha tipográfica no rótulo.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Rua de Arroios


 A Rua de Arroios, quem lá passe hoje, parece que encolheu. Este desafogo todo há perto de setenta anos mostra que não fazia concorrência à Av. Almirante Reis. Uma carroça pouco acima do prédio de esquina, no sítio onde foi a fábrica da Cerveja Leão - anteriormente tinha sido ali o palácio do Conde de São Miguel - e umas poucas pessoas fazem todo o movimento da rua. O ar de arrabalde industrial é notório: à esquerda, em segundo plano, a fábrica dos Lanifícios de Arroios, onde foi outro palácio: o dos Condes de Mesquitela. Acho-lhe mais graça assim. Sempre gostei dos arrabaldes industriais de Lisboa com reminiscências de velhos solares e palacetes fidalgos.


Rua de Arroios, Lisboa (E. Portugal, 1940; A.F.C.M.L., A10444)
Rua de Arroios, Lisboa, c. 1940.
Eduardo Portugal in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


Palácio dos condes de São Miguel (Quinta de Arroios)


Ruínas do palácio dos Condes de São Miguel, Arroios, c. 1900 (A.F.C.M.L., A1690)
Ruínas do Palácio dos condes de São Miguel, Lisboa, 1940 c. 1900.
Espólio de Eduardo Portugal (?) in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

 Em fins do séc. XVI o fidalgo Diogo Botelho, descendente dos alcaides de Almeida (séc. XV) que estivera com el-rei D. Sebastião em Alcácer Quibir, levantou nestes terrenos as casas e a quinta de Arroios. Foi este Diogo Botelho partidário de D. António, Prior do Crato, em 1580, tendo-lhe dado aposentadoria nestas suas casas antes de ele enfrentar o duque de Alba na batalha de Alcântara. O título de conde de S. Miguel, porém, só foi criado em 1633 por Filipe III a favor de D. Francisco Nuno Álvares Botelho, neto de Diogo Botelho, que veio a herdar estes terrenos e granjeios, os quais passaram ao depois para a Casa dos Condes dos Arcos. Posteriormente (não consegui apurar quando) a fábrica das Cervejas Leão, que perdurou até 1916, ocupou o lugar da antiga quinta; tinha um grande pátio que se estendia para os terrenos onde eram as casas - certamente já em ruínas - dos Condes de S. Miguel. Quando o Norbetrto de Araújo por aqui peregrinou em 1939 (vol. IV, pp. 79 e ss.) era uma serração de madeiras que havia ali no lugar do nº 48, logo acima da esquina com a nova Rua Francisco Foreiro.




Nota: revisão do verbete com introdução de texto em 16 de Dezembro às 11h da noite.



 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O protocolo exótico

 O presidente da Rússia veio cá há tempo e foi recebido no palácio de Mafra. Uma belíssima ideia. Mafra impressiona e é o mais faustoso palácio que há em Portugal.
 Há dias, a fina flor do entulho da África e da Europa teve direito a banquete no palácio real da Ajuda, que é da praxe protocolar e, desde que lhe não descubram as traseiras, faz sempre boa figura.
 Hoje ao jantar disse isto à senhora após ver os primores Europae almoçando na cocheira de Belém.
 - É para parecer exótico! - respondeu-me ela prontamente.
 Podia ser, não fora a tacanhez de torpedear aquela gente com a esganiçada Dulce Pontes demonstrar algo bem pior....


Museu dos Coches, Belém, 1962.
Armando Serôdio, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

O júbilo dos pastéis de Belém

 Rejubilai! Rejubilai todos! Hoje os museus são à borla. E Portugal torna-se hoje também peça de museu. À borla.


A bandeira



Nota: a bandeira esfarrapada que drapejava no cimo do Parque foi arriada; há lá uma nova igual à que me puseram na matrícula do automóvel. Fico assim esclarecido sobre o que é o trato, já não o preciso ler. Porreiro, pá!

