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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O gramático e a corrupção


[...] Em Portugal eles dizem corruto, enquanto que em português do Brasil nós dizemos corrupto. Então, acontece que aí são duas formas que vigem [sic] na língua. Agora, quando em Portugal escrevem director com c e nós escrevemos director sem c, aí apenas há uma duplicidade sòmente de grafia [apenas sòmente — caramba!...]


(Evanildo Bechara, 1.ª audiência do Senado brasileiro sobre o Acordo Ortográfico, 21/X/14, apud I.L.C., 30/X/14.)



 O Bichara é muito, muito velho. Ele ainda se lembra de em Portugal se dizer kurruto (e kurrussão, kurrutamente, kurrutéla, kurrutibilidáde, kurrutível, kurrutôr e o mais que houvesse). A 1.ª edição do Aulete, de 1881, atesta-o inequìvocamente (cf. vol. I, p. 412).


 O que ele não aprendeu foi (lá diz o adágio, burro velho &c.) que o p etimológico de corrupção levou um coice na reforma de 1911, tal como o c de victoria, por os portugueses o não pronunciarem nem ter ele valor diacrítico — ii e uu não variam de timbre, logo, foram aquelas consoantes dispensadas.


 E mais. Que o p de corrupção tornou a ser escrito em 1945 por, justamente, se dizer no Brasil. A regra era simples: se nalgum dos países se pronunciava, todos escreviam. O caso é exemplar em muitos sentidos. Nunca os portugueses haviam na sua história dito o p de corrupção (embora o escrevessem pelo menos desde a 1.ª ed. d' Os Lusíadas, pois que é palavra erudita); desde 1945 acabámos a pronunciá-lo sempre, por retorno da ortografia sobre a oralidade. Dá que pensar que foi de 1945 para cá que ocorreu o maior incremento de alfabetização em Portugal…


 Da mesma maneira, mas invertendo os termos, se tirarmos o c ou p com valor diacrítico de palavras menos correntes na oralidade que se aprendem tantas vezes da leitura: — peça-se a um portuguesinho na rua para ler adjeto, calefator, eletroviral, idioleto, inadotável, genufletir, notívago, socioleto e adivinhe-se o que se ouvirá…


 No estádio em que estamos, com leitores alfabetizados de meninos e em que vasto vocabulário se adquire da leitura (muitas vezes só da leitura), haveis de ver o que sucederá. A corrupção por inteiro demonstra o paradigma.

(Os Lusíadas, poema epico de Luis de Camões. Nova edição correcta e dada á luz, por Dom Iozé Maria de Souza-Botelho, Morgado de Matteus, socio da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Paris, na Officina Typographica de Firmin Didot, Impressor do Rei e do Instituto. M DCCCC XVII.)


(Os Lusíadas, poema epico de Luis de Camões. Nova edição correcta e dada á luz, por Dom Iozé Maria de Souza-Botelho, Morgado de Matteus, socio da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Paris, na Officina Typographica de Firmin Didot, Impressor do Rei e do Instituto. M DCCC XVII.)

(Revisto às oito e vinte e cinco de trinta e um.)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Ai o papão!

Álvaro Matos apud C.M.L. -- pág. oficial no livro das fuças.


 Ahahahahaha!
 Que medo, o Estado Novo, uuuu! Só o refere com aspas e com um «autoproclamado» a servir-lhe de couraça. Este Álvaro de Matos mais valia enfiar-se num escafandro antes de dizer Estado Novo, credo!
 Aprenda a redigir, homem! «Autoproclamado» não leva hífen e referir o regime do Estado Novo entre aspas é tão estúpido como escrever o próprio nome assim, ó «Álvaro de Matos»!
 Ao depois, essa subtileza do «autoproclamado» é mais óbvia do que dizer abertamente «o fascismo». Não seja covarde, home'! Assuma o marxista que lateja em si e crisme de peito feito como um verdadeiro «antifascista» o regime do Estado Novo! -— Fascismo! — Vá! De que se envergonha?...
  Ah pois! Foi esse regime que diligentemente soube publicar ininterruptamente a sua preciosa Revista Municipal, não foi...?
 E depois foi o que se sabe...

