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quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Casas caras

Já nem sei há quanto tempo não andava de autocarro.
Quando me pus na paragem do 45 veio uma cigana velha falando alto perguntar-me:
— Este autocarro passa nos corrêos do Campo Grande?
Deve ser surda — pensei.
— Pois no Campo Grande passa, mas não sei onde são os correios... — respondi-lhe elevando um tanto a voz.
Calou-se e ficou para ali um instante a remoer. Nisto desata a falar da Feira. Percebi-lhe qualquer coisa meia gemida do género: — «Ai! Acabarem com a Fêra...»
— É para fazer casas — atalhei-lhe.
Ficou a olhar para mim. Pensou um pedaço lá consigo, mirou na direcção da Fêra e daí a nada disparou, puxando-me o braço.
— Casas... de habitaçã' sociáli?
Olhei para ela seriamente, a rir-me cá dentro. Não querias mais nada. Mas olha que o descaramento até te melhora os conceitos. Habitaçã' sociáli demonstra muita escola.
— Não. Casas caras.
— Casas caras?!...
Fiz que sim com a cabeça, com ar sério.


Entrecampos (c) 2004
Entrecampos: horizonte (ainda) aberto, Lisboa, 2004.

5 comentários:

  1. Estivesse lá este obcecado que sou e logo doutrinaria a Anciã dos Zíngaros acerca de a República não se dispor a conceder Feiras Populares. A única que oferece é a dos Mitos, já deixara claro Mestre António Sardinha. Abraço, Caro Bic

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  2. Pois é...nada de Feira.

    Grande negócio para alguns poucos.
    Mais um!

    Bom Ano!

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  3. Bic Laranja28/12/07 23:04

    Réprobo: Na verdade a República casa bem com os ciganos. // José Quintela Soares: Uma autêntica 'roda gigante'. // Cumpts.

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  4. Fico encantada em saber que também metem conversa consigo:)
    E aproveito para agradecer o seu comentário do zimbório da Estrela. E vou prantar mais postais!
    Cumprimentos:)

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  5. Bic Laranja29/12/07 09:04

    Obrigado! Vamos então lá ver os postais. Cumpts.

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