Imagem de Tomar Partido.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Espíritos da moda

 Aquele prédio ali na esquina com a João Crisóstomo estavam a vesti-lo esta manhã com a nova promoção a Portugal. Deve divulgar-se melhor Portugal na Av. da República, percebo. E também serve para não vermos os espíritos que já habitavam naquela casa. Que pena, logo agora que o espírito está na moda em Lisboa.

Av. da República, 25, Lisboa (Esp. de E. Portugal, s.d.)
Av. da República, 25, Lisboa, [s.d.].
Espólio de Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..


 



Adenda sobre a promoção externa de Portugal:
 Ouço o comentárioBernardo Trindade explica que nova campanha quer associar modernidade em energias renováveis a nova geração de protagonistas (!) do sr. secretário de Estado do Turismo e a excelência transpira por todo o lado: ele é a modernidade, as energias renováveis (*), os protagonistas, a liderança, a competência, as metas ambiciosas, a garra, a força, o talento. Alguma desta excelência é repetida por ele duas vezes. O vocabulário exprime primorosamente a excelência daquelas mentes. Isso e dizer Ronaldo com 'o' fechado.




(*) É claro que não tem nada que ver com turismo; trata-se de propaganda descarada às coisas do governo.

Espírito de Lisboa?

Antiga Rua A à Rua de Campolide © 2006
Rua nova de Campolide (ou Av. Miguel Torga), Lisboa, 2006.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Para cortar o azedume



Nat King Cole - Let There Be Love

domingo, 9 de dezembro de 2007

A corja


Transporte de pedra junto à Penitenciária, Lisboa (P.Guedes, c. 1910)
 Aqui há dias dizia-me o meu bom amigo Pinho V., desconsolado, que nunca vira a coisa pública entregue a cáfila tão infame e sem escrúplulos como agora. De exemplo deu-me ele subterrâneos e quartéis... Bem sei que sim. Mas o que eu via até aqui era a matulagem ainda cumprir o ritual de passagem por um qualquer valhacouto académico para se poder armar aos doutores da mula ruça. Era um mínimo de decoro em vendedores de banha da cobra. Pois ultimamente, avaliando pelo oleoso e descarado acompanhar com bandoleiros e tuaregues - mas não só -, torna-se claro que é de reles bandidos que estamos servidos.
 Há tempo li que até a Penitenciária já venderam... Não resta nada que os detenha e o burgo começa a ficar perigoso para se nele viver.


Penitenciária de Lisboa (J.Benoliel, 1913)

Fotografias, respectivamente de Paulo Guedes e de Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..



 

sábado, 8 de dezembro de 2007

A lição

 Ontem o sr. reitor e o tuaregue demonstraram aos professores do centro de História da F.L.U.L. como são as relações de feudo-vassalagem na Idade Contemporânea.

Cidade Universitária, Lisboa (J.H.Goulart, 1970)
Cidade Universitária, Lisboa, 1970.
João H. Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Retrato dum anão sentado no chão

 Sr. engenheiro,
 Primeiro louvo-lhe a estóica modéstia de ter posto o nome da minha pobre terra no Tratado. Sei que é uma qualidade que lhe custa manifestar; tanto mais quanto o seu nome assentaria ao Tratado com maior propriedade por ser a sua pessoa mais em acordo com os grandes feitos...
 A sua altivez inflamada não me inspira habitualmente a mais que desprezo; mas hoje a palhaçada fartou-me: não me importaria nada com os seus ilustres convidados caso fosse recebê-los na sua própria casa, na condição do sr. engenheiro antes ter de se deslocar desde o seu trabalho, em carrito de segmento médio-baixo sem luzinhas azuis, através do carnaval que os seus gigantones provocaram na cidade.
- O diabo que o carregue, sr. engenheiro!



Retrato dum anão sentado no Chão (Dom Sebastião de Morra?)
Diego Velázquez, c. 1645.
Óleo sobre tela, 106,5 x 81,5 cm,  Museu do Prado, Madrid.</font>

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Deloitte dos hospitais


 A acreditação do Hospital de Dona Estefânia - passei lá há dias e vi uma faixa azul, orgulhosa, ali pendurada - deixou-me aqui cismar.