Halloween

  À parte alguns topónimos cujo significado se perdeu (*), intriga-me a falta de substrato autóctone pré-romano no nosso falar português. Quinhentos anos de romanização foram tão eficazes em delir o que havia antes que mais parecem ter assentado sobre uma tábua rasa. Ora mesmo salvaguardando as diferenças nem os canibais do Brasil foram em tal período tão completamente aculturados; a sua linguagem, a marca mais enraizada da cultura dos povos, persiste. Pois a romanização nas Hespanhas, salvos os Vascões, foi temporã e pràticamente total. Cuido que tal fenómeno se não pudesse ter dado sem voluntarismo dos autóctones. Os ibéricos hão-de ter-se empenhado em romanizar-se; não que fossem vazios culturalmente -- não há povos assim -- mas porque desprezaram os seus modos em favor dos dos novos senhores, até (e principalmente) no falar, esquecendo quase tudo o que eram.
 Bom, esta maneira de se a gente despir do que é para se tornar estrangeira configura algo pior que o vazio cultural: é o vaziozinho da fraqueza mental dos indivíduos que colectivamente se afirmam (mas que prestes se deixam de afirmar) como um povo. A romanização fez-se, pois, assim: com autóctones vaziozinhos intelectualmente, sequiosos a absorver o que primeiro se lhes apresentava...

Haloween




(*) Uma reflexão à parte: Iberus (=> Ebro) é o nome latino do rio que se estendeu à terra por onde corria: Ibéria. Acontece amiúde. -- Cuido que vem do Estrabão [Avieno] que o rio Tejo se chamara primitivamente Lysos, ou Lusos. E o Guadiana era o Anas. Vamos lá se com dois topónimos ibéricos Lysos et Anas não formaram os romanos o nome duma província mais longínqua, no outro lado da Ibéria...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Brasil também acabou

 Deu hoje no canal da Memória um episódio dos Horizontes da dita gravado no Rio de Janeiro no fim de 2000. Não quis então o prof. Hermano Saraiva, conforme explicou, deixar passar os 500 anos do Brasil sem ir ao Rio de Janeiro, a única capital que o reino de Portugal jamais teve, à parte Lisboa. O prof. Saraiva fez o programa no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e mostrou-nos, das suas preciosidades, uma rara 1.ª edição d' «Os Lusíadas» e o manuscrito do «Amor de Perdição», do próprio punho de Camillo. E conclui entretanto em tom grave e sincero: -- «Não há dúvida que nós demos ao Brasil tudo quanto tínhamos de melhor.»


Manuscrito do «Amor de Perdição» (R.T.P., 2000)


 Pois tem nestes dias andado o senado do Brasil Sítio do Pica-Pau Amarelo a debater acesamente a cacografia que enfiou há meia dúzia de anos pelas goelas de Cavaco1. Agem por lá como se Portugal nada fosse e o idioma só a si lhes pertencesse. Fazem-no já por atavismo tropical: uns por ensimesmada ignorância, alguns mais por despeitada malevolência; todos, sem noção de o português propriamente dito se formular sem próclises nem endorreia e todos eles, ainda assim, danadinhos por «melhorar» o cânone irracional da escrita.
 A tristeza daquela gente não é já só precisar de adaptar os Maias do Botelho; é ter de traduzir de si para si o próprio Machado de Assis.


Horizontes da Memória (R.T.P., 2000)


 




1 «Quando fui ao Brasil em 2008, face à pressão que então se fazia sentir no Brasil, o Governo português disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo [ortográfico], o que fiz.» Cavaco Silva sobre o seu papel na ratificação do Acordo Ortográfico («Cavaco elogia Acordo Ortográfico mas confessa que em casa ainda escreve à moda antiga», Público, 22/V/2012).


