[...] Em Portugal eles dizem corruto, enquanto que em português do Brasil nós dizemos corrupto. Então, acontece que aí são duas formas que vigem [sic] na língua. Agora, quando em Portugal escrevem director com c e nós escrevemos director sem c, aí apenas há uma duplicidade sòmente de grafia [apenas sòmente — caramba!...]
(Evanildo Bechara, 1.ª audiência do Senado brasileiro sobre o Acordo Ortográfico, 21/X/14, apud I.L.C., 30/X/14.)
O Bichara é muito, muito velho. Ele ainda se lembra de em Portugal se dizer kurruto (e kurrussão, kurrutamente, kurrutéla, kurrutibilidáde, kurrutível, kurrutôr e o mais que houvesse). A 1.ª edição do Aulete, de 1881, atesta-o inequìvocamente (cf. vol. I, p. 412).
O que ele não aprendeu foi (lá diz o adágio, burro velho &c.) que o p etimológico de corrupção levou um coice na reforma de 1911, tal como o c de victoria, por os portugueses o não pronunciarem nem ter ele valor diacrítico — ii e uu não variam de timbre, logo, foram aquelas consoantes dispensadas.
E mais. Que o p de corrupção tornou a ser escrito em 1945 por, justamente, se dizer no Brasil. A regra era simples: se nalgum dos países se pronunciava, todos escreviam. O caso é exemplar em muitos sentidos. Nunca os portugueses haviam na sua história dito o p de corrupção (embora o escrevessem pelo menos desde a 1.ª ed. d' Os Lusíadas, pois que é palavra erudita); desde 1945 acabámos a pronunciá-lo sempre, por retorno da ortografia sobre a oralidade. Dá que pensar que foi de 1945 para cá que ocorreu o maior incremento de alfabetização em Portugal…
Da mesma maneira, mas invertendo os termos, se tirarmos o c ou p com valor diacrítico de palavras menos correntes na oralidade que se aprendem tantas vezes da leitura: — peça-se a um portuguesinho na rua para ler adjeto, calefator, eletroviral, idioleto, inadotável, genufletir, notívago, socioleto e adivinhe-se o que se ouvirá…
No estádio em que estamos, com leitores alfabetizados de meninos e em que vasto vocabulário se adquire da leitura (muitas vezes só da leitura), haveis de ver o que sucederá. A corrupção por inteiro demonstra o paradigma.
(Os Lusíadas, poema epico de Luis de Camões. Nova edição correcta e dada á luz, por Dom Iozé Maria de Souza-Botelho, Morgado de Matteus, socio da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Paris, na Officina Typographica de Firmin Didot, Impressor do Rei e do Instituto. M DCCC XVII.)
(Revisto às oito e vinte e cinco de trinta e um.)