 A entidade acreditadora é um certo Health Quality Service, que parece não ser mais que um mero consultor britânico para hospitais e afins, pertencente a uma CHKS, Ltd.. Trata-se portanto duma empresa (ou um grupo como agora é escola).

 Ora bem! Quando eu vou ao hospital (um não certificado) eu vou convencido que no hospital há médicos e enfermeiras, os quais são médicos e enfermeiras a sério, que aprenderam Medicina e Enfermagem e que sabem em princípio tratar as pessoas doentes. Mas não tenho eu nada que garanta isto; apenas confio que as coisas se definem assim e que se aquilo é um hospital, tem por definição que ser assim. Ou seja, convencionou-se, e eu tenho fé que assim seja. E isto mesmo é o que toda a gente faz se não o Mundo seria demencial.

 Pois com o Dona Estefânia posso perder a fé. Há ali uma empresa consultora inglesa ou algo que o valha que me garante que um centenário hospital português é mesmo um hospital e não uma coisa a fingir. Haja Deus por haver uma empresa que garanta algo assim. É que cá não haveria Ministério da Saúde que o fizesse nem gente que o cresse.

 E que mais faz a empresa consultora?

 Adapta os seus próprios serviços para satisfazer as necessidades específicas do hospital ajudando-o a atingir os seus objectivos. Se isto de satisfazer as necessidades não tiver que ver com compras e boticas hospitalares, presumo que a consultora se adapte com os seus consultores e se torne num corpo de enfermeiros que passem a tratar doentes; pois que objectivos serão os dum hospital senão tratar de doentes?

 Ajuda a deslindar a malha confusa dos regimentos (ou regulamentos, como modernamente se diz) de saúde, além de estudar os requisitos da prestação de serviços de saúde e facultar as bases para a melhoria de qualidade. Parece-me isto, em boa linguagem deloitte, assessoria jurídica e de gestão. Isso e mais banha da cobra, pois facultar as bases para a melhoria não é exactamente levar a cabo a dita melhoria (eu sei que devia dizer implementar e não levar a cabo; peço desculpa).

 Prepara a organização para as inspecções (se as da I.G.S. ou as da A.S.A.E. não sei). Atenção que não prepara o hospital; prepara a organização: assim, em modos de empresa. (Olha! Daqui suponho que devem ser as inspecções da A.S.A.E. que são preparadas.)

 Enfim! Trata-se - mais uma vez em boa linguagem deloitte - duma abordagem desenvolvimentista com benefícios de resultados, visíveis por ex. numa melhor implementação das boas práticas.





Hospital de Dona Estefânia em dia soalheiro, Lisboa, [antes da acreditação].

Fotografia do Arquivo Fotográfico da C.M.L..



 Todo este devaneio com a Deloitte dos hospitais desviou-me daquilo que inicialmente queria dizer e que era: como raio se aceita uma entidade empresarial sem geral reconhecimento para tratar doentes nem alvará de clínica (e quiçá sem uma caixa de primeiros socorros nos seus escritórios) abonar inquestionadamente um hospital como de boa reputação? Porque apregoa a banha da cobra descrita lá em cima? Porque faz questionários aos utentes do hospital no modo das outras empresas de sondagens à medida?!... Parece-me muito pouco. Ou doutro modo: parece demaisado. E sendo tanto, quem lhe acredita a ela a capacidade acreditadora? O governo inglês? A rainha Isabel?!...