Imagens: José Hermano Saraiva, «Nos 500 anos do Brasil», Horizontes da Memória, R.T.P. Memória, 27/X/2014 (emitido originalmente na R.T.P. 2 em 10/XII/2000.)

domingo, 26 de outubro de 2014

Variedades: Joe Dassin


Joe Dassin, Salut
(1976)

sábado, 25 de outubro de 2014

Rotunda da Avenida

Rotunda, Lisboa (J. Benoliel, 1917)

 Rotunda, 1917. De ante, o quarteirão da empreza chineza (vulgo E.D.P.) que nos vende a electricidade das nossas barragens; terras do conde de Sabrosa vendidas às Companhias Reunidas do Gaz e Electricidade em 1938 ou 39. O palacete dava frente para a Av. de Fontes Pereira de Mello, que parte da Rotunda (á esquerda na imagem); as cocheiras ficavam no canto opposto da propriedade, na embocadura da Av. Duque de Loulé; de ante ellas, na esquina opposta, uma casa apalaçada onde esteve o Club Militar Naval.
 Cuidei que a malta alli na Rotunda devesse ir em commicio ou em cortejo funebre, mas não...

(Photographia de Joshua Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Do anticiclone ao salmonete

 A resolução n.º 58/2014 do conselho de ministros (D.R. 203/2014, I.ª Série, 21/X/2014) autoriza o Instituto Português do Mar e da Atmosfera a comprar um navio com capacidade de posicionamento dinâmico, para operações de arrasto científico e da pesca...


 Quando dei pelo mar e a atmosfera tomarem o lugar da Meteorologia e da Geofísica no Instituto de coiso bem entrevi um certo (como hei-de dizer) arrasto científico. Mas achá-lo, por fim, aproado às artes da pesca não me havia de alembrar. Falha-me porventura capacidade de posicionamento dinâmico.


Lego 4005-1 (1982)
Lego 4005 (1982).

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Pateo das Aguias

 Tenho notado ultimamente alguma freguezia que me cá chega ao Pateo das Aguias reencaminhada do livro das fuças. Não lhe sei origem mais detalhada, nem o interêsse que a move...
 Segundo me em tempo contaram, foi o Pateo das Aguias parece que um alfobre de jornaleiros ardinas e de futebolistas -- alguns d'elles de nomeada -- tipos lisboetas de bairro bem caracteristicos até pouco mais de meado do séc. XX. Depois d'isso, quem sabe... -- Encarrapitava-se este pateo alfacinha no Alto do Pina, bem ao cimo da Calçada da Ladeira, no seu lado S, confrontando-lhe o portal para a primitiva Rua do Garrido. Na voragem demolidora da Calçada da Ladeira, aquando da feitura da Alameda de Dom Affonso Henriques nos annos 40, foi-se o Pateo das Aguias e os seus habitantes houveram-se de mudar de bairro. Não foram, porém, para longe d'ali...
 Uma planta d'este pateo alcandorado no cimo da moderna Alameda, á Rua do Barão de Sabrosa, foi o melhor que me appareceu no esgravatar d'estas novidades antigas que então emprehendi. Escapou-me entretanto o pormenor d'uma photographia de Eduardo Portugal de Dezembro de 42, que o mostra  visto de fora, decadente, mas com feição completa, firmemente encastellado ainda no cume esventrado do Alto do Pina.
  Bom, mas por ora, prima o benevolo leitor, se fizer favor, a imagem se quizer ver melhor o enquadramento.


Pateo das Aguias, Alto do Pina, 1942.
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.

Natal é quando o commercio quizer

 N'um paiz em que se tudo faz em cima do joelho, vejo agora armarem luzes de Natal pela Alameda e Av. Almirante Reis. Vamos em meio de Outubro...

Terraplenagem da Alameda Dom Afonso Henriques, Lisboa (e. Portugal, 1938)

Terraplenagem da Alameda, Lisboa, 1938 (Outubro).
Eduardo Portugal, in archivo photographico da C.M.L.

domingo, 19 de outubro de 2014

Drogaria Ferreira, casa fundada em 1755








Photographias: Rua dos Condes 2-18, Lisboa, c. 1900; Alberto Carlos Lima, in archivo photographico da C.M.L.

Photographo em serviço

 Confrontar com o photographo compondo o ramalhete. N' aquell' outra pareceu-me Almada Negreiros; n'esta nem tanto. N' aquell' outra não identifiquei o lugar. Sei agora que é a Rua dos Condes: ao fundo o Atheneu Commercial; á esquerda a Drogaria Ferreira, casa fundada em 1755; ante o photographo, com certeza o objecto do seu trabalho, o cinema Olympia.

