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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Fim do Natal


 Os reclamos na televisão anunciavam o tempo das prendas. Era um tempo mágico. A mãe e o pai ensinaram-me que na véspera de Natal devia pôr o sapatinho na chaminé e ir dormir se não o Menino Jesus não vinha para dar as prendas. O mano, sempre mandão repetia:
 — Não podes ficar acordado senão o Menino não te dá nada!
 Eu cumpria. E o Menino Jesus não faltava ao prometido.
 Houve uma vez — devia ter três ou quatro, não sei — que a ansiedade me acordou de madrugada, ainda não amanhecera.
 Chamei baixinho pelo meu irmão:
 — Mano! O Menino Jesus já veio?
 — Não sei — respondeu. — A mãe é que sabe.
 A mãe sabia que sim:
 — Vamos lá ver — disse ela quando a fui acordar.
 Em casa acenderam-se muitas luzes e num instante demos com os sapatinhos e a chaminé cheios de prendas. Ena! Aquilo é que foi uma alegria! Ao lado do meu sapatinho, havia um camião gigante azul e amarelo embrulhado com uma fita encarnada. E a seu lado uma escavadeira do mesmo tamanho que elevava a pá! Fiquei felicíssimo e quis logo ir brincar às obras, mas a mãe disse que ainda eram horas de dormir; o Menino Jesus podia ainda tornar outra vez com mais prendas. Demasiado excitado, lá aceitei ir-me deitar.
 Na manhã de Natal, corri a desembrulhar as prendas para a cama dos pais. No sapatinho, além de roupas e coisas menos engraçadas ainda achei uma debulhadora…
 Esbagoando e enfardando agora estas histórias lembro-me que depois desse Natal tudo se baralhou: o Pai Natal apareceu também a dar prendas e na confusão veio-me à ideia que ele devia ser pai do Menino Jesus... Ao depois os miúdos da taberna — os cabacinhos como lhes chamava a D.ª Joana — mais o primo deles, disseram-me que não havia Pai Natal nem Menino Jesus nem nada; que eram os pais a fingir. Foi o desencantamento mais custoso que passei.



Camião Dodge (Matchbox 48)
Camião Dodge, Matchbox 48 (série Superfast), 1970.




Escavadeira (Matchbox 16)
Escavadeira, Matchbox 16, 1969.




Debulhadora (Matchbox 65)
Debulhadora, Matchbox 65, 1967.





Carrinhos de Steve Beckett Vintage Diecast e de Malcom's Diecast Showroom.

11 comentários:

  1. Caro amigo:
    Esta sua memória posso dizer que a partilho na essência - quantos mais não o farão? - e no pormenor - dos carros da Matchbox destacados do resto!
    Abraço

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  2. ... e havia também a Mecano para construir, e os bonecos da Airfix, e...
    Saudações do Marreta.

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  3. cabocarvoeiro27/12/07 10:28

    um feliz natal um site bastante interessante embora seja em frances: http://www.mesminiatures.com/histoire/miniature/majorette.php
    um abraço

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  4. nevesdeontem27/12/07 17:13

    A minha filha disse-me que tinha de escrever a carta aos reis (por aqui são eles a concurrência do Pai Natal) e eles com certeza iam concretizar os meus sonhos. Cumprimentos.

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  5. Foi bem rever os carros da Matchbox...

    Que saudades!

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  6. Pois, Caro Bic, a mim sempre a ~minha Mãe disse que eram os Pais que davam os presentes, mas que como era o Menino Jesus que dava saúde aos Pais para o poderem fazer, se podia dizer que era Ele. E que não fazia mal brincar com o Pai Natal, era como as fadas. Quanto à impaciência, fui convencido de que a prova de que as prendas eram importantes para mim se media pela minha capacidade de esperar pelo dia seguinte.
    Adorei partilhar as Suas Memórias.
    Abraço

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  7. Bic Laranja28/12/07 00:49

    Manuel: É uma memória quase banal; e a saudade dos carrinhos também. // Pois havia isso tudo. Saudações, Marreta! // Grato pela indicação, Cabo Carvoeiro. O Francês não atrapalha. // Olá olá, Neves de Ontem! Claro que os Reis Magos faz todo o sentido. Festas Felizes! // José Quintela Soares: Eu foi tal e qual. // E eu as suas, Réprobo. Esperar pelo dia seguinte já não se ensina. // Cumpts. a todos!

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  8. Sei do que falas Bic. A tradição de Natal em minha casa era igual. Sapatinho na chaminé e abrir as prendas pela manhã na cama dos pais.
    Depois veio o Pai Natal e quebrou-se o encanto. Na minha cabeça não podia haver dois a distribuir presentes, tanto mais que era óbvio que o pai Natal não cabia na chaminé.

    Bom ano para ti.

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  9. Bic Laranja29/12/07 20:55

    Obrigado TCL. Feliz 2008 para si!

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  10. eh eh eh... Eu lembro-me que a dada altura--ainda sob a ilusão de que recebia prendas do Menino Jesus--já, talvez, com uns 5 ou 6 anos, comecei a achar estranho o facto de ser o rebento do dia a nos dar presentes, quando devia ser ele a recebê-los... Depois tudo se clarificou :-) quando certo dia encontrei, por acaso, uns brinquedos escondidos na cave lá de casa. Coisas de vidas... Já agora: Desejos de um ano magnífico, Bic. :-)

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  11. Um desencantamento antecedido de 'dúvida sistemática' e substanciado em dados de observação empírica. Agora eu passei abruptamente da Terra do Nunca para o laboratório de Física. Um 2008 com muita saúde e alegria é que desejo. Obrigado!

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