Os reclamos na televisão anunciavam o tempo das prendas. Era um tempo mágico. A mãe e o pai ensinaram-me que na véspera de Natal devia pôr o sapatinho na chaminé e ir dormir se não o Menino Jesus não vinha para dar as prendas. O mano, sempre mandão repetia: — Não podes ficar acordado senão o Menino não te dá nada! Eu cumpria. E o Menino Jesus não faltava ao prometido. Houve uma vez — devia ter três ou quatro, não sei — que a ansiedade me acordou de madrugada, ainda não amanhecera. Chamei baixinho pelo meu irmão: — Mano! O Menino Jesus já veio? — Não sei — respondeu. — A mãe é que sabe. A mãe sabia que sim: — Vamos lá ver — disse ela quando a fui acordar. Em casa acenderam-se muitas luzes e num instante demos com os sapatinhos e a chaminé cheios de prendas. Ena! Aquilo é que foi uma alegria! Ao lado do meu sapatinho, havia um camião gigante azul e amarelo embrulhado com uma fita encarnada. E a seu lado uma escavadeira do mesmo tamanho que elevava a pá! Fiquei felicíssimo e quis logo ir brincar às obras, mas a mãe disse que ainda eram horas de dormir; o Menino Jesus podia ainda tornar outra vez com mais prendas. Demasiado excitado, lá aceitei ir-me deitar. Na manhã de Natal, corri a desembrulhar as prendas para a cama dos pais. No sapatinho, além de roupas e coisas menos engraçadas ainda achei uma debulhadora… Esbagoando e enfardando agora estas histórias lembro-me que depois desse Natal tudo se baralhou: o Pai Natal apareceu também a dar prendas e na confusão veio-me à ideia que ele devia ser pai do Menino Jesus... Ao depois os miúdos da taberna — os cabacinhos como lhes chamava a D.ª Joana — mais o primo deles, disseram-me que não havia Pai Natal nem Menino Jesus nem nada; que eram os pais a fingir. Foi o desencantamento mais custoso que passei.
|
 Camião Dodge, Matchbox 48 (série Superfast), 1970.
 Escavadeira, Matchbox 16, 1969.
 Debulhadora, Matchbox 65, 1967.
|
Carrinhos de Steve Beckett Vintage Diecast e de Malcom's Diecast Showroom.
Caro amigo:
ResponderEliminarEsta sua memória posso dizer que a partilho na essência - quantos mais não o farão? - e no pormenor - dos carros da Matchbox destacados do resto!
Abraço
... e havia também a Mecano para construir, e os bonecos da Airfix, e...
ResponderEliminarSaudações do Marreta.
um feliz natal um site bastante interessante embora seja em frances: http://www.mesminiatures.com/histoire/miniature/majorette.php
ResponderEliminarum abraço
A minha filha disse-me que tinha de escrever a carta aos reis (por aqui são eles a concurrência do Pai Natal) e eles com certeza iam concretizar os meus sonhos. Cumprimentos.
ResponderEliminarFoi bem rever os carros da Matchbox...
ResponderEliminarQue saudades!
Pois, Caro Bic, a mim sempre a ~minha Mãe disse que eram os Pais que davam os presentes, mas que como era o Menino Jesus que dava saúde aos Pais para o poderem fazer, se podia dizer que era Ele. E que não fazia mal brincar com o Pai Natal, era como as fadas. Quanto à impaciência, fui convencido de que a prova de que as prendas eram importantes para mim se media pela minha capacidade de esperar pelo dia seguinte.
ResponderEliminarAdorei partilhar as Suas Memórias.
Abraço
Manuel: É uma memória quase banal; e a saudade dos carrinhos também. // Pois havia isso tudo. Saudações, Marreta! // Grato pela indicação, Cabo Carvoeiro. O Francês não atrapalha. // Olá olá, Neves de Ontem! Claro que os Reis Magos faz todo o sentido. Festas Felizes! // José Quintela Soares: Eu foi tal e qual. // E eu as suas, Réprobo. Esperar pelo dia seguinte já não se ensina. // Cumpts. a todos!
ResponderEliminarSei do que falas Bic. A tradição de Natal em minha casa era igual. Sapatinho na chaminé e abrir as prendas pela manhã na cama dos pais.
ResponderEliminarDepois veio o Pai Natal e quebrou-se o encanto. Na minha cabeça não podia haver dois a distribuir presentes, tanto mais que era óbvio que o pai Natal não cabia na chaminé.
Bom ano para ti.
Obrigado TCL. Feliz 2008 para si!
ResponderEliminareh eh eh... Eu lembro-me que a dada altura--ainda sob a ilusão de que recebia prendas do Menino Jesus--já, talvez, com uns 5 ou 6 anos, comecei a achar estranho o facto de ser o rebento do dia a nos dar presentes, quando devia ser ele a recebê-los... Depois tudo se clarificou :-) quando certo dia encontrei, por acaso, uns brinquedos escondidos na cave lá de casa. Coisas de vidas... Já agora: Desejos de um ano magnífico, Bic. :-)
ResponderEliminarUm desencantamento antecedido de 'dúvida sistemática' e substanciado em dados de observação empírica. Agora eu passei abruptamente da Terra do Nunca para o laboratório de Física. Um 2008 com muita saúde e alegria é que desejo. Obrigado!
ResponderEliminar