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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

O Brasil também acabou

 Deu hoje no canal da Memória um episódio dos Horizontes da dita gravado no Rio de Janeiro no fim de 2000. Não quis então o prof. Hermano Saraiva, conforme explicou, deixar passar os 500 anos do Brasil sem ir ao Rio de Janeiro, a única capital que o reino de Portugal jamais teve, à parte Lisboa. O prof. Saraiva fez o programa no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e mostrou-nos, das suas preciosidades, uma rara 1.ª edição d' «Os Lusíadas» e o manuscrito do «Amor de Perdição», do próprio punho de Camillo. E conclui entretanto em tom grave e sincero: -- «Não há dúvida que nós demos ao Brasil tudo quanto tínhamos de melhor.»


Manuscrito do «Amor de Perdição» (R.T.P., 2000)


 Pois tem nestes dias andado o senado do Brasil Sítio do Pica-Pau Amarelo a debater acesamente a cacografia que enfiou há meia dúzia de anos pelas goelas de Cavaco1. Agem por lá como se Portugal nada fosse e o idioma só a si lhes pertencesse. Fazem-no já por atavismo tropical: uns por ensimesmada ignorância, alguns mais por despeitada malevolência; todos, sem noção de o português propriamente dito se formular sem próclises nem endorreia e todos eles, ainda assim, danadinhos por «melhorar» o cânone irracional da escrita.
 A tristeza daquela gente não é já só precisar de adaptar os Maias do Botelho; é ter de traduzir de si para si o próprio Machado de Assis.


Horizontes da Memória (R.T.P., 2000)


 




1 «Quando fui ao Brasil em 2008, face à pressão que então se fazia sentir no Brasil, o Governo português disse-me que podia e devia anunciar a ratificação do acordo [ortográfico], o que fiz.» Cavaco Silva sobre o seu papel na ratificação do Acordo Ortográfico («Cavaco elogia Acordo Ortográfico mas confessa que em casa ainda escreve à moda antiga», Público, 22/V/2012).


Imagens: José Hermano Saraiva, «Nos 500 anos do Brasil», Horizontes da Memória, R.T.P. Memória, 27/X/2014 (emitido originalmente na R.T.P. 2 em 10/XII/2000.)

6 comentários:

  1. Foram mais de 5 horas de sacrifício (literalmente), repartidas por duas audiências, escutando enormidades a granel sendo proferidas por putativas sumidades brasileiras, a começar pelo próprio Bechara em pessoa. Inacreditável. Só ouvindo mesmo, que isto ele contando ninguém acredita.

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  2. Bic Laranja29/10/14 10:05

    Isto nem um purgatório é porque nos não serve para expiar nada. Lamento-lhe o inferno em que o vejo. Eu, vocalizos tropicais dão-me pena e, por me não ver em cuidados repudio-os.
    Um abraço!

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  3. Bom dia.

    Muito sinceramente sinto medo de tudo o que possa vir de terras de Vera Cruz. O complexo de inferioridade e o permanente preconceito contra Portugal faz-me temer sempre o pior.

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  4. Joe Bernard29/10/14 12:18

    Muito bem!!!

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  5. No fundo é muito mal...
    Mas obrigado!

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