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domingo, 12 de outubro de 2014

O regresso civilizacional

Debret, oficial régio passeando publicamente (Rio de Janeiro, 1816).jpg


 Sei desta de Debret, do oficial régio que passeia com a família, no Rio de Janeiro, em 1816. Era hábito instituído na época o chefe da casa passear-se sempre à frente dos filhos, da mãe, dos criados e dos escravos, necessàriamente nesta ordem. Em 1816, o Brasil não era com certeza das terras mais civilizadas, mas havia esta ordem formal, quase protocolar, na vida pública. Atrevo-me a pensar que se chegou a tal nos alvores do séc. XIX como corolário dum processo civilizacional.
 Ontem vi nos noticiários televisivos imagens, não dum oficial régio, mas de boa parte dum governo de camisa aberta e mãos nos bolsos, deambulando a par de caixotes de lixo e paredes borradas de grafitos, e notei que qualquer subalterno(a) se punha adiante do primeiro ministro. Este governo do séc. XXI ia e vinha de reunir-se oficialmente em conselho num vulgar 9.º andar dum mamarracho digno de qualquer subúrbio berlinense da 2.ª metade do séc. XX.
 O processo civilizacional, parece-me, deu em regresso civilizacional, mas há quem louve a frescura simplória dos modos e trajos desta representação do Estado Português. Pois que me explique daí o avultado de tantos gastos desta gente. Não hão-de ser só os carrões alemães.

Pose de Estado, Lisboa (R.T.P., S.I.C., 2014)



(Estampa de Debret in Colégio de N. Senhora de Lourdes. Imagens da XIX.ª comissão liquidatária da Radiotelevisão Portuguesa brasileira e da Sociedade Industrial de Comunicação concentrados, 11/X/2014.)

7 comentários:

  1. Inspector Jaap12/10/14 20:35

    Diz-me como te vestes, dir-te-ei quem és, ou, se preferir, somos o que vestimos.
    Cumpts

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  2. Já somos mais o automóvel em nos sentamos.
    Cumpts.

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  3. Inspector Jaap12/10/14 21:19

    E então se não formos nós a pagá-lo...
    Cumpts

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  4. Marcos Pinho de Escobar12/10/14 22:57

    Já vi decadência com elegância, mas o ocaso do portugalinho-mercearia dos abrileiros é um fartar ordinarice. Os grafitos, os caixotes de lixo e os passeios cobertos por carros não são meramente ilustrativos.
    Abraço amigo!

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  5. Ando a reflectir sobre o tema.

    Creio que a culpa está na pequena burguesia que se tornou elite.

    Começou com a vitória dos Liberais na Guerra Civil mas agravou-se a partir dos anos 50/60 do século passado. O mamarracho também surgiu nessas décadas. E foi nesses tempos que cresceram os Cavacos e os Sócrates da nossa desgraça.

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  6. Tudo duma miséria atroz, é verdade.
    Cumpts.

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  7. Nem sei que lhe diga. Pode ser!...
    Estranho fado nos havia de calhar.
    Cumpts.

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