A acreditação do Hospital de Dona Estefânia - passei lá há dias e vi uma faixa azul, orgulhosa, ali pendurada - deixou-me aqui cismar.
A entidade acreditadora é um certo Health Quality Service, que parece não ser mais que um mero consultor britânico para hospitais e afins, pertencente a uma CHKS, Ltd.. Trata-se portanto duma empresa (ou um grupo como agora é escola).
Ora bem! Quando eu vou ao hospital (um não certificado) eu vou convencido que no hospital há médicos e enfermeiras, os quais são médicos e enfermeiras a sério, que aprenderam Medicina e Enfermagem e que sabem em princípio tratar as pessoas doentes. Mas não tenho eu nada que garanta isto; apenas confio que as coisas se definem assim e que se aquilo é um hospital, tem por definição que ser assim. Ou seja, convencionou-se, e eu tenho fé que assim seja. E isto mesmo é o que toda a gente faz se não o Mundo seria demencial.
Pois com o Dona Estefânia posso perder a fé. Há ali uma empresa consultora inglesa ou algo que o valha que me garante que um centenário hospital português é mesmo um hospital e não uma coisa a fingir. Haja Deus por haver uma empresa que garanta algo assim. É que cá não haveria Ministério da Saúde que o fizesse nem gente que o cresse.
E que mais faz a empresa consultora?
Adapta os seus próprios serviços para satisfazer as necessidades específicas do hospital ajudando-o a atingir os seus objectivos. Se isto de satisfazer as necessidades não tiver que ver com compras e boticas hospitalares, presumo que a consultora se adapte com os seus consultores e se torne num corpo de enfermeiros que passem a tratar doentes; pois que objectivos serão os dum hospital senão tratar de doentes?
Ajuda a deslindar a malha confusa dos regimentos (ou regulamentos, como modernamente se diz) de saúde, além de estudar os requisitos da prestação de serviços de saúde e facultar as bases para a melhoria de qualidade. Parece-me isto, em boa linguagem deloitte, assessoria jurídica e de gestão. Isso e mais banha da cobra, pois facultar as bases para a melhoria não é exactamente levar a cabo a dita melhoria (eu sei que devia dizer implementar e não levar a cabo; peço desculpa).
Prepara a organização para as inspecções (se as da I.G.S. ou as da A.S.A.E. não sei). Atenção que não prepara o hospital; prepara a organização: assim, em modos de empresa. (Olha! Daqui suponho que devem ser as inspecções da A.S.A.E. que são preparadas.)
Enfim! Trata-se - mais uma vez em boa linguagem deloitte - duma abordagem desenvolvimentista com benefícios de resultados, visíveis por ex. numa melhor implementação das boas práticas.

Hospital de Dona Estefânia em dia soalheiro, Lisboa, [antes da acreditação].
Fotografia do Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Todo este devaneio com a Deloitte dos hospitais desviou-me daquilo que inicialmente queria dizer e que era: como raio se aceita uma entidade empresarial sem geral reconhecimento para tratar doentes nem alvará de clínica (e quiçá sem uma caixa de primeiros socorros nos seus escritórios) abonar inquestionadamente um hospital como de boa reputação? Porque apregoa a banha da cobra descrita lá em cima? Porque faz questionários aos utentes do hospital no modo das outras empresas de sondagens à medida?!... Parece-me muito pouco. Ou doutro modo: parece demaisado. E sendo tanto, quem lhe acredita a ela a capacidade acreditadora? O governo inglês? A rainha Isabel?!...
Podia ir com isto até à causa primeira e sabeis a que conclusão chegaria? Se na Criação primeiro havia Deus, na acreditação de hospitais primeiro havia a Health Quality Service. É o que é. |
O problema é bicudo, Meu Caro... Bic. Ora veja, se formos ao fundo da coisa, pelas preocupações doutamente expostas pelo Meu Amigo, a dita empresa só teria capacidade para certificar o Ministério da Saíde e o ocupante da sua cadeira cimeira. Mas, fazendo-o, descredibilizar-se-ia, deixando de ter campo de actuação. É deixar como está e não ligar meia. Abraço
ResponderEliminarÉ como a história do ovo e da galinha, quem credita primeiro. Mas na realidade estou farta de Iso, Caf, creditações ,qualidade, plus Siadap.Mais a excelência, que dessa já me esquecia.
ResponderEliminarCumpts
O ministro? Seria ridículo demais passar-lhe acreditação. Via-se logo que era amiguismo. // A "Excelência" não é uma estupidez. A estupidez é a "Excelência". // Cumpts.
ResponderEliminarCaro Amigo: Roubou-me um post(futuro)com esta entrada! :)
ResponderEliminarÉ que ando há tempos a magicar numa conversa que mantive com alguém que defendia a bondade da certificação da sua repartição (sei lá eu se aquilo é uma repartição, se um instituto se mesmo uma autoridade para...) e na dificuldade - diria impossibilidade - de lhe fazer ver o absurdo para não falar do ridículo da coisa.
Isto porque ele teve o azar de me dizer que andava com muito trabalho por causa da certificação...
Só mentecaptos nos governam. E alguns ganham uns cobres com isso.
Abraço
Não me diga! O tema não se esgota nesta entrada. E o amigo Manuel foca o principal: o desvio de recursos para tarefas marginais e a perfeita inutilidade do trabalho acrescido. A menos que se faça por mero passatempo... Fico ainda a aguardar uma saída sua a terreiro sobre o tema. Cumpts.
ResponderEliminarJá lá está a minha saída. :)
ResponderEliminarAbraço
Et voilá! :)
ResponderEliminarPois meu Caro Bic, há-de chegar o dia em que as tais entidades exigirão dos doentes um certificado de saúde para internamento em tais maravilhas...
ResponderEliminarClaro que não, abona porque Hospital de Dona Estefânia paga! E sim, andaram lá meia dúzia de consultores a fazer entrevistas e a pedir estatísticas a cada departamento, depois juntaram todo num documento muito lindo de se ver e deram o resultado que o hospital esperava.
ResponderEliminarConto que seja em breve, caro confrade. E é com este aquecimento global que se vai aquecendo o tacho da globalização. // Uma espécie de publicidade com cunho de ciência porque recorre a um método sistematizado de recolha e análise de dados: um questionário do Uérde e uma folha de cálculo do Eccel. Grato pela confirmação do que eu já intuíra. // Cmpts.
ResponderEliminar