 Podia ir com isto até à causa primeira e sabeis a que conclusão chegaria? Se na Criação primeiro havia Deus, na acreditação de hospitais primeiro havia a Health Quality Service. É o que é.


segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Da insanidade certificada

 Ando desligado destas músicas novas (salvo o enjoo repetitivo das listas de canções que dão na Renasceça em F.M. e, claro, do André Sardet, que dá em todo o lado). Dizem-me que há um tipo de música trance ou transe, outro house que não sei bem... Este do house tenho uma vaga ideia: em 82 havia uns malucos que tinham uma casa (cá está: house) no meio duma rua. Apareciam num jocoso transe (cá está: transe) de insanidade (nonsense) bem humorada e assimilada ao quotidiano. Mas toda a gente via que aquilo era a gozar.
 Hoje parece-me que se vive num outro transe, aparentemente mais subtil, em que a insanidade se funde com um quotidiano de disparates todo ele certificado e com selo de qualidade...
 Será que os Madness eram certificados como, por exemplo, a água torneiral do Algarve (a única no Mundo que o é) ou o Hospital de D.ª Estefânia? E será que neste caso os médicos e as enfermeiras não precisam de o ser (certificados) pela Universidade, pela Ordem, &c., ou deve haver mais redundância?



Madness - Our House  




Revisto às 11 e meia da noite.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Domingo à noite: programa de variedades

Este Natal não ouvi da estreia de nenhum 007. Também não interessa. Nem a música é como dantes.


Shirley Bassey - Diamonds Are Forever
(Ao vivo, 1973)

€ 4,00

Este recorte deu-me o amigo P.M. (). Veio no Correio da Manhã já não sei de quando.

€ 4,00

O saco verde

 Há dias ouvi na telefonia uma espécie de minuto verde. Devia ser um ambientalista (dantes dizia-se ecologista mas as coisas hoje têm mais que ver com ambiências sócio-económicas que com ecologia). Devia pois ser um ambientalista quem recitava a cartilha: que eu devia preferir o saco verde; que o saco verde era reutilizável; que o saco verde custava só 10 tostões, ou centavos, ou um DINHEIRINHO assim; e que, em se estragando, podia tro-
cá-lo GRA-TUI-TA-MEN-TE.
 Percebo (todos percebemos) a diferença para os sacos pluricolores dos súperes, também reutilizáveis e fornecidos GRA-TUI-TA-MEN-TE; a diferença são uns cêntimos, mas é dinheiro.
 Bem vejo assim porque chamam verde ao dito saco. Desbotou da cor do dinheiro.

sábado, 1 de dezembro de 2007

D. João Coutinho (1), conde de Redondo e capitão de Arzila


 « A primeira vez que o infante D. Luís foi a Castela visitar o imperador Carlos V, seu cunhado, e a imperatriz D. Isabel, sua irmã, entre os senhores e fidalgos que o acompanharam foi o conde [de Redondo] um deles, e rogou-lhe [ao infante] que não dissesse logo ao imperador quem ele era. Chegando o infante a Barcelona, onde a corte estava, foi recebido do imperador com mostras de muita alegria e contentamento. Estando ambos [o imperador e o infante] dentro em uma câmara, chegou-se o conde a um canto da sala onde ficara para mijar e um tudesco da guarda repreendeu-lho áspero; e o conde, tomando a porta da câmara, depois que chegou aonde o imperador estava, disse-lhe:
   — Senhor, mande-me Vossa Majestade dar em seus reinos um lugar seguro onde mije [...] » (2)




 




(1) D. João Coutinho: filho de D. Vasco Coutinho, conde de Borba; este trocou em 1500 o senhorio da vila de Borba pelo de Redondo e Pavia e passou desde então a ser conde de Redondo, mas continuou a ser conhecido por conde de Borba. D. João é, pois, o 2º conde de Redondo, título que recebeu em 1523. Morreu em 1549. É este o conde de Redondo referido em dois passos do Clérigo da Beira, de Gil Vicente.
(2) Ditos Portugueses Dignos de Memória: História íntima do século XVI anotada e comentada por José H. Saraiva, 3ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997, 284 (p. 89).
Imagem de Quitécnica.

Marquês de Subserra

A prova que faltava aqui.

R. Marquês de Subserra, Lisboa, 2007
Rua do Marquês de Subserra no cruzamento com a Rodrigo da Fonseca, Lisboa, 2007.