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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Halloween

  À parte alguns topónimos cujo significado se perdeu (*), intriga-me a falta de substrato autóctone pré-romano no nosso falar português. Quinhentos anos de romanização foram tão eficazes em delir o que havia antes que mais parecem ter assentado sobre uma tábua rasa. Ora mesmo salvaguardando as diferenças nem os canibais do Brasil foram em tal período tão completamente aculturados; a sua linguagem, a marca mais enraizada da cultura dos povos, persiste. Pois a romanização nas Hespanhas, salvos os Vascões, foi temporã e pràticamente total. Cuido que tal fenómeno se não pudesse ter dado sem voluntarismo dos autóctones. Os ibéricos hão-de ter-se empenhado em romanizar-se; não que fossem vazios culturalmente -- não há povos assim -- mas porque desprezaram os seus modos em favor dos dos novos senhores, até (e principalmente) no falar, esquecendo quase tudo o que eram.
 Bom, esta maneira de se a gente despir do que é para se tornar estrangeira configura algo pior que o vazio cultural: é o vaziozinho da fraqueza mental dos indivíduos que colectivamente se afirmam (mas que prestes se deixam de afirmar) como um povo. A romanização fez-se, pois, assim: com autóctones vaziozinhos intelectualmente, sequiosos a absorver o que primeiro se lhes apresentava...

Haloween




(*) Uma reflexão à parte: Iberus (=> Ebro) é o nome latino do rio que se estendeu à terra por onde corria: Ibéria. Acontece amiúde. -- Cuido que vem do Estrabão [Avieno] que o rio Tejo se chamara primitivamente Lysos, ou Lusos. E o Guadiana era o Anas. Vamos lá se com dois topónimos ibéricos Lysos et Anas não formaram os romanos o nome duma província mais longínqua, no outro lado da Ibéria...

4 comentários:

  1. Inspector Jaap30/10/14 12:42

    Vão longe e perdidos na bruma da memória, os tempos em que o Português foi uma língua franca; a inflexão, nos dias de hoje é de 180°; de facto, já não existimos.
    Obrigado, de qualquer modo, pela pedrada no charco, caro Bic; às vezes é salutar.
    Cumpts

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  2. Inspector Jaap30/10/14 12:49

    Adenda:
    Depois dos «afrancesados» aqui atrasado, temos agora os «amaricanizados» que é mais “in”. E, com tudo isto, cada vez nos tornaremos mais parecidos com os brasileiros em que a maioria das palavras que pronunciam é deformação do Português de origem com excrescências estrangeiras, muitas do Francês, mas agora, também do «amaricano»
    Que raio de gente!
    Cumpts

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  3. Bic Laranja31/10/14 10:12

    Acabámos, sim. Sobrammos uns portugueistos que estrebuchamos como os moribundos. Um aborrecimento!

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  4. Bic Laranja31/10/14 10:14

    Há-de ser uma amálgama crioula como costuma surdir aos melhores cafres.
    Cumpts.

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