Photographo em serviço, Rua dos Condes (J. Benoliel, c. 1912)

Photographo em serviço na Rua dos Condes, Lisboa, c. 1912-13.
Joshua Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Get smart

Como seria estupido dizer-se «telephone esperto» gente intelligente vem e diz «smartphone».



(Imagem na 2.ª parte da Arte da Articulação.)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Portugal e o enxugo

 Drenagem é gallicismo, é novecentista. Ramalho usou-o certa vez...
 Referindo-se aos campos (e do mesmo modo, porque não, a cidades...) os nossos antigos -- incluindo alguns engenheiros do fontismo [melhor, da Regeneração] -- diziam enxugo por drenagem. No Ribatejo, terra alagadiça, recordar-se-hão por ventura de o ainda dizer em referindo-se ao reverso das cheias na leziria. Em redacções de jornaes ou na Camara Municipal do Intendente comprova-se hodiernamente que nada d'isso, nem pensar! Peor: nem com drenagem vamos lá. A cavalgadura que (diz-se) preside ao municipio, nem o modo conjunctivo dos verbos parece capaz de usar...



Segundo o socialista, «não haverá nenhum systema de drenagem que permittirá [i.é que permitta] evitar situações deste genero» (Antonio Costa: «Não existe solução para as cheias em Lisboa», in R.R., 14/X/2014 -- graphia adaptada.)



 Emfim, a ramalhal figura valeu-se da drenagem em 1888 (carta a Emilia de Castro) para referir o caso clinico de esvaziar um furúnculo ou algo assim... Sobra-nos porém d'aquelle Costa que, não havendo entupimento, se nos aggravará o caso com o problema dos vasos communicantes...
 Uma gaita, onde o enxugo irá parar!...


Innundações na Av. 24 de Julho, Lisboa (J. Benoliel, 1945)
Innundação, Av. 24 de Julho, 1945.
Judah Benoliel, in archivo photographico da C.M.L.

(Revisto ás sete e um quarto da tarde.)

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Piscina dos Olivaes

 Obra municipal do tempo do Estado Novo votada ao abandono por vereações democraticas empenhadas em metter agua de maneira mais estrondosa.


Piscina dos Olivaes, Lisboa (Estúdio de Horácio de Novaes, post 1967)
Piscina dos Olivaes, Lisboa, post 1967.
Estúdio de Horácio de Novaes, in bibliotheca d' arte da F.C.G.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Problema de inundações

Carro a atravessar a ria, Aveiro (A. Pastor, c. 1952)Carro no meio da ria, Ria de Aveiro, c. 1952.
Artur Pastor, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

domingo, 12 de outubro de 2014

O regresso civilizacional

Debret, oficial régio passeando publicamente (Rio de Janeiro, 1816).jpg


 Sei desta de Debret, do oficial régio que passeia com a família, no Rio de Janeiro, em 1816. Era hábito instituído na época o chefe da casa passear-se sempre à frente dos filhos, da mãe, dos criados e dos escravos, necessàriamente nesta ordem. Em 1816, o Brasil não era com certeza das terras mais civilizadas, mas havia esta ordem formal, quase protocolar, na vida pública. Atrevo-me a pensar que se chegou a tal nos alvores do séc. XIX como corolário dum processo civilizacional.
 Ontem vi nos noticiários televisivos imagens, não dum oficial régio, mas de boa parte dum governo de camisa aberta e mãos nos bolsos, deambulando a par de caixotes de lixo e paredes borradas de grafitos, e notei que qualquer subalterno(a) se punha adiante do primeiro ministro. Este governo do séc. XXI ia e vinha de reunir-se oficialmente em conselho num vulgar 9.º andar dum mamarracho digno de qualquer subúrbio berlinense da 2.ª metade do séc. XX.
 O processo civilizacional, parece-me, deu em regresso civilizacional, mas há quem louve a frescura simplória dos modos e trajos desta representação do Estado Português. Pois que me explique daí o avultado de tantos gastos desta gente. Não hão-de ser só os carrões alemães.

Pose de Estado, Lisboa (R.T.P., S.I.C., 2014)



(Estampa de Debret in Colégio de N. Senhora de Lourdes. Imagens da XIX.ª comissão liquidatária da Radiotelevisão Portuguesa brasileira e da Sociedade Industrial de Comunicação concentrados, 11/X/2014.)

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A Mina e o guinéu (moeda)

 Esta manhã, a propósito de quebrados e medidas do sistema imperial, caiu a conversa no dinheiro inglês e na complicação que aquilo era.
 — Um xelim são doze dinheiros — diz-me o meu interlocutor.
 Veio ao caso um passo d' «O Natal do Sr. Scrooge», de Dickens, onde uma inábil tradutora, sem sombra de ideia do que traduzia, verteu uma semanada de 5 xelins e 6 dinheiros (five-and-sixpence no original) numa renda de 5 ou 6 pénis [credo!] por semana.
 E
mpreendendo agora na questão do velho dinheiro inglês leio que desde a Batalha de Hastings em 14 de Outubro de 1066 (está para fazer anos), a libra se dividiu na Inglaterra em 20 xelins (s. <= lat. solidus) ou 240 dinheiros (d. <= fr. denier <= lat. denarius) — Ora 240 ÷ 20 = 12, portanto 1s. = 12d. — um xelim são doze dinheiros! —Afinal parece fácil.
 Tornando a Dickens recordo-me doutra moeda inglesa em que se também falava: o guinéu (g.). O guinéu é mais de 1 libra; são 21 xelins — ou 1 libra e 1 xelim, por conseguinte — e tem a curiosidade de ser (ou haver sido) considerado mais digno nas contas do que a libra; pagar-se-ia a um mesteiral em libras, mas, negócios entre cavalheiros acertavam-se em guinéus (v. Mandy Barrow, «Antigo dinheiro inglês», in Vida e Cultura Britânica).
 Outra curiosidade do guinéu é
derivar-lhe o nome da Guiné, a região de África desbravada pelos portugueses no fim do séc. XV, donde afluiu muito ouro à Europa e onde D. João II mandou Diogo de Azambuja levantar a feitoria de São Jorge da Mina em 1482. No pico da exploração do ouro da Mina, nos alvores do séc. XVI, consta que tiraram os portugueses de lá mais de 11 t de ouro por ano…
 Tem graça, pois, que as voltas e os quebrados da libra esterlina — moeda de prata — venham lá do Guilherme da Normandia ou até do Carlos Magno. Mas mais graça tem, todavia, que as voltas do guinéu — moeda de ouro de valor superior à libra — venham da acção dos portugueses na História Universal.



Castelo da Mina, mapa português do séc. XVI na Quipaedia.

Quotidiano em Lisboa quando a esfinge de Gizé ainda tinha nariz

Rua Francisco Sanches, Lisboa (A Madureira, 1960).
Rua Francisco Sanches, 156, Lisboa, 1960.
Arnaldo Madureira, in archivo photographico da C.M.L.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Cavalinhos de baloiço e administradores zeiniais

genial Baba levou novo coice, agora duns brasileiros não foi? Demasiado balanço nos cavalinhos doutros meninos...!

Av. João XXI, Lisboa (A. Pastor, 1980)
Av. João XXI, Lisboa, 198...
A. Pastor, in archivo photographico da C.M.L.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Um pequeno «paço» para a Aritmética, uma cabriola monumental na burrice

 Perante uma chocarrice assim alguém esperaria resposta?
 Pois o pobre Hernâni não só respondeu (santa inocência!), como se me saiu com isto: -- «Bic Laranja. Você está certo quando aos primeiros paços (sic) da aritmética
 Percebo inteiramente como deu o Hernâni em chacinar o seu próprio nome, mas daí querer derramá-lo na totalidade do idioma, Deus nos dê paciência!...

 As Sete Artes Liberais, in Museu Britânico.

A propósito de bronzes

 Obra do escultor Leopoldo de Almeida inaugurada em 24 de Novembro de 1970 e apeada num desses cunhais da História...
 Como entretanto as fundições de canhões nacionais cederam lugar à importação de submarinos p.p.p. pode ser que se ache [a estátua] nalgum armazém da falsa História — a tal que nos legou uma pesada herança que também não existe...


Monumento ao marechal Carmona, Campo Grande (A.Serôdio, 1970)
«Por Portugal uno e indivisível», Campo Grande, 1970.
Armando Serôdio, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

A propósito de bustos

História de Portugal XV (Verbo, 2002) História de Portugal XVI (Ed. Verbo, 2006 ) História de Portugal (Verbo, 2008)


 Há cinco anos publiquei estas imagens para ilustrar a representação do Estado na II.ª e na III.ª repúblicas. As de cima são dos últimos volumes da História de Portugal do prof. Veríssimo Serrão. As inferiores (literalmente e em todos os sentidos) são da Presidência abrilina. Como documentos históricos a sua eloquência é óbvia. Como sinal dos tempos, as superiores, tal como a II.ª República, nunca existiram.


   Mário Soares (Júlio Pomar) Jorge Sampaio (Paula Rego)


(Imagens da
Editorial Verbo e do museu da Presidência)

sábado, 4 de outubro de 2014

Fantochada republicana

 Em 1911, à falta de melhor, a República comemorava os seus desgraçados mártires: um almirante sem navio que, desorientado numa recôndita azinhaga de Arroios (v. n.º 11), meteu uma bala nos miolos, e um psiquiatra propagandista que falhou a revolução porque foi morto na véspera por um furioso louco, doente seu. Dois heróis equívocos da República. Ambos falharam rotundamente o 5 de Outubro (um foi morto em 3, o outro matou-se em 4 de Outubro); a própria República proclamou-se por um equívoco. Neste ensarilhado de equívocos prosseguiu a malta do barrete frígio montando em 3 de Outubro de 1911 grande romaria de marujos pelos dois finados e botando inevitável discurso pela obra (?) do infeliz almirante Reis e pela memória do triste dr. Bombarda (ou não seria pela alma? -- de ambos...).
Marinheiros no cortejo fúnebre, Rua Morais Soares (J. Benoliel, 1911)

 

 Bom, factos são factos e propaganda é propaganda. Da propaganda aproveita-se esta imagem da Illustração Portugueza (II série, nº 295, 16 de Outubro de 1911, pp. 500-501) que mostra a Rua Conselheiro Morais Soares por alturas da Rua Barão de Sabrosa. Os marinheiros não me interessam nada, o que me interessa é o cenário campestre, são os curiosos empoleirados nos muros e são os vultos ao fundo, com umas árvores diante, do Hospital de Arroios e dum casarão com capela que havia na Azinhaga das Freiras - onde deram com o tal almirante suicida. À esquerda ainda se topam umas casas que serviram porventura de posto fiscal ao fundo do Poço dos Mouros. O monte no horizonte é para os lados do Arco do Cego. -- Extraordinário!

(Publicado originalmnete no dia de Nossa Senhora da Conceição de 2010 à uma da tarde. Remissões revistas. Cliché de Joshua Benoliel.)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Da imperiosa evolução

 Não li a «Chacina do texto» além da chamada naquela escrita de mongolóides, mas pouco importa, conheço-lhe o argumento.
 E conheço o que o Hernâni quer... Leio os primeiros parágrafos desta réplica e só gasto tempo aqui a comentar porque são eles todo um estilo, todo um programa: diminui o Toledo a ignorante e prega-lhe o pior ferrete destes tempos: retrógrado. Nada melhor para desfazer alguém do que tachá-lo por burro e ferrá-lo modernaçamente como velho do Restelo. Depois, mais adiante, é ver o Hernâni sem agá aniquilar panfletàriamente o Toledo com o seu programa progressista de 1) para aprender a orthographia (ou o que seja) nada se haver de decorar e 2) a mocidade não querer outra coisa senão questionar, raciocinar, entender e evoluir.
 Pois experimente o Hernâni fazer uma continha de somar sem antes decorar os algarismos de 0 a 9 (pode usar máquina de calcular se lhe for mais fácil) ou ensine a mocidade brasileira a questionar a mãezinha em casa sobre se o pai é mesmo o pai. Pode ser que se daí entenda qualquer evolução...


Academia Portuguesa da História, Crónica Geral de Espanha de 1344; Edição Crítica do Texto Português por Lindley Cintra, vol. IV, I.N.-C.M., Lisboa, 1990, p. 328
Academia Portuguesa da História, Crónica Geral de Espanha de 1344; Edição Crítica do Texto Português por Lindley Cintra, vol. IV, I.N.-C.M., Lisboa, 1990.

Os homens das mantas


 Outro episódio para recordar aqui é o da invasão dos «homens das mantas». Em 5 de Outubro de 1911, quando se completava um ano sobre a implantação da república, em Lisboa, entraram pela raia próxima cerca de cento e cinquenta monáqruicos, cada qual com a sua espingarda e uma grande manta ao ombro. À frente da coluna, a bandeira azul e branca do regime deposto. Foi a chamada «incursão de Vinhais». Os invasores entraram na vila e acreditavam sinceramente que a população das aldeias transmontanas, tradicionalmente legitimista e amante da realeza, viria para a rua aclamar os libertadores, dando início a uma inctível avalancha popular. A decepção não podia ser mais completa. Nem sequer lhes chamaram «monárquicos», ou partidários do rei, ou cousa semelhante. Apenas os «homens das mantas». Sem apoio, completamente sós, voltaram à fronteira e internaram-se de novo em Espanha.
 Eram republicanos os aldeões de Vinhais em 1911? Eram monárquicos? A minha opinião é que eram gatos escaldados. Os comandantes da incursão não lançaram nas cartas do Estado-Maior um elemento que podia ser decisivo: o concelho de Vinhais é, de todos os de Trás-os-Montes, o que maior contingente deu para os autos-de-fé. Vila fundada na época dioniosíaca, povoou-se de filhos de Israel e foram eles que puseram aquelas encostas de pedra nua a dar o sumo da uva, e transformaram desertas serranias em lavouras úberes. Depois de 1500 começou a perseguição. Um desabafo imprudente, um dito infeliz, podiam provocar a denúncia, e a denúncia era o início de um longo martírio que acabava no auto-de-fé.
 Esta gente não tem nada de estúpida; basta meter conversa e percebe-se imediatamente que estamos perante uma população de excelentes qualidade mentais. Mas até hoje ninguém achou estranho que aos paladinos do rei exilado não tenham dado outro nome que esse epíteto, aparentemente bisonho e alvar, de homens da manta. É que nem perceberam que eram monárquicos. Nem equer viram a bandeira azul e branca, ou notaram que de cada ombro pendia, presa pela bandoleira, uma espingarda
Mauser; não ouviram rufar as caixas ou tocar clarins: tudo o que eles viram foi a pacífica manta, que, simbolicamente serve para apagar fogos. Muitos avós seus, por terem visto mais do que isso, conheceram trágicos destinos. Aqui está o que a Inquisição nos deixou: não ver nada para lá da manta. Se ao nenos a manta fosse larga e quente! Não é. Cada qual puxa-a para seu lado, e todos sentem o frio.


José Hermano Saraiva, O Tempo e a Alma. Itinerário Português, 2.º vol., Círculo de Leitores, imp. 1987, pp.171-172.



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A Incursão de Paiva Couceiro, Illustração Portugueza, N.º 295, 16 Out. 1911, p. 496.
«A Incursão de Paiva Couceiro», Illustração Portugueza, N.º 295, 16 Out. 1911, p. 496.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Baixa, scena de rua

Rua da Assumpção, Lisboa (E.Portugal, 1939)
Rua da Assumpção, Lisboa, 1939. 
Eduardo Portugal, in Archivo Photographico da C.M.L.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Deu-lhe a traça

Casa Mariposa, Rua dos Fanqueiros 87-91 (A. Passaporte, 1940)
Casa Mariposa, Rua dos Fanqueiros, 1940.
António Passaporte, in archivo photographico da C.M.L.

 Não tardará em dar-lhe, a Lisboa por inteiro. Por mais ingrazéu em joguinhos que inventem, a armar saberem Inglês...


Adenda: peddy-crioule


Peid' e peiper